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O processo de aquisição de verbos irregulares no português ... · PDF fileEsses verbos regulares se contrapõem aos verbos irregulares. Os casos estudados neste trabalho são aqueles

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  • ESTUDOS LINGUSTICOS, So Paulo, 42 (1): p. 430-441, jan-abr 2013 430

    O processo de aquisio de verbosirregulares no portugus brasileiro

    (The acquisition process of irregular verbs in Brazilian Portuguese)

    Aline Garcia Rodero Takahira1

    1 Departamento de Lingustica Universidade de So Paulo (USP)

    [email protected]

    Abstract: In this paper, we discuss the irregular verb formation and acquisition process in Brazilian Portuguese, considering cases of regularization as fazi/trazi for fazer/trazer. This acquisition process is frequently explained by the binary mechanism model of inflection that involves two distinct representational systems (CLASHEN et al., 2002). Our main goal is to point to a treatment of this phenomenon in a theory that avoids the presupposition that the same verb needs two processes to be formed. We consider Siddiqi (2009) that defends that the root, the head v and the past feature merge forming a complex functional head, and the vocabulary item (VI) enters in only one place. We explain the regularization process as a case in which the child does not form this complex functional head, then the regularized form: the root of fazer/trazer, the head v and the VI that occurs in past form i or u are separately inserted.

    Keywords: acquisition; verbal inflection; Distributed Morphology; irregular verbs.

    Resumo: Neste trabalho, discutimos o processo de aquisio e formao de verbos irregulares no portugus brasileiro, abordando casos de regularizao como fazi/trazi para fazer/trazer. Esse processo de aquisio muitas vezes explicado pelo modelo do mecanismo binrio de flexo que envolve dois sistemas representacionais distintos (CLASHEN et al., 2002). Nosso objetivo principal apontar para um tratamento desse fenmeno dentro de uma teoria que evita a pressuposio de que um mesmo verbo necessite de dois processos para ser formado. Para tanto, nos valemos do trabalho de Siddiqi (2009), que defende que a raiz, o ncleo v e o trao de passado se fundem formando um n funcional complexo, e o item de vocabulrio (IV) entra em um lugar s. Explicamos o processo de regularizao como o caso em que a criana ainda no forma esse n funcional complexo, ento a forma regularizada: a raiz de fazer/trazer, o ncleo v e o IV que se realiza no passado i ou u so inseridos separadamente.

    Palavras-chave: aquisio; flexo verbal; Morfologia Distribuda; verbos irregulares.

    Introduo1

    Verbos irregulares passam por um processo de regularizao durante o processo de aquisio. Kirn (1986) afirma que, uma vez que a criana desenvolve uma regra, ela a generaliza aos aspectos irregulares da lngua, como a regra do uso de ed no tempo passado generalizada em I goed em vez de I went. Esse processo de aquisio muitas vezes explicado pelo modelo do mecanismo binrio de flexo que envolve dois sistemas representacionais distintos. Clashen et al. (2002) usam dados do espanhol e explicam esse processo de aquisio como: i) um grupo de entradas lexicais listadas associativamente na memria (formas irregulares); e, ii) regras para formar expresses lingusticas maiores (formas regulares). Os autores fazem uma separao entre a formao do radical e o domnio da flexo, assim, no caso dos verbos irregulares, quando a criana superaplica a regra, ela

    1 Agradeo Capes pelo financiamento da pesquisa e Professora Doutora Ana Paula Scher pela orientao.

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    aciona uma forma irregular memorizada e depois aplica uma regra de formao de verbos regulares, usando dois processos diferentes para formar um nico verbo irregular.

    Neste trabalho, discutimos o processo de aquisio e formao de verbos irregulares no portugus brasileiro (PB), abordando casos de regularizao dos verbos irregulares no pretrito perfeito do indicativo. Usamos dados apontados em Maldonade (2003), Lorandi (2006) e Figueira (2010). Tratamos de dados como fazer e trazer, que, durante o processo de aquisio, se realizam como fazi e trazi, na primeira pessoa do singular do pretrito perfeito do indicativo, em vez de fiz e trouxe; e fazeu e trazeu, na terceira pessoa do singular do mesmo tempo e modo, em vez de fez e trouxe.

    Os objetivos deste trabalho so:

    i) trazer uma discusso sobre tratamentos da regularizao de verbos irregulares no pretrito perfeito do indicativo no PB; e,

    ii) apontar para um tratamento desse fenmeno dentro de uma teoria no-lexicalista, que utiliza apenas um componente gerativo da gramtica.

    O segundo objetivo nos leva a uma anlise que evita a pressuposio de que um mesmo verbo, o irregular regularizado pela criana, necessite de dois processos para serem formados.

    Para tal anlise, nos valemos do modelo da Morfologia Distribuda (MD) (HALLE; MARANTZ, 1993), uma teoria no-lexicalista, na medida em que considera que o que em modelos lexicalistas era resolvido no lxico est, de fato, distribudo pela derivao. Esse modelo trabalha com a noo de que nos ns terminais h feixes de traos que so especificaes dos traos que o item de vocabulrio (IV) requerido deve conter. H uma competio entre IVs e o mais especificado, que no apresenta traos divergentes dos requeridos no n terminal, ganha a competio e ser inserido. Dentro da MD, seguimos o trabalho de Siddiqi (2009), que defende que a raiz, o ncleo v e o trao de passado se fundem formando um n funcional complexo, e o IV entra em um lugar s.

    Chamamos ateno para algumas questes j colocadas na literatura:

    1- Por que as crianas cometem erros de regularizao?

    2- O que faz esse tipo de erro acabar?

    Mais uma questo se coloca:

    3- Dentro de um modelo no-lexicalista (como a MD), como explicamos o fato de a criana passar por um perodo no qual ela produz fiz e depois passar a usar fazi e voltar a usar fiz? No primeiro momento, ela ainda no adquiriu, de fato, a forma irregular?

    Buscamos mostrar como a MD possibilita explicar o processo de aquisio de verbos irregulares. Nesse sentido, vamos investigar a hiptese de que o processo de regularizao pelo qual a criana passa o caso em que a criana ainda no forma um n funcional complexo, ento, a forma regularizada: a raiz de fazer/trazer, o ncleo v e o IV que se realiza no passado i ou u so inseridos separadamente.

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    A regularizao dos verbos irregulares e a aquisio de morfologiaMuitos dos verbos no portugus brasileiro so regulares, ou seja, so formados

    seguindo os padres que podemos observar em (1):

    (1) T (R + VT) + SF (SMT + SNP)

    Em (1), temos a constituio morfolgica do verbo portugus definida por Cmara Jr. (1991 [1970]; 2004 [1972], p. 132-133). Os sufixos modo-temporal e nmero-pessoal se aglutinam intimamente num global sufixo flexional (SF), que se adjunge ao tema do verbo (T), constitudo pelo radical (R) seguido da vogal temtica (VT) da conjugao correspondente (CMARA JR., 1991 [1970]).

    Esses verbos regulares se contrapem aos verbos irregulares. Os casos estudados neste trabalho so aqueles nos quais o Pretrito Perfeito do Indicativo formado de uma outra forma com alguma modificao na raiz.

    Os adultos conhecem as formas do Pretrito Perfeito do Indicativo dos verbos irregulares, como fazer fiz, e tambm sabem que os padres regulares no podem ser aplicados nesses casos, ou seja, fazi no uma forma aceitvel para o Pretrito Perfeito de fazer. Para chegar nesse ponto, na gramtica adulta, a criana passa por um processo de aquisio chamado curva em formato de U (ERVIN, 1964, apud PETAKOVIC, [s.d.]): uma poca na qual ela usa as formas corretas, fazer fiz, uma poca na qual ela regulariza, fazer fazi, e uma poca na qual ela para de regularizar e volta a usar a forma correta.

    Aronoff et al. (2006) discutem como as crianas depreendem recursos morfolgicos do seu input lingustico. Eles assumem que um dos primeiros passos para se adquirir o sistema morfolgico descobrir que sequncias fonticas correspondem aos morfemas. Essas sequncias fonticas podem, ento, ser mais analisadas para se determinar seus privilgios gramaticais e contribuio para o significado e, a, chegar ao domnio do sistema morfolgico.

    Petakovic (s.d.) afirma que, no estgio inicial do processo de aquisio, as crianas adquirem todas as formas de passado por memorizao, tanto verbos regulares, walk walked, como irregulares, break broke. Nesse estgio elas no fazem diferena psicolgica entre os dois tipos de verbos. Considerando a discusso de Aronoff et al (2006), esse deve ser um perodo no qual a criana ainda no descobriu quais sequncias fonticas correspondem aos morfemas.

    Petakovic (s.d.) explica que o incio do segundo estgio, rumando para a regularizao, quando as crianas determinam que h uma regra produtiva em ao, no caso, a regra de adi-cionar o sufixo -ed para formar o passado no ingls. As crianas passam, ento, a superaplicar as regras, produzindo formas como breaked e goed, por exemplo. O terceiro estgio quando a criana toma conscincia da irregularidade de alguns verbos e para de regularizar.

    O estudo da aquisio de morfologia envolve o entendimento de habilidades da criana para segmentar e reconhecer morfemas. Aps o segundo ano de vida essa seg-mentao fica mais apurada o que permite s crianas reconhecerem os morfemas da lngua (TITONE, 1983; FIGUEIRA, 1995; SANTOS, 2001).

    A segmentao, esse processo de aquisio de morfologia, fica evidente observando--se os erros morfolgicos, como a regularizao, trazi, ou troca de sufixos flexionais, mexei e suji (LORANDI, 2010). Lorandi (2006, 2010) no chama de erros essas formas de

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