Roberto Campos - Discurso de Posse na ABL

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Roberto Campos - Discurso de Posse na ABL

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  • ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS

    Discurso de Posse

    Discurso de recepo do acadmico Antonio OlintoDiscurso de posse do acadmico Roberto Campos

    DISCURSO DE RECEPO DO ACADMICO ANTONIO OLINTO AO ACADMICOROBERTO CAMPOS

    A afluncia dos que hoje acudiram ao chamado feito pela Casa de Machado de Assis paravossa posse, Senhor Roberto Campos, atesta o plano de influncia que vossa lucidezsuscitou nos brasileiros deste sculo. No momento em que entrais para a AcademiaBrasileira de Letras, faltam poucos meses para o trmino dos Novecentos. Fim-comeo,comeo-fim hora de um exame de conscincia. tambm hora de mudana. Para astransformaes por que passou o pensamento brasileiro nas ltimas dcadas muitocontribuistes, e delas que me parece mister fale o que vos sada nesta recepo, Senhoracadmico Roberto Campos. Chamo-vos agora assim para, como romancista e narrador,contar a vossa histria.

    Corria a segunda dcada do sculo quando nascestes, em pleno centro geogrfico daAmrica do Sul, na cidade de Cuiab, de famlia que residira perto dali, no distrito deLivramento, terra dos ndios Terena. Da regio terena foi tambm Rondon, brasileiro porexcelncia. Aos cinco anos de vossa idade, perdestes o pai, o professor Waldomiro Campos.Vossa me, Honorina de Campos, alojou-se na fazenda de parentes em Mato Grosso, pertode Corumb, onde fizestes o curso primrio mas, no desejando viver como a parte pobreda famlia, D. Honorina pegou os dois filhos, vs e vossa irm Catarina - que at hojechamais de Catitinha - e fez uma longa viagem que durava mais de quinze dias, dafazenda no interior matogrossense at So Paulo. Eram trs dias de carro de boi, cinco devapor, uma semana de trenzinho Maria Fumaa, at Bauru, e, num trem melhor, da at acidade de So Paulo, onde D. Honorina estudou numa academia de corte e costura e, comessa profisso, emigrou para Guaxup, no Sul de Minas. Veja-se a poca. Era 1927,Guaxup estava no auge da cultura do caf. No mesmo ano, sa eu de Ub para Juiz deFora, onde meu pai, que trabalhava na distribuio de filmes para cinemas do interior,procurava uma nova atividade em sua profisso de contador.

    Veio a crise de 1929, que abalou a vida de todo o mundo, principalmente a da classeintermediria. Com a crise, o problema era: como estudar? Estudo tinha preo alto. D.Honorina fez o mesmo que minha me urea: colocou-vos no seminrio. Seguindo umatradio que vinha do Imprio, jovens brasileiros da classe mdia-mdia costumavam serencaminhados pelos pais a seminrios catlicos, nem sempre em busca do sacerdcio, maispor causa da gratuidade dos estudos. Assim foi que vs, no Sul de Minas Gerais, e este quevos recebe, em Campos, Norte do Estado do Rio, nos vimos fazendo o Seminrio Menor etendo aulas dirias de Latim, ouvindo missas todas as manhs e fazendo sermes para osfiis da redondeza, o que pode ter-nos ajudado a criar um esprito de disciplina, difcil dese adquirir em colgios comuns. No seminrio da Gameleira, em Belo Horizonte,estudamos juntos, vs, Teologia, e este que vos fala, Filosofia, num perodo em queparecamos prestes a reconquistar tempos democrticos, mas, reclusos e com os minutosinteiramente tomados por estudos e oraes, nem sempre atentvamos para o que ocorriano corpo do Brasil. De l fostes, sem batina, para Batatais, onde conhecestes e namorastesStella Ferrari Tambellini. Pouco depois, chegveis ao Rio de Janeiro e aqui nosencontramos, como professores, no Colgio Santa Ceclia e no curso Mattos. Fizestes entoo concurso direto para o Itamaraty e l estive, para assistir a vossa posse, num grupo que

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  • Oswaldo Aranha, ento Ministro das Relaes Exteriores, chamou de "os 18 do Forte".

    J com um status diplomtico resolvido, viajastes para Batatais, de onde voltastes casadocom Stella, que vos acompanha desde ento. Era em 1939.

    Estvamos sob o domnio do Estado Novo, a guerra viria ampliar o tempo de GetlioVargas no poder, j que os Aliados precisavam de apoio fora dos campos do conflito, naEuropa e na sia, mas isso no evitou que o fim da guerra derrubasse a ditadura Vargas.Foi o tempo de uma nova poesia no Brasil quando Joo Cabral de Melo Neto comps seusprimeiros poemas e a "Gerao de 45" aguava seus instrumentos. Guimares Rosaescreveria os contos de "Sagarana" em 1940, s vindo a public-los em 1946. Enquantoisso, estveis em Washington, como Terceiro Secretrio, e ali vos formastes em economiapara fazer, em seguida, cursos de ps-graduao na Universidade de Columbia. Com osestudos humansticos de colgios catlicos, especializaes em Filosofia e Teologia,acrescentastes a esses conhecimentos um novo patamar cultural, erguendo assim umedifcio que vos preparava para um trabalho que o Brasil exigiria de vs j no comeo dosegundo ps-guerra do sculo. Foi ento a poca das grandes reunies que mudariam omundo. Estivestes em Bretton Woods. Ali conhecestes Eugnio Gudin e Octvio Gouva deBulhes, cujas idias combinavam, nos pontos principais, com as vossas, na luta paraencontrar os caminhos que levassem o Brasil a uma posio de prover o essencial para agrande maioria de seu povo. Pois ento vossa filosofia de vida j se havia desenvolvido, nabase de uma lucidez de pensamento rara no Brasil. Como definir vossa filosofia? Vejo-acomo adepta do pensamento crtico.

    Aponta-nos Karl Popper a necessidade - bsica para quem pensa - de termos conscinciadas diferenas entre o pensamento crtico e o pensamento dogmtico. O pensamentodogmtico - dono da verdade e do futuro - j causou perseguies, torturas, assassnios.Ao contrrio do estmulo violncia, o pensamento crtico est mais afeito s duras tarefasde esclarecer, mostrar defeitos, melhorar, enfim mudar sem matar. Em casos concretos,mostra Popper "a atitude dogmtica" de pensadores e lderes de nosso tempo, inclusive asde Marx, Freud e Adler, diversas da posio aberta de "experimentos cruciais" de Einstein,de quem cita a frase: "No pode haver melhor destino para uma teoria fsica do que abrircaminho para uma teoria mais simples, na qual sobreviva, como caso-limite".

    Da o descobrirmos que s o pensamento crtico aprende. O dogmtico recusa-se aaprender e repele o novo, principalmente se nele v perigo para sua inamovvel postura.Essa recusa vai at o momento em que a realidade derruba o dogma, tal como s vezesderruba muros. Ao invs de implantar slogans no pensamento das pessoas, o pensamentocrtico, porque aprende, tambm ensina, e o ensino prope, no impe, mudanas derumos, idias e aes. Estar o Brasil, no limiar do ano 2000, suficientemente providodesse necessrio ingrediente social e pessoal que o pensamento livre? Se eu tivesse deescolher algum que haja trabalhado, incessantemente, com lucidez e alegria, intelignciae imaginao, para convencer e propor a seus patrcios - isto , os que tm a mesma ptria- de que fora da liberdade no h sada - e de que o pensamento livre a base daliberdade - eu optaria pelo vosso nome, acadmico Roberto Campos. Em artigos ediscursos, aulas e conferncias, livros e declaraes muitas, em conversas tanto como emaes, tende-vos empenhado em exorcizar os preconceitos de uma cultura que tem ohbito de se entusiasmar pelo discurso vazio. Ningum tentou mudar o discurso vazio dopas, mais do que vs, numa atividade constante, empreendida sob a gide da mudana.Voltando minha narrao, acabada a guerra e terminados os planos destinados a por denovo o mundo em bases seguras, inclusive o Plano Marshall, que salvou a Europa,passastes a integrar a Comisso Mista Brasil-Estados Unidos que viria a publicar 17preciosos volumes de anlise, avaliao e planejamento da economia brasileira. Essetrabalho levou-nos criao do BNDE, de que fostes sucessivamente superintendente epresidente. O relatrio da Comisso Mista serviria tambm de base ao Plano de Metas deJuscelino Kubitschek, que elaborastes juntamente com Lucas Lopes. No haveis chegadoainda ento aos 40 anos, e vosso nome j se tornara o smbolo de uma linha de ao.Tornara-se tambm um smbolo de inteligncia autodepreciativa, com uma boa dose dehumildade, virtude que deve ter-vos sido inculcada nos tempos de seminrio e quenenhum mal faz aos que a mantm e cultivam. Vossos artigos e livros, tanto quanto vossa

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  • atuao em postos de direo, revelam que a inteligncia , em vs, aguada por umadose justa de imaginao, misturada a uma viso concentrada de problemas objetivos, esabemos que sem imaginao muitas qualidades de anlise e previso deixam defuncionar.

    Finda a era Juscelino Kubitschek, fostes enviado por Jnio Quadros para negociar a dvidaexterna brasileira na Europa e, logo em seguida, assumistes o posto de Embaixador doBrasil em Washington, onde haveis, no comeo dos anos 40, iniciado vossa vidadiplomtica no exterior. Com as mudanas de 1964, Castelo Branco assumiu a Presidnciada Repblica e vos convocou para organizar um ministrio novo na administraobrasileira, o do Planejamento. Nele criastes o Banco Central, o FGTS (Fundo de Garantiapor Tempo de Servio), o Banco da Habitao, a Caderneta de Poupana, elaborastes oEstatuto da Terra e reduzistes, em menos de trs anos, a inflao brasileira de 100% a25% ao ano. Governo provocado por um movimento de revolta, e no por eleio popular,como haviam sido os cinco anteriores, de Gaspar Dutra a Joo Goulart, teve dificuldadesde relacionamento com polticos ligados ao esprito democrtico anterior, e optou pelosistema de cassaes dos direitos polticos de muitos deles. Foi ento que vos recusastes aassinar o documento de cassao de Juscelino Kubitschek, com quem haveis trabalhado naelaborao e redao do Plano de Metas e na conduo do BNDE. Dissestes ento a CasteloBranco: "No posso assinar. Se o Presidente faz questo de unanimidade, entrego em suasmos o meu cargo de Ministro do Planejamento." Ao que o Presidente Castelo Brancoretrucou: "Vote com a sua conscincia, Roberto. E por favor continue ministro." Entendoter sido, aquele, um momento de grandeza nos difceis dias que todos enfrentvamos.

    Foi ento que tambm colaborastes, com vossa autoridade e assinatura, para a concesso,pelo Presidente Castelo Bran