“Se essa rua fosse nossaâ€‌: Constru§£o de Gnero em ...anais- .conectiva atrav©s das redes

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  • PPGCOM ESPM // SO PAULO // COMUNICON 2015 (5 a 7 de outubro 2015)

    Se essa rua fosse nossa: Construo de Gnero em Plataformas Virtuais 1

    Pedro Henrique Baptista Reis 2Pontifcia Universidade Catlica Rio Grande do Sul - PDJ/CnpQ Lana Baumgarten 3Pontifcia Universidade Catlica Rio Grande do Sul - Mestranda/CnpQ

    Resumo O artigo a seguir utiliza da perspectiva de autores contemporneos dos estudos culturais para construir raciocnios a respeito dos processos de construo de identidade nos sujeitos, tanto em meios online quanto offline. A partir dessa premissa, relaciona esse processo com a questo do gnero e posteriormente do feminismo, para assim analisar o caso do coletivo Se essa rua fosse nossa, comunidade iniciada no Facebook que promove a segurana das mulheres nas ruas de da capital do Rio Grande do Sul. Palavras-chave: Construo da identidade; feminismo; cibercultura; redes sociais; movimentos sociais online.

    A proliferao de redes que acompanhou a popularizao da Internet transformou-

    se em plataforma para relacionamentos e contestao. A aderncia s principais (como

    Facebook e Twitter) e os movimentos globais, comeando com as eleies no Ir, em

    2011, passando por pases do norte Africano e mesmo pelo Brasil, durante junho e julho

    de 2013 atesta isso. De acordo com Castells (em Rdiger (2011), "[...] as mdias digitais

    interativas no so mais meios de comunicao no sentido tradicional", elas desencadeiam

    processos de atuao que rescindem as fronteiras dos usos, prticas e discursos ligados

    aos meios massivos, oferecerem ao sujeito e coletividade (local, cultural, nacional,

    tnica, de gnero, etc.) a capacidade de gerar/gerir contedos atravs da linguagem desses

    meios que podem ser definidos como ps-massivos.

    Ao invs de processos de um-muitos a revoluo t cnico-cientfica que i ncide,

    Trabalho apresentado no Grupo de Trabalho 11 - Comunicao, consumo e cidadania: polticas de 1reconhecimento, redes e movimentos sociais, do 5 Encontro de GTs - Comunicon, realizado nos dias 5, 6 e 7 de outubro de 2015.

    Doutor em Comunicao Social pela Pontifcia Universidade Catlica do Rio Grande do Sul/FAMECOS e 2estagirio Ps-Doutoral PDJ/CnpQ - pedro.reis.hb@gmail.com

    Mestranda em Comunicao Social pela Pontifcia Universidade Catlica do Rio Grande do Sul/3FAMECOS e bolsista integral CnpQ - lanabaumgarten@gmail.com

    mailto:lanabaumgarten@gmail.commailto:pedro.reis.hb@gmail.com

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    enquanto revoluo dos usos e apropriaes das tecnologias da informao e

    comunicao, permite uma sociedade em rede que [...] no apenas est se fazendo [a si mesma] cada vez mais inclusiva mas, via os recursos que desenvolve e coloca disposio, est estimulando a iniciativa e a ao comunicativa dos sujeitos, fazendo emergir uma audincia criativa que, quando ela no mesmo cria, se apropria das mensagens nela em circulao com seus prprios cdigos e processos de comunicao (Rdiger, 2011, p. 131).

    Nesse cenrio os sujeitos podem ser ativos na construo dos discursos e

    representaes que lhe so atribudos atravs da atuao e coabitao dos meios massivos

    e ps-massivos. Essa mdia ps-massiva locus de dinmicas comunicacionais e

    vivncias identitrias onde os sujeitos se veem atravessados por foras conflitantes e

    interagentes e como agente que atua na construo de si, nos mltiplos processos de

    identificao aos quais se expe, cria ou reproduz. Ainda que no exatamente um espao,

    possui a possibilidade de ser um campo de trocas e inverses impensveis h trs dcadas

    atrs.

    Enquanto essa faceta pessoal e articuladora se encarrega de imputar vivncia

    mediada por computador de uma carga simblica, a faceta econmica se encarrega de

    possibilitar camadas cada vez mais distintas de regionalidades e territorialidades acesso

    imediato e barato aos servios (motores de busca, bancos de dados, aplicativos de chat ou

    social media, etc.) e equipamentos (especialmente telefones celulares habilitados a

    trafegar atravs de redes de dados mveis 3 e 4G) que, em dois modos, concedem

    "voz" (Couldry, 2010) aos sujeitos. Permitem que o sujeito tenha "voz enquanto

    processo, ato comunicativo de se expressar dentro dos confins de sua localidade, cultura

    ou etnicidade, mas, tambm, num segundo momento permitem aos sujeitos "voz enquanto

    um processo de processos": a voz como um valor. Ao colonizar os cotidianos, essas redes

    mediadas por computadores tornam-se mais do que veculos de comunicao pessoa-a-

    pessoa (peer-to-peer) ou palanques digitais (pessoa-a-muitas-pessoas/muitas-pessoas-a-

    pessoa), elas se tornam materialidades da expresso de um ser vivente enquanto partcipe

    de sua cultura, etnia, gnero, nao, etc., e, em si mesmas, um valor-em-si.

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    Articulamos a ideia de que movimentos sociais, nas redes digitais e fora delas, so

    fruto de fluxos que conduzem pluralizao das culturas no interior dos estados-

    nao (Cogo, 1999, p.49): como esse processo de "construo de si" (Taylor, 1989) ou

    "narrao de si" (Cavarero, 2001) modifica fundamentalmente a problematizao da

    identidade atravs da atuao dos sujeitos nessas redes. O objeto escolhido para esse

    estudo a comunidade virtual "Se essa rua fosse nossa". Criada em maro de 2015 por

    jovens de Porto Alegre, ela agencia aes e intermedeia informaes atravs do Facebook

    e promove a segurana fsica e simblica daqueles sujeitos que se identificam enquanto

    gnero feminino nos espaos urbanos perturbados por narrativas de violncia

    (especialmente de natureza sexual).

    Se Butler (2007) est correta ao reafirmar de Beauvoir, ningum nasce mulher,

    mas se torna uma", encontramos na comunidade "Se essa rua..." a continuao dessa

    lgica. A escolha desse objeto justifica-se pelo carter de continuidade desse pensar a

    construo das identidades de gnero no mbito urbano. Enquanto Butler afirma que para

    um sujeito preciso tornar-se, onde "diferena sexual [...] nunca simplesmente uma

    funo de diferenas materiais que no so de um jeito ou de outro marcadas e formadas

    por prticas discursivas" (Butler, 2011, p.xi), a comunidade afirma que preciso continuar

    afirmando-se enquanto esse se-tornar, na continuidade de uma agncia que transpassa o

    campo scio-urbano para dentro do simblico e da atuao poltica. A "Se essa rua..."

    busca conjugar a ao e a representao do que ser e se-tornar mulher numa atuao

    conectiva atravs das redes eletrnicas mediadas por computador que tem por ncleo a

    iniciativa de conscientizar a respeito dos direitos e da segurana fsica e simblica da

    mulher numa cultura da mdia.

    1. Cultura, Voz e Construo de Identidade Segundo Douglas Kellner a cultura da mdia recente. Mesmo que as inovaes

    na indstria cultural tivessem comeado a frequentar o centro do sistema cultural dos

    EUA e de outros pases, foi a partir do advento da televiso que a mdia tornou-se fora

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    dominante na cultura, na socializao, na poltica e na vida social (Kellner, 2001). O

    surgimento e a popularizao da Internet transformaram meios como a televiso em

    apenas mais um interlocutor das relaes sociais mediadas por imagens. quelas

    oferecidas por ela, se seguiu uma nova relao, ainda mediada por imagens, que mostrava

    a mdia massiva como limitada e limitadora. A mdia ps-massiva faz deslocarem-se as

    fronteiras, imagens e representaes da mdia convencional. Essas novas formas

    relacionais se tornam elementos cruciais numa nova problematizao das identidades:

    Em nossas interaes sociais, as imagens produzidas para a massa orientam nossa

    apresentao do eu na vida diria, nossa maneira de nos relacionar com os outros e a

    criao de nossos valores e objetivos sociais (Kellner, 2001, p 29).

    A construo de identidade a partir das interpretaes e vivncias, bem como das

    vises de mundo parte de um movimento relacional que complexifica as mensagens

    veiculadas tanto pela mdia massiva quanto pela ps-massiva. O sujeito ps-moderno

    (Hall, 2011) no tem uma identidade fixa ou essencial. Ele enfrenta contradies e

    deslocamentos de identificaes, ele participa do desafio inevitvel de compreender-se em

    um contexto cultural e temporal infinitamente diversificado e imediatista. O sujeito, previamente vivido, como tendo uma identidade unificada e estvel, est se tornando fragmentado; composto no de uma nica, mas de vrias identidades, algumas vezes contraditrias ou no resolvidas. Correspondentemente, as identidades, que compunham as paisagens sociais l fora e que asseguravam nossa conformidade subjetiva com as necessidades objetivas da cultura, esto entrando em colapso, como resultado de mudanas estruturais e institucionais. O prprio processo de identificao, atravs do qual nos projetamos em nossas identidades culturais, tornou-se mais provisrio, varivel e problemtico (Hall, 2011, p. 12.).

    Nesse contexto, a participao em movimentos sociais enfatiza esse dualismo em

    vrios aspectos, especialmente no sentido de que se procuram grupos onde se possa

    compreender semelhanas ao mesmo tempo em que nos adaptamos e concebemos em

    concordncia com o que o grupo espera que devamos oferecer. Esse fenmeno no

    acontece apenas em funo do pertencimento, mas tambm com o objetivo de juntar-se

    queles com intenes similares afim de fazer-se mais significativo, de sentir-se mais

    ouvido, de ter voz num circuito