o Senhor Da Luz Roger Zelazny

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Text of o Senhor Da Luz Roger Zelazny

Ttulo original: Lord of the Light Ttulo original: Lord of the Light Traduo de Maria Helena Fernandes Capa: estdios P. E. A. 1967 by Roger Zelazny 1976 by Mercury Press, Inc

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PUBLICAES EUROPA-AMRICA, LDA. Apartado 8 2726 MEM MARTINS CODEX PORTUGAL

Edio n. 35 106/3

Execuo tcnica: Grfica Europam, Lda., Mira-Sintra Mem Martins

ROGER ZELAZNY

O SENHOR DA LUZ

Para Dannie Plachta, com amizade, sabedoria e soma.

I

Conta-se que, cinquenta e trs anos depois de ter sido libertado, ele regressou da Nuvem Dourada, a fim de, mais uma vez, aceitar o desafio lanado pelo Cu de combater a Ordem da Vida e os deuses que a impunham. Os seus seguidores tinham feito preces para que ele regressasse, embora as suas oraes fossem pecaminosas. As preces no devem perturbar aquele que penetrou no Nirvana, quaisquer que tivessem sido as circunstncias que rodearam a sua partida. Os homens da tnica cor de aafro, porm, rezaram para que Manjusri. o da Espada, se reunisse novamente a eles . Conta-se que Boddhisatva ouviu... Aquele cujas aspiraes foram sufocadas. Que no possui razes. Cujo pasto o vcuo... Livre e independente... O seu caminho to ignoto Como o dos pssaros que sulcam os cus.

Dhammapada (93)

Os seus seguidores chamavam-lhe Mahasamatman e diziam que era um deus, ele, porm, preferia deixar de lado Maha- e -atman e intitulava-se Sam. Nunca pretendeu ser um deus, mas tambm nunca o negou. Sob as circunstncias, nem a confirmao nem a negao poderiam trazer benefcios, mas o silncio, sim. Por conseguinte, ele estava rodeado de mistrio. Estava-se na estao das chuvas... Na poca das torrentes caudalosas. Foi nesses dias que as oraes deles se elevaram, no dos dedos que desfiam os ns dos cordes de oraes, nem das rodas de oraes que giram, mas da grande mquina de rezar do mosteiro de Ratri, a deusa da Noite. As oraes de alta frequncia elevavam-se nos ares e atravessavam a atmosfera, atingindo aquela nuvem dourada denominada Ponte dos Deuses que circunda o mundo inteiro, reveste a aparncia de um arco-ris cor de bronze, noite, e o ponto onde o sol vermelho se torna alaranjado, ao meio-dia. Alguns dos monges punham em dvida a ortodoxia dessa tcnica de orao, mas a mquina tinha sido construda e era accionada por Yama-Dharma, escorraado da cidade Celeste; e dizia-se que, numa era remota

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ele fabricara o magnfico carro trovejante do Senhor Shiva: aquele engenho que percorria os cus expelindo borrifos de fogo no seu rasto. Apesar de cado em desgraa, Yama ainda era considerado o mais hbil dos artfices, embora ningum duvidasse de que os deuses da Cidade o fulmi nariam se tivessem conhecimento da mquina de orar. De qualquer maneira. todos sabiam que os deuses o exterminariam mesmo sem o pretexto da mquina, se um dia o tivessem sua merc. O modo como Yama resolveria o assunto com os Senhores do Karma dizia respeito ao prprio Yama, mas nin gum duvidava de que ele encontraria uma soluo. Yama tinha metade da idade da Cidade Celeste, e apenas dez dos deuses se recordavam da fundao daquela morada. Ele era ainda mais conhecedor que o Senhor Kubera no que dizia respeito ao Fogo Universal. Estes eram, no entanto, atributos secundrios. Yama era, sobretudo, famoso por outra coisa, embora poucos a mencionassem. Era alto, mas no excessivamente; robusto, mas no pesado; os seus movimentos eram lentos e harmoniosos; vestia-se de vermelho e falava pouco. Zelava pelo bom funcionamento da mquina de orar, e o gigantesco ltus de metal que instalara sobre o telhado do mosteiro girava continuamente na sua base. Uma chuva fina caia sobre o edifcio, o ltus, e a densa floresta no sop da montanha. Durante seis dias. Yama tinha oferecido muitos quilovtios de oraes, mas as descargas elctricas produzidas na atmosfera impediram que elas fossem ouvidas nas Alturas . Num murmrio quase inaudvel, invocou as mais eminentes divindades da fertilidade, apelando para os seus atributos mais notveis. O ribombar do trovo respondeu s suas preces, e o pequeno macaco que assistia deu uma risada trocista. As tuas oraes e as tuas pragas produzem o mesmo efeito, Senhor Ya ma observou o macaco. Ou seja; nada. Precisaste de dezessete incarnaes para encontrar essa verdade ? perguntou Yama Agora compreendo por que ainda no passaste de macaco. Nada disso replicou o macaco, que se chamava Tak. A minha queda, se bem que menos espectacular que a tua, implicou, no entanto, elementos de malicia pessoal da parte de... Basta! atalhou Yama, voltando as costas. Tak compreendeu que tocara, talvez num ponto sensvel. Procurando encontrar outro tema de conversa, aproximou-se da janela, empoleirou-se no parapeito e perscrutou os ares. ocidente vislumbra-se uma abertura no leito de nuvens . disse ele. Yama aproximou-se, seguiu a direco do olhar de Tak, franziu a testa e aquiesceu. Sim concordou Fica a e vai-me dizendo o que se passa. Dirigiu-se ao painel de controlo. Sobre o telhado, o ltus parou de girar, e voltou-se para o pedao de cu limpo. Muito bem disse Yama Estamos a conseguir qualquer coisa. Noutro painel, accionou vrios interruptores e regulou dois mostradores. L em baixo, nas caves sombrias do mosteiro, o sinal foi recebido e comearam outros preparativos; o anfitrio ficou a postos. As nuvens esto novamente a cerrar-se gritou Tak.

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J no importa respondeu Yama. Apanhmos o nosso peixe . L vem ele do Nirvana para dentro do ltus. Ouviram-se mais troves e a chuva fustigou violentamente o ltus . Sobre os cumes das montanhas, os relmpagos riscaram o cu com um silvo. Yama fechou o ltimo circuito. Como te parece que ele vai de novo revestir um corpo mortal? perguntou Tak. Vai descascar bananas com os ps ! Tak compreendeu que a sua presena no era desejada e abandonou a sala, deixando Yama a desligar a maquinaria. Percorreu um corredor e desceu um vasto lano de escadas. Quando chegou ao patamar, ouviu o rudo de vozes e de passos provenientes de uma sala lateral. Sem hesitao escalou a parede, apoiando-se numa srie de panteras e de elefantes esculpidos. Empoleirou-se numa viga e ficou espera, imvel. Pelo prtico entraram dois monges de tnicas escuras. Por que que ela no consegue limpar o cu? perguntou o primeiro. O segundo monge, mais idoso e robusto, encolheu os ombros. No sou sbio para responder a essas perguntas. evidente que ela est ansiosa, de outro modo no lhes teria concedido este santurio, nem dado a Yama este poder. Mas quem pode delimitar os confins da noite? Ou os humores de uma mulher. acrescentou o primeiro monge. Ouvi dizer que nem os sacerdotes sabiam que ela vinha. possvel. Seja como for, parece um bom augrio. Assim parece, com efeito. Atravessaram outro prtico, e Tak ouviu-os afastarem se at que o silncio se instalou novamente. No entanto, permaneceu no seu poleiro. A ela a quem os monges se haviam referido s podia ser a prpria deusa Ratri adorada pela ordem que tinha concedido abrigo aos seguidores da Grande Alma Sam, o Iluminado. Agora Ratri tambm fazia parte dos cados da Cidade Celeste e revestira-se de um corpo mortal . Tinha todas as razes para estar irritada pelo facto; e Tak compreendeu o risco que ela corria concedendo santurio, e at mesmo estando fisicamente presente durante a operao. Poderia comprometer qualquer possibilidade futura de ser novamente empossada, se o caso chegasse aos ouvidos de quem detinha o poder. Tak recordava-se dela como a beldade de cabelo negro e olhos cintilantes que percorria a Avenida do Paraso, na sua carruagem de bano e crmio puxada por garanhes negros e brancos, conduzida pelo guarda, tambm negro e branco, rivalizando com o prprio Sarasvati na sua glria. O corao de Tak saltou dentro do peito peludo. Tinha de v-la novamente. Uma noite, havia j muito tempo, numa poca mais feliz, e numa condio mais honrosa, danara com ela numa varanda, sob o cu estrelado. Fora durante breves minutos, mas Tak nunca mais esquecera, e doloroso ter tais recordaes sendo-se macaco. Tak desceu da viga. Na extremidade nordeste do mosteiro erguia-se uma torre elevada; no seu interior havia uma sala, que se dizia ser a morada permanente da deusa . Era limpa todos os dias, a roupa mudada, queimava-se incenso e colocava-se uma oferenda votiva em frente da porta, que estava normalmente fechada. Claro que havia janelas, puramente acadmico perguntar se um homem poderia ter entrado por uma dessas janelas, mas Tak provou que um macaco podia faz-lo.

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Subindo ao telhado do mosteiro, escalou a torre, saltitando sobre as telhas escorregadias, apoiando se nas protuberncias e nas irregularidades, enquanto os cus rugiam sobre a sua cabea, at que, finalmente, alcanou a parede logo abaixo do parapeito. Uma chuva diluviana abateu-se sobre ele: ouviu um pssaro cantar dentro do quarto, viu a ponta de um leno azul molhado pendendo sobre o peitoril. Segurou- se borda e iou-se at conseguir espreitar para o interior. Ela estava voltada de costas: tinha um sari azul-escuro e encontrava- se sentada sobre um pequeno banco no outro lado do quarto. Com alguma dificuldade, Tak empoleirou-se sobre o parapeito e tossiu levemente. Ela voltou-se bruscamente. Um vu ocultava-lhe o rosto. Olhou para Tak, levantou-se e dirigiu-se janela. Tak ficou consternado. A sua silhueta, outrora elegante, tornara-se disforme, o seu andar, outrora semelhante ao ondular do