O suplício do papai noel claude lévi strauss

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    26-Jul-2016

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As festas de Natal de 1951 ficaro marcadas na Frana por uma polmica que encontrou grande repercus- so junto imprensa e opinio pblica e introduziu um tom de inusitado azedume no clima geralmente alegre dessa poca do ano. H vrios meses as auto- ridades eclesisticas, na voz de alguns prelados, j manifestavam sua desaprovao importncia cada vez maior que as famlias e os comerciantes vinham dando figura do Papai Noel.

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  • O suplcio do Papai Noel

  • Traduo Denise Bottmann

    Claude Lvi-StraussO suplciO dO papai NOel

  • 5As festas de Natal de 1951 ficaro marcadas na Frana

    por uma polmica que encontrou grande repercus-

    so junto imprensa e opinio pblica e introduziu

    um tom de inusitado azedume no clima geralmente

    alegre dessa poca do ano. H vrios meses as auto-

    ridades eclesisticas, na voz de alguns prelados, j

    manifestavam sua desaprovao importncia cada

    vez maior que as famlias e os comerciantes vinham

    dando figura do Papai Noel. Elas denunciavam uma

    preocupante paganizao do dia de Natal, desvian-

    do o esprito pblico do sentido propriamente cristo

    dessa comemorao, em favor de um mito sem va-

    lor religioso. Tais ataques aumentaram nas vsperas

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    que condenara Papai Noel como usurpador e herege. Ele foi

    acusado de paganizar a festa de Natal e de se instalar como

    um intruso, ocupando um espao cada vez maior. Censuram-

    no, sobretudo, por ter-se introduzido em todas as escolas p-

    blicas, de onde o prespio foi meticulosamente banido.

    s trs horas da tarde do domingo, o infeliz velhi nho de

    barbas brancas pagou, como muitos inocentes, por um erro

    cujos culpados eram os que aplaudiram a execuo. O fogo

    queimou suas barbas e ele se esvaiu na fumaa.

    Ao final da execuo, distribuiu-se um comunicado

    cujos principais termos eram:

    Representando todos os lares cristos da parquia, dispostos

    a lutar contra a mentira, 250 crianas, reunidas diante da porta

    principal da Catedral de Dijon, queimaram o Papai Noel.

    No se tratou de um espetculo, e sim de um gesto simb-

    lico. Papai Noel foi sacrificado em holocausto. De fato, a menti-

    ra no pode despertar o sentimento religioso na criana e no

    , de modo algum, um mtodo educativo que outros digam e

    do Natal; com maior discrio, mas igual firmeza,

    a Igreja Protestante uniu sua voz da Igreja Catlica.

    Cartas de leitores e artigos nos jornais j vinham de-

    monstrando de maneiras variadas, geralmente con-

    trrias posio eclesistica, o interesse despertado

    pelo assunto. Por fim, o ponto culminante ocorreu

    em 24 de dezembro, durante uma manifestao que

    foi descrita pelo reprter do jornal France-Soir nos se-

    guintes termos:

    papai NOel queimadO NO triO da catedral

    de dijON diaNte de criaNas de OrfaNatOs

    Dijon, 24 de dezembro (enviado do France-Soir)

    Papai Noel foi enforcado ontem tarde nas grades da Cate-

    dral de Dijon e queimado publicamente em seu trio. Essa

    execuo espetacular se realizou na presena de vrias cente-

    nas de internos de orfanatos. Ela contou com o aval do clero,

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    Praa da Libertao e que a elas se pronunciar do alto do edi-

    fcio da prefeitura, onde circular sob as luzes dos projetores.

    O cnego Kir, prefeito de Dijon, preferiu no tomar par-

    tido neste caso delicado.

    No mesmo dia, o suplcio do Papai Noel ocupou todas

    as manchetes; no houve um jornal que no comentas-

    se o episdio, e alguns como o j citado France-Soir,

    que, como se sabe, o de maior circulao na Frana

    chegaram a lhe dedicar um editorial. De modo geral,

    a atitude do clero de Dijon foi criticada, e aparente-

    mente a tal ponto que as autoridades religiosas jul-

    garam conveniente bater em retirada, ou pelo menos

    guardar certa reserva; no entanto, dizem que nossos

    ministros esto divididos a respeito da questo. Os ar-

    tigos, em sua maioria, so cheios de dedos: to bo-

    nito acreditar em Papai Noel, no faz mal a ningum,

    as crianas se divertem tanto e guardam lembranas

    escrevam o que quiserem e faam de Papai Noel o contrapeso do

    Pre Fouettard.1

    Para ns, cristos, o Natal deve continuar a ser o festejo que

    comemora o nascimento do Salvador.

    A execuo de Papai Noel no trio da catedral foi ava-

    liada de diversas maneiras pela populao e despertou vivos

    comentrios mesmo entre os catlicos.

    Alm disso, essa manifestao intempestiva corre o risco

    de ter conseqncias no previstas por seus organizadores.

    O assunto divide a cidade em dois campos.

    Dijon aguarda a ressurreio do Papai Noel assassinado

    ontem no trio da catedral. Ele ressuscitar hoje s 18 horas,

    na prefeitura. Com efeito, um comunicado oficial anunciou

    que ele convocava as crianas, como em todos os anos, para a

    1 Personagem do folclore francs que castiga as crianas que se comportam mal.

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    so eles, em Dijon e em outras partes, que passam por

    defensores do Papai Noel ameaado. Papai Noel sm-

    bolo da irreligio, que paradoxo! Pois nesse episdio,

    como se a Igreja adotasse um esprito crtico vido

    por franqueza e verdade, enquanto os racionalistas po-

    sam de guardies da superstio. Tal aparente inverso

    de papis basta para sugerir que o singelo episdio en-

    cobre questes mais profundas. Estamos diante de uma

    manifestao sintomtica de uma acelerada evoluo

    das crenas e dos costumes, primeiro na Frana, mas

    certamente tambm em outros pases. No todos os

    dias que o etnlogo encontra uma ocasio to propcia

    para observar, em sua prpria sociedade, o crescimen-

    to sbito de um rito, e at de um culto; de pesquisar

    suas causas e estudar seu impacto sobre as outras for-

    mas de vida religiosa; enfim, de tentar compreender a

    quais transformaes globais, ao mesmo tempo men-

    tais e sociais, se associam as manifestaes visveis so-

    deliciosas para a maturidade etc. Na verdade, fogem

    questo em vez de respond-la, pois no se trata de

    justificar as razes pelas quais as crianas gostam de

    Papai Noel, e sim as razes pelas quais os adultos o

    inventaram. Seja como for, so reaes to unnimes

    que, a essa altura, inquestionvel a existncia de um

    divrcio entre a opinio pblica e a Igreja. Embora seja

    um episdio mnimo, o fato importante, pois, desde a

    Ocupao, o desenrolar da histria na Frana apontava

    uma progressiva reconciliao entre a religio e uma

    opinio pblica em larga medida descrente: prova disso

    a presena, nos gabinetes do governo, de um partido

    poltico to claramente religioso como o MRP.2 Por si-

    nal, os anticlericalistas tradicionais deram-se conta da

    inesperada oportunidade que lhes era oferecida: agora

    2 Sigla de Mouvement Rpublicain Populaire, partido democrata-cristo fundado por Georges Bidault em 1944.

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    as campanhas do Exrcito da Salvao erguendo nas

    ruas e nas praas seus caldeires como se fossem poti-

    nhos de pedintes; por fim, as pessoas vestidas de Papai

    Noel para receber os pedidos das crianas nas gran-

    des lojas de departamentos. Todos esses costumes que,

    poucos anos atrs, pareciam pueris e barrocos aos

    franceses que visitassem os Estados Unidos, como um

    dos sinais mais evidentes da profunda incompatibili-

    dade entre as duas mentalidades, agora se implanta-

    ram e se aclimataram na Frana com uma facilidade e

    uma amplitude que se tornam assunto a ser estudado

    pelo historiador das civilizaes.

    Nesse campo, como em outros, estamos assistindo

    a uma vasta experincia de difuso, no muito diferente

    daqueles fenmenos arcaicos que estvamos acostuma-

    dos a estudar nos exemplos distantes do briquet piston 3

    3 Acendedor de fogo por frico.

    bre as quais a Igreja com forte tradio nesses assun-

    tos no se enganou, pelo menos enquanto se limitava

    a lhes atribuir um valor significativo.

    * * *

    H cerca de trs anos, ou seja, desde que a atividade

    econmica voltou quase ao normal, a comemorao do

    Natal assumiu na Frana uma dimenso desconhecida

    antes da guerra. Esse desenvolvimento, tanto por sua

    importncia material quanto pelas formas em que se

    apresenta, certamente resultado direto da influn cia

    e do prestgio dos Estados Unidos. Assim, vimos surgir

    os grandes pinheiros, montados nos cruzamentos ou

    nas avenidas principais, iluminados noite; os papis

    decorativos para embrulhar os presentes de Natal; os

    cartes de boas-festas, e o costume de exp-los em

    cima da lareira dos destinatrios na semana fatdica;

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    inegvel, mas no traz consigo razes suficientes para

    explicar o fenmeno. Enumeremos brevemente as

    mais evidentes: h muitos americanos na Frana, os

    quais comemoram o Natal sua maneira; o cinema, os

    digests, os romances e tambm algumas reportagens

    da grande imprensa tornaram conhecidos os costu-

    mes americanos, e estes gozam do prestgio atribudo

    potncia militar e econmica dos EUA; tampouco se

    exclui a conjectura de que o Plano Marshall tenha fa-

    vorecido, direta ou indiretamente, a importao de al-

    gumas mercadorias ligadas ao rito natalino. Mas tudo

    isso no basta para explicar o fenmeno. Costumes

    importados dos EUA impem-se a camadas da popu-

    lao que lhes desconhecem a origem; os meios ope-

    rrios, onde a influncia comunista poderia desacredi

    tar tudo o que traz a marca made in USA , os adotam

    com a mesma disposio dos demais. Assim, em vez

    de uma difuso simples, cabe invocar aquele processo

    ou da pirogue balancier.4 Mas mais fcil e ao mesmo

    tempo mais dfcil estudar fatos que se desenrolam sob

    nossos olhos, tendo como palco nossa prpria socieda-

    de. Mais fcil, porque a continuidade da experincia

    est salvaguardada, com todos os seus