Click here to load reader

Revista Pilotis número 27

  • View
    223

  • Download
    8

Embed Size (px)

DESCRIPTION

Publicação interna do Colégio São Luís (SP)

Text of Revista Pilotis número 27

  • Revista Pilotis # 27 - agosto/setembro de 2014Produo interna dos alunos e educadores

    do Colgio So Lus

    TECNOLOGIALabmveis

    chegam s salas de aula

    DITADURA50 anos da

    Ditadura Militar no Brasil

    ARTIGOUso de animais

    em pesquisa: Sim ou No?

    EM COMEMORAO AOS 147 ANOS DE FUNDAO DO COLGIO SO LUS, UM PRESENTE: O LANAMENTO DE UM LIVRO QUE RESGATA UMA EXPRESSIVA E CONSISTENTE TRAJETRIA DAS ATIVIDADES DESPORTIVAS DO CSL, DESDE

    SUAS ORIGENS PIONEIRAS AT A ATUALIDADE.

    PIONEIRISMO

  • SEGUNDO TEMPO

    No final do primeiro semestre e incio das frias escolares, o clima de Copa do

    Mundo agitou a nossa comunidade educativa e mobilizou todo o Pas!

    Dentro da sua programao anual, o Colgio So Lus lanou o livro Pontap

    Inicial para o Futebol no Brasil, um presente de aniversrio pelos nossos 147

    anos. O autor Paulo Cezar Alves Goulart deixa claro que a origem do futebol

    por aqui precisa de 2 captulos para ser bem contada: 1) A primeira partida

    de futebol foi jogada no ptio do CSL em Itu, j que a novidade recreativa foi

    introduzida pelos jesutas; e 2) A contribuio de Charles Miller para o desen-

    volvimento profissional desse esporte s veio mais tarde.

    Mas 2014 no somente o ano da Copa! Alis, frustraes e polmicas

    parte, precisamos continuar refletindo sobre temas relevantes para a nossa

    sociedade de hoje e de amanh. Nossos educadores analisam alguns desses

    assuntos nesta edio.

    Alm disso, vocs lero sobre dois momentos fundamentais na vida dos nos-

    sos estudantes: 1) O processo de alfabetizao das crianas; e 2) A deciso

    por um projeto de vida com sentido, que inclui a busca da prpria vocao, a

    escolha de uma profisso e, para alguns, at uma experincia internacional.

    Descubram muito mais nas pginas que se seguem! Por intercesso especial

    de So Jos de Anchieta, canonizado pelo Papa Francisco em abril, e funda-

    dor do colgio jesuta que deu origem cidade de So Paulo, tenhamos um

    abenoado SEGUNDO TEMPO!

    Com um abrao fraterno,

    Pe. Eduardo Henriques, SJ

    Diretor-Geral do Colgio So Lus

    EDIO/JORNALISTA RESPONSVEL

    Marcia Guerra - DECOM

    Departamento de Comunicao (MTB 2435)

    DIAGRAMAO E PROJETO GRFICO

    Andr Cantarino - DECOM

    REVISO

    Departamento de Publicaes

    REPORTAGEM

    Acidiniz Silva - assistente pedaggico do EM

    Eloiza Centeno - coordenadora da Ed. Infantil

    Jos Francisco Conte de Sacadura Cabral -

    professor do Perodo Estendido

    Laez Barbosa - assessor tcnico pedaggico do CSL

    Marcelo Martins - coordenador do DTA

    Myrta Biondo - coordenadora do CETAE

    Orientadoras de Est. do Maternal II e Pr I do Integral

    Silvia Andrade - coordenadora da Educao Infantil

    Paulo Goulart - pesquisador e escritor. Autor do

    livro Pontap Inicial para o Futebol no Brasil

    Paulo Sutti - professor de Histria do EF

    Pilar Baptista - estagiria do DECOM

    Renata Rog - antiga aluna do CSL

    COLABORAO

    Tuna Serzedello - DECOM

    DIREO-GERAL

    Pe. Eduardo Henriques, SJ

    DIREO

    Benedita de Lourdes Massaro

    Jairo Nogueira Cardoso

    Luiz Antonio Nunes Palermo

    Rua Haddock Lobo, 400 - Cerqueira Csar

    CEP 01414-902 / So Paulo, SP

    Tel.: 11 3138 9600 / www.saoluis.org

    A Revista Pilotis uma publicao

    interna do Colgio So Lus.

  • TECNOLOGIALabmveis chegam s salas de aula

    ARTIGOUso de animais em pesquisa: Sim ou No?

    EDUCAO INFANTILMuito mais que B + A = BA

    INTEGRALExperimente e diga se gosta!

    OPINIOQuem no tem pecados que d o primeiro chute

    ASPASO que ser livre para voc?

    FRUM DE PROFISSESHora da escolha

    FAA VOC MESMOEnfeitando com retalhos

    CULTURA

    4

    6

    10

    13

    14

    20

    25

    26

    28

    Revista Pilotis # 27 - agosto/setembro de 2014

    10PIONEIRISMOPontap Inicial para

    o Futebol no Brasil

    22DITADURA50 anos da Ditadura Militar no Brasil

    30ANTIGO ALUNODe cabea para baixo

    16

    Leia mais matrias completas no site

    www.issuu.com/revistapilotis

    NA WEB

  • POR MARCELO MARTINS, COORDENADOR DO DTA,E MYRTA BIONDO, COORDENADORA DO CETAE.

    FOTOS TOM DIB E DTA

    CARRINHOS COM NETBOOKS ATENDEM A EDUCAO INFANTIL E O ENSINO FUNDAMENTAL I E OTIMIZAM

    O TEMPO DAS AULAS.

    CHEGAM S SALAS DE AULA

    LABMVEIS

    TECNOLOGIA

    4 | REVISTA PILOTIS

  • O Colgio So Lus, na busca da inovao e das melhores prti-cas em tecnologia educacional, adquiriu, para o ano de 2014, dois labo-

    ratrios mveis.

    Com essa novidade, o Colgio aumentou

    a capacidade de atendimento s aulas

    que demandam equipamentos de infor-

    mtica, pois agora dispe de quatro la-

    boratrios equipados com mquinas de

    ltima gerao.

    EQUIPAMENTOS DISPOSIO EM SALAOs carrinhos ou labmveis, como

    os dois novos laboratrios so carinhosa-

    mente chamados pelos alunos so leva-

    dos s salas por uma das orientadoras de

    estudos do CETAE (Centro de Estudos de

    Tecnologias Aplicadas Educao). Dessa

    maneira, sem a necessidade de desloca-

    mento de alunos e de professoras, o tem-

    po de aula foi otimizado.

    Cada labmvel est equipado com ne-

    tbooks suficientes para o trabalho indivi-

    dual das crianas, alm de um notebook

    que se conecta aos televisores j existen-

    tes nas salas e que usado para as ex-

    plicaes iniciais, dadas pelas professoras

    ou pelas orientadoras de estudos do CE-

    TAE. O carrinho que atende a Educao

    Infantil no prdio da Bela Cintra conta,

    no total, com 24 mquinas. J o labm-

    vel do Fundamental I coloca disposi-

    o dos alunos 38 computadores.

    MQUINAS ESPECFICAS A escolha dos equipamentos foi determi-

    nante para o sucesso do projeto. Busc-

    vamos mquinas inovadoras e preparadas

    para o uso infantil. A empresa escolhida

    foi a MGB, multinacional portuguesa

    com fbrica em Salvador e escritrios em

    Braslia e em So Paulo.

    Os computadores possuem processador

    Intel, 4 G de memria RAM e 300 G de

    HD; o sistema operacional o Windows

    8. As telas so reversveis (giratrias), o

    que faz com que o netbook possa ser usa-

    do como um tablet, sem o teclado fsico.

    GANHO PEDAGGICOEquipamentos modernos como esses pro-

    piciam usos pedaggicos diferenciados,

    j que possvel adequar melhor a ma-

    neira como cada atividade ser desenvol-

    vida. Alunos menores, em fase inicial de

    alfabetizao, por exemplo, conseguem

    reproduzir imagens nas telas apenas com

    os dedos, sem a necessidade de teclado

    ou de mouse. Os maiores, alm do tecla-

    do fsico, podem utilizar canetas espe-

    ciais, que acompanham o equipamento,

    para escrever na superfcie da tela, como

    se esta fosse um caderno.

    importante salientar que, ao dinamis-

    mo das aulas e ao aspecto ldico que as

    reveste por conta do uso desses equipa-

    mentos, alia-se o preparo cuidadoso das

    atividades por parte da equipe pedag-

    gica. Como qualquer outro recurso tec-

    nolgico, os netbooks so vistos como

    instrumentos de mediao que facilitam

    o processo de ensino-aprendizagem e o

    tornam mais atrativo para as crianas.

    O sucesso entre os pequenos unni-

    me! As equipes do DTA (Departamento

    de Tecnologia e Audiovisual, que cuida

    da parte tcnica) e do CETAE (Centro de

    Estudos de Tecnologias Aplicadas Edu-

    cao, que desenvolve e acompanha as

    atividades junto equipe de professores e

    alunos) continuam trabalhando em con-

    junto para que esse sucesso seja efetivo

    e duradouro.

    A TV So Lus registrou algumas das atividades

    desenvolvidas com os Labmveis.

    Confira em www.youtube.com/tvsaoluis

    ACOMPANHE NA TV SO LUS

    TECNOLOGIA

    Equipamentos

    modernos como

    esses propiciam

    usos pedaggicos

    diferenciados.

    REVISTA PILOTIS | 5

  • USO DE ANIMAIS EM PESQUISA:

    ARTIGO

    6 | REVISTA PILOTIS

  • O uso de animais em experincias cientficas, procedimento co-mum at pouco tempo atrs, vem levantando srias questes e envol-

    vendo diversos segmentos da sociedade.

    Um dos exemplos mais recentes foi a

    invaso, por ativistas, do Instituto Royal,

    que trabalha para farmacuticas no inte-

    rior de So Paulo (So Roque), em outu-

    bro de 2013. Na poca, mais de 200 ces

    da raa beagle foram resgatados de um

    cativeiro, sob alegao de maus-tratos.

    Na ocasio, uma ativista relatou que v-

    rios cachorros tinham tumores e muti-

    laes, incluindo um que estava sem os

    olhos (Folha de So Paulo, 18/10/2013.

    Caderno Cotidiano).

    O caso ilustra o que vem acontecendo

    com a pesquisa que envolve o uso de

    animais. Pesquisadores, professores, alu-

    nos, sociedade civil, organizaes no

    governamentais, movimentos protetores

    dos animais, instituies religiosas e ci-

    dados em geral se vm envolvidos com

    as seguintes perguntas: justifica-se o uso

    de animais para a pesquisa e o desenvol-

    vimento da cincia? Pode a cincia pro-

    gredir, sobretudo as cincias biolgicas,

    sem essas experincias? Os animais so

    dotados de uma espcie de conscincia e

    sentido da vida? O que nos autoriza cau-

    sar dor e sofrimento aos animais sujeitos

    s diversas experincias? tico usar ani-

    mais em experincias cientficas?

    EVOLUO DA MEDICINA E LONGEVIDADEEssas questes nunca foram um proble-

    ma para a cincia moderna, sobretudo

    para as cincias da natureza. O ponto

    de partida da pesquisa cientfica era o

    de que a cincia tinha como meta final

    a produo de bens para os seres huma-

    nos, e a natureza, incluindo a os diversos

    animais, estava disposio para a con-

    secuo de tal finalidade. A conveniente

    associao entre a cincia e a tcnica per-

    mitiu a explorao dos recursos naturais,

    entendidos como fontes inesgotveis.

    Assim, utilizaram-se animais com a finali-

    dade de, a partir da experincia cientfica

    com eles, se encontrarem medicamentos,

    tratamentos e cura para os humanos e

    para os prprios animais. Devemos reco-

    nhecer que muitos dos medicamentos e

    tratamentos que hoje conhecemos, que

    aumentaram nossa expectativa e qualida-

    de de vida, s foram possveis mediante

    tais experimentos.

    SOMOS TODOS PARTE DA MESMA FAMLIA.Entretanto, as reflexes e os estudos so-

    bre as possibilidades e os limites da cin-

    cia moderna, associados aos avanos das

    cincias humanas e s novas descobertas

    a respeito da vida trazidas pela psicolo-

    gia, pela neurocincia, pela biologia e

    pela filosofia, tm questionado o modo

    tradicional de se fazer cincia. Hoje, sabe-

    -se que a natureza no uma fonte ines-

    gotvel de recursos e que no podemos

    manipul-la sem critrio e racionalidade.

    Conhecemos tambm os malefcios da

    aplicao da cincia que no considerou

    a humanidade e a singularidade do ser

    humano (citemos, como exemplos, as ex-

    perincias nazistas com humanos e o uso

    de armas qumicas e atmicas em guer-

    ras). Temos conscincia, hoje, de que ha-

    bitamos a mesma casa e de que devemos

    POR LAEZ BARBOSA DA FONSECA, FILSOFO, PEDAGOGO E PSICOPEDAGOGO.ASSESSOR TCNICO-PEDAGGICO DO COLGIO SO LUS E PROFESSOR UNIVERSITRIO. MEMBRO DA

    COMISSO DE TICA NO USO DE ANIMAIS DA FACULDADE DE MEDICINA VETERINRIA E ZOOTECNIA DA UNIVERSIDADE DE SO PAULO.

    ARTIGO

    REVISTA PILOTIS | 7

  • todos cuidar dela, uma vez que somos

    pertencentes mesma famlia.

    Cresce a percepo de que fazemos par-

    te de uma totalidade de sentido, na qual

    todos os seres vivos tendem naturalmen-

    te vida, esforando-se, cada um deles

    sua maneira, para atingir tal finalidade.

    Nesse contexto, aumenta o nmero de

    pessoas que, de uma forma ou de ou-

    tra, acreditam que os animais (e no nos

    esqueamos de que somos animais), de

    maneiras diferentes, sentem e buscam a

    vida e, se pudessem, evitariam dor, sofri-

    mento e morte. Embora parea, para al-

    guns, no existirem argumentos racionais

    e cientficos suficientes a esse respeito, o

    mundo contemporneo parece consentir

    que exista uma nova conscincia a respei-

    to da vida, que inclui todas as formas de

    vida animal, reconhecendo em todas elas

    o desejo e o direito de viver.

    A CINCIA E A TICADiante desse novo posicionamento, cres-

    ce um ramo do saber, a Biotica, que, ao

    trabalhar com os conceitos de vida, bem,

    valor, justia, sentido e finalidade, lida

    com a questo do uso de animais em ex-

    perincias cientficas sob uma perspectiva

    largamente ampliada a respeito do signi-

    ficado de vida, de conscincia, de valor,

    de dignidade e de direito. A cincia, a bio-

    logia, a medicina, o direito e a tica rea-

    gem positivamente a esses novos apelos.

    O surgimento de uma nova conscincia

    acerca da vida, as novas descobertas das

    cincias biolgicas e humanas e a atual

    reflexo tica convidam a sociedade a re-

    pensar a relao entre a cincia e a vida

    e a rever o uso de animais em pesqui-

    sas. Esse movimento resultou, no Brasil,

    na elaborao de uma lei que procura

    regulamentar a pesquisa envolvendo

    animais. Trata-se da Lei Arouca (Lei N.

    11.794, de 8 de outubro de 2008), que

    estabelece procedimentos para o uso

    cientfico de animais. No captulo III, a lei

    regulamenta a criao das Comisses de

    tica no Uso de Animais: condio in-

    dispensvel para o credenciamento das

    instituies com atividades de ensino e

    pesquisa animal a constituio prvia

    de Comisses de tica no Uso de Ani-

    mais CEUAs (Art. 8.). Tais comisses

    Os critrios do bem-estar animal, da ausncia de

    dor e sofrimento, do significado e relevncia da

    pesquisa devem ser considerados na deciso.

    ARTIGO

    Uma boa reflexo sobre o modo tradicional de

    se fazer cincia e suas novas alternativas pode

    ser encontrada na obra Contra o Mtodo, de

    Paul Feyrabend. Editora UNESP.

    PARA SABER MAIS

    8 | REVISTA PILOTIS

  • devem ser constitudas por mdicos ve-

    terinrios e bilogos, representantes do

    corpo docente e discente, representan-

    tes da sociedade civil e de uma entidade

    protetora dos animais. Essas comisses

    devem reunir-se periodicamente e, luz

    da Biotica, avaliar, liberar ou impedir

    pesquisas que envolvam o uso de ani-

    mais. Os critrios do bem-estar animal,

    da ausncia de dor e sofrimento, do sig-

    nificado e relevncia da pesquisa devem

    ser considerados na deciso.

    A Faculdade de Medicina Veterinria e

    Zootecnia da Universidade de So Paulo

    (FMVZ/USP), atendendo ao disposto na

    lei, constituiu, em 2012, a sua Comis-

    so de tica no Uso de Animais (CEAUs),

    tendo como finalidade nortear e regu-

    lamentar os fundamentos da utilizao

    racional dos animais nas atividades de

    ensino, pesquisa e extenso no mbito

    desta Faculdade. Desde ento, a comis-

    so analisa todos os projetos de pesquisa

    envolvendo a utilizao de animais, com

    poder de veto. Sob a direo da Dra. De-

    nise Tabacchi Fantoni, tal comisso vem

    se esforando para encontrar um cami-

    nho que equalize a necessidade do pro-

    gresso da cincia, a utilizao de animais

    em pesquisas e as novas exigncias ticas.

    Como participante dessa atual comisso,

    senti-me muito bem-acolhido. Percebo e

    reconheo a qualidade dos membros par-

    ticipantes e a seriedade e envolvimento

    de todos no exerccio de suas funes.

    Cabe a cada membro da comisso ana-

    lisar previamente vrios projetos, sob a

    tica da cincia e da tica.

    Os nossos desafios so muitos. A cincia

    uma construo humana, resultado do

    nosso engenho, inteligncia e desejo de

    conhecer o mundo e a verdade e de en-

    contrar melhores condies para nossa

    existncia, que s tem sentido se for vivida

    em comunidade. Portanto, toda pesquisa

    e descoberta cientficas s tm sentido se

    tiverem como finalidade a promoo e a

    dignidade da vida humana. No amanhe-

    cer de uma nova viso de mundo, de um

    novo paradigma, em que o conceito de

    vida se expande e passa a incluir todas

    as formas de vida, torna-se necessrio in-

    cluir todas elas nos benefcios da cincia.

    Nesse novo cenrio, o que fazer quando

    a cincia, para progredir, utiliza-se de ou-

    tras formas de vida, no caso, da vida ani-

    mal? A tica, outra construo humana,

    pode nos ajudar a resolver esse impasse.

    Como cincia que reflete sobre a vida

    humana e que a regulamenta em busca

    do bem comum, ela pode nos orientar a

    respeito do uso de animais em pesquisas

    cientficas. Para isso, a tica precisa (e o

    est fazendo) ampliar o seu horizonte, in-

    cluindo nele as outras formas de vida ani-

    mal. Ao fazer isso, ela convida as demais

    cincias a fazer o mesmo e a consider-

    -las em seus projetos de pesquisa.

    Na Comisso de tica para o Uso de

    Animais da Faculdade de Medicina Ve-

    terinria e Zootecnia da Universidade de

    So Paulo (CEUA da FMVZ/USP) todos se

    empenham com o que de melhor temos

    a oferecer quando as diferenas se apre-

    sentam e diante de um novo desafio: o

    dilogo, nesse caso, entre cincia e ti-

    ca. Se no temos respostas conclusivas s

    perguntas que so formuladas quando

    se trata do uso de animais em pesquisas

    cientficas, pelos menos encontramos um

    caminho promissor.

    ARTIGO

    REVISTA PILOTIS | 9

  • POR ELOIZA CENTENO E SILVIA ANDRADE,COORDENADORAS DA EDUCAO INFANTIL

    FOTOS TOM DIB

    COMO ACONTECE O PROCESSO DE APRENDIZAGEMDA LEITURA E DA ESCRITA NA CRIANA.

    EDUCAO INFANTIL

    MUITO MAIS QUE

    10 | REVISTA PILOTIS

  • EDUCAO INFANTIL

    Considera-se que aprender a ler e escrever o acontecimento mais significativo dos primeiros anos da vida escolar de uma criana. Por isso, esse assunto gera muitas discus-

    ses, pois h uma preocupao grande, especial-

    mente das famlias, em saber quando a criana vai

    aprender a ler e escrever.

    Vivemos em uma sociedade letrada, em que a

    lngua escrita est presente de maneira visvel e

    marcante nas atividades cotidianas. Sendo assim,

    podemos afirmar que o caminho da conquista da

    leitura e da escrita inicia-se a partir do momento

    em que a criana comea a interagir com o mun-

    do letrado, ou seja, quando ela procura, fala, se

    comunica e se mostra curiosa por descobrir, ex-

    perimentar e vivenciar o mundo que a cerca, de

    maneira espontnea e com a ajuda dos adultos.

    Aos poucos, a criana vai atribuindo significado s

    palavras e s imagens que a cercam. Comea por

    reconhecer os escritos mais significativos, como

    seu nome, uma marca, um rtulo, uma palavra em

    um conto, etc. A escrita se manifesta pelo desejo

    que a criana tem de descobrir, reconhecer e utili-

    zar os sinais grficos com que constantemente se

    depara, reproduzindo-os, ainda que de maneira

    no convencional. Da que o incentivo dos pais e

    o ambiente influenciam o interesse dos pequenos

    que tm, desde cedo, contato com livros, lpis e

    papel para rabiscar, ou que ouvem muitas hist-

    rias. Esses so fatores que muito contribuem para

    a alfabetizao.

    ALFABETIZAOHoje o termo alfabetizao muito mais abran-

    gente do que era h tempos, quando se alfabe-

    tizava pela cartilha, com a fragmentao de pa-

    lavras sem um contexto, como em O vov viu

    a uva, totalmente sem sentido. Com muitos de

    ns, adultos, foi assim. Mas o mundo foi se trans-

    formando, as pesquisas nessa rea aumentaram,

    apareceram mudanas na concepo de ensino e

    aprendizagem, e a alfabetizao passou a se ca-

    racterizar como um processo ativo, por meio do

    qual a criana, desde os seus primeiros contatos

    com a escrita, constri e reconstri hipteses sobre

    o funcionamento da lngua escrita nas diferentes

    prticas sociais de leitura e de escrita.

    COMO O SO LUS TRABALHA A ALFABETIZAO? O So Lus proporciona aos seus alunos um am-

    biente alfabetizador desde as sries iniciais, com o

    Orientamos

    a criana para

    que ela aprenda

    a ler e escrever

    na perspectiva

    do contato

    com prticas

    reais de leitura

    e escrita

    REVISTA PILOTIS | 11

  • EDUCAO INFANTIL

    estmulo ao desenvolvimento cognitivo, de manei-

    ra desafiadora e possvel de ser realizado.

    Orientamos a criana para que ela aprenda a ler

    e escrever na perspectiva do contato com prti-

    cas reais de leitura e escrita, oferecendo-lhe uma

    diversidade de textos que circulam socialmente e

    escritos que fazem sentido para ela, como: bilhe-

    tes, textos de tradio oral, listas, receitas, textos

    informativos, nome prprio, o mural, a rotina

    diria, o calendrio, entre outros. Essa apenas

    uma parte do processo de alfabetizao, em que

    as escritas baseadas nos textos conhecidos de me-

    mrias, a diversidade de prticas de leitura e as

    oralidades so amplamente valorizadas. Todo esse

    processo mediado pelo professor e enriquecido

    por diferentes estratgias e recursos, buscando-se

    escutar o que as crianas tm a dizer e instig-las

    para que queiram saber mais, ampliando, assim, o

    seu conhecimento.

    Para contextualizar essa prtica, desenvolve-se, nas

    diferentes sries, um projeto didtico com base em

    um tema ou em um gnero textual especfico para

    a srie, com o objetivo de construir novos saberes

    e reflexes sobre o sistema de escrita e a aquisio

    da linguagem usada para escrever. Por exemplo,

    no caso de um projeto sobre insetos, as palavras

    com os nomes dos respectivos insetos sero recor-

    rentes e se tornaro estveis. Alm disso, haver

    o contato com o gnero textual que ser utilizado

    para apresent-los: nesse caso, o informativo. Fi-

    nalizamos o projeto com a apresentao do seu

    produto final para a famlia e a comunidade.

    Ao final do primeiro ano do ensino fundamental,

    nossa prioridade que os alunos alcancem a base

    alfabtica, ou seja, que adquiram habilidades para

    ler e escrever de maneira convencional.

    Tudo isso somado ao estmulo, afetividade e

    integrao, privilegiando-se o ldico, o simblico e

    as brincadeiras do universo infantil.

    PEDAGOGIA INACIANAA proposta pedaggica da Educao Infantil no

    Colgio So Lus inspirada nos documentos nor-

    teadores da Educao Jesuta e na Pedagogia Ina-

    ciana. Sendo assim, temos como princpio o fato

    de que cada criana nica e deve ser respeitada e

    atendida em suas necessidades, buscando-se des-

    pertar nela a iniciativa, o sentimento de respon-

    sabilidade, solidariedade e gratido, por meio de

    experincias que incentivem o dilogo, a interao

    e o respeito mtuo entre as pessoas.

    No planejamento de todas as atividades, esto

    presentes as cinco dimenses do Paradigma Peda-

    ggico Inaciano: contexto, experincia, reflexo,

    ao e avaliao. atravs destas cinco etapas que

    o ensino orientado em nossas salas de aula.

    Compartilhar atividades que envolvam a escrita: circulao de bilhetes entre os membros da famlia,

    ou pedir a ajuda da criana para fazer listas de compras.

    Brincar com palavras estimulante. Isso pode ser feito no caminho de casa, dentro do carro, por meio

    de situaes ldicas nas quais as crianas observem placas ou sinais. Alm disso, pode-se inserir no seu

    cotidiano jogos simples que envolvam a descoberta de letras e palavras e que despertem a curiosidade.

    Deixar livros, gibis e passatempos ao alcance das crianas.

    Vivenciar com os filhos a importncia de ler e contar histrias, visualizar as imagens, continuar a histria

    no dia seguinte, retomando-a de onde se parou.

    Um fator que muito contribui para a alfabetizao o incentivo que a criana recebe dos pais. O am-

    biente influencia e desperta o interesse para a leitura e a escrita. Pais que leem para as crianas despertam

    nelas o gosto pela leitura.

    ALGUMAS DICAS QUE PODEM AJUDAR OS PAIS A COLABORAR NA ALFABETIZAO DAS CRIANAS:

    Cada criana

    nica e deve

    ser respeitada

    e atendida

    em suas

    necessidades.

    12 | REVISTA PILOTIS

  • INTEGRAL

    Desde 2013, os alunos das turmas do Maternal II e do Pr I do Inte-gral participam de um momen-to muito especial e importante para seu

    crescimento, aprendizagem e vivncia: a

    degustao de frutas. Por conta do re-

    sultado positivo da iniciativa, neste ano

    aconteceu uma ampliao na atividade:

    a incluso de legumes.

    Com o intuito de contribuir para o desen-

    volvimento de uma alimentao balance-

    ada e saudvel, uma vez por semana, a

    degustao de uma fruta ou de um legu-

    me realizada com base na escolha feita

    por um colega do grupo. Dessa maneira,

    as crianas tm a oportunidade de expe-

    rimentar diferentes sabores e sensaes.

    As famlias tm uma participao impor-

    tante nesse processo quando perguntam

    s crianas, em casa, como foi a atividade.

    Para facilitar esse dilogo, sempre que h

    a degustao, o aluno leva na agenda um

    bilhete que informa a fruta ou o legume

    experimentado e se a criana gostou ou

    no do que provou. Desse modo, poss-

    vel ampliar a prtica em casa, junto com

    as famlias, e torn-la um hbito para as

    crianas que, desde pequenas, podem

    experimentar os diversos sabores que a

    natureza oferece.

    EXPERIMENTE E

    DIGA SE GOSTA!

    POR ORIENTADORAS DE ESTUDODO MATERNAL II E PR I DO INTEGRAL.

    VIVNCIA DAS TURMAS INICIAIS DO INTEGRAL OFERECE OPORTUNIDADE PARA AS CRIANAS PROVAREM FRUTAS E LEGUMES DIVERSOS.

    REVISTA PILOTIS | 13

  • QUEM NO TEMPECADOS QUE D O

    PRIMEIROCHUTE

    POR JOS FRANCISCO CONTE DE SACADURA CABRAL,PROFESSOR DO PERODO ESTENDIDO.

    UMA REFLEXO SOBRE OS CASOS QUE SE MULTIPLICAM, NO PAS, DE PESSOAS QUE DECIDEM

    FAZER JUSTIA COM AS PRPRIAS MOS.

    OPINIO

    14 | REVISTA PILOTIS

  • Essa declarao foi dada pelo Papa Francisco em abril deste ano, em resposta s imagens que circula-vam em seu pas natal de um bandido

    sendo linchado na cidade de Rosrio,

    Argentina. Desde o incio de 2014, tanto

    na Argentina quanto no Brasil, depara-se

    com um elemento novo no contexto da

    segurana pblica: multiplicaram-se os

    casos em que um grupo de pessoas de-

    cide fazer justia com as prprias mos

    e passa a agredir supostos delinquentes.

    Ambos os pases vivem situaes seme-

    lhantes: alta desigualdade, elevados nveis

    de corrupo e caos na segurana pbli-

    ca. Justamente por essas semelhanas,

    penso que essa carta deveria ser lida com

    um pouco mais de ateno aqui no Brasil.

    A colocao do Papa simples, porm

    profunda. A carta se inicia com uma alu-

    so ao relato bblico no qual Jesus livra

    uma mulher do apedrejamento, dizendo:

    Se algum de vocs estiver sem peca-

    do, seja o primeiro a atirar pedra nela.

    (Joo 8,7). Por que o Papa cita esse tre-

    cho quando fala de tais episdios de vio-

    lncia? Apesar de no me considerar um

    profundo estudioso da Bblia, parece-me

    evidente que o episdio alude impor-

    tncia do perdo, elemento central da f

    crist. Jesus sempre perdoou aos peca-

    dores; inclusive, j crucificado, perdoou

    ao ladro Dimas, assim como se colocou

    contra a filosofia do olho por olho, den-

    te por dente (Mateus 5,38-39).

    A questo levantada pelo Papa Francisco

    me parece essencial. O perdo mais do

    que uma das bases do pensamento cris-

    to, tambm uma das bases da prpria

    justia e da vida em sociedade. Seria pos-

    svel fazer justia sem o perdo? Creio que

    no, pois, sem a capacidade de perdoar,

    que em Deus infinita, a justia se con-

    verte em vingana e em sede de sangue.

    Outro ponto interessante na declara-

    o do Pontfice o trecho em que diz:

    Pensei: esse garoto foi feito por ns,

    cresceu conosco, se educou entre ns,

    ressaltando que, por trs da delinqun-

    cia, existe tambm um aspecto que

    coletivo, social. De alguma forma, a pr-

    pria sociedade criou esses delinquentes

    e deve se responsabilizar por isso. Existe

    uma parcela de culpa que de toda a so-

    ciedade, e necessrio reconhecer que,

    se a violncia chegou ao ponto em que

    se encontra atualmente, algo falhou no

    meio do caminho. Talvez, mais violncia

    no seja a melhor forma de resolver esses

    problemas, pois, como o prprio Jesus

    disse, todo aquele que vive pecando

    escravo do pecado. (Joo 8,34).

    Essa dimenso coletiva da questo tam-

    bm est evidente na citao de Fuenteo-

    No era um marciano, era um menino do nosso povo. Eu me lembrei de Jesus: Que diria se fosse o rbitro

    ali? Quem no tem pecados que d o primeiro chute? Foi uma cena dolorosa. Fuenteovejuna, disse a mim

    mesmo. Senti os chutes na alma. Tudo doa em mim, sentia dor pelo corpo do garoto, pelo corao dos que

    chutavam. Pensei: Esse garoto foi feito por ns, cresceu conosco, se educou entre ns. O que falhou?. O pior

    que podemos fazer esquecer essa cena. E que o Senhor nos d a graa de poder chorar... chorar pelo menino

    delinquente e tambm por ns mesmos. PAPA FRANCISCO, EM CARTA A RODOLFO Y CARLOS LUNA.

    vejuna, de Lope de Vega. O clssico da

    literatura espanhola conta a histria de

    um povoado que se une para assassinar

    um comendador que abusava de seu po-

    der. No desfecho da pea, as autoridades

    interrogam a populao para saber quem

    foi o responsvel pelo crime, porm todos

    os interrogados respondem Fuenteove-

    juna, mostrando que todo o povo era

    responsvel por aquela morte.

    Recentemente, a onda de linchamentos

    atingiu seu pice. No estado de So Pau-

    lo, uma tentativa de fazer justia com as

    prprias mos resultou na morte, por es-

    pancamento, de Fabiane Maria de Jesus,

    de 33 anos. Depois de consumado o fato,

    descobriu-se que a mulher era uma me

    de famlia que fora confundida com uma

    suposta sequestradora de crianas cuja

    foto circulava na Internet.

    Finalizo esta breve reflexo com o mesmo

    questionamento do Pontfice: O que fa-

    lhou? O que fizemos para que a sede por

    justia chegasse a um nvel de desespero,

    capaz de influenciar pessoas a cometerem

    atrocidades como as mencionadas? O

    que acontece com nossa sociedade para

    que homens e mulheres supostamente de

    bem realizem atos de tamanha barbarida-

    de? Afinal, do que se vingavam os justi-

    ceiros? Do que se nutriam, alm da irra-

    cional sede de vingana? Na ausncia do

    direito defesa e do direito a declarar-se

    inocente, a justia se torna uma conde-

    nao sem sentido, portanto injusta.

    Afinal, do que

    se vingavam os

    justiceiros?

    OPINIO

    REVISTA PILOTIS | 15

  • POR PAULO GOULART, PESQUISADOR E ESCRITORFOTOS CENTRO HISTRICO DO CSL

    PONTAP INICIAL PARA O FUTEBOL NO BRASIL

    PIONEIRISMO

    CAPA

    16 | REVISTA PILOTIS

  • As atividades fsicas praticadas nos colgios sempre mereceram uma ateno dos jesutas. Essa viso no foi diferente no Colgio So Lus,

    desde Itu, a partir de 1867, tanto em rela-

    o educao fsica e esportes em geral,

    quanto especificamente ao futebol. so-

    bre essa questo que trata o livro Pontap

    inicial para o futebol no Brasil O bate-

    -bolo e os esportes no Colgio So Lus:

    1880-2014, editado pelo Colgio So

    Lus e lanado dia 12 de maio, em evento

    comemorativo dos 147 anos de fundao

    do Colgio, o livro resgata uma expressi-

    va e consistente trajetria das atividades

    fsicas, dos esportes e dos jogos no So

    Lus, desde suas origens at a atualidade.

    JESUTAS E ESPORTES Na educao physica dos alumnos [...]

    no se esqueceu a Companhia de recom-

    mendar o bom tratamento do corpo em

    benefcio do esprito.

    Assim se refere o padre Jos Manuel de

    Madureira no livro A liberdade dos ndios

    a Companhia de Jesus sua pedagogia

    e seus resultados (1927, p. 613-614) vi-

    so dos jesutas em relao s atividades

    fsicas nos colgios.

    Essa ateno, que gradualmente se ex-

    pandia por diferentes colgios da Com-

    panhia, ganha maior evidncia a partir

    de 1817, quando, conforme anais do

    Colgio da Comuna de Saint Acheul, os

    educadores jesutas passam a recomen-

    dar a prtica de jogos, especialmente nos

    internatos onde havia numerosos alunos.

    Durante quase 60 anos, os colgios fo-

    ram instituindo diferentes prticas que

    favorecessem os exerccios corporais.

    Dois padres jesutas, Nadaillac e Rousse-

    au, compilaram os jogos praticados nos

    colgios para editar, em 1875, o livro Les

    jeux de Collge. O livro seria tambm

    uma forma de incentivar e organizar os

    padres prefeitos a institurem prticas es-

    portivas em seus colgios.

    A VIAGEM: RAZES PARA IR, O QUE VIRAM E O QUE TROUXERAM DE LFundado em 1867, em Itu, o Colgio So

    Lus teve rpido crescimento com a pre-

    sena do Padre Mantero, seu novo Reitor

    a partir de 1877. Dos 119 matriculados em

    1878, chega-se a 360 em 1882. Essa nova

    realidade obrigou o Colgio a construir

    e ampliar suas instalaes. Alm de aco-

    modar fisicamente esse contingente cres-

    cente de alunos, era preciso reorganizar

    algumas dinmicas. Assim, as atividades

    esportivas praticadas nos ptios, durante

    os recreios do Colgio, tornaram-se um

    objeto de especial ateno pelos jesutas.

    Era preciso criar mecanismos que incenti-

    vassem todos os alunos a praticarem espor-

    tes j que at 1880 a prtica era optativa.

    Que incentivo seria esse? Oferecer a cada

    aluno um maior nmero de modalidades

    de esportes entre as quais pudesse haver

    uma com a qual mais se identificasse.

    Os jesutas encontraram a soluo ao

    disponibilizar uma imensa variedade de

    jogos aos alunos. Como chegar a estas

    modalidades?

    Decidiram empreender viagens Euro-

    pa entre 1879 e 1881. Em contato com

    colgios europeus, encontraram um esti-

    mulante ambiente para as prticas espor-

    tivas: a tradio e o incentivo aos jogos,

    entusiastas padres e reitores, e o livro Les

    jeux de Collge. singular compndio

    com mais de 80 modalidades de jogos.

    Um prato cheio para oferecer aos alunos

    do Colgio So Lus.

    CHEGANDO: MULTIPLICIDADE DE ESPORTESDe volta a Itu, os padres jesutas passa-

    ram a apresentar aos alunos o que viram

    e trouxeram dos colgios europeus. Os

    jogos, os esportes e as atividades fsicas

    que passaram, ento, a ser obrigatrios

    O incio do

    futebol no Colgio

    So Lus ainda

    no utilizava as 14

    regras inglesas que

    ento orientavam

    a modalidade.

    CAPA

    REVISTA PILOTIS | 17

  • ESPORTES 1 AT 1960Se o futebol passou a ser o esporte prefe-

    rido pelos alunos do Colgio ao longo do

    sculo XX, diversas outras modalidades

    foram praticadas nos ptios do So Lus,

    ganhando adeptos e incentivadores. Des-

    de a sofisticada esgrima, no incio do s-

    culo XX, introduo do pingue-pongue,

    na dcada de 20, o Colgio sempre pro-

    curou atualizar a (insero) de novas mo-

    dalidades, mas no s. Surgem, j com o

    Colgio instalado na avenida Paulista, as

    primeiras formas de organizao, incluin-

    do alunos, que passam a definir regras,

    formao das equipes, jogos, campeona-

    tos, como a Associao Athletica do Co-

    lgio So Lus. E, como representante do

    efetivo vnculo entre ex-alunos e Colgio,

    criada a ASIA-Antiqui Societati Iesu Alu-

    mni, a Associao dos Antigos Alunos dos

    Padres Jesutas. O ponto alto do desen-

    volvimento das modalidades esportivas

    passou a ser, a partir da dcada de 1930,

    os Jogos Olympicos Colgio So Lus. A

    importncia do evento pode ser avaliada

    pela cobertura feita pela imprensa local,

    como O Estado de S. Paulo e Gazeta Es-

    portiva. Durante a II Guerra, alunos eram

    treinados com rigor e disciplina por te-

    nentes, sargentos e professores, e dividi-

    dos em companhias e pelotes. O futebol

    do Colgio chega ao Pacaembu, ento

    maior estdio do Pas. Deu empate de 1 x

    1 com o Colgio Arquidiocesano; e chega

    na TV Record, onde participa do Campe-

    onato Colegial de Futebol; e em outras

    cidades, como o Rio de Janeiro, em com-

    peties com outros colgios jesutas. Ex-

    -alunos, professores e pais de alunos tam-

    bm participam de atividades esportivas.

    Mas, o grande momento, sem dvida, foi

    a inaugurao do Ginsio de Esportes, em

    1967, alm da piscina, em 1968.

    a partir de 1880 tinham a participao

    dos jesutas no meio dos alunos, os quais

    passaram a conviver com novidades:

    exerccios militares, ginstica alem, lan-

    amento de disco e dardo, malha, salto

    em altura e distncia, corrida com obst-

    culos e futebol. Futebol?

    FUTEBOL: BATE-BOLOO Padre Mantero, que esteve tambm na-

    quele perodo na Europa, no esqueceu

    de trazer um artigo que mudaria a cena

    dos jogos e esportes no Colgio: o ballon

    anglais ou, simplesmente, bola de futebol.

    E um exemplar de Les jeux de Collge.

    O incio do futebol no Colgio So Lus

    ainda no utilizava as 14 regras inglesas

    que ento orientavam a modalidade.

    Mais modestamente, os primrdios da-

    quilo que seria o futebol nasceu com o

    uso da bola somente com os ps (dife-

    renciando-se do rugby, em que o uso das

    mos era permitido) e chutes em direo

    s paredes do Colgio embrio do que

    viria a ser o gol. A essa prtica denomina-

    ram de bate-bolo.

    O FUTEBOL: DE ITU PARAO PASE assim comeou o futebol no Colgio

    So Lus. Alguns anos depois, em 1887,

    passou a ter o carter inicial de competi-

    o: dois lados do campo, duas equipes

    de futebol e uma rea delimitada na pa-

    rede, indicando o local exato para onde

    os chutes deveriam direcionar a bola. A

    bola passava a ser disputada entre os alu-

    nos. Em 1894, um ano antes de Charles

    Miller disputar aquela que considera-

    da a primeira partida oficial de futebol

    (15.4.1895), o reitor Luis Yabar introduz

    novas regras no Colgio: campo com di-

    menses prximas s do tamanho oficial,

    demarcao da grande rea, equipes de

    11 jogadores uniformizados e traves, no

    lugar da tinta na parede. Ocorre o primei-

    ro torneio e, no ano seguinte, o primeiro

    Campeo de Futebol do Colgio: Arthur

    Ravache. Com os alunos se formando,

    muitos deles interessados na divulgao

    do futebol, ao retornarem s suas cidades

    e seus estados, participam da fundao

    de clubes, da dinamizao do esporte.

    CAPA

    18 | REVISTA PILOTIS

  • ESPORTES 2 1970 A 2014Com a entrada das meninas no So Lus,

    fato em sintonia com os questionamentos

    sociais e polticas da poca, o Colgio tem

    sua primeira equipe feminina participan-

    do de competies em 1979. A partir de

    1980, alunos passam a participar das pre-

    liminares de clubes do campeonato pau-

    lista, de excurses para o interior do esta-

    do e de competies internacionais. Mas

    os anos 80 tiveram alguns especiais des-

    taques: a inaugurao do campo de fute-

    bol do prdio da Bela Cintra, a realizao,

    a partir de 1986, do Torneio Jesuta (ou

    Jogos Jesutas) e os Jogos Interamizade,

    em 1987, mantidos at a atualidade. O

    futsal feminino comea a ser praticado no

    Colgio em 1992. Alunos e professores

    ganham prmios em campeonatos e tor-

    neios; esportes nem to populares como

    badminton, beisebol, taco e golbol con-

    tribuem, ao lado das inmeras outras mo-

    dalidades, para fazer voc amadurecer e

    criar um sentimento de coletivo, de tra-

    balho em equipe, respeito ao prximo e

    conscincia do prprio corpo, conforme

    mensagem de Victor Naves (revista Pilotis,

    ago./set. 2007). Ex-alunos com atuao

    de destaque na rea esportiva participam

    de eventos no Colgio. A Ong britnica

    Spirit of Football vem, em 2012, ao Col-

    gio cujos alunos, por sua vez, continuam

    a participar anualmente de copas ama-

    doras no continente europeu. Enquanto

    isso, vai sendo erguida a Casa da Cultura

    e dos Esportes, sntese de uma evoluo

    do reconhecimento da importncia dos

    esportes na formao escolar dentro do

    Colgio. Enfim: uma singular conquista,

    um novo marco na trajetria pedaggica

    e esportiva do constante aprimoramento

    da misso jesuta para a educao.

    FALARAM DO LIVROPontap Inicial para o Futebol no Brasil teve a sua repercusso na mdia como um

    verdadeiro contestador da verso de que Charles Miller seria pai do futebol no

    Brasil. Em matria na Veja SP (Colgio So Lus alega ser o verdadeiro bero do

    futebol brasileiro), tanto o livro de Paulo Goulart quanto o CSL foram destaque

    principal. J em outros veculos, como na Folha de S.Paulo, que traz matria com

    trecho do livro do jornalista italiano Luca Caioli, Neymar: O ltimo poeta do futebol,

    o papel dos jesutas do colgio em Itu colocado como um acontecimento com seu

    lugar j consolidado nas pginas da histria do futebol no Brasil.

    CAPA

    Confira o livro Pontap

    Inicial para o Futebol no

    Brasil na ntegra no site

    www.issuu.com/revistapilotis

    LIVRO COMPLETO !

    REVISTA PILOTIS | 19

  • ASPAS

    O QUE SER

    LIVREPARA VOC?

    20 | REVISTA PILOTIS

  • ASPAS

    Compartilhe a sua resposta conosco

    no Twitter com a hashtag e cite o

    nosso perfil @colegio_saoluis!

    #SERLIVRE

    Ser livre voc ter o poder de escolher o que voc vai fazer, mas, para ser

    uma pessoa livre uma pessoa que est bem consigo mesma preciso ter

    um balanceamento de tica, do que certo e do que errado e, ao mesmo

    tempo, fazer com que as suas escolhas sejam levadas em conta tambm.

    Eu me sinto livre quando fao alguma coisa que eu quero e isso d certo,

    porque, quando voc faz algo que quer, mas no d certo, como se a sua

    liberdade tivesse falhado.

    MAIT GUILLARD, 3. SRIE EM

    Ser livre libertar as pessoas e passear no fim

    de semana. Libertar um passarinho ser livre

    tambm porque da ele se sente livre para voar;

    quando ele est preso na gaiola, ele no livre.

    LUCA FORONI E HELOISA RIBEIRO, PR II

    Eu me sinto livre na hora do recreio, porque eu

    estou brincando. Na minha casa eu no me sinto

    livre porque fico preso l, sem fazer nada s vezes

    eu coloco um monte de brinquedos na minha casa

    e finjo que estou passeando, a me sinto livre.

    LEONARDO ROCHA, 2. ANO EF

    Para mim, ser livre ter liberdade, no ser preso a algum ou a alguma

    coisa. Eu me sinto livre quando estou feliz e quando estou solto em relao

    a alguns bens materiais ou pessoas.

    DAVI GARCIA NUNES, 6. ANO EF

    REVISTA PILOTIS | 21

  • DA DITADURA MILITAR NO BRASIL

    DE 64 A 2014 O QUE ACONTECEU NO MUNDO E NO BRASIL ANTES, DURANTE

    E DEPOIS DO GOLPE MILITAR.

    POR PAULO SUTTI, PROFESSOR DE HISTRIADO ENSINO FUNDAMENTAL

    DITADURA

    22 | REVISTA PILOTIS

  • CENRIO MUNDIALFim da Segunda Guerra Mundial. Depois

    da derrota dos pases do Eixo (Alemanha,

    Itlia e Japo) pelos Aliados, o mundo

    conheceu uma nova ordem mundial, a

    Guerra Fria marcada pela bipolaridade

    ideolgica entre comunismo e capitalis-

    mo, dos quais URSS e EUA eram repre-

    sentantes, respectivamente. O mundo

    passou, ento, a ser uma grande rea de

    influncia desses modelos.

    Situada a 174 Km da Flrida, Cuba viveu

    uma experincia revolucionria liderada

    por Fidel Castro e Ernesto Che Guevara

    na derrubada do governo, pr-Estados

    Unidos, de Fulgencio Batista. Um modelo

    socialista foi implantado na Ilha, que logo

    passaria a ter laos econmicos e diplo-

    mticos com a URSS. Cuba passou a ser

    um exemplo para todos os movimentos

    de esquerda na Amrica Latina.

    Cuba obteve notoriedade no cenrio in-

    ternacional aps a derrubada do governo

    de Batista e com o episdio da Baa dos

    Porcos, quando da invaso da Ilha por

    mercenrios, mariners e anticastristas,

    financiados pelos EUA. A derrota norte-

    -americana naquela ocasio resultou no

    embargo econmico a Cuba, que dura

    at os dias atuais.

    Alguns jovens da poca passaram a ter

    na figura de Che Guevara um modelo de

    aventura, audcia e ao. Esses jovens,

    espalhados por toda Amrica Latina, mi-

    litavam em partidos de esquerda, fato

    que preocupava as autoridades latino-

    -americanas aliadas ao capitalismo norte-

    -americano e ao prprio governo dos

    EUA. Assim, o governo de John F. Kene-

    dy, em nome da hegemonia no continen-

    te, lanou as bases para uma integrao

    dos pases latino-americanos nos aspec-

    tos poltico, econmico, social e cultural

    frente ameaa sovitica no continente.

    Esse projeto, promulgado na Carta de

    Punta del Leste, em 1961, levou o nome

    de Aliana para o Progresso.

    COMO ESTAVA O BRASIL?No Brasil, o governo de Joo Goulart

    (1961-1964) defendia as reformas de

    base. Tratava-se de mudanas estruturais

    nos setores bancrio, fiscal, urbano, ad-

    ministrativo, agrrio e universitrio. Essas

    mudanas eram vistas pelos segmentos

    mais conservadores da sociedade brasi-

    leira como sendo vinculadas ideologia

    socialista. Dessa maneira, tais reformas

    marcaram o incio da articulao entre

    alguns segmentos da sociedade civil e os

    militares para a derrubada de Joo Gou-

    lart da presidncia da Repblica.

    Em 31 de maro de 1964, o golpe foi

    concretizado e se instaurava no Brasil

    um perodo de exceo de liberdades e

    de predominncia, cada vez mais intensa,

    da violncia por parte dos militares contra

    grupos e pessoas que resistiam ao novo

    regime, instalado por meio do golpe.

    AS FACES DA VIOLNCIAO governo militar inaugurado pelo ge-

    neral Hugo Castelo Branco foi marcado

    por uma sucesso de Atos Institucionais,

    com o objetivo de punir, censurar, extin-

    guir partidos polticos e exiliar cidados

    que eram tidos como ameaa ao novo

    regime. Entre esses Atos Institucionais,

    o mais violento foi o Ato Institucional

    no 5, assinado em 13 de dezembro de

    1968 pelo ento presidente, General Ar-

    thur da Costa e Silva. As prerrogativas do

    AI-5 suspendiam os direitos polticos de

    qualquer cidado por 10 anos em caso

    de manifestao contra o regime. Nesse

    caso, tambm seria suprimido o direito

    a habeas corpus, o que na prtica signi-

    ficaria a priso efetiva de manifestantes

    sem que eles pudessem recorrer aos seus

    direitos constitucionais.

    A sociedade brasileira, mesmo antes

    do AI-5, vivia diante de atos arbitrrios,

    como prises e torturas. Considerado a

    primeira vtima da ditadura, o estudante

    Edson Luis de Lima Souto foi assassinado

    pela polcia militar no dia 28 de maro de

    1968, no restaurante Calabouo, no Rio

    de Janeiro. Esse restaurante tinha um ca-

    rter popular e era mantido pelo governo

    DITADURA

    REVISTA PILOTIS | 23

  • para atender estudantes carentes. Ali, as

    manifestaes contra a m qualidade da

    alimentao eram constantes. E foi em

    uma dessas manifestaes que Edson

    Luis foi assassinado, o que causou grande

    comoo social.

    Nesse momento, as ruas passaram a ser

    palcos de manifestaes contra o regime

    militar e todos os abusos contra a popu-

    lao. Em 26 de junho de 1968, o Rio de

    Janeiro foi o cenrio de um protesto con-

    tra as mortes, as prises polticas e a pri-

    vatizao do ensino. Esse protesto ficou

    conhecido como a Passeata dos Cem mil,

    que tinha frente intelectuais, artistas,

    religiosos e estudantes.

    Tamanho descontentamento com o regi-

    me resultou na luta armada organizada

    por setores de partidos polticos que vi-

    viam na ilegalidade, como MR-8, PC do

    B, ALN, entre outros.

    Eram tempos de clandestinidades e de-

    senvolvimento econmico. Na msica,

    Chico Buarque de Holanda muitas vezes

    apresentava suas letras sob o pseudnimo

    de Julinho da Adelaide, para driblar os

    censores da Polcia Federal. No esporte, a

    conquista do Tricampeonato Mundial de

    Futebol foi utilizada pelo governo do pre-

    sidente, General Emlio Garrastazu Mdi-

    ci, para camuflar a Guerrilha do Araguaia

    e as operaes da OBAN (Operao Ban-

    deirantes), rgo militar de combate

    guerrilha urbana. Com uma propaganda

    ufanista, baseada em frases como Esse

    um pas que vai pra frente ou Brasil,

    ame-o ou deixe-o, o Pas vivia o chama-

    do Milagre Econmico, com a construo

    da hidreltrica de Itaipu, da ponte Rio-Ni-

    teri, da Transamaznica e do complexo

    nuclear de Angra dos Reis, no Rio de Ja-

    neiro. No entanto, esse crescimento, que

    levou o Brasil a ocupar o lugar de 8. Eco-

    nomia do mundo, no chegou maioria

    da populao, ou seja, no houve distri-

    buio de renda e se tornou uma herana

    inflacionada para o prximo presidente,

    General Ernesto Geisel.

    INCIO DA MUDANAResponsvel por dar incio ao processo

    de abertura poltica no Brasil, com a volta

    do pluripartidarismo, Geisel ainda viveria

    dias de terror no seu mandato, nos quais

    ocorreram os assassinatos do editor che-

    fe da TV Cultura, Wladimir Herzog, e do

    lder sindical Manuel Fiel Filho. Esses atos

    brutais foram atribudos aos militares

    pertencentes linha dura do Exrcito.

    Inconformado com tais aes, Geisel de-

    mitiu o ministro das Foras Armadas. O

    ltimo presidente militar, Joo Batista de

    Oliveira Figueiredo, garantiu a Anistia de

    presos polticos e exilados e entregou o

    governo a um civil. Porm, ainda no foi

    daquela vez que o povo brasileiro votou

    para escolher seu presidente.

    A emenda constitucional que pedia elei-

    es diretas, encaminhada ao Congresso

    Nacional pelo deputado Dante de Olivei-

    ra, no foi aprovada pelos parlamentares,

    mesmo depois de uma srie de comcios

    realizados por todo o pas, que levaram

    milhes de pessoas s ruas. O voto foi

    indireto e o Congresso Nacional elegeu

    o primeiro presidente civil, o mineiro

    Tancredo Neves, que, no entanto, no

    assumiu o cargo, pois faleceu em 21 de

    abril de 1985. Em seu lugar, assumiu o

    vice-presidente Jos Sarney, encerrando-

    -se, assim, o regime militar no Brasil. Em

    1988, foi promulgada a nova Constitui-

    o brasileira, o marco de uma nova era

    na poltica nacional, que garantia a par-

    ticipao mais efetiva da populao na

    poltica brasileira, com a instituio do

    voto para pessoas a partir de 16 anos e

    da realizao de eleies diretas para pre-

    sidente em 1989.

    Ao passo que a passeata dos Cem Mil,

    em junho de 1968, levou para as ruas pa-

    lavras de ordem contra o regime militar e

    todas as suas barbaridades, as manifes-

    taes de junho de 2013 apontaram um

    novo rumo no que se refere participa-

    o do cidado na poltica nacional; des-

    sa vez sem o engajamento em partidos

    polticos, mas alerta a todas as carncias

    que atingem a sociedade brasileira. O

    movimento comeou contra o aumen-

    to de R$ 0,20 nas passagens de nibus,

    mas tinha muito mais a dizer, alm das

    questes referentes ao transporte pbli-

    co. Espera-se que tal iniciativa no seja

    ofuscada pela violncia praticada por

    grupos que tentaram desestabilizar esse

    movimento, que teve incio nas redes so-

    ciais e que assumiu um carter pacfico,

    envolvente e cvico.

    Os novos protagonistas que ocuparam

    as ruas do Pas em 2013 tm pela frente

    uma longa jornada para garantir a justia

    e a liberdade. Cabe a essas novas gera-

    es lembrar do golpe militar de 1964

    no como um simples fato histrico, mas

    como uma oportunidade de reflexo

    que busque a preservao de ideais que

    garantam a democracia no Brasil. Que

    aqueles que tombaram em nome da li-

    berdade durante a ditadura militar sejam

    sempre lembrados como cidados que

    deram incio reconstruo da cidadania

    do povo brasileiro.

    DITADURA

    24 | REVISTA PILOTIS

  • HORA DA

    ESCOLHAO EVENTO PROCURA ESCLARECER DVIDAS E MOSTRAR

    A REALIDADE DOS CURSOS MAIS PROCURADOS DAS UNIVERSIDADES, BEM COMO DO MERCADO DE TRABALHO.

    Os colgios da Rede Jesuta de Educao de So Paulo realiza-ram, neste primeiro semestre, a 13. edio do Frum de Profisses, divi-

    dido em trs ciclos que englobam as reas

    de Exatas e Tecnologias / Humanas e Artes

    / Biolgicas e Sade. O evento, que ocorre

    todos os anos, uma das etapas da orien-

    tao profissional no Ensino Mdio.

    Seu intuito convidar antigos alunos,

    pais de alunos e profissionais de algumas

    faculdades para conversar com estudan-

    tes do Ensino Mdio, que se veem diante

    do desafio da sua escolha profissional. Os

    colgios participantes so o So Lus e o

    So Francisco Xavier. As escolas convida-

    das so a E.E. Caetano de Campos, a E.E.

    Alexandre de Gusmo, a E.E. Visconde de

    Itana e a E.E. Nossa Senhora da Glria.

    Essa troca de experincias busca esclare-

    cer dvidas e fornecer informaes para

    uma escolha consciente quanto carreira

    profissional, universidade e ao projeto

    de vida. Os convidados abordam questes

    como o processo de escolha da profisso,

    a formao e as atribuies do profissio-

    nal, as possibilidades de atuao e tendn-

    cias do mercado de trabalho, entre outras.

    Durante a conversa com os alunos, so

    discutidos alguns tpicos:

    - O processo de escolha da profisso para

    o vestibular (durante o Ensino Mdio);

    - Escolha da universidade;

    - Experincias na faculdade, durante a

    graduao;

    - Mercado de trabalho;

    - Competncias e habilidades para de-

    sempenhar um papel na sociedade, como

    agente de transformao social, por meio

    da profisso.

    Confira todas as fotos dos trs dias de Frum de

    Profisses em nosso lbum especial no Flickr:

    www.flickr.com/saoluis/sets

    VEJA MAIS NO FLICKR

    POR ACIDINIZ SILVA,ASSISTENTE PEDAGGICO DO ENSINO MDIO.

    FOTO RONALDO HIPLITO

    FRUM DE PROFISSES

    REVISTA PILOTIS | 25

  • FAA VOC MESMO

    Para visualizar todas as fotos do passo a passo, acesse

    o lbum Colar de retalhos no nosso Flickr:

    www.flickr.com/photos/saoluis/sets

    PASSO A PASSO DETALHADO NO FLICKR

    1Rasgue pequenas pores das folhas de

    jornal com as mos e, com esses pedaos,

    faa pequenas bolinhas.

    2Uma vez escolhido o pedao de tecido,

    desenhe, com a caneta esferogrfica e

    com o auxlio da rgua, um quadrado de

    10 cm. Recorte-o.

    3Coloque algumas bolinhas de papel no

    centro do quadrado de tecido e feche-

    -o, formando uma pequena trouxa.

    importante lembrar que a quantidade de

    bolinhas de jornal que preencher a trou-

    xinha varia de acordo com o tamanho das

    bolinhas de papel produzidas o impor-

    tante que ela esteja cheia o suficiente

    para fechar.

    ENFEITANDO COM

    26 | REVISTA PILOTIS

  • FAA VOC MESMO

    Nesta edio, as equipes da revista Pilo-

    tis e do Integral prepararam um passo a

    passo superdivertido e fcil para ser fei-

    to em casa: um colar de retalhos! Em-

    barque conosco e divirta-se produzindo

    esse acessrio que pode ser usado em

    festas infantis ou como componente de

    uma fantasia.

    4Corte um pedao de barbante de aproxi-

    madamente 1 m (o tamanho do barbante

    depende do comprimento desejado do

    colar aconselhamos medir antes de re-

    alizar o corte, lembrando que o barbante

    vai diminuindo conforme o colar vai sen-

    do feito). Mea aproximadamente 5 cm

    de uma das pontas e, nessa localizao,

    amarre a primeira trouxinha lembran-

    do-se de sempre dar ns duplos.

    5Repita o processo para fazer outras trou-

    xinhas, e amarre-as ao mesmo fio de bar-

    bante, sempre deixando uma distncia

    de aproximadamente quatro dedos entre

    as trouxinhas. Para o seu colar ficar mais

    colorido, voc pode utilizar diferentes es-

    tampas de tecido!

    6Ao amarrar a ltima trouxinha, certifique-

    -se de que haja uma sobra de aproxima-

    damente 5 cm at a ltima ponta. Basta

    amarrar as duas pontas do barbante e o

    seu colar est pronto!

    VOC VAI PRECISAR DE:- folhas de jornal;

    - pedaos de tecido (com texturas e

    estampas a sua escolha);

    - 1 tesoura sem ponta;

    - 1 rolo de barbante;

    - 1 caneta esferogrfica;

    - 1 rgua.

    REVISTA PILOTIS | 27

  • CULTURA

    NA NATUREZA SELVAGEMA histria de Christopher McCandless, um jovem

    recm-formado, passa-se no incio da dcada de

    1990. Decidido a buscar a liberdade, ele resolve

    fazer uma grande viagem ao redor dos Estados

    Unidos, apenas com a mala e a roupa do corpo,

    conhecendo pessoas que acabam mudando sua

    vida, da mesma forma que a sua presena tam-

    bm modifica as delas. Aps dois anos de estrada,

    ele resolve ir ao Alasca e viver consigo mesmo.

    Baseado em fatos reais, a histria de Chris traz

    um questionamento importante sobre o que li-

    berdade e felicidade dentro e fora de uma vida

    em sociedade.

    Ttulo original: Into the wild

    Gnero: Drama

    Classificao: 12 anos

    VOC SE FOI...MAS EST EM MEU CORAOJulia nunca conheceu seu av materno. Mas h

    um lugar especial reservado a ele em seu cora-

    o. Essa histria trata de uma pequena garota e

    das pessoas que esto ao seu redor. Elas a amam

    muito e esto sempre lhe ensinando coisas novas.

    Porm, Julia pensa em seu av, aquele que no co-

    nheceu. Mesmo nunca tendo ensinado nada a ela,

    mesmo no sabendo exatamente como ele era, Ju-

    lia o ama, pois ele amava sua vov e sua mame.

    Se no fosse por ele, ela no existiria, e ela sabe

    que ele tambm a ama e que a est protegendo

    de onde estiver.

    Autor: Sanja Pregl

    Ilustrao: Maja Lubi

    Editora: Bicho Esperto

    QUAL A

    VELOCIDADE QUE

    UM TIRANOSSAURO

    REX ATINGIA?

    Lembra-se da cena

    do filme O Parque

    dos Dinossauros em

    que o Tiranossauro

    Rex persegue um jipe

    a 80 km/h? Coisa de

    cinema. O bilogo

    John Hutchinson, da

    Universidade Stanford,

    e o engenheiro

    Mariano Garcia, de

    Cornell, garantem

    que o mais famoso

    carnvoro era to

    rpido como uma

    galinha: a velocidade

    do animal extinto era

    de, no mnimo, 16

    km/h (como a de um

    camundongo), e de,

    no mximo, 40 km/h

    (a mesma que a de um

    cachorro).

    28 | REVISTA PILOTIS

  • CULTURA

    PARA GRANDES, PEQUENOS E PEQUENINOSHouve uma poca mgica em que as crianas corriam quintal afora, subiam

    em rvores e faziam novos amigos, enquanto seus pais jogavam conversa

    fora, esperando um bolinho caseiro sair do forno. O espao Mamusca busca

    resgatar esse ambiente, procurando integrar pais e filhos em brincadeiras no

    jardim e prximas jabuticabeira, ou na rea interna, que lembra bastante

    uma casa de vov. Trata-se de um espao de brincadeira para toda famlia,

    com oficinas e cursos a serem realizados tanto pelos adultos quanto pelas

    crianas, como atividades de circo, culinria, marcenaria, relaxamento e artes.

    O local ainda conta com caf e acesso internet gratuito.

    MAMUSCA

    De tera a sbado, das 9h s 18h. Rua Joaquim Antunes, 778 - Pinheiros.

    Ingressos: de R$ 15 a R$ 75 (aceitam-se cheques e os cartes Diners, Master-

    Card e Visa). Tel: (11) 2362-9303. Classificao: recomendado para crianas

    de 3 meses a 6 anos. Evento permanente.

    COMIDINHAS DIRETO DO TRAILERPara quem f de comidinhas de rua, h uma grande novidade no bairro

    do Butant. No final de maio, chegou regio o Butantan Food Park, um

    espao que rene trucks, trailers e barracas que servem comidas e bebidas

    por at R$ 25. Com capacidade para at 25 expositores, a novidade funciona

    como uma praa de alimentao bastante agradvel: alm das barracas, ofe-

    rece mesas e bancos de madeira com ares de piquenique para os clientes. As

    comidas so muito variadas desde os clssicos cachorros-quentes at opes

    mais requintadas, como os temakis.

    BUTANTAN FOOD PARK

    De segunda a quarta, das 11h s 16h; de quinta a sbado, das 11h s 22h; do-

    mingo, das 11h s 20h. Rua Agostinho Cantu, 47, Butant. Preos: at R$ 25

    REVISTA PILOTIS | 29

  • DE CABEA PARA BAIXO

    UMA VIAGEM UM BOM MOMENTO PARA REPENSAR ALGUMAS COISAS DA VIDA. MAS, QUANDO DECIDI FAZER UM INTERCMBIO DE UM ANO NO JAPO, COM DIREITO A MOCHILO PELA SIA, NO SABIA O QUANTO EU REPENSARIA

    MINHAS ESCOLHAS.

    POR RENATA ROG,ANTIGA ALUNA DO CSL E ESTUDANTE DE

    JORNALISMO DA USP.

    ANTIGO ALUNO

    30 | REVISTA PILOTIS

  • Eram trs da manh quando Danilo me acordou. As luzes j estavam acesas e todos pegavam suas ma-las e desciam do nibus apressados.

    Chegamos ele me disse.

    Hmmn...? foi minha resposta, mas ele

    j estava de p com a mochila nas costas.

    No escuro, enquanto ramos aborda-

    dos por dezenas de pessoas oferecendo

    transporte e hotel aos recm-chegados,

    tentvamos decidir o que fazer.

    Eu no entendo os nibus noturnos de

    Myanmar. Por que todos saem s 19h se

    vo chegar no meio da noite?

    No sei, mas o que , n? Temos que

    ver o que vamos fazer at amanhecer.

    Negocivamos com os homens que nos

    ofereciam transportes usavam saias

    compridas (chamadas longyi, a roupa tra-

    dicional do Pas) e tinham as bochechas

    pintadas com uma espcie de tinta bran-

    ca (maquiagem tradicional para pro-

    teo contra o Sol). Tentvamos explicar

    que no precisvamos de hotel, apenas

    de um lugar para esperar o Sol nascer.

    No temos lugares abertos vinte e qua-

    tro horas, dizia um deles, em um ingls

    quebrado. melhor vocs ficarem em

    um hotel, meu amigo tem um muito

    bom, no caro...

    A essa altura da viagem, estvamos can-

    sados de hotis de amigos muito bons,

    que no so caros nossa experincia

    nos ensinou que eles no eram bons e

    eram caros.

    Estvamos em Nyaung Swhe, a maior

    cidade beira do famoso e enorme

    Lago Inle, na regio de Shan, leste de

    Myanmar. O lago, com mais de 100 qui-

    lmetros de extenso, povoado pelo

    grupo tnico Intha, que quer dizer lite-

    ralmente filhos do lago. E filhos so,

    de fato: em toda sua extenso, pessoas

    vivem em vilas flutuantes cujas ruas so

    canais, carros so barcos, e quintais, pis-

    cinas. Alm disso, o lugar famoso por

    ser casa de um nascer e de um pr do Sol

    que so dos mais bonitos do Pas.

    Eu conheo um lugar que est aberto,

    um rapaz no muito diferente dos outros

    nos disse, j quando decidamos esperar

    na minscula rodoviria (um ponto de

    nibus apenas com um telhado e uma

    luz). Uma senhora faz samusas (espcie

    de pastis recheados com uma mistura

    condimentada de batata, ervas arom-

    ticas e vegetais) e as vende no caf da

    manh para pessoas que acordam muito

    cedo. Ela tem de comear a frit-las ago-

    ra, ento estar acordada. L vocs po-

    dem comer e esperar o Sol nascer.

    Uma viagem um bom momento para

    repensar algumas coisas da vida. Mas,

    quando decidi fazer um intercmbio de

    um ano no Japo, com direito a mochilo

    pela sia, no sabia o quanto eu repen-

    saria minhas escolhas.

    Vir para c foi uma escolha com um ob-

    jetivo oficial bastante especfico: escre-

    ver meu trabalho de concluso de curso

    (TCC), uma dissertao sobre jornalismo

    de viagem, usando o Japo como exem-

    plo prtico. Precisava ser assim, do con-

    trrio seria difcil justificar um intercm-

    bio to tardio normalmente a USP

    Comecei a pesquisar

    que pases tinham

    convnios com a USP

    e ficava imaginando

    como seria visit-los.

    ANTIGO ALUNO

    REVISTA PILOTIS | 31

  • prefere selecionar alunos dos primeiros

    anos para as vagas dos convnios, a fim

    de que eles voltem com tempo de divi-

    dir o que aprenderam fora do Pas com a

    comunidade universitria. Eu, em pleno

    quarto ano de faculdade, e faltando ape-

    nas um para me formar, no me encaixa-

    va nesse perfil.

    Mas no era isso que iria me impedir:

    eu precisava daquela mudana. J ha-

    via morado fora do Brasil antes, quando

    tranquei a faculdade para passar alguns

    meses em Nova York estudando ingls,

    depois de me decepcionar com o curso

    j no primeiro ano, e senti que estava

    na hora de mais uma experincia como

    aquela. Eu aprendi tanto durante aqueles

    meses no s ingls, mas a viver sozi-

    nha, superar meus medos, entender um

    pouco mais como o mundo funciona fora

    do Brasil. Alm disso, foi l que descobri

    o jornalismo de viagem de alto nvel, com

    reportagens profundas e mais focadas

    em outros aspectos de viagem que no o

    turismo: o mesmo que queria retratar em

    meu TCC e que eu no encontrei nas re-

    vistas brasileiras em que trabalhei quando

    voltei para o Brasil. O intercmbio seria

    ento uma espcie de escapatria de um

    curso e de um mercado de trabalho de-

    cepcionantes, e uma experincia emocio-

    nante que poderia me ajudar e me esti-

    mular a fazer o tipo de jornalismo que eu

    queria fazer.

    Comecei a pesquisar que pases tinham

    convnios com a USP e ficava imaginan-

    do como seria visit-los. Eu queria ir para

    longe, o mais longe possvel, no lugar

    mais diferente possvel. Aps algumas

    tentativas frustradas com convnios com

    a China, Turquia e Coreia, e depois de

    muita burocracia e noites ansiosas, em

    claro, finalmente consegui uma vaga no

    convnio perfeito: um curso sobre lngua

    e cultura japonesa para alunos estrangei-

    ros em Kyoto. As aulas seriam contadas

    para minha graduao no Brasil, e eu po-

    deria aprender tudo sobre a lngua e cul-

    tura japonesas durante o prprio curso, o

    que facilitaria meu TCC.

    s vsperas da viagem, eu no podia estar

    mais nervosa. Antes de morar em Nova

    York, eu j havia visitado a cidade, ento

    sabia o que esperar. Mas, Kyoto, Japo?

    Nunca havia sequer considerado morar

    aqui antes de a oportunidade surgir. E se

    eu no me adaptasse? E se eu no gos-

    tasse? Mas eu no conseguia nem consi-

    derar desistir de tudo e deixar a ideia de

    lado. Se eu tinha alguma certeza, era a de

    que era aquilo que eu queria fazer.

    E, quando cheguei ao Japo, o tempo

    voou. Foram alguns dos momentos mais

    divertidos, interessantes e felizes que j

    tive. A Universidade de Estudos Estran-

    geiros de Kyoto (KUFS), na qual estou

    estudando, uma faculdade de lngua

    ANTIGO ALUNO

    32 | REVISTA PILOTIS

  • estrangeira onde alunos japoneses esco-

    lhem entre ingls, francs, alemo, chi-

    ns e at portugus, e alunos de diversos

    pases vm aprender japons. Por isso,

    conhecer pessoas novas foi muito mais

    fcil do que tinha imaginado e fiz gran-

    des amigos, de vrios pases.

    Mas, ao longo do tempo, percebi que,

    apesar de eu ter me divertido e aprendi-

    do muito com eles, nossa relao no era

    como a que tenho com meus grandes

    amigos no Brasil. claro que no poderia

    ser meu grupo de amigos no Brasil se co-

    nheceu no So Lus em 2007 e 2008, e

    muito prximo at hoje. Alm disso, j es-

    tava sentindo muitas saudades da minha

    famlia, mesmo depois de eles terem vindo

    me visitar durante o Natal e Ano-novo.

    Quando conversava sobre isso com meus

    amigos do Japo e contava a eles que

    meus fins de semana no Brasil eram cheios

    de almoos de famlia e noitadas de pizza,

    cerveja e vinho com meus melhores ami-

    gos, muitos me diziam que no tinham

    esse contato frequente com suas famlias

    ou um grupo to extenso de amizades du-

    radouras. Foi quando comecei a perceber

    que o que eu achava normal e corriqueiro

    talvez no fosse to comum assim.

    Terminado o primeiro semestre, eu estava

    prestes a embarcar para minha viagem

    de dois meses pela sia durante as frias

    de primavera. O roteiro que passei meses

    planejando com amigos que, como eu,

    queriam aproveitar o tempo para viajar

    seria o seguinte: dez dias no Nepal e 4 no

    Buto com Elva, uma amiga peruana; 2

    dias sozinha em Hong Kong e Macau; 10

    dias na Indonsia, onde encontrei Danilo,

    niteroiense da Universidade Federal Flu-

    minense, que me acompanhou no resto

    da viagem; 11 dias nas Filipinas com ele e

    Ada, nossa amiga espanhola; 10 dias no

    Vietn, 5 no Camboja, 5 em Bangkok e 8

    em Myanmar. Para finalizar, uma conexo

    de apenas um dia em Kuala Lumpur an-

    tes de voltar ao Japo.

    Logo antes de embarcar, no entanto, eu

    comecei a pensar novamente em meu

    TCC e no fato de, j na metade do inter-

    cmbio, no ter nem comeado a faz-

    -lo. Isso trouxe de volta toda minha vida

    no Brasil, da qual at agora, com tanta

    coisa acontecendo, eu nem me lembrava

    mais. E acabei levando isso comigo para

    a primeira parada do roteiro: Kathmandu.

    Pelos nossos caminhos entre Nepal e Bu-

    to, Elva e eu conversvamos sobre tudo.

    No Peru, ela estudou Direito por 3 anos,

    mas decidiu que no era o que ela queria

    fazer e mudou para Sociologia, com foco

    em sistemas educacionais. Veio para o Ja-

    po meio a turismo, meio a estudo: que-

    ria aprender sobre a cultura e o sistema

    educacional japoneses. Entre passeios pe-

    los mercados de Kathmandu, pelas trilhas

    do parque nacional de Chitwan nas cos-

    tas de um elefante, de barco no lago de

    Pokhara vendo a cordilheira do Himalaia,

    conversvamos sobre a vida no Japo, so-

    bre como seria voltar a nossos pases de

    origem e sobre o que planejvamos fazer.

    Ela, que s fez um semestre de intercm-

    bio, voltaria ao Peru dentro de um ms.

    Como voc est se sentindo, to perto

    de voltar para casa?, perguntei a ela

    quando decidimos descansar um pouco

    em meio subida da montanha do mo-

    nastrio de Taktsang, em Paro, Buto. O

    trekking, que dura trs horas, chega ao

    lugar mais icnico do Pas, apelidado de

    Tigers Nest. Segundo a lenda, o santo

    budista Guru Padmasambhava expulsou,

    montado em um tigre alado, um dem-

    nio que aterrorizava a montanha. Apro-

    veitvamos a vista do vale e matvamos

    a sede com a neve que havia cado na

    ANTIGO ALUNO

    Se eu tinha

    alguma certeza,

    era a de que era

    aquilo que eu

    queria fazer.

    REVISTA PILOTIS | 33

  • noite anterior e que, agora, com o calor

    do Sol, derretia no topo das rvores. Ela

    respondeu, num ingls misturado com

    espanhol: Renatia, vai ser diferente

    agora, n?.

    Como?

    Eu no tinha certeza da minha escolha

    por Sociologia. No sabia se abandonar o

    Direito seria a melhor escolha. Mas, ago-

    ra, vivendo no Japo e viajando pela sia,

    pude ver vrias coisas que aprendi na

    prtica, e isso me deixou muito animada

    com a minha profisso.

    Isso me fez pensar se eu me sentia assim

    com o jornalismo. Algo que estava me in-

    comodando muito era o fato de que eu

    nem havia pensado em fazer nada rela-

    cionado a jornalismo durante todo o tem-

    po em que estive viajando, tanto no Ja-

    po como na sia. Quer dizer, eu sempre

    pensei que minha falta de empolgao

    com o curso e com as possibilidades de

    emprego existia porque eu no conseguia

    fazer o jornalismo pelo qual eu realmente

    tinha interesse. Mas, agora, estando aqui

    exatamente para isso, com todo o tempo

    e recursos a meu dispor, se isso fosse real-

    mente o que eu quisesse fazer, eu j no

    teria comeado?

    Quando encontrei o Danilo, em Bali,

    havia tido um tempo sozinha em Hong

    Kong e Macau para pr os pensamen-

    tos em ordem. Decidi comear a prestar

    ateno no porqu de eu estar viajan-

    do se no era para escrever a respeito,

    ento para que era? E a cada aventura

    que tnhamos dirigindo uma moto pela

    primeira vez para ver um templo incrvel

    e pegando uma tempestade tropical no

    meio de uma estrada de terra minscula

    no interior de Yogyakarta, na Indonsia;

    nadando com tubares-baleia e tentan-

    do lidar com a polcia filipina em Cebu,

    quando roubaram meu celular; apren-

    dendo a mergulhar no Vietn e entrando

    em choques culturais um pouco assusta-

    dores em Myanmar eu chegava con-

    cluso de que o porqu no importava. O

    importante era que eu estava l.

    Quando o Sol estava perto de nascer,

    agradecemos com sorrisos a senhora das

    samusas cujo nome nunca descobrimos

    porque ela no falava uma palavra em in-

    gls e entramos no jeepney do rapaz

    que nos havia indicado o local. Quando

    chegamos beira do enorme lago, en-

    tramos apressados no barco comprido e

    estreito que nos levaria para o tour da fa-

    mosa vila flutuante da cidade. Em pouco

    tempo, chegamos a um ponto propcio. O

    Sol j estava visvel, e tingia o cu e a gua

    de laranja. Pescadores faziam seu traba-

    lho em p em seus pequenos barcos, com

    estranhas redes cnicas de pesca.

    De fato, o nascer do Sol mais bonito

    que eu j vi, pensei. E, junto com isso,

    pensava que talvez o jornalismo no seja

    mesmo para mim, como o Direito no era

    para Elva, e que eu no sabia o que eu

    queria fazer no lugar dele. E que o que

    eu queria mesmo era poder achar algum

    jeito de incluir em memrias incrveis mi-

    nhas pessoas queridas, e que era impor-

    tante preserv-las.

    Agora, de volta ao Japo, me sinto de ca-

    bea para baixo. No sei o que quero fa-

    zer da vida profissionalmente, nem como

    incluir as pessoas que eu quero manter

    em minha vida nos meus sonhos. Viajar

    no te livra de seus problemas. Viajar te

    sacode e acaba com todas as suas cer-

    tezas. Mas, de algum jeito, isso te mos-

    tra que h muitos caminhos para seguir,

    alm daquele em que voc comea, e te

    ajuda a enxergar mais claramente o que

    voc quer e o que voc no quer.

    Agora, de volta ao

    Japo, me sinto de

    cabea para baixo.

    ANTIGO ALUNO

    34 | REVISTA PILOTIS

  • VOC PODE PARTICIPAR DA REVISTA PILOTIS N. 28!

    Envie sua sugesto de pauta, seu artigo,

    sua opinio ou sua crtica para

    [email protected]