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o pós-modernismo, lyotard e a história: a condição pós-moderna e

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Text of o pós-modernismo, lyotard e a história: a condição pós-moderna e

  • O PS-MODERNISMO, LYOTARD E A HISTRIA: A

    CONDIO PS-MODERNA E UMA TENTATIVA DE

    APROXIMAO AO FAZER HISTORIOGRFICO

    Carolina Coelho Fortes

    Universidade Federal Fluminense UFF/Goytacazes [email protected]

    RESUMO: Muito se debateu, e ainda se debate, sobre as contribuies das teorias ps-modernas

    Histria. Buscaremos, neste artigo, situar o contexto de surgimento e as definies dadas ao conjunto

    dessas teorias, no intuito de analisar a obra A Condio Ps-Moderna, de Jean-Franois Lyotard. Esta

    anlise verificar tanto as ideias centrais do autor sobre os saberes, quanto os dilogos que estabelece com

    outros pensadores. Embora considerada por muitos estudiosos uma obra datada, tendo sido alvo de duras

    crticas, nosso principal objetivo perceber em que medida seus postulados podem se aplicar ao fazer

    historiogrfico. Objetivamos igualmente demonstrar que muito das crticas voltadas ao dito paradigma

    ps-moderno no se aplicam s ideias de Lyotard, bem como estas se conciliam de maneira enriquecedora

    e crtica ao saber histrico.

    PALAVRAS-CHAVE: Ps-Modernismo Jean-Franois Lyotard Historiografia

    THE POSTMODERNISM, LYOTARD AND HISTORY:

    THE POSTMODERN CONDITION AND A ATTEMPT OF

    APPROACH OF HISTORIOGRAPHICAL WORK

    ABSTRACT: Much has been discussed and there is still debate about the contributions of postmodern

    theories to history. We intend, in this article, to situate the context of emergence and the definitions given

    to these theories in order to analyze the book The Postmodern Condition, by Jean-Franois Lyotard.

    This analysis verifies both the authors central ideas about knowledge, as the dialogues he establishes

    with other thinkers. Although considered by many scholars a dated work, having been the target of harsh

    criticism, our main objective is to realize the extent to which its principles can apply to History writing.

    We aim also to demonstrate that much of the criticism directed to the said postmodern paradigm does

    not apply to the ideas of Lyotard, as well as these ideas can be reconciled in enriching and critical ways to

    historical knowledge.

    KEYWORDS: Postmodernism Jean-Franois Lyotard Historiography

    Doutora em Histria pela Universidade Federal Fluminense. Atualmente professora adjunta do

    Departamento de Histria da Universidade Federal Fluminense de Campos dos Goytacazes.

    mailto:[email protected]

  • Fnix Revista de Histria e Estudos Culturais Julho - Dezembro de 2014 Vol. 11 Ano XI n 2

    ISSN: 1807-6971 Disponvel em: www.revistafenix.pro.br

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    Retomaremos neste artigo uma obra j datada e intensamente criticada, A

    Condio Ps-Moderna, de Jean-Franois Lyotard, lanada originalmente em 1979.

    Pretendemos analis-la naquilo que ela props sobre a transformao dos saberes no

    mundo contemporneo para sondar que contribuies esta pode ainda conferir ao fazer

    historiogrfico. Para tanto, acreditamos necessrio efetuar uma breve discusso sobre o

    que se considerou ser o ps-modernismo, situando-o em seu contexto de surgimento.

    O CONTEXTO DE SURGIMENTO DO PS-MODERNISMO

    Uma das caractersticas do chamado paradigma ps-moderno a noo de que

    a Histria se confunde com a Literatura, sendo, portanto, narrativa. Apesar disso, ou

    justamente por isso, optamos, maneira de introduo, por empreender um relato, at

    certo ponto narrativo, das condies que possibilitaram o surgimento desta linha de

    pensamento (levando em conta que ela mltipla, e no um todo homogneo). Esse

    relato, claro, tem vrias verses, que enfatizam aspectos diferentes desse surgimento,

    conforme os que o constroem so contra ou a favor daquilo que surgiu. Tentaremos, na

    medida do possvel, dar espao para ambas as interpretaes.

    De forma geral, situa-se o surgimento definitivo de um pensamento ps-

    moderno na dcada de 1960.1 Os principais embates nesse sentido, no entanto, dizem

    respeito novidade desse pensamento e sua filiao, confirmao e posicionamento

    acrtico em relao ao capitalismo. Oscila-se entre uma explicao que toma por base a

    ideia de novo tempo, e consequentemente, de adaptao s novas realidades; e uma

    anlise que tende para a crtica dessa ideia de novo, vinculada a uma noo de que o

    ps-modernismo seria uma maneira de justificar e consolidar uma nova fase do

    capitalismo, utilizando-se para isso de ideias j dadas por pensadores anteriores, como

    Nietzsche, e uma nova leva de tericos formados pela desiluso com as lutas polticas

    de massa.

    1 Para o caso da Histria, para ficarmos apenas com exemplos de debates j levantados em peridicos

    brasileiros, autores como Iggers e Roiz situam a presena das ideias ps-modernas apenas a partir da

    dcada de 1990. Cf. IGGERS, Georg. Desafios do Sculo XXI historiografia. Histria da

    Historiografia, Ouro Preto, n. 4, p. 105-124, mar. 2010; ROIZ, Diogo da Silva. O Ofcio de

    Historiador: entre a cincia histrica e a arte narrativa. Histria da Historiografia, Ouro Preto, n.

    4, p. 255-278, mar. 2010.

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    Por exemplo, o grande e j saudoso historiador Ciro Cardoso atribui a ascenso

    do ps-modernismo desiluso da gerao de 68 com o desdobramento de suas lutas.2

    Enquanto Jenkins acredita que o fracasso do tema comunista a abolio da

    propriedade a autntica liberdade levou a uma desconstruo do seu potencial, assim

    como a sua inteno universalista mostrou-se inadequada ao surgimento de variantes

    regionais.3

    O capitalismo ocidental, por outro lado, deparando-se com as duas Grandes

    Guerras, as crises econmicas, o fascismo, o nazismo, as crticas feitas ao capitalismo

    por pensadores como Gramsci e Althusser, o feminismo etc., enfrentou a demolio das

    ltimas teorias que fundamentavam a ideia de progresso liberal, de crena otimista na

    racionalidade do homem. Para se valorizar ou revalorizar o capitalismo recorreu s

    foras de mercado. Mas essa aposta no nexo monetrio, na escolha do consumidor,

    trouxe para primeiro plano o relativismo e o pragmatismo. O valor dos bens no

    intrnseco, mas residem naquilo pelo que podem ser trocados. Nesta sociedade, tambm

    as pessoas [...] assumem o aspecto de objetos, encontrando seu valor em relaes

    externas a si mesmas.4

    A moralidade privada e pblica tambm se transforma; a tica se torna

    personalizada e narcisista, sendo relativa e livre de regras. Nenhum absoluto moral

    transcende o cotidiano.5 claro que as prticas epistemolgicas sero igualmente

    afetadas pelo relativismo e ceticismo. Temos agora apenas paradigmas, posies,

    perspectivas, modelos, ngulos. Os objetos de conhecimento parecem elaborar-se

    arbitrariamente, reunidos maneira de colagem.6

    Diante desse estado de coisas, os centros se decompem e as metanarrativas

    parecem inverossmeis. O ps-modernismo a expresso geral dessa situao.

    Percebamos, ento, que esse relato de fundao j uma definio dos postulados

    gerais do ps-modernismo, pois ambos se confundem, uma vez que o termo serve tanto

    2 CARDOSO, Ciro Flamarion. Histria e Paradigmas Rivais. In: CARDOSO, C.; VAINFAS, R.

    Domnios da Histria. Ensaios de teoria e metodologia. Rio de Janeiro: Campus, 1997. p. 17.

    3 JENKINS, Keith. Refiguring History: new thoughts on an old discipline. Londres: Routledge, 2003.

    4 Id. A Histria Repensada. So Paulo: Contexto, 2004. p. 97.

    5 Ibid.

    6 Ibid., p. 98.

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    para designar um perodo histrico quanto se referir a uma nova posio

    epistemolgica que vem a reboque deste.

    Este, no entanto, no um movimento unificado, no uma tendncia

    associada esquerda, ou direita, ou centro, nem resultado da dor de cotovelo de

    intelectuais parisienses ps-68, pelo menos para Jenkins. Ele defende que pensadores

    provenientes de diferentes grupos sociais e de diferentes disciplinas (Nietzsche, Freud,

    Saussure, Wittgenstein, Althusser, Foucault, Derrida)7 precisaram reavaliar, em seus

    discursos especficos, as bases de suas posies diante de transformaes

    socioeconmicas, polticas e culturais. Essas reavaliaes, embora conduzidas de

    formas diversas e com diferentes finalidades, chegaram s mesmas concluses: no era

    possvel construir uma fundamentao. Desta forma, o ceticismo e o niilismo so o

    pressuposto intelectual do nosso tempo.

    ALGUMAS IDEIAS E DEFINIES8

    Juntamente ao ps-modernismo do estilo de vida e da escolha do consumidor

    existe, necessariamente, outro ps-modernismo: o da desregularizao, disperso e

    ruptura enquanto as seguranas da tradio e da comunidade so continuamente

    esmagadas. Entre esses dois extremos contemporneos, existe um conflito que ameaa a

    estabilidade dos dois. O papel do pensador ps-moderno, segundo Malpas, deve ser

    explorar e questionar essa situao.9

    Em nossa vida cotidiana esperamos senso comum e acessibilidade. Da

    perspectiva da razo cientfica ou da lgica filosfica, clareza e preciso devem ser os

    objetivos do pensamento. Mas o ps-modernismo, ao contrrio, com frequncia tenta

    alcanar o que escapa a esses processos de definio e celebra o que resiste ou rompe

    com eles. Por conta disso, definir o ps-moderno no tarefa fcil. Inclusive porque,

    7 Wood, no entanto, aponta que um dos motivos pelo qual, para a esquerda, o ps-modernismo to

    combatido e perigoso, o fato de que acolhe dentro deste denominao tanto esquerdistas radicais

    quanto partidrios da direita. Por exemplo, Wittgestein associou-se ao nazismo e Lyotard era marxista.

    WOOD, Ellen. O que a agenda ps-modernista? In: WOOD, Ellen; FOSTER, John. (Orgs.). Em

    Defesa da Histria. Marxismo e ps-modernismo. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1999.

    8 Boa parte do que se expe neste item baseia-se em trs obras, tomadas como referncia: MALPAS,

    Simon. The post-modern. Routledge: Londres, 2005; SIM, Stuart. (Ed.). The Routledge

    Companion to Postmodernism. London: Routledge, 2001; e BERTENS, Hans. The Idea of the

    Postmoderm. Londres: Routledge, 1995.

    9 MALPAS, 2005, op. cit., p. 3.

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    aparentemente, no h uma definio, mas vrias. H pouco consenso entre seus muitos

    adeptos e detratores sobre o que seria o ps-moderno, a que aspectos da cultura,

    pensamento e sociedade ele se relaciona, e como este pode mostrar formas de entender

    o mundo atual.10 Muito foi trazido para a discusso. Debates e, com frequncia,

    argumentos furiosos que tentaram determinar do que trata o ps-modernismo e a ps-

    modernidade. Alguns crticos celebram-no como um perodo de alegre liberdade

    marcado pela escolha do consumidor, outros o entendem como uma cultura que saiu

    dos trilhos enquanto comunidades ao redor do mundo tm suas tradies obliteradas

    pela difuso do capitalismo. Para outros, ainda, suas complexas teorias e produes

    culturais marcam a ruptura com qualquer envolvimento com o mundo real.

    Essa pluralidade de vises tornou-se crucial para o sentido que o termo ps-

    moderno tem hoje. importante, para entend-lo, ao menos parcialmente, que se leve

    em considerao tanto sua natureza multifacetada quanto sua propenso a levantar

    debates entre as vrias partes envolvidas em sua definio.

    Para muitos, portanto, a mera meno palavra ps-modernismo evoca ideias

    de fratura, fragmentao, indeterminao e pluralidade, sendo todas, de fato, conceitos-

    chave do ps-moderno. Antes de definirmos tais noes (com base, principalmente, no

    pensamento de Lyotard) importante que se reconhea que a ps-modernidade , em si,

    um discurso fraturado e fragmentrio, por isso a escolha da anlise de um autor

    especfico. Embora muitos dos movimentos que passaram a ser chamados de ps-

    modernos tenham surgido ainda nas dcadas de 1950 e 1960, foi entre o fim da dcada

    de 1970 e o incio dos anos 1990, que os termos ps-modernismo e ps-modernidade se

    tornaram comuns mundo afora, mas especialmente na Europa e nos Estados Unidos.11

    Porque foram tomadas como palavras-chave para definir o esprito dos

    tempos pela mdia, assim como por vrias disciplinas acadmicas, as mltiplas anlises

    e relatos a seu respeito so irredutveis linguagem de uma rea especfica ou a uma

    forma de pensamento particular.12 De fato, uma das suas caractersticas mais radicais a

    10 Embora nosso objeto de estudo mais constante, que motivou a necessidade da discusso aqui

    apresentada, no seja a atualidade, mas aspectos do distante sculo XIII, a cincia que dar acesso a

    esse passado contempornea. Assim, acreditamos justificar a necessidade em definir as formas de

    olhar para esse passado.

    11 SANTOS, Jair Ferreira dos. O que Ps-moderno. So Paulo: Brasiliense, 2006.

    12 EDGAR, Andrew; SEDWICK, Peter. (Eds.). Teoria Cultural de A a Z: conceitos-chave para

    entender o mundo contemporneo. So Paulo: Contexto, 2003, p. 254.

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    forma na qual, durante as ltimas dcadas, o ps-modernismo derrubou as fronteiras

    entre vrias disciplinas acadmicas, levando-as a novas formas de colaborao ou

    conflito.13 Cada disciplina estabelece seus prprios sentidos de ps-modernidade e ps-

    modernismo a partir de debates dentro das suas respectivas reas. Mesmo depois do

    frenesi da mdia sobre o ps-modernismo, pela metade dos anos 1990, as discusses

    dentro dessas disciplinas continuaram, e levaram a uma variedade de ps-modernismos

    construdos diferentemente. Nessa complexa mistura de ideias e movimentos,

    impossvel gerar concordncia entre crticos sobre o que o ps-modernismo e a ps-

    modernidade possam ser.

    Como meio de pensar o mundo contemporneo, o ps-moderno j foi definido

    de vrias formas: como uma nova formao esttica;14 uma condio;15 uma cultura;16

    um dominante cultural;17 um grupo de movimentos artsticos que empregam um modo

    pardico de representao autoconsciente;18 um perodo em que atingimos o fim da

    histria;19 uma iluso;20 uma formao poltica reacionria;21 um estado de coisas do

    mundo supostamente novo e teorias e posturas culturais relativas a essas coisas;22 um

    infeliz engano;23 uma doena24 ou simplesmente pura asneira.25 Todos os autores

    13 No caso da Histria, um dos exemplos mais emblemticos dessa realidade so as inter-relaes com a

    Literatura.

    14 HASSAN, Ihab. The Dismemberment of Orpheus: Toward a Postmodern Literature. New York:

    Oxford University Press, 1982.

    15 LYOTARD, Jean-Franois. A Condio Ps-Moderna. Rio de Janeiro: Jos Olympio, 2004.

    16 CONNOR, Steven. Cultura Ps-Moderna: introduo s teorias do contemporneo. So Paulo:

    Loyola, 2000.

    17 Entre outras definies, dispersas na coletnea de artigos A Virada Cultural. Cf. JAMESON, Fredric.

    A Virada Cultural: reflexes sobre o ps-modernismo. Rio de Janeiro: Civilizao Brasileira, 2006.

    18 HUTCHEON, Linda. A Poetics of Postmodernism. Londres: Routledge, 1988.

    19 BAUDRILLARD, Jean. LIllusion de la fin ou la greve ds evenement. Paris: Galilee, 1992;

    FUKUYAMA, Francis. O Fim da Histria e o ltimo Homem. Rio de Janeiro: Rocco, 1992;

    VATTIMO, Gianni. The End of Modernity: Nihilism and Hermeneutics in PostModern Culture.

    Cambridge: Polity Press, 1988.

    20 EAGLETON, Terry. As Iluses do Ps-Modernismo. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1998.

    21 CALLINICOS, Alex. Against Postmodernism: A Marxist Critique. Cambridge: Polity Press, 1989.

    22 LEMERT, Charles. Ps-Modernismo no o que voc pensa. So Paulo: Loyola, 2000.

    23 NORRIS, Christopher. The Truth about Postmodernism. Oxford: Blackwell, 1993.

    24 WOOD, Ellen. O que a agenda ps-modernista? In: WOOD, Ellen; FOSTER, John. (Orgs.). Em

    Defesa da Histria. Marxismo e ps-modernismo. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1999, p. 19.

    25 CARDOSO, Ciro. Comeando o sculo 21. In: ______. Um Historiador fala de Teoria e

    Metodologia. Bauru: EDUSC, 2005.

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    responsveis por essas definies evocam ideias de ironia, ruptura, diferena,

    descontinuidade, jogo, pardia, hiper-realidade e simulao. O ps-moderno tem sido,

    para alguns, a radicalizao da arte moderna que levou experimentao avant-garde a

    novos limites, e para outros a democratizao dos estudos culturais que fez com que os

    crticos dessem tanta ateno e valor ao entretenimento popular quanto davam aos

    mestres antigos. Para outros, e so esses que nos interessam aqui, a arte e a cultura so

    apenas a superfcie de transformaes polticas, sociais e filosficas profundas do

    mundo contemporneo.

    Um dos primeiros autores a empregar o termo ps-moderno foi o crtico

    literrio americano Ihab Hassan, em 1971. Na segunda edio de seu livro The

    Dismemberment of Orpheus: Toward a Postmodern Literature, ele inseriu uma

    tabela das principais diferenas entre o modernismo e o ps-modernismo. Muitas das

    categorias que ele utiliza ainda hoje permanecem bastante controversas. Vejamos

    algumas delas:

    Modernismo Ps-modernismo

    Forma (fechamento) Anti-forma (abertura)

    Propsito Jogo

    Hierarquia Anarquia

    Distncia Participao

    Criao Desconstruo

    Presena Ausncia

    Centralizao Disperso

    Semntica Retrica

    Profundidade Superfcie

    Narrativa/ Grande Histria Anti-narrativa/Petite histoire

    Causa Diferena

    Metafsica Ironia

    Determinao Indeterminao

    Lista problemtica e incompleta. O prprio Hassan problematiza suas

    categorias alegando que as dicotomias representadas em sua tabela (bem mais extensa,

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    aqui fizemos uma seleo) so e sero sempre inexatas, j que as diferenas mudam e

    at colapsam, ao mesmo tempo em que abundam inverses e excees nos dois casos.

    De forma geral, no entanto, os temas relativos ao modernismo so fechados e rgidos,

    enquanto os associados ao ps-modernismo so abertos. As dicotomias mostram outra

    caracterstica do ps-modernismo, comentada mais acima, a integrao e

    permeabilidade s vrias disciplinas, portanto a tabela mistura categorias literrias,

    estilsticas e filosficas.

    Apesar das diferenas dos significados em cada rea especfica, o termo ps-

    moderno costuma ser empregado de duas formas: como ps-modernismo e como ps-

    modernidade. Essa distino parece ser a fratura mais bsica dentro de todo o

    fragmentado discurso ps-moderno. Geralmente, ps-modernismo tem sido usado para

    questes relativas a estilo e representao artstica, enquanto ps-modernidade

    empregado para determinar um contexto cultural especfico ou um perodo histrico.

    Optamos, no entanto, por usar o termo ps-modernismo para caracterizar o conjunto do

    pensamento da ps-modernidade, entendida, portanto, como perodo histrico.

    Um dos primeiros usos desta palavra ocorre na clssica obra de Toynbee A

    Study of History, publicada originalmente em 1954.26 Ali ele define a ps-

    modernidade como uma poca histrica que se inicia no ltimo quarto do sculo XIX e

    se caracteriza por guerras quase contnuas. Se, para ele, a modernidade o znite do

    progresso e do desenvolvimento, a Ps-modernidade um perodo de declnio no qual

    os conflitos grassam incessantemente e os projetos humanistas do Iluminismo so

    abandonados nos conflitos nacionalistas que marcam muito da primeira metade do

    sculo XX. Apresentar a Ps-modernidade como um perodo de crise associado ao

    declnio dos valores humanistas e iluministas um gesto comum a outros pensadores, e

    bastante persuasivo. Como afirma Stuart Sim: Em Toynbee temos uma viso da ps-

    modernidade como uma jornada em direo ao desconhecido na qual as antigas amarras

    culturais no mais se aplicam, e nossa segurana coletiva est potencialmente

    comprometida.27

    Muitas das diferentes ideias e perspectivas sobre o ps-modernismo e a ps-

    modernidade se desenvolvem a partir da noo de que uma srie de transformaes

    26 TOYNBEE, Arnold. A Study of History. Oxford University Press, 1954. p. 312.

    27 SIM, Stuart. Irony and Crisis: A Critical History of Postmodern Culture. Cambridge: Icon, 2002, p.

    17.

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    fundamentais ocorreram no mundo durante o sculo XX, especialmente depois da

    Segunda Grande Guerra. De acordo com esses relatos, a ps-modernidade uma

    formao social que se origina nos ltimos anos do sculo XIX, d seus primeiros

    passos entre os conflitos militares, econmicos e sociais que assustam a primeira

    metade do sculo XX, e se estabelece por volta da primeira metade deste sculo,

    substituindo a modernidade como a forma dominante de organizao social e cultural.

    Tendncias como a globalizao, mudanas no poder colonial, o desenvolvimento de

    novas redes de comunicao e o colapso de crenas e tradies polticas e religiosas no

    mundo inteiro parecem apontar para uma cultura que rapidamente se tornou diferente

    daquela experimentada por geraes anteriores. A ameaa da obliterao de toda a

    existncia, seja provocada por uma guerra nuclear ou uma catstrofe natural, pesou

    sobre as ideias do que fazer parte de uma cultura ou sociedade, e at mesmo sobre o

    que significa ser humano, forando re-conceituaes de algumas das mais bsicas

    categorias do pensamento filosfico, social e poltico.

    De acordo com Best e Kellner, o mundo moderno suas certezas e projetos

    fraturou-se e est agora aberto a novas foras, possibilidades e ameaas, na forma de

    ideias agrupadas sob o nome de ps-moderno.28 O resultado disso seria que o ps-

    moderno serviria para promover um ethos ctico que subestima o colapso de todos os

    paradigmas realistas ou representacionistas [...] e a necessidade de abandonar qualquer

    pensamento crtico sobre a injustia social do ponto de vista da sociedade de classe.29

    Para outros, o ps-moderno marca o ponto no qual a proliferao de

    intervenes e argumentos discursivos podem ocorrer e assim se tornar uma fonte de

    ativismo superior e um movimento libertador mais radical conforme a teoria ps-

    moderna radicaliza mais profundamente as possibilidades emancipatrias oferecidas

    pelo Iluminismo e pelo Marxismo.30

    Por conta do carter multifacetado do ps-modernismo e a imensa produo

    bibliogrfica sobre essa forma de pensamento, limitamo-nos escolha de um autor que

    pensou o ps-modernismo e a ps-modernidade no mbito da filosofia, sendo um dos

    28 BEST, Steven; KELLNER, Douglas. The Postmodern Adventure: Science, Technology and Cultural

    Studies at the Third Millennium. London: Routledge, 2011, p. 1.

    29 NORRIS, Christopher. The Truth about Postmodernism. Oxford: Blackwell, 1993, p. 23.

    30 LACLAU, Ernesto. Politics and the Limits of Modernity. In: ROSS, Andrew. (Ed.). Universal

    Abandon? The Politics of Postmodernism. Edinburgh: Edinburgh University Press, 1988, p. 79-80.

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    primeiros intelectuais a tentar sistematizar o que seria este a que podemos chamar de

    paradigma.

    LYOTARD E A CONDIO PS-MODERNA

    Jean-Franois Lyotard um dos pensadores mais influentes da segunda metade

    do sculo XX. Sua obra mais conhecida, que ser discutida aqui, A Condio Ps-

    Moderna: um relato sobre o saber,31 publicada pela primeira vez em 1979, foi

    largamente discutida por expoentes de todas as reas do conhecimento social e cultural.

    Este livro um dos textos fundadores da teoria ps-moderna. Ali, em uma srie de

    captulos curtos, ele analisa o controle feito sobre o saber e o poder por governos,

    corporaes e mercados internacionais.

    Lyotard , sobretudo, um filsofo poltico preocupado com as maneiras por

    meio das quais nossas vidas so organizadas e controladas pelas sociedades que

    habitamos. Embora nem sempre utilize o termo, principalmente em outros de seus

    textos,32 a obra de Lyotard enfoca temas que agora so associados ao ps-modernismo.

    Como j tivemos a oportunidade de mencionar, este termo comumente vinculado

    perda de valores e crenas na sociedade atual, e rejeio de parmetros para julgar ou

    tomar decises. O ps-moderno frequentemente castigado por supostamente

    defender que, no pensamento contemporneo, vale tudo, que os argumentos

    apresentados por algum no so mais justos ou verdadeiros do que qualquer outro, e

    que o objetivo do pensamento apenas experimentar ou satisfazer aquele que pensa.

    Essa verso do ps-modernismo, no entanto, o antema da filosofia de Lyotard. Em

    sentido anlogo, a ideia de que, na ps-modernidade, a verdade e a justia foram

    usurpadas por propaganda ideolgica de superpoderes polticos e econmicos, e de

    corporaes multinacionais, tendo, portanto, sua natureza transformada, algo que

    31 A edio brasileira da obra no faz referncia a seu subttulo. Na verdade, apenas a edio mais

    recente, de 2004, passou a usar a traduo literal do ttulo, sendo antes publicado com o nome de O

    Ps-Moderno. Por conta de considerarmos a traduo brasileira a qual temos acesso bastante

    deficiente, usaremos tambm como base uma edio em espanhol: LYOTARD, J-F. La Condicin

    Postmoderna: informe sobre el saber. Madri: Ctedra, 1987; e uma em ingls: LYOTARD, J-F. The

    Postmodern Condition: A Report on Knowledge. Manchester: Manchester University Press, 1984.

    Infelizmente, no tivemos acesso ao original francs.

    32 A sistematizao da filosofia de Lyotard sobre o ps-modernismo encontra-se sobretudo em dois de

    seus escritos mais antigos, alm dA Condio Ps-Moderna: LYOTARD, J-F.; THBAUD, Jean-

    Loup. Au Juste: conversations. Paris: Bourgois, 1979; e LYOTARD, J-F. Le Diffrend. Paris:

    Minuit, 1983.

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    Lyotard reconhece, mas combate ao longo de sua obra. Ele concorda que os critrios

    tradicionais de verdade e falsidade, certo e errado, bom e mau entendidos como

    universais so profundamente questionveis. Mas no deixa de se perguntar a respeito

    do que significa, ento, pensar e agir responsavelmente na ausncia de regras absolutas

    e leis universais.

    Para Lyotard, pensamento e ao devem se renovar constantemente. Portanto,

    no podemos dizer que exista um sistema lyotardiano de pensamento que possa ser

    aplicado como um instrumento a qualquer fenmeno cultural independentemente de

    suas diferenas. Ao contrrio, o que sua filosofia incentiva que se considere o que

    nico em cada evento, lutando continuamente para reinventar e inovar nossa anlise sob

    a luz de novas informaes, novos acontecimentos.

    Dois termos so centrais para discutir a obra de Lyotard: Moderno e Ps-

    Moderno. Como j vimos, nenhum dos dois termos de fcil definio, e no h

    qualquer consenso em torno de seus significados. Por isso vlido relatar brevemente

    algumas formas de seu emprego por outros pensadores.

    Podemos dizer que, em boa parte dos casos, a Modernidade vista como um

    perodo em que os homens comearam a se perceber de maneira diferente e,

    especialmente, passaram a se ver, e s suas comunidades, dentro de uma perspectiva de

    mudana, desenvolvimento, histria. De acordo com Habermas, a Modernidade

    expressa a convico de que o futuro j comeou.33 Em outras palavras, a Modernidade

    preocupa-se com o progresso, seja ele expresso no desenvolvimento de ideias e

    tecnologia, na gerao de riqueza ou de justia para todos. Entende a sociedade como

    um estado de constante fluxo, inovao e desenvolvimento conforme as mudanas no

    conhecimento e nas tcnicas alteram as identidades e experincias de indivduos e

    comunidades. Os sistemas de pensamento modernos procuram por respostas universais

    para as questes sociais. As respostas diferentes, encontradas por grupos diferentes,

    tornam-se a base de sistemas polticos e organizaes que lutam pela supremacia.

    O ps-modernismo poderia ser definido como um desafio a essa forma

    moderna de organizao social. Atualmente as formas modernas de organizar o mundo

    e o conhecimento sobre ele no fazem mais sentido, e por isso precisam ser repensadas.

    Por exemplo, Jameson argumenta que desenvolvimentos recentes do capitalismo, como

    33 HABERMAS, Jurgen. O Discurso Filosfico da Modernidade. So Paulo: Martins Fontes, 2002, p.

    7.

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    sua difuso internacional e sua substituio da organizao industrial em fbricas pela

    troca virtual na Internet e pelas comunicaes globais, significa que as maneiras de

    analis-lo, desenvolvidas no sculo XIX por pensadores como Marx, devem passar por

    um processo de reconsiderao.34

    No final da dcada de 1970, Lyotard foi convidado pelo Conselho de

    Universidades do Governo Provincial de Quebec a escrever um relatrio sobre o estado

    do conhecimento nas sociedades mais desenvolvidas no final do sculo XX. A proposta

    de tal relatrio seria, em outras palavras, apresentar como as diferentes formas de

    conhecimento sobre o mundo cincia, tecnologia, lei, o sistema universitrio etc. e

    as maneiras encontradas para lidar com ele so entendidas e avaliadas por estas

    sociedades. Embora muitos estudiosos se refiram a A Condio Ps-Moderna pela sua

    definio de ps-modernidade, as descries da cultura e poltica contemporneas

    tambm suscitaram muitos questionamentos. Os argumentos de Lyotard no podem ser

    ignorados, mas suas concluses devem ser vistas de maneira crtica.

    A afirmao mais citada e comentada da obra sua definio do ps-

    modernismo como a incredulidade em relao s metanarrativas.35 No entanto, para

    entender esta definio necessrio que analisemos a obra em seu conjunto.

    O objetivo de Lyotard descobrir tendncias e relaes subjacentes entre as

    diferentes fontes de saber, e de rastrear, da forma mais clara possvel, o

    desenvolvimento do conhecimento nas sociedades ocidentais contemporneas. O foco,

    para ele, a natureza e o status do saber: o que ele significa, como gerado, organizado

    e empregado nessas sociedades. Ou seja, A Condio Ps-Moderna um relato sobre

    as maneiras como as sociedades avanadas lidam com a educao, a cincia, a

    tecnologia, a pesquisa e o desenvolvimento. Lyotard investiga que tipos de saber

    contam como vlidos, como esse saber comunicado, quem tem acesso a ele e para que

    ele usado, quem determina e controla seu fluxo, e como ele d forma a nossas vidas e

    experincia do mundo.

    A questo central do livro : como a vida e a identidade das pessoas

    construda por estruturas contemporneas de conhecimento? Essa pergunta

    fundamental porque, segundo Lyotard, o saber muda de estatuto ao mesmo tempo em

    34 JAMESON, Fredric. Postmodernism, or, The Cultural Logic of Late Capitalism. Durham: Duke

    University Press, 1991, p. 17-44.

    35 LYOTARD, Jean-Franois. A Condio Ps-Moderna. Rio de Janeiro: Jos Olympio, 2004, p. XVI.

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    que as sociedades entram na idade dita ps-industrial e as culturas na idade dita ps-

    moderna.36 Essa a principal hiptese do livro. Seu objetivo test-la e descrever suas

    implicaes.

    O filsofo defende que as transformaes nas comunicaes que ocorreram

    desde a II Guerra Mundial, afetaram no apenas a forma como o saber transmitido,

    mas tambm o estatuto desse saber. As mudanas na armazenagem e na prpria

    comunicao esto transformando as maneiras como usamos e valorizamos o

    conhecimento. Isto , no que Lyotard chama de condio ps-moderna, o conhecimento

    mudou.

    Ele demonstra como o saber se tornou uma mercadoria que pode ser comprada

    e vendida no mercado, e tambm a base de poder da sociedade. A competio global

    por poder agora seria travada como uma batalha por conhecimento, como antes se

    lutava por recursos tais como carvo e petrleo. Por outro lado, o autor defende que os

    Estados estariam comeando a perder suas posies de poder no mundo como os

    elementos mais importantes na nova economia baseada no conhecimento. Corporaes

    multinacionais como empresas de computao, companhias de petrleo e indstrias

    farmacuticas esto substituindo os Estados como os principais jogadores conforme o

    saber se torna um produto.

    Alm disso, na condio ps-moderna, cincia e saber no esto separados de

    poltica e tica. As transformaes no estatuto do conhecimento marcam igualmente

    transformaes na natureza da sociedade e da experincia humana. O mtodo que

    Lyotard escolhe para analisar as mudanas na organizao do saber e da poltica que

    formam a condio ps-moderna se baseia na noo de jogos de linguagem, de

    Wittgenstein.37 Mas, antes de passarmos ao uso do filsofo austraco por Lyotard,

    concentremo-nos nas suas ideias sobre a legitimao do conhecimento.

    Existem, de acordo com o francs, dois elementos fundamentais para o

    desenvolvimento do saber. O primeiro estaria relacionado ao fato de que os avanos da

    cincia tm amplas implicaes para a sociedade que os geram. Toda a contenda a

    respeito da quebra de patente das medicaes para o combate a AIDS na frica do Sul,

    36 LYOTARD, Jean-Franois. A Condio Ps-Moderna. Rio de Janeiro: Jos Olympio, 2004, p. 3.

    37 Ibid., p. 15. A edio brasileira aqui trs fatos de linguagem e no jogos de linguagem como

    temos nas edies espanhola e americana e no prprio WITTGENSTEIN, Ludwig. Philosophical

    Investigations. New York: Macmillan, 1958, p. 50 passim.

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    durante o ano de 2001, deixam isso claro.38 A pesquisa das empresas farmacuticas est

    relacionada a questes financeiras, poder e sofrimento humano, e no apenas s

    descobertas cientficas por si ss. Em termos gerais, isso indica que o avano nas

    pesquisas pode influenciar outras reas da poltica social, assim como da vida cotidiana

    de todos ns. O segundo elemento, por sua vez, diz respeito existncia de diferentes

    tipos de conhecimento operando na sociedade, que respondem a diferentes critrios de

    categorizao como teis ou verdadeiros e, portanto, devem ser examinados de formas

    diversas.39

    Nesse sentido, Lyotard diferencia dois tipos principais de discursos: o saber

    cientfico e o saber narrativo. Ele afirma que o saber cientfico no todo o saber; ele

    sempre esteve ligado a seu conceito, em competio com uma outra espcie de saber

    que [...] chamaremos de narrativo.40 Lyotard define narrativa como as histrias que as

    comunidades contam a si mesmas para explicar sua existncia atual, sua histria e suas

    ambies para o futuro. Embora o termo narrativa seja comumente associado fico,

    todas as formas de discurso empregam narrativas para apresentar suas ideias.41 A

    Histria, por exemplo, constri narrativas sobre o passado.42 Da mesma maneira,

    afirmaes cientficas so apresentadas por meio de tipos de narrativas que descrevem o

    mundo fsico. Para explicar e justificar suas descobertas, at mesmo as cincias

    matemticas so foradas a verter suas equaes em narrativas que mostram as

    consequncias de suas descobertas. Assim, para Lyotard, a narrativa est na base da

    experincia e das sociedades humanas.

    Logicamente, os diferentes tipos de narrativas usados em diferentes discursos

    seguem regras especficas. E aqui chegamos ideia de Wittgenstein. Os vrios discursos

    que formam os saberes de uma sociedade a fsica, a literatura, as leis, as fofocas etc.

    38 MALPAS, Simon. The post-modern. Routledge: Londres, 2005, p. 19-20. Em sua obra sobre a

    produo intelectual de Lyotard, Malpas utiliza esse exemplo no sentido de esclarecer as ideias do

    filsofo sobre a influncia das cincias na sociedade.

    39 LYOTARD, Jean-Franois. A Condio Ps-Moderna. Rio de Janeiro: Jos Olympio, 2004, p. 12-

    13.

    40 Ibid., p. 12.

    41 Seguindo essa ideia temos, por exemplo: FOUCAULT, Michel. A Ordem do Discurso. So Paulo:

    Loyola, 2003; WHITE, Hayden. Trpicos do Discurso: ensaios sobre a crtica da cultura. So Paulo:

    EDUSP, 2001; CERTEAU, Michel de. A Escrita da Histria. Rio de Janeiro: Forense Universitria,

    2000.

    42 JENKINS, Keith. A Histria Repensada. So Paulo: Contexto, 2004, p. 23.

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    tm regras diferentes para estabelecer o que se entende como enunciados legtimos.

    Esses diferentes discursos e as regras que os constituem so os jogos de linguagem.43

    Sendo assim, a linguagem uma parte ativa da nossa experincia diria,

    usamos palavras para causar efeito nas pessoas e coisas ao nosso redor. At mesmo o

    calar, ou seja, no dizer, deixar de falar sobre algo ou com algum, surte efeitos dentro

    de determinadas situaes ou relaes. Assim, os vnculos sociais so compostos por

    lances de linguagem. Para Lyotard, a prpria estrutura da sociedade composta pelas

    afirmaes ditas dentro desses jogos e de acordo com as regras que se desenvolvem para

    decidir se os lances so ou no legtimos. Desta forma, como jogos diferentes tm regras

    diferentes, sociedades particulares tm tipos diversos de leis, poltica e legitimao.

    Como sujeitos, vivemos dentro dessas sries de jogos lingusticos cujas diferentes

    regras nos tornam quem somos, construindo nossas identidades como sujeitos sociais e

    indivduos.

    A organizao do saber na sociedade determina a identidade a autoimagem,

    as ideias e a aspiraes das pessoas que a compem. Mas como compreendemos a

    organizao do saber? Como se relacionam os diferentes jogos de linguagem na

    sociedade? Porque sociedades diferentes tm formas especficas de organizar os jogos

    lingusticos que as constituem? Para Lyotard, a organizao das narrativas e dos jogos

    de linguagem se d pelas chamadas metanarrativas.

    A metanarrativa estabelece as regras das narrativas e jogos de linguagem, e

    determina o sucesso ou fracasso de cada afirmativa (ou lance de linguagem) que se d

    dentro deles. Lyotard apresenta alguns exemplos de metanarrativas e descreve as

    diversas maneiras nas quais estas organizam o saber. A base da modernidade , para ele,

    um certo tipo de organizao metanarrativa. Defende, seguindo esse postulado, que

    desde as mais antigas sociedades humanas at o presente, a narrativa foi a forma por

    excelncia desse saber.44

    43 Lyotard faz trs observaes sobre os jogos de linguagem de Wittgenstein: 1) as regras do jogo de

    linguagem so objetos de um contrato, explcito ou no, entre os jogadores. O que significa dizer

    que as regras de um jogo lingustico particular, como a poesia ou a biologia, no so naturais, mas

    determinados por uma comunidade; 2) a modificao, por mnima que seja, de uma regra, modifica a

    natureza do jogo [...], um enunciado que no satisfaa as regras, no pertence ao jogo definido por

    elas; 3) todo enunciado deve ser considerado como um lance feito num jogo. LYOTARD, Jean-

    Franois. A Condio Ps-Moderna. Rio de Janeiro: Jos Olympio, 2004, p. 17.

    44 Ibid., p. 37.

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    Para Lyotard, a modernidade define-se pela confiana nas grandes narrativas

    que buscam demonstrar o progresso humano. As metanarrativas da modernidade

    voltam-se para o futuro no qual todos os problemas da humanidade seriam resolvidos.

    Ele identifica dois tipos principais de metanarrativas modernas: a grande narrativa

    especulativa e a grande narrativa de emancipao.45

    A ideia central da grande narrativa especulativa a noo de que a vida

    humana progride conforme se acumulam conhecimentos. Todos os diferentes jogos de

    linguagem so reunidos pela filosofia para apresentar uma histria universal do

    esprito humano.46 Todo o conhecimento , assim, relacionado em um sistema

    filosfico e, de acordo com Lyotard, o verdadeiro saber sempre um saber indireto,

    feito de enunciados recolhidos e incorporados s metanarrativas de um sujeito que

    assegura-lhe a legitimidade.47 Para a grande narrativa especulativa, todos os

    enunciados possveis so reunidos sob uma metanarrativa, e sua verdade e valor so

    julgados de acordo com suas regras. Assim, o saber total o objetivo da grande

    narrativa especulativa.

    O outro tipo de metanarrativa moderna a grande narrativa de emancipao.

    Ao contrrio da grande narrativa especulativa, na qual o saber um fim em si mesmo,

    esta v o saber como meio para a liberdade humana. Para Lyotard, a grande narrativa de

    emancipao comea com a Revoluo Francesa. Na Frana ps-revoluo a idia de

    educao universal era vista como uma forma de libertar todos os cidados do

    misticismo e da dominao. Nesse relato, o saber a base que colocaria fim opresso

    e os desenvolvimentos no saber so valorizados porque podem livrar a humanidade de

    seu sofrimento. O objetivo desse tipo de narrativa a libertao de uma humanidade

    que se emanciparia do dogma, do misticismo, da explorao e do sofrimento.

    Embora sejam diferentes, os dois tipos de grande narrativa tm pontos em

    comum, partilham de uma estrutura similar. Em ambas, todas as diferentes reas do

    saber so reunidas para atingir um objetivo projetado no futuro, estando ai as respostas

    para os problemas da sociedade. Sob uma grande narrativa, todas as instituies sociais

    leis, educao e tecnologia combinam-se em prol de alcanar uma meta comum:

    45 LYOTARD, Jean-Franois. A Condio Ps-Moderna. Rio de Janeiro: Jos Olympio, 2004, p. 58-

    66.

    46 Ibid., p. 61.

    47 Ibid., p. 63.

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    conhecimento absoluto ou emancipao universal. O saber, assim, adquire uma vocao

    e um papel central para o bem maior.

    No entanto, como aponta o autor, as transformaes no saber que tomaram

    lugar nos ltimos 50 anos (agora quase 80), colocaram em dvida essas grandes

    narrativas. Hoje o conhecimento organizado de outra maneira:

    Na sociedade e na cultura contempornea [...] a questo da

    legitimao do saber coloca-se em outros termos. A grande narrativa

    perdeu sua credibilidade, seja qual for o modo de unificao que lhe

    conferido: narrativa especulativa, narrativa de emancipao.48

    Portanto, na atualidade, o saber no mais organizado no sentido de alcanar

    metas universais, mas passou a ser avaliado em termos de sua eficincia e lucratividade

    numa economia global de mercado. O que define a noo de ps-modernidade em

    Lyotard essa transformao do saber marcada pela incredulidade em relao s

    metanarrativas.

    A disseminao global do capitalismo e os rpidos desenvolvimentos da

    cincia e da tecnologia desde a Segunda Grande Guerra deram fim s grandes

    narrativas. O que fica claro em A Condio Ps-Moderna, que o capitalismo

    transformou-se na fora motora do saber, pesquisa e desenvolvimento na sociedade

    contempornea: Sua legitimao em matria de justia social e verdade cientfica seria

    a de otimizar as performances do sistema, sua eficcia.49 A busca pela eficincia est

    no cerne do capitalismo: o objetivo da pesquisa e do desenvolvimento fazer com que a

    produo se torne mais barata e rpida para maximizar o potencial de lucro.

    De acordo com o filsofo, o crescimento incansvel do capitalismo destruiu os

    laos sociais tradicionais que ligam toda a humanidade nas grandes narrativas de

    progresso. A verdade, base da grande narrativa especulativa, e a justia, objetivo da

    grande narrativa de emancipao, no tm mais o apelo universal que tinham para a

    modernidade. Isso fundamentalmente modifica a natureza e o estatuto do saber na

    sociedade contempornea:

    Nesta disseminao dos jogos de linguagem, o prprio sujeito social

    que parece dissolver-se. O vnculo social lingstico, mas ele no

    constitudo de uma nica fibra. uma tessitura onde se cruzam pelo

    48 LYOTARD, Jean-Franois. A Condio Ps-Moderna. Rio de Janeiro: Jos Olympio, 2004, p. 69.

    49 Ibid., p. XVI.

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    menos dois tipos, na realidade um nmero indeterminado, de jogos de

    linguagem que obedecem a regras diferentes.50

    Com o fim (ou crise) das grandes narrativas, no h mais uma identidade

    unificadora para o sujeito ou a sociedade. Em vez disso, os indivduos so o lcus onde

    cdigos polticos e morais conflitantes se cruzam e o vnculo social est fragmentado.

    Diante da fragmentao da sociedade e da ruptura simultnea das formas

    tradicionais de justia, cultura e identidade, existem duas respostas possveis. A

    primeira a abordagem proposta por Jrgen Habermas. Ele v a modernidade como um

    projeto incompleto e pretende avanar seus objetivos superando a desintegrao da

    sociedade contempornea. Isso deve ser feito por meio da busca pelo consenso, por

    meio da negociao, entre os diferentes jogos de linguagem.51

    O objetivo de Lyotard, no entanto, pode ser considerado o oposto do de

    Habermas. Ele entende as grandes narrativas como sempre tendo sido problemticas.

    Por exemplo, as ideias universais de razo e libertao da superstio deram

    fundamento moral para a dominao colonial por meio da expanso capitalista e de um

    terrorismo missionrio na frica e no Oriente Mdio.52 Ele defende, por isso, que a

    melhor maneira de resistir globalizao capitalista aumentando a fragmentao dos

    jogos de linguagem. Como estes so ligados identidade, Lyotard acredita que, quanto

    maior a amplitude de diferentes jogos de linguagem considerados legtimos dentro da

    sociedade, mais aberta e pluralista ela ser. A maior ameaa para a sociedade ps-

    moderna seria, segundo ele, a reduo do saber a um sistema nico cujo nico critrio

    a eficcia.53

    No obstante, aos olhos de Lyotard, a ps-modernidade no uma condio

    sem esperana. Embora, claro, ele no proponha uma nova grande narrativa que

    substitua as modernas, o que ele parece sugerir no fim de sua obra o fato de que o

    sistema capitalista conteria as sementes da sua prpria destruio. Ainda que no seja

    mais possvel um consenso universal, a justia, porm, no o . preciso, ento,

    chegar a uma ideia e a uma prtica da justia que no seja relacionada do consenso.54

    50 LYOTARD, Jean-Franois. A Condio Ps-Moderna. Rio de Janeiro: Jos Olympio, 2004, p. 73.

    51 HABERMAS, Jurgen. O Discurso Filosfico da Modernidade. So Paulo: Martins Fontes, 2002.

    52 LYOTARD, 1993 op. cit. p. 165-323.

    53 Ibid., p. 111-120.

    54 Ibid., p. 118.

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    Essa prtica enfoca as pequenas narrativas individuais e suas diferenas, o fato de que

    nem todas so redutveis ao critrio de desempenho, eficcia. Uma vez que Lyotard

    defende que as grandes narrativas caram, ficamos apenas com a enorme variedade de

    jogos de linguagem. Portanto, o objetivo da crtica ps-moderna deveria ser fazer justia

    a eles, levando a que sejam ouvidos em seus prprios termos.

    Como modelo para essa crtica, Lyotard lembra que a cincia tem o potencial

    de transformar o saber, que pode se legitimar por meio da paralogia. Ou seja, a forma

    como um lance de linguagem tem o poder de quebrar as regras de um jogo existente de

    tal forma que um novo jogo deve ser desenvolvido.

    O poder que desestabiliza a capacidade de explicao55 central para o

    pensamento de Lyotard. Os sistemas de conhecimento, como a grande narrativa

    especulativa ou o capitalismo internacional, esto sempre abertos a crticas

    perturbadoras, sendo o dever do pensador ps-moderno, desestabilizar esses sistemas.

    Em sntese, em A Condio Ps-Moderna, Lyotard examina as formas em

    que a natureza e o estatuto do saber mudaram o mundo contemporneo. O tipo de

    grande narrativa que costumava organizar o conhecimento, categorizar sua utilidade e

    valor para a humanidade e dirigi-la para seu objetivo o progresso perdeu seu poder

    no mundo ps-moderno. O que permanece como princpio organizador so os critrios

    de eficincia e lucro propagados pelos mercados globais capitalistas. Com o objetivo de

    validar sua hiptese, Lyotard, aplica o mtodo que tem como base a ideia de jogos de

    linguagem e metanarrativas para analisar o saber. Ao invs de reduzir tudo a questes

    de eficcia e lucro, Lyotard defende a importncia de que se respeite as diferenas entre

    os jogos de linguagem e, portanto, o papel fundamental que tem a resistncia sistemas

    universais de organizao. Para conquistar o poder de resistir, necessrio lutar pela

    paralogia dentro do sistema, e no criar uma nova grande narrativa que pode

    homogeneizar os jogos de linguagem.

    Assim, ao considerarmos a Histria como forma de saber de acordo com a

    tica lyotardiana, esta no deveria se prestar pura manuteno do sistema capitalista.

    Aplicando as ideias de Lyotard, podemos entender a Histria como forjadora de novas

    regras de linguagem que objetivem uma perspectiva crtica das sociedades passadas e a

    configurao de identidades mais precisas, no sentido de romperem com as

    55 LYOTARD, Jean-Franois. A Condio Ps-Moderna. Rio de Janeiro: Jos Olympio, 2004, p. 112.

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  • Fnix Revista de Histria e Estudos Culturais Julho - Dezembro de 2014 Vol. 11 Ano XI n 2

    ISSN: 1807-6971 Disponvel em: www.revistafenix.pro.br

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    metanarrativas tradicionais. Desta forma, a Histria seria, como saber, um agente da

    prpria transformao histrica.

    Ao resgatarmos as caractersticas do ps-modernismo colocadas por Hassan,

    aplicando-as Histria, e as cruzarmos com o pensamento de Lyotard, a retrica, por

    exemplo, estaria servio no do mascarar ou esvaziar dos sentidos dos processos

    histricos, mas do estabelecimento de meios pelos quais se possa conferir novos

    significados a estes processos, valendo-se de instrumentos lingusticos mais atraentes e

    de uma argumentao mais slida. Esta argumentao mais slida, por sua vez, erige-se

    necessariamente por meio da desconstruo das metanarrativas, valorizando a petite

    histoire, a disperso, a diferena como maneira de transformar as regras dos jogos de

    linguagem. Isso garantiria a resistncia ao carter acachapante do capitalismo

    contemporneo ao qual alude Lyotard.

    Para pensadores como Cardoso, Norris e Eagleton, o ps-modernismo , em

    sntese, um grande engano, em especial porque retiraria aos saberes, e Histria

    particularmente, sua capacidade crtica e transformadora. Ora, ao analisarmos o que

    esta condio ps-moderna para Lyotard, percebemos que a Histria no perderia estas

    capacidades, mas as enfatizaria. Defendemos, portanto, que ao menos no que se refere

    ao autor aqui analisado, o ps-modernismo no impossibilita o fazer histrico como

    cincia, nem o torna insustentvel epistemologicamente, e sim confere-lhe o poder de

    mudar as regras do jogo.

    ARTIGO RECEBIDO EM 10/01/2014. PARECER DADO EM 15/04/2014

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