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Revista Latino-Americana de História · PDF fileRevista Latino-Americana de História Vol. 1, nº. 3 – Março de 2012 Edição Especial – Lugares da História do Trabalho

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  • Revista Latino-Americana de Histria Vol. 1, n. 3 Maro de 2012 Edio Especial Lugares da Histria do Trabalho by RLAH

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    O que padro de vida: definio de um objeto para a historiografia do

    trabalho.

    Nauber Gavski da Silva*

    Resumo: A inteno desse trabalho introduzir o objeto de pesquisa do padro de vida dos

    trabalhadores, explorado com maior nfase em outros contextos historiogrficos que no o

    brasileiro. So apresentados alguns exemplos dessas abordagens, como o caso estadunidense,

    latino-americano, e o clssico debate sobre o caso ingls consolidado nas obras de Thompson

    e Hobsbawm, que ainda hoje pauta estudos histricos sobre condies de vida dos

    trabalhadores, no qual ficou patente a necessidade de melhorar as ferramentas para a anlise

    sobre o tipo de vida que as pessoas levavam. A seguir, demonstra-se o percurso do conceito

    de padro de vida no campo da economia a partir dos anos 1960, consolidando-se nos anos

    1990 enquanto um novo conceito, chamado de qualidade de vida, e que passa a agregar novos

    indicadores para medir o tipo de vida das pessoas, no mais restritos renda. Em todo caso,

    por mais que esta renovao sobre o campo das condies de vida dos trabalhadores tenham

    ganho espao em instituies como a ONU, que passou a comparar a qualidade de vida nos

    pases a partir do ndice de Desenvolvimento Humano, o padro de vida parece ainda no ter

    se consolidado como objeto historiogrfico dos pesquisadores dos mundos do trabalho no

    Brasil, salvo uma ou outra exceo. Sugiro que se deva analisar a criao do salrio mnimo

    entre os anos 1930 e 1940 e acompanhar sua evoluo para percebermos a centralidade do

    tema na relao entre Estado, patres e operrios nas disputas em torno da economia e da

    poltica.

    Palavras-Chaves: Padro de Vida. Condies de Vida. Histria do Trabalho.

    Abstract: The intention here is to introduce the object of workers standard of living, much

    better studied outside Brazilian historiography. A few examples of this approach are

    presented, such as the American, Latin-American and the classic studies about English

    context, consolidated in Thompson reviews about the Industrial Revolution (from where we

    found out the need to improve our analytic tools to explain the kind of life people used to

    have). Then is presented the path followed by that concept in economics from the 1960s to

    * Doutorando em Histria pela UFRGS, Bolsista CNPq.

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    the 1990s, when it was transformed into a new concept. Now called life quality, this notion

    embedded indicators to measure the kind of life people had, not anymore restraint to income.

    Although this renewed approach had conquered space in institutions such as the United

    Nations (comparing life quality among countries through the Human Development Index), the

    standard of living seems to be not consolidated as an historical object to workers scholars in

    Brazil. My suggestion is that we should focus on minimum wages creation between 1930s

    and 1940s. Afterwards, we shall follow its evolution in order to perceive the kernel role

    played by the theme in the social relations between State, employers and workers fighting for

    political and economical issues.

    Keywords: Standard of Living. Life Conditions. Labor History.

    Introduo

    A inteno desse trabalho introduzir o objeto de pesquisa do padro de vida dos

    trabalhadores, explorado com maior nfase em outros contextos historiogrficos que no o

    brasileiro. Inicio com o debate clssico sobre a Revoluo Industrial, que tem em Thompson

    ainda o referencial para estudos deste tipo. A seguir, demonstro o percurso do conceito de

    padro de vida no campo da economia a partir dos anos 1960, consolidando-se nos anos 1990

    enquanto um novo conceito, chamado de qualidade de vida. Pondero ainda os usos

    historiogrficos do objeto nos Estados Unidos, Amrica-Latina e Brasil. Ao final, sugiro que

    se deva analisar a criao do salrio mnimo e acompanhar sua evoluo para percebermos a

    centralidade do tema na relao entre Estado, patres e operrios nas disputas em torno da

    economia e da poltica.

    Thompson no Debate Sobre Padro de Vida da Classe Operria Inglesa

    No clssico dA formao da classe operria inglesa, de 1963, Thompson est

    inserido nos debates em torno da controvrsia em torno do padro de vida1. Esse autor

    chegou a concluses sobre a experincia da explorao (baseadas na deteriorao das

    condies de vida dos trabalhadores na transio do sculo XVIII para o XIX), que ao lado da

    maior opresso poltica, fora fator determinante de formao da conscincia de classe dos 1 THOMPSON, E. P. Explorao. A formao da classe operria inglesa: a maldio de Ado. Vol. 2. 4 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987. p. 32.

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    trabalhadores ingleses. Portanto, a se formaria a classe operria de fato. Thompson resumiu a

    polmica na seguinte pergunta: o padro de vida da massa popular subiu ou decaiu entre

    1780 e 1830 ou entre 1800 e 1850?2.

    O debate acadmico sobre o padro de vida fora iniciado com a publicao, entre 1913

    e 1930, pelo casal de historiadores John Lawrence e Barbara Hammond, de uma obra sobre o

    surgimento da classe operria inglesa (The town labourer, 1760-1832) que retomava de certa

    forma a abordagem de Engels (The condition of the working class in England in 1844).

    Outros historiadores e economistas criticaram a perspectiva dos Hammond, afirmando que o

    padro de vida dos trabalhadores ingleses havia aumentado com o advento da Revoluo

    Industrial3. Dentre outras respostas s crticas aos Hammond, Eric Hobsbawm props o

    questionamento dos dados das sries estatsticas levantadas por aqueles crticos,

    demonstrando que salrios e consumo de produtos foram auferidos a partir de dados

    empricos bastante escassos ou duvidosos, alm do fato de que tais autores desconsideraram

    alguns fatores importantes como o desemprego4.

    Por sua vez, Thompson respondeu aos crticos dos Hammond com o que historiadores

    espanhis chamaram de variante da qualidade de vida5. Thompson demonstrou que

    trabalhar com a ideia de padro de vida era complicado porque, se por um lado, salrios e

    artigos de consumo so mensurveis em estatsticas, por outro alguns aspectos da vida no

    so igualmente ponderveis, tais como alimentao, moradia, sade, vida familiar, cio,

    educao, lazer, disciplina e intensidade no trabalho. Enquanto que no padro de vida seria

    possvel medir quantidades, para compreendermos o modo de vida necessria uma

    2 Idem. 3 Os principais debatedores foram Sir John Harold Clapham (The economic history of modern Britain, de 1926), Dorothy George (London life in the eighteenth century, de 1930) e Thomas S. Ashton (Industrial Revolution, de 1948, contando com apoio na temtica econmica de Walt Whitman Rostow, autor de Ensays on British economy in the nineteenth century, de 1948, e na sociologia de Neil J. Smelser, autor de Social change in the Industrial Revolution, de 1959). Esses autores julgaram a viso dos Hammond (e de Engels) como catastrfica/pessimista. Em boa parte sua crtica se dirigia ao trato dos documentos e das provas. Como proposta, esse grupo de autores concedeu ateno especial a um grupo de fontes quantificveis, na tentativa de eliminar o subjetivismo das fontes qualitativas dos observadores diretos. Este fora o primeiro momento em que o debate sobre a situao de vida dos trabalhadores ganhou peso estritamente dentro dos muros ou prximo academia. Cf: LOPES, Jos Srgio Leite. Anotaes em torno do tema condies de vida na literatura sobre a classe operria. In: SILVA, Luiz Antonio Machado da (org.). Condies de vida das camadas populares. Rio de Janeiro: Zahar, 1984. (Debates Urbanos: 6). p. 21-58. 4 HOBSBAWM, Eric. O padro de vida ingls de 1790 a 1850. In: Os trabalhadores: estudo sobre a histria do operariado. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981. p. 72-112.; ___. O debate do padro de vida: um ps-escrito. Idem, p. 128-133. 5 AIZPURU, Mikel; RIVERA, Antonio. Los proprietarios del trabajo: las nuevas condiciones de vida. In: Manual de historia social del trabajo. Madrid: Siglo Veinteuno, 1994. p. 81-115.

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    descrio, e geralmente avaliao de qualidades6. Feita a crtica no captulo sobre a

    Explorao, Thompson enfatizar ao final do segundo volume de A Formao (em Padres e

    experincias) o estudo de artigos de consumo (como alimentao, vesturio e habitao), da

    sade (mortalidade) e a questo da infncia (famlia), em todo caso, sem alijar da sua anlise

    o papel das macro-estruturas, como a repartio do produto nacional entre as diversas classes.

    Desse modo, a partir da perspectiva (nomeada pelos historiadores espanhis Aizpuru e

    Rivera) da qualidade de vida, o historiador ingls se preocupou em apresentar uma anlise

    balizada por procedimentos metodolgicos adequados queles aspectos, que podem assim ser

    resumidos: no caso da alimentao e das bebidas, o autor tratou de apresentar as preferncias

    gastronmica

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