O Processo Grupal - Pichon Riviere

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Enrique Pichon Rivière (Genebra, 25 de junho de 19071 - Buenos Aires, 16 de julho de 1977) foi um psiquiatra e psicanalista suiço naturalizado argentino .

Text of O Processo Grupal - Pichon Riviere

En rique Pichon-Rivire O PROCESSO GRUPAL

Referncia: Pichon-Rivire, Enrique. O PROCESSO GRUPAL. So Paulo: Martins Fontes. 2000.

Enrique Pichon-Rivire O PROCESSO GRUPAL

Traduo MARCO A URLIO FERNANDES VELLOSO

Reviso MONICA STHEL

Martins Fontes

So Paulo 2000

Ttulo original/ EL PROCESO GRUPAL.

Copyright by Ediciones Nueva Visin SAIC, Buenos Ayres 1980.

Copyright Livrara Martins Fontes Editoras Ltda.

So Paulo. 1983. para a presente edio.

Traduo

MARCO AURLIO FERNANDES VELL0S0

Reviso da traduo

Mnica StahelReviso grfica

Rosngela Ramos da SilvaProduo grfica

Geraldo AlvesPaginao/FotolitosStudio 3 Desenvolvimento EditorialCapa

Alexandre Martins FontesKtia Harumi Terasakandice

Prlogo 1

Uma nova problemtica para a psiquiatria 9

A noo de tarefa em psiquiatria 31

Prxis e psiquiatria 37

Freud: ponto de partida da psicologia social 43

Emprego de Tofranil na psicoterapia individual e grupal 47

Tratamento de grupos familiares: psicoterapia coletiva 61

Grupos familiares. Um enfoque operativo 71Aplicaes da psicoterapia de grupo 83Discurso pronunciado como presidente do Segundo

Congresso Argentino de Psiquiatria 93

A psiquiatria no contexto dos estudos mdicos 99

Apresentao para a ctedra de psiquiatria da Faculdade

de Medicina da Universidade Nacional de La Plata 109

Prlogo para o livro de F. K. Taylor Uma anlise da

Psicoterapia grupal 113

Tcnica dos grupos operativos 119

Grupos operativos e doena nica 135

Grupo operativo e modelo dramtico 157

Estrutura de uma escola destinada formao de psiclogos

sociais 165

Discpolo: um cronista de seu tempo 179

Implacvel inter jogo entre o homem e o mundo 189

Uma teoria da doena 193

Uma teoria da abordagem preventiva no mbito do grupo

Familiar 207

Transferncia e contratransferncia na situao grupal 213

Questionrio para Gentemergente 221

Entrevista em Primera Plana 225

Contribuies didtica da psicologia social 229

A Ana Pampliega de Quiroga,

cujo afeto e colaborao so

a necessria companhia na tarefa

Prlogo

Connaissance dela mort

Je te salue

mon cher petit et vieux cimetire de ma ville

o jappris a joueravec les morts.

C est ici o jai voulu me rvler le secret

de notre courte existence travers les ouvertures

d anciens cercueils solitaires.

E. Pichon-Rivire1O sentido deste prlogo o de esclarecer alguns aspectos de meu esquema referencial, questionando sua origem e sua histria, em busca da coerncia interior de uma tarefa que mostra nestes escritos, com temtica e enfoques heterogneos, seus diferentes momentos de elaborao terica.

Como crnica do itinerrio de um pensamento ser, necessariamente, autobiogrfico, na medida em que o esquema de referncia de um autor no s se estrutura como uma organizao conceitual, mas se sustenta em alicerce motivacional, de experincias vividas. atravs delas que o investigador construir seu mundo interno, habitado por pessoas, lugares e vnculos que, articulando-se com um tempo prprio, em um processo criador iro configurar a estratgia da descoberta.

Poderia dizer que minha vocao pelas Cincias do Homem surge da tentativa de resolver a obscuridade do conflito

1. Poema escrito em 1924. [Conhecimento da morte! eu te sado / meu querido pequeno e velho / cemitrio de minha cidade / onde aprendi a brincar / com os mortos. / E aqui onde eu quis que me fosse revelado o segredo de / nossa curta existncia / atravs das aberturas / de antigos caixes solitrios. (N. do T.)entre duas culturas. Com as razes da emigrao de meus pais de Genebra para o Chaco, fui, desde os 4 anos, testemunha e protagonista da insero de um grupo minoritrio europeu em um estilo de vida primitivo. Assim, deu-se em mim a incorporao, certamente no inteiramente discriminada, de dois modelos culturais quase opostos. Meu interesse pela observao da realidade teve, inicialmente, caractersticas pr-cientficas e, mais exatamente, msticas e mgicas, adquirindo uma metodologia cientfica atravs da tarefa psiquitrica.

A descoberta da continuidade entre sono e viglia, presentes nos mitos que acompanharam minha infncia e nos poemas que testemunham meus primeiros esforos criativos, sob a dupla e fundamental influncia de Lautramont e Rimbaud, favoreceu em mim, desde a adolescncia, a vocao pelo sinistro.

A surpresa e a metamorfose como elementos do sinistro, o pensamento mgico estruturado como identificao projetiva, configuram uma interpretao da realidade caracterstica das populaes rurais influenciadas pela cultura guarani, onde vivi at os 18 anos. Ali, toda aproximao de uma concepo de mundo de carter mgico, e regida pela culpa. As noes de morte, luto e loucura formam o contexto geral da mitologia guarani.

A internalizao destas estruturas primitivas dirigiu meu interesse para a desocultao do implcito, na certeza de que, por trs de todo pensamento que segue as leis da lgica formal, subjaz um contedo que, atravs de diferentes processos de simbolizao, inclui sempre uma relao com a morte, em uma situao triangular.

Situado em um contexto no qual as relaes causais eram encobertas pela idia da arbitrariedade do destino, minha vocao analtica surge como necessidade de esclarecimento dos mistrios familiares e de questionamento dos motivos que dirigiam a conduta dos grupos imediato e mediato. Os mistrios no esclarecidos no plano do imediato (a que Freud chama romance familiar e a explicao mgica das relaes entre o homem e a natureza determinaram em mim a curiosidade, ponto de partida de minha vocao para as Cincias do Homem.

O interesse pela observao dos personagens prototpicos, que nas pequenas populaes adquirem uma significncia particular estava orientado, ainda no conscientemente, para a descoberta dos modelos simblicos, atravs dos quais se torna manifesto o interjorgo de papis que configura a vida de um grupo social em seu mbito ecolgico.

Algo do mgico e do mtico desapareceria, ento, frente desocultao dessa ordem subjacente, porm explorvel: a da inter-relao dialtica entre o homem e seu meio.

Meu contato com o pensamento psicanaltico foi anterior ao ingresso na Faculdade de Medicina, e surgiu como o achado de uma chave que permitiria decodificar aquilo que era incompreensvel na linguagem e nos nveis de pensamento habituais.

Ao entrar na Universidade, orientado por uma vocao destinada a instrumentar-me na luta contra a morte, o confronto desde cedo com o cadver que paradoxalmente o primeiro contato do aprendiz de mdico com seu objeto de estudo, significou uma crise. Ali reforou-se minha deciso de trabalhar no campo da loucura, que mesmo sendo uma forma de morte, pode ser reversvel. As primeiras aproximaes com a psiquiatria clnica abriram-me o caminho para um enfoque dinmico, o que me levaria progressivamente a partir da observao dos aspectos fenomnicos da conduta desviada, descoberta de elementos genticos, evolutivos e estruturais que enriqueceram minha compreenso da conduta como uma totalidade em evoluo dialtica.

A observao, dentro do material trazido pelos pacientes, de duas categorias de fenmenos nitidamente diferenciveis para o operador (o que se manifesta explicitamente e o que subjaz como elemento latente), permitiu incorporar, deforma definitiva, em meu esquema de referncia, a problemtica de uma nova psicologia que, desde o incio, se dirigia para o pensamento psicanaltico.

O contato com os pacientes, a tentativa de estabelecer com eles um vnculo teraputico, confirmou o que, de alguma maneira, havia sido intudo. que por trs de toda conduta desviada subjaz uma situao de conflito, sendo a enfermidade a expresso de uma tentativa falida de adaptao ao meio. Em sntese, a enfermidade era um processo compreensvel.

Desde os primeiros anos de estudante trabalhei em clnicas particulares, adquirindo experincia no campo da tarefa psiquitrica, na relao e convivncia com internos. Esse contato permanente com todo tipo de paciente e seus familiares permitiu-me conhecer em seu contexto o processo da enfermidade, particularmente os aspectos referentes aos mecanismos de segregao.

Tomando como ponto de partida os dados sobre estrutura e caractersticas da conduta desviada que me eram proporcionados pelo tratamento dos enfermos, e orientado pelo estudo das obras de Freud, comecei minha formao psicanaltica. Isto culminou, anos mais tarde, em minha anlise didtica, realizada com o dr. Garma.

Atravs da leitura do trabalho de Freud sobre a Gradiva de Jensen, tive a vivncia de ter encontrado o caminho que me permitiria obter uma sntese com base no denominador comum dos sonhos e do pensamento mgico, entre a arte e a psiquiatria.

Durante o tratamento de pacientes psicticos realizado segundo a tcnica analtica e pela indagao quanto a seus processos transferenciais, tornou-se evidente para mim a existncia de objetos internos, multplices imago, que se articulam em um mundo construdo segundo um processo progressivo de internalizao. Esse mundo interno configura-se como um cenrio no qual possvel reconhecer o fato dinmico da internalizao de objetos e relaes. Nesse cenrio interior tenta-se reconstruir a realidade exterior porm os objetos e os vnculos aparecem com modalidades diferentes pela passagem fantasiada a partir do fora para o mbito intra-subjetivo, o dentro . um processo comparvel ao da representao teatral, no qual no se trata de uma repetio sempre idntica do texto, mas em que cada ator recria, com uma modalidade particular, a obra e o personagem. O tempo e o espao incluem-se como dimenses na fantasia inconsciente, crnica interna da realidade.