Revista Rubra nº 14 - miolo

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Miolo da Revista Rubra nº 14

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  • 1A cena passou-se numa das muitas cimeiras do euro realizadas este ano em Bruxelas, em meados de Feverei-ro. As cmaras de TV captam um daqueles momentos que definem o que realmente se passa na Europa. Vtor Gaspar aproxima-se do seu homlogo alemo, Wolfgang Schuble, como um estudante que tenta impressionar o professor. Vamos fazer progressos substanciais com o dfice. J fizemos progressos incrveis, diz o ministro das Finanas portugus, ajoelhando-se ao lado de Schu-ble (este desloca-se de cadeira de rodas desde que, h mais de 20 anos, levou trs tiros num comcio). E ouve o veredicto da Alemanha: Se for necessrio ajustar o pro-grama para Portugal, no haver problema.

    Obrigado, responde Gaspar num fio de voz.Na verdade, Gaspar e Coelho, os bons alunos, sub-

    servientes com os poderosos e implacveis com os mais fracos, no fizeram progressos com o dfice, tendo admi-tido j que o objectivo de 4,5% do PIB para este ano no ser atingido. Em vez disso, onde houve progressos in-crveis foi no ataque s condies de vida da populao trabalhadora: enquanto para almoar numa tasca se paga agora 23% de IVA, se perdem feriados, os funcionrios pblicos foram espoliados dos subsdios de Natal e de f-rias, as impropriamente designadas taxas moderadoras aumentaram e a onda de privatizaes prossegue a bom ritmo (EDP j l vai, Correios esto a caminho, a TAP e at a televiso pblica, a RTP, so oferecidas aos priva-dos), o desemprego j vai em 15,6%, segundo os nmeros oficiais (22% segundo clculos mais objectivos) e o pas afunda-se numa terrvel recesso.

    Em cima disto, Passos Coelho anunciou a 7 de Setem-bro o aumento da contribuio dos trabalhadores para a Segurana Social dos actuais 11% para 18%, enquanto a contribuio das empresas diminui dos actuais 23,75% tambm para 18%. Trata-se de uma transfuso directa do salrio social dos trabalhadores para o patronato.

    Passos Coelho foi presenteado com um vendaval de improprios na sua pgina do Facebook: em apenas um dia, 40 mil pessoas foram l chamar-lhe hipcrita, mentiroso, insensvel, ladro, palhao, ga-tuno, bandido, corrupto, vigarista, aldra-bo, desonesto e outros qualificativos semelhantes. Enquanto alguns lamentavam ter votado naquele que agora designavam por vendedor de banha da cobra, charlato e aldrabo, outros desafogavam as mgoas desejando que algum se passe da cabea e enfie um ba-lzio entre os olhos destes gajos todos ou mande en-forcar em praa pblica todos estes cabres que andam a viver s nossas custas.

    Mas, usando com outro sentido uma expresso bra-sileira, no se matam cachorros a gritos. A verdade que a oposio a este governo e s suas medidas no tem sido suficiente. E no basta gritar e chamar-lhes nomes. preciso mais. A Rubra convoca todos a participar na ma-nifestao de 15 de Setembro e no dia nacional de luta convocado pela CGTP para 1 de Outubro. E faz um apelo unidade e combatividade: no fundo, todos sabemos que isto provavelmente no bastar para aquilo que se im-pe, que derrubar quanto antes este governo e cancelar as suas medidas. O que preciso fazer, que parar o Pas e ir a um tira-teimas decisivo, assusta muitos. Perante um predador, qualquer animal, incluindo o homem, tem duas grandes opes: defender-se e contra-atacar ou fugir. At agora mais gente e mais vezes tem fugido. Mas j no h muito para onde fugir. Como na cano de Martha and the Vandellas, theres Nowhere to run, nowhere to hide - no h para onde fugir, nem onde se esconder. Est na hora de passarmos ao contra-ataque.

    Editorial

    No h para onde fugir, nem onde se esconder. Passemos ao contra-ataque

  • 2Ao longo dos milnios, populaes como a portuguesa foram moldando a sua dieta de acordo com a produtivida-de do solo, partida mais vocacionada para culturas locais. A sua ampla costa colabora com uma predileo pelas pro-tenas do peixe. O problema acontece quando esses hbi-tos entram em contradio com a produo capitalista, ou seja, quando a produo de peixe choca com a produo de carne, mais barata e produtiva. Para o capitalismo, o ve-lho bacalhau que sempre esteve na mesa dos portugueses um produto de luxo.

    Crise alimentarEnquanto mercadoria produzida para gerar lucro, a

    produo de alimentos deve render um lucro mdio ao

    proprietrio da produo semelhante ao lucro alcanado na indstria: ambos os capitalistas esperam receber um ga-nho lquido de acordo com o capital a investido (na com-pra de plantas, mquinas, matrias-primas, mo-de-obra, etc.). Os banqueiros esperam receber um ganho lquido na forma de juros tambm de acordo com o capital em-prestado na compra e utilizao desses investimentos. Os comerciantes esperam o lucro comercial da venda dos pro-dutos agrcolas. Os proprietrios das terras esperam auferir uma renda. No entanto, a renda da terra tem uma carac-terstica peculiar: enquanto os investimentos em materiais manufacturados ou trabalho humano so dotados de valor porque so, antes de mais nada, fruto do trabalho humano, a terra dada pela natureza e no tem um valor expresso

    A conta do supermercado sobe vertiginosamente e falso dizer que a culpa est nas alteraes climticas ou nas ms colheitas de milho norte-america-no. Descubra neste artigo o que tem a produtividade agrcola, os subsdios es-tatais e a crise da dvida e do crdito publico a ver com a sua conta de super-mercado. E porque esto os trabalhadores portugueses a comer cada vez pior embora comam cada vez mais calorias. / Um artigo de Ana Rajado e Renato Guedes, com o economista Jos Martins.

    Por que sobe a conta do supermercado?

  • 3em tempo de trabalho. Por outras palavras, enquanto uma mercadoria tem um preo porque portadora de um tem-po de trabalho humano (tanto o trabalho para a sua produ-o directa como o trabalho incorporado na maquinaria, matrias-primas, etc.), a terra tem um preo, mas ele no advm do valor do trabalho humano incorporado, seja por via do esforo e aptido do trabalhador, seja por via da in-corporao de matrias (excludos os melhoramentos que o proprietrio da terra possa incorporar antes de arrendar).

    A condio de ser 1) fruto do trabalho humano e de 2) ser produzida no sistema capitalista confere mercadoria alimento valor (bem como um preo monetrio directa-mente ligado a esse valor) e ao proprietrio da produo um lucro calculado de acordo com o excedente da produ-o, ou seja, descontados os gastos e as condies materiais de produo. A renda da terra baseada na simples pro-priedade de um recurso natural, sem que para isso tenha que interagir trabalho humano.

    A renda da terra s pode surgir da repartio global da mais-valia (excedente apropriado da produo) em favor do proprietrio da terra. Ou seja, a renda da terra torna o traba-lho agrcola menos produtivo. Para que o capitalista produza alimen-tos em vez de investir na indstria tem que produzir uma massa de mais-valia maior do que na inds-tria para poder pagar o custo da renda da terra, que normalmente assegurado por subsdios estatais, encapotados ou no.

    O custo dos alimentos tem uma importncia central para o total do lucro, visto o salrio dos trabalha-dores, enquanto meio de produo e reproduo da sua fora de traba-lho, ser em grande medida deter-minado pelos custos da sua alimentao. A busca de uma produo de alimentos mais barata assim fulcral para o capitalismo. Por isso se juntam 300.000 galinhas num avi-rio e se d a comer frango em vez de peixe, para que o valor da mo-de-obra caia.

    Do que falamos quando falamos em produo de alimentos

    O conjunto da produo de alimentos est ligado a dois extremos: de um lado, grandes exploraes que recorrem a trabalhadores assalariados. O nmero de trabalhadores deve corresponder ao grau de desenvolvimento tcnico da produo e o custo da mo-de-obra na regio em ques-to. Num outro extremo, temos as pequenas exploraes de subsistncia, onde a troca do excedente busca comple-tar os meios de subsistncia do produtor. Entre esses dois extremos, encontramos muitas combinaes. Assim, por

    exemplo, uma parte da produo de caf ou cacau pode ser levada a cabo por pequenas produes em regies econo-micamente atrasadas, onde os produtores foram levados a produzir essas matrias-primas no lugar de alimentos bsi-cos (clssico caso da Etipia). A troca da sua produo de caf ou cacau por dinheiro permite comprar os alimentos para produtor e sua famlia (adquirindo assim o que dan-tes ele prprio produzia). Uma vez vendida essa produo, uma parcela significativa cair nas mos do grupo Nestl, que domina o mercado, industrializando e escoando o pro-duto no mercado mundial. Assim, vender ou no vender o seu produto depende quase exclusivamente da Nestl, mesmo que isso no seja claro para a realidade palpvel do nosso produtor.

    O relativo controlo dos preos dessas mercadorias d a Nestl um poder de vida ou morte sobre os produtores. Por exemplo, a necessidade de recorrer a crdito para pro-duzir essas monoculturas pe a prpria posse das suas ter-ras dependente da evoluo dos preos. Assim, fenmenos como a perda da terra e o deslocamento de camponeses

    sem-terra uma histria que come-ou com o incio do capitalismo e que podemos ver em toda parte ain-da hoje, em menor grau em pases como os EUA, onde esse problema j foi h muito resolvido em favor do capital, ou, em maior grau, em pases como a China, onde a neces-sidade de mo-de-obra industrial implica uma progressiva expulso de camponeses das suas terras.

    Um segundo aspecto impor-tante que nem todos os alimentos tm o mesmo peso no mercado ca-pitalista. Certa de 50% dos alimen-tos consumidos pela populao do planeta so cereais, muito em parti-

    cular o trigo, o arroz e o milho. Tomando a produo de 2010/11 como exemplo, 50% da produo de cereais pro-veio dos EUA, Europa/27 e China (18,1%, 12,6% e 19,8%, respectivamente). Os nmeros absolutos referidos criam a falsa aparncia de que esses trs blocos so os principais players no mercado mundial. Se levarmos em conta a pro-duo per capita, a situao muda um bocado de figura. O resultado