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semi simbolismo na arte abstrata

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arte abstrata

Text of semi simbolismo na arte abstrata

  • Estudos Semiticos - nmero dois (2006)

    www.fflch.usp.br/dl/semiotica/es

    Os limites do semi-simbolismo na arte abstrata

    Camila dos Santos RIBEIRO (Universidade de So Paulo)

    RESUMO: Isolados nos primeiros momentos da semitica, os domnios do plano de

    expresso passam a ser explorados por meio do conceito de semi-simbolismo. Contudo, nem todos os efeitos de sentido prprios desse plano podem ser descritos assim. Nosso trabalho vai ao encontro da explorao desses limites no estudo da arte abstrata.

    PALAVRAS-CHAVE: semitica; semi-simbolismo; plano de expresso; pintura

    ABSTRACT: At first excluded in the semiotics studies, the expression of a text is

    explored by the concept of semi-symbolism. However, not all the effects of meaning derived from this plane can be described using the semi-symbolic analysis. Our work explores this limitations in the study of abstract art.

    KEYWORDS: semiotics; semi-symbolism; expression; painting.

  • Estudos Semiticos - nmero dois (2006) RIBEIRO, C. S.

    www.fflch.usp.br/dl/semiotica/es

    1. Introduo

    Como se j no bastasse o notrio deslocamento do objeto artstico na situao moderna, a arte abstrata parece sofrer ainda mais especulaes acerca de seu estatuto esttico. Muitos julgam-na como arte ornamental, outros paradoxalmente acreditam-na ora como sem significao alguma, ora como apta a mltiplas interpretaes.

    Recorrendo teoria da arte para uma anlise mais confivel e menos tendenciosa, frustramo-nos ainda mais: o que quase sempre encontramos so ou um panorama do contexto histrico da produo da obra em questo, uma biografia do artista que a produziu ou ainda uma mera descrio do que se v (seus materiais, composio etc.).

    Desse modo, a obra de arte justificada, ou interpretada, pelo seu entorno e no por ela mesma. Quando a obra a ser analisada de natureza abstrata, encontramos ainda menos mtodo no modo de abordagem: fala-se em livre interpretao; julgam-na sem significado; tenta-se impingir figuras onde no h; classificam-na como de fcil confeco e pouca esttica etiquetam-na como mero ornamento.

    Diante disso, pensamos que a semitica greimasiana sendo uma teoria que busca explicar o processo de significao de um dado texto de maneira imanente e munida de modelo terico consolidado faz-se bastante til para uma anlise justa das artes plsticas, principalmente depois do desenvolvimento do conceito de semi-simbolismo, o que trouxe tona a possibilidade do estudo do plano da expresso conjuntamente com o plano do contedo.

    A questo a ser levantada se uma anlise semi-simblica na qual se buscam homologaes de categorias do plano do contedo com categorias do plano da expresso seria de fato pertinente ou at mesmo possvel em textos plsticos abstratos, nos quais a expresso parece ser o nico plano trabalhado. Pretendemos, portanto, discutir os limites do semi-simbolismo em pinturas abstratas e propor outros caminhos para a anlise desse tipo de texto, como a idia da existncia da gerao de sentido tambm no plano da expresso (j anunciada por L. Hjelmslev em Prolegmenos a uma teoria da linguagem a partir da noo de isomorfia dos planos) e alguns encaminhamentos para a sistematizao de uma enunciao plstica.

    2. A semitica e a expresso omitida

    O que a teoria semitica (de linha francesa) procura, mais do que explicar os sentidos de dado texto, explicitar seu processo de significao. Mesmo sabendo que um sistema semitico se d pela relao entre um plano de contedo e um plano de expresso, A. J. Greimas em uma primeira instncia os dissocia e constri um modelo terico para dar conta apenas do plano do contedo, deixando as possveis articulaes deste com o plano da expresso para o que ele mais tarde chamou de "semitica do futuro" (Greimas, 1986:56)

  • Estudos Semiticos - nmero dois (2006) RIBEIRO, C. S.

    www.fflch.usp.br/dl/semiotica/es

    A preocupao de Greimas, de incio, descrever o que L. Hjelmslev conceitua como forma do contedo. Para isso, prope-nos um simulacro metodolgico chamado "percurso gerativo do sentido" uma soluo vertical encontrada para sistematizar o processo de significao. Alm da clara aluso terminolgica (e apenas isso) s teorias de N. Chomsky, o percurso chamado de gerativo porque mostra como o sentido gerado a partir de estruturas simples e abstratas as quais vo ganhando complexidade e concretude conforme so enriquecidas em nveis mais superficiais.

    O nvel de aparncia mais concreta o chamado discursivo, o qual, ainda fazendo parte do plano do contedo, carece de manifestao no plano da expresso. A expresso pode ser de natureza verbal (como na literatura), no-verbal (pintura, escultura, msica etc.) ou sincrtica em que h a concomitncia tanto de elementos verbais como no-verbais (como nas histrias em quadrinhos ou no cinema no-mudo).

    Como j dito, Greimas, em um primeiro momento, exclui o estudo do plano da expresso de seu modelo terico. Segundo L. Tatit (FIORIN: 2003, p. 206) :

    "(...) podemos dizer que a semitica dissocia o plano do contedo do plano da expresso e estuda-os separadamente at reunir condies conceituais para relacionar categorias de ambos os planos e ento compreender melhor o mecanismo geral da semiose."

    Apesar de L. Tatit afirmar que a semitica dissociou os dois planos e os estudou separadamente, temos de lembrar que um estudo isolado do plano da expresso nunca foi de fato uma realidade. Ao contrrio, o que assistimos foi sempre a um reinado absoluto dos estudos do plano do contedo enquanto o plano da expresso constava como um problema a ser resolvido.

    H, porm, nas palavras de Tatit j uma pista do que ocorrer com o plano da expresso esse tomar lugar nos estudos semiticos quando se conseguir relacionar as categorias dos dois planos. Pietroforte (2004 : 8) nos diz o seguinte:

    "Colocado de lado em um primeiro momento do desenvolvimento terico da semitica, o plano da expresso passa a ser tomado como objeto de estudo quando uma categoria do significante se relaciona com uma categoria do significado, ou seja, quando h uma relao entre uma forma da expresso e uma forma do contedo."

    Ou seja, essa homologao entre uma forma da expresso e uma forma do contedo nada mais do que o conceito de semi-simbolismo. E foi s a partir do desenvolvimento deste que o estudo do plano da expresso pde finalmente emergir na teoria semitica francesa.

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    3. Jean-Marie Floch e o semi-simbolismo: a expresso considerada

    Como j mencionado, o semi-simbolismo se d quando da possibilidade da homologao de categorias do plano do contedo com categorias do plano da expresso. Podemos dizer que essa relao , ao mesmo tempo que motivada (j que relaciona diretamente categorias dos dois planos), arbitrria, pois s se d em um contexto especfico. Destarte, citando novamente Pietroforte (2004 : 8-9):

    "(...) partindo dos conceitos de signo e de smbolo de F. de Saussure, define-se o semi-simbolismo entre o arbitrrio de signo e o motivado do smbolo."

    O maior expoente no desenvolvimento do conceito de semi-simbolismo e da chamada semitica visual (ou plstica) o francs Jean-Marie Floch. Focando seus estudos principalmente nos textos de comunicao e marketing, alm de alguns trabalhos relacionados s artes plsticas, ao gosto e ainda algumas anlises de textos fotogrficos e de histrias em quadrinhos, Floch conseguiu desenvolver bastante o modelo de anlise semi-simblica nos textos visuais/plsticos e sincrticos, alm de trazer finalmente tona mesmo que associado ao plano do contedo o plano da expresso para a teoria semitica.

    Basicamente o que Floch prope a existncia de categorias do plano da expresso as categorias eidticas, cromticas e topolgicas (concernentes forma, s cores e organizao espacial, respectivamente) as quais seriam anlogas a categorias do plano do contedo (tais como vida vs. morte, natureza vs. cultura, identidade vs. alteridade etc.), ou seja, o conceito clssico de semi-simbolismo: categorias homlogas nos dois planos da linguagem.

    Exemplificando, poderamos ter um quadro em que (no plano da expresso) as cores quentes, os elementos retilneos e o espao central se homologassem ao contedo "morte" enquanto que as cores frias, os elementos curvilneos e o espao perifrico se relacionassem "vida" no plano do contedo. Assim, a categoria fundamental desse quadro, em plano do contedo, seria vida vs. morte e no plano da expresso a oposio seria entre quente/retilneo/central e frio/curvilneo/perifrico.

    A proposta semi-simblica de Floch parece funcionar muito bem para textos sincrticos em que h o envolvimento de uma expresso verbal, por exemplo, peas publicitrias e histrias em quadrinhos, alm de se mostrar bastante produtiva para a anlise de fotografias e de pinturas figurativas. Os problemas, porm, comeam a aparecer quando samos desses textos mais hbridos ou ricos em figuras, para adentrar textos mais abstratos, em que a expresso parece ser o nico plano pertinente e no temos mais o que R. Barthes (1984:32-33) chama de "ancoragem", tal como ttulos e legendas.

    Ou seja, enquanto temos um texto sincrtico (envolvendo uma manifestao verbal), identificar a categoria fundamental do plano do contedo se torna bem menos

  • Estudos Semiticos - nmero dois (2006) RIBEIRO, C. S.

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    ardiloso isso porque temos um texto verbal contribuindo para a formao daquele contedo e, como sabemos, para o estudo de textos verbais a semitica possui um mtodo de a

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