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Nº13 - Gaivotas

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Text of Nº13 - Gaivotas

  • Colaborao

    www.fluirperene.comFluir Perene

    Sempre me fascinaram as gaivotas. No tanto pelo seu andar que por vezes apresenta ar meio desengonado. Antes pelas suas cores, pela sua forma. Sobretudo pelo seu sbio planar assombroso com que, de forma hbil, aproveitam a brisa e os ventos para quase sem esforo, quase sem mexerem asas subirem em altura at serem quase pontos no infinito, e com elas nos elevarem os olhos no azul denso.

    Ver-vos voar no voo planado e lento de quem segura o vento e o leva em suas asas. O equilbrio instvel da vida na hora da deciso e do futuro. O corpo, quedo e parado, goza o sabor do vento. Apenas de vez em vez leve toro do pescoo ou o flectir ligeiro das asas largas. Tudo fcil, exacto, metdico; tudo executado no instante certo e preciso.

    E a olhar-vos me fiquei e fui nas asas que no tenho, mas me oferecestes na imaginao que me toma, eleva. E o corpo, em ascese, levita nas asas que me dais e me transportam ao azul de outro sul.

    (do Prefcio)

    Jos RibeiRo FeRReiRaFotogRaFias de ins CeRol

    Fluir PereneColeco

    Ga

    ivo

    tas

    Jos Ribeiro Ferreira, nascido em Santo Tirso, em 1941, profes-sor na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e Inves-tiga dor do Centro de Estudos Clssi cos e Humansticos da mes-ma Universidade.Tem mais de centena e meia de trabalhos entre livros, artigos em revistas e enciclopdias publicados em Portugal e no estrangeiro, com realce para Hlade e Helenos. I Gnese e Evoluo de um Conceito (1983, 21993); A Democracia na Grcia Antiga (1990); A Grcia Antiga. Sociedade e Poltica (1992); Civilizaes Clssicas I Grcia (1996); Manuel Alegre: Ulisses ou os Caminhos da Eterna Busca (2001); Os Sons e os Silncios. A memria, a culpa e a valsa (viagem a Berlim, Viena e Salzburgo) (2005. 2 ediko revista e aumentada, 2008); Mitos das Origens. Rios e Razes (2008).No domnio da poesia, publicou Os Olhos no Presente (1982, com 2 edio em 1998), Pesa o Momento a Eternidade (1984), Veleiro da Areia (1985), O Santurio e o Orculo (1985), Ficta Imagem (1992), Variaes sobre o tema de Sbaris (1994), Telhas de Outro Alpendre (1994), A Outra Face do Labirinto (2002).

    Associao Portuguesa deEstudos Clssicos (APEC)

    GaivotasColeco Fluir PereneVolumes j publicados

    N. 1 Jos Ribeiro Ferreira, Mitos das Origens - Rios e Razes (2008).

    N. 2 Rodolfo Pais Nunes Lopes, Batracomio-maquia: a Guerra das Rs e dos Ratos (2008).

    N. 3 Carlos A. Martins de Jesus, A Flauta e a Lira: Estudos sobre Poesia Grega e Papirologia (2008).

    N. 4 Jos Ribeiro Ferreira, Os Sons e os Silncios A Memria, a Culpa, a Valsa (2008).

    N. 5 Jos Ribeiro Ferreira, Labirinto e Minotauro - Mito de Ontem e de Hoje (2008).

    N. 6 Jos Ribeiro Ferreira, Atenta Antena - A Poesia de Sophia e o Fascnio da Grcia (2008).

    N. 7 Rui Morais, A Coleco de Lucernas Romanas do Norte de frica no Museu D. Diogo de Sousa (2008).

    N. 8 Armando Nascimento Rosa, Antgona Gelada (2008).

    N. 9 Jos Ribeiro Ferreira, Rui Morais, A Busca da Beleza: Vol. 1 - Arquitectura Grega (2008).

    N. 10 Jos Jorge Letria, Os Lugares Cativos (2009).

    N. 11 Jos Ribeiro Ferreira, Trs Mestres Trs Lies Trs Caminhos (2009).

    N. 12 Carlos A. Martins de Jesus, Anacreontea. Poemas maneira de Anacreonte (bilingue) (2009).

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  • GAIVOTAS

  • Jos Ribeiro Ferreira

    GAIVOTAS

    Coimbra 2009

    Jos Ribeiro Ferreira

    Fotografias de Ins Cerol

    Coimbra 2009

    GAIVOTAS

  • AUTORJos Ribeiro Ferreira

    TTULOAs Gaivotas

    FOTOGRAFIASIns Cerol

    CAPA e FOLHA DE ROSTOFotografias de Ins Cerol

    EDITORJos Ribeiro Ferreira

    CONCEPO GRFICAFluir Perene

    IMPRESSO Simes & Linhares, Lda.Av. Fernando Namora, n 83 - Loja 4

    3030-185 Coimbra

    PEDIDOSAssociao Portuguesa de Estudos Clssicos (APEC).

    Faculdade de Letras Universidade de CoimbraTel.: 239 859 981 / Fax: 239 836 733

    3000-447 COIMBRA

    ISBN: 978-989-96078-3-5

    DEPSITO LEGAL: 303504/09

  • TBUA

    Prefcio ................................................ 7

    Fmbria de gua ............................................... 15

    Fmbria de gua ........................................ 17

    No azul limpo da manh ..... 19

    Arcos da Ponta de Piedade .............. 21

    O Gigante .............................................. 25

    Gaivotas emigram .................................... 27

    Nos barcos por esse mar azul .................. 29 Gaivotas do cu de Lagos ........................ 33

    Veleiro da areia ........................................ 41

    Planar de gaivota ....................................... 45

    Asas ........................................................... 49

    Lagos ......................................................... 53

    A voz das ondas ......................................... 59

    O vento de Lagos ....................................... 63

    O azul envolve ........................................... 77

    Ali mo ................................................... 79

  • Amizade .. 81

    A janela ..................................................... 85

    Se framos gaivotas ................................. 87

    O mundo e o infinito ......................................... 95

    Arte potica ............................................... 97

    Na limpidez da manh .. 111

    A voz do mar ............................................. 123

    O sol despede-se por trs dos outeiros .. 131

    O mundo e o infinito .............. 139

    Eplogo .............................................................. 151

  • 7

    Prefcio

    Sempre me fascinaram as gaivotas. No tanto pelo seu andar que por vezes apresenta ar meio desengonado. Antes pelas suas cores, pela sua forma. Sobretudo pelo seu sbio planar assombroso com que, de forma hbil, aproveitam a brisa e os ventos para quase sem esforo, quase sem mexerem asas subirem em altura at serem quase pontos no infinito, e com elas nos elevarem os olhos no azul denso.

    Ver-vos voar e retomo, quer com ligeiros retoques, quer com alteraes mais ou menos drsticas, um texto escrito em Lagos, em 24 e 25 de dezembro de 2000 e sado nos Cadernos de Poesia Costa d Oiro (n 157), com o ttulo O voo das gaivotas , ver-vos voar no voo planado e lento de quem segura o vento e o leva em suas asas. O equilbrio instvel da vida na hora da deciso e do futuro.

    O corpo, quedo e parado, gozava o sabor do vento. Apenas de vez em vez leve toro do pescoo ou o flectir ligeiro das asas largas. Tudo fcil, exacto, metdico; tudo

  • 8

    executado no instante certo e preciso. E a olhar-vos me fiquei e fui nas asas que no tenho,

    mas me oferecestes na imaginao que me toma, eleva. E o corpo, em ascese, levita nas asas que me dais e me transportam ao azul de outro sul.

    E a viagem sonho no azul ntido da tarde. Como se, ponto distante, a infncia recolhesse do fundo do passado, a desdobar o fio da memria que me faz e me sustenta. Tantos os passos da incerta vida vria.

    A Pvoa de Varzim dos meus primeiros anos. E desses tempos, apenas a vaga lembrana da casa pequena, alugada. A me sempre presente e a visita do pai nos fins de semana, que nos outros dias o trabalho impunha a sua lei. As ondas redondas que se aproximavam, medonhas, e, quais garras, as mos seguras do banheiro a mergulhar-nos. O medo engolia a gua salgada, goelas assustadas.

    A Azurara da minha juventude, com Mindelo e Vila do Conde vista. E logo Santa Clara, altaneira, vinha rever-se nas guas do Ave, ainda lmpidas. Passava-se a ponte, e o rio media o ritmo dos versos de Rgio, antes de, suspenso, respirar e de seguida celebrar o encontro com o mar. E nas praias, na Avenida Marginal, subindo o rio ou sobrevoando a vila, a vossa presena assentou na memria e l se recolheu no silncio fundo e fecundo.

    A aristocrtica Ericeira sentia-se orgulhosa na

  • 9

    sonoridade das botas, fardas e patentes. A vos olhava, gaivotas, e todo me despia das mgoas de ruas e tapada de Mafra, alargava os horizontes dos longos corredores do Convento pejados de ecos e silncios. O ritmo encurvado das ondas me lanava e convosco, gaivotas, seguia no voo que no tinha e de vs tomava. E o esprito partia por mundos, sonhos e futuros ento e ao longo dos tempos.

    A Praia de Mira, da barrinha e dos palheiros, aconchega-se nas dunas para que passe o vendaval. A, pouco vos vi e nem me lembro de voo vosso que me levasse ou montasse espera na memria. Apenas o farfalhar dos pinhais e o marulho do mar, cujas ondas, quais crinas de cavalo revoltas ao vento, avanavam brancas de espuma e ameaa. Talvez a causa de as gaivotas recolherem nas areias da praia, escondidas nos recessos, e no as encontrar no novelo do tempo.

    As praias da Figueira da Foz e de Buarcos, nas dobras da Boa Viagem resguardadas do vento norte, recolhem as guas calmas do Mondego e todas se revem nos largos areais das suas praias. A as gaivotas, em bandos, ora se passeiam na areia fina em alegre algazarra, ora seguem os barcos que partem do porto ou da faina regressam. Aconchegadas na sua modorra, sedentrias, vivem em evidente apatia e em permanente sonolncia. raro contempl-las a voar em altitude. Apenas uma por outra rara

  • 10

    vez as vejo planar e convidar para com elas partir na distncia.

    Fora do pas tambm as gaivotas vieram ter comigo. De uma viagem Esccia, retenho no novelo da memria dois encontros de fascnio com as gaivotas: em Aberdeen e em Inverness. Na primeira cidade, acordei meio estremunhado com o seu som galrador, impositivo. Chegados j noite cada a Aberdeen e convidados a recolher por chuva mida e pelo cansao, no houvera o habitual passeio nocturno nem a localizao do hotel se fizera. E pela manh sinto-me acordado por um charivari quase assustador, que parecia vir do exterior, muito perto, ou mesmo da prpria parede. Ao abrir a janela, entra pelo quarto o ar fresco da manh e o sol radioso que o inunda de luz. E, pousadas num paredo onde o mar vinha bater, quase encostado ao hotel, sadam-me festivas as gaivotas, que chegam, partem, esvoaam, olham atentas, se cumprimentam, se tocam em ademanes de conquista salutar algaraviada. E a vida entrou no quarto, em mim e a se instalou para todo o dia.

    Em Inverness mais encorpadas, de cor mais homognea em cada uma delas encontrei as gaivotas e o seu andar balanceado a passear nas ruas com as pessoas, a entrar nas lojas de comrcio e a quase se sentar connosco a uma mesa de caf. E sempre aqueles seus olhos

  • 11

    vivos, atentos, interessados, interrogativos, como a perguntar-nos se estvamos bem com a vida. No mais deparei com gaivotas assim to dadas com os homens e com o seu viver do dia a dia. S mais tarde, na Marina de Lagos uma me veio interpelar mesa de caf e, despertando o novelo da memria, quase me fez lembrar as sociais gaivotas de Inverness.

    E foi precisamente em Lagos que aprendi a dimenso

    do voo das gaivotas. A sua presena surge insistente em tudo quanto seja stio: nos cus, longe, perto, pontos

  • 12

    indistintos; nas ruas, nos passeios, nos beirais, nos postes de iluminao, sobre o porto, na marina, nos mastros dos barcos ancorados, nas praias, nas falsias. Nem vento, nem calmaria lhes tolhe os movimentos seguros, metdicos, certos. A cada passo apenas pontos distantes no azul sem sombra de nuvens, so apelo de partida e de procura. E sente-se a alma leve, intensa, fugidia.

    As gaivotas de Lagos, de planar sereno ou rpido, sempre a despertar o desejo de errncia, de sonho e de partida. Ora transmitem calma enternecida, e o esprito, sereno, discorre por longes e pensares; ora trazem distncia, inquietao de alma nunca satisfeita com a taca ou a definio a que se chega. Sempre a partida no brilho dos olhos e o infinito por mitigar.

    Gaivotas dos cus de Lagos, eu vos sado, bendigo e sigo na descoberta de outras margens, na mira do sul e do azul, na busca de tudo quanto espero.

    Os poemas aqui coligidos abrangem datas que se

    estendem por trs dcadas, alguns deles at j se encontram publicados em livros meus anteriores. o caso de Fmbria de gua, Arcos da Ponta de Piedade, O Gigante, Gaivotas emigram, Nos barcos por esse mar azul, Gaivotas do cu de Lagos e Veleiro da areia que saram no livro Veleiro da Areia (1985), respectivamente pp. 5, 11

  • 13

    e 12, 13, 23, 21, 25 e 36; o caso de Planar de gaivota, Ali mo, Amizade e Janela que se encontram em Olhos no Presente (1982 e 21999), respectivamente pp. 34, 33, 17 e 24; o caso ainda de Arte potica e O azul envolve que foram publicados, respectivamente, em Pesa o Momento a Eternidade (1984, p. 1-10) e Telhas de outro Alpendre (1994, p. 30).

    Vrios outros apareceram em plaquetas na coleco Costa d Oiro j conta com 256 nmeros , dirigida por Cristiano Cerol que, anualmente, no dia 27 de dezembro, promove em Lagos um encontro de poetas, com entrega ao Museu de Lagos de um exemplar de todos os nmeros publicados nesse ano. Saram nessa coleco Lagos (n 4), Vento de Lagos (n 247), Ali mo (n 66), Se framos gaivotas (n 256), Na limpidez da manh (n 226), A voz do mar (n 140), O mundo e o infinito.

    Outros, porm, so inditos e apresentam-se pela primeira vez ao pblico.

    De qualquer modo, mesmo os j publicados e includos em colectneas anteriores, todos eles, aparecem em Gaivotas alterados, com novas roupagens, ou remodelados de forma significativa. Alguns quase solicitam a qualidade de novos poemas.

    Todos eles todavia publicados ou inditos, parcamente remodelados ou por completo desconjuntados e

  • 14

    com profundas alteraes , todos pedem vnia e aceitam leitura interessada.

    Os poemas tm a companhia de imagens em

    fotografia de Ins Cerol jovem arquitecta e minha afilhada que, em resposta a um desafio que lhe lancei, leu os textos e procurou adequar-lhes as fotos que das gaivotas de Lagos foi colhendo.

    O conjunto vosso. Talvez vos possa despertar alguns sonhos e desejo de partida para longes e infinito. O mundo belo e a Terra me solcita, criadora e dadivosa. Mas a vida que nela habita nem sempre lhe faz jus, e mesquinha, pequena, invejosa, dolosa. E ns somos sempre os eternos insatisfeitos, trazemos na alma o desejo constante de procura, em nenhum lugar encontramos a felicidade e a plenitude do Ser. Enfim, nunca chegamos taca que com denodo buscamos.

    Dezembro de 2009

    Jos Ribeiro Ferreira

  • FMBRIA DE GUA

  • 17

    Fmbria de gua

    Rasga o cu um voo de gaivota.

    Difusa se perde na distncia

    Fmbria de gua

    No devir da vida e do cansao.

  • 19

    No azul limpo da manh

    O planar feliz das gaivotas sada a manh

    E sorriem as ruas no sol que desponta.

    Nos corpos acorda morena a vida

    E povoa a cidade o fluir quente do tempo.

    Tece o desejo o passar dos dias e das horas

    Num denso tecido que nos marca de ausncia.

    Desenhos que se cruzam precisos e seguros,

    Rasgam as gaivotas o azul limpo da manh.

  • 21

    Arcos da Ponta da Piedade A Walter de Medeiros

    Partem as gaivotas e retornam

    Sem cessar.

    As rochas ganham forma e vida,

    Lanam arcos de futuro.

    Arcos em procura repetida

    Que transpem sombras e incerteza.

    Pacincia longamente executada

    No fluxo das ondas e da espuma.

    Os olhos e sonhos no longe e no futuro,

    A obra nasce onda a onda inacabada:

    Busca do para-l de si e do destino.

  • 22

    Dia a dia sentinelas da espera

    Voam de vs as gaivotas uma a uma.

    Cruza o ar um adejo de beleza.

    Certo e seguro tudo se conforma.

  • 23

    Tudo tem o seu incio e o seu fim

    Certo e seguro.

    Somos barcos que deslizam

    Suspensos do destino?

    Ou gaivotas que planam

    E procuram, leves, o azul?

    Sem cessar,

    Partem as gaivotas e retornam.

  • 25

    O Gigante

    Olha o mar o teu estar a

    Sentinela do alm.

    De adejar e sonhos te coroam as gaivotas.

    E a espuma tece

    E te veste de linhos de noivado.

    Dos barcos que partem guarda seguro,

    No mar te ergueste e a ficaste.

    Trono sereno e reino de gaivotas.

  • 27

    Gaivotas emigram

    Em minha vida emigram as gaivotas.

    O sonho pressentido na manh

    Olha o futuro com pensar pressago.

    O destino denso da ma

    Que na ponta do ramo se oferece.

    Na minha vida emigram as gaivotas.

  • 29

    Nos barcos por esse mar azul

    Nos barcos por esse mar azul...

    Em rasto de espuma enrodilhado atrs de si

    Dobram o recorte da falsia os barcos.

    volta volitam agitadas as gaivotas.

    Os barcos aconchegam a esperana

    E nos longes o afago acena e chama.

    Nos barcos por esse mar azul...

    Indeciso desejo imerso no meu ser,

    Desliza a pressa dos barcos

    E voam seguras as gaivotas.

    Nos barcos por esse mar azul...

  • 30

    A partida dia aps dia procurada.

    ntimo desejo de sem retorno romper

    O limite que susta e que encerra.

    Nos barcos por esse mar azul...

    Carne e osso agarra-nos terra.

    Esprito somos nos longes dela:

    A eterna nsia de tempo que no chega.

    Nos barcos por esse mar azul...

  • 31

    E sempre o aqui nos encontra

    No partir e no sonho...

    No dobrar da curva

    Sempre o vazio e o desejo

    espera de outra curva.

    Nos barcos por esse mar azul...

    Dobram os barcos as rochas da falsia.

    E em roda volitam as gaivotas

    Ou planam no azul distante.

    E os olhos partem, sfregos de lonjura.

    Nos barcos por esse mar azul...

    Que rotas e acasos levam os barcos?

    Que longes os chamam e que apelos?

    Vero no regresso o aceno das gaivotas?

  • 33

    Gaivotas do cu de Lagos

    1 Nos cus de Lagos planam as gaivotas

    A adiar a partida dia a dia sem cessar.

    Que espera vos detm e vos sofreia?

    Ao balouar das quilhas e do tempo

    Nas amarras e mastros ancoradas,

    Embalam a vida no calor da manh

    Ou sadam os raios fugidios da tarde?

    Em suas asas adeja a madrugada

    A abraar a terra de luz e limpidez.

  • 35

    2

    Partam tambm os barcos e regressem.

    No mar cor de vinho no naufrague

    No fenea nunca

    A esperana dia a dia acalentada.

    Asas imponderveis de vento e preciso

    A vencer os volteis gros do tempo

    Sem temor do fugaz fluir frgil..

    Planam nos cus de Lagos as gaivotas.

  • 37

    3

    Gaivotas que cruzais os cus de Lagos!

    Voai, gaivotas, geomtricas nos cus de Lagos,

    Voai nas horas todas, a planar no azul profundo,

    Perto ou longe, pontos perdidos na distncia.

    Parti com a luz e trazei o azul profundo

    O mrmuro ritmo da mtrica das ondas.

    Alegre rumorejo de frescura e mar sereno,

    Vinde gaivotas, vinde sempre, vinde todas.

    Impulso impondervel de partir todos os dias,

    Vogai serenas nas asas do vento norte ou sul

    Gaivotas que voais nas tardes e na procura

  • 39

    E as manhs sorriem nos olhares de todos

    No voo planado que sois e na graa de o ver.

    Sonho de ser as asas na liberdade do azul

    A transpor as grvidas sombras do futuro

    Que nos marcam e nos cercam os passos.

    E asas no vento e na luz suave da manh

    O corpo leve dissolve as sombras e temores.

    Em voo medido e seguro, partem as gaivotas.

    A deslaar os limites que vedam e tolhem.

    A luz fresca da manh e o afago do sonho,

    Sedutores, leves, trazem o azul e o voo.

    E com o voo chega a voz e a cor do mar.

  • 40

    Tudo concentrado nas linhas que traais,

    Um complexo desenho nunca satisfeito,

    Gaivotas a planar no azul limpo e sem limites..

  • 41

    Veleiro da areia

    Na areia imprime os contornos o veleiro.

    Gaivotas nas amarras, nas velas a esperana,

    Leva a mundos e longes que se buscam.

    Um dia

    O vento que passou e o fluxo das ondas

    Deliram persistentes as formas do veleiro.

    Sem velas nem gaivotas nas amarras

    J no voga a esperana no veleiro.

    Agora

    Passam as ondas e o rigor dos ventos

    E, nos limites estreitos de praia deserta,

    Encontram apenas a sombra do delido.

  • 43

    Agora

    Os barcos passam no mar ao largo sem parar.

    Sem futuro morrem os sonhos ao nascerem.

    Dobadoiras sem esperana e sem repouso,

    Nunca mais

    Em seu voo as gaivotas nele vo pousar.

    O veleiro da esperana

    Desfez-se na areia varrida pelos ventos

    Cansado desejo e busca do nunca mais

    Os mundos e longes que se buscam.

    Ou espera que cheguem as velas do veleiro

    Ou se fixem as linhas precisas das gaivotas.

  • 45

    Planar de gaivota

    Movimento

    Lento.

    Um ponto distante,

    Quedo e constante.

  • 47

    O vento braveja

    O bosque braceja

    Os pinhos ramalham

    As ondas marulham.

    Arrojo desfia

    Tudo desafia.

    O corpo parado

    Concentra infinito,

    No mar agitado.

    Longe em longe um grito,

    Mais nada se nota.

    Planar da gaivota.

  • 49

    Asas

    Tinha as asas encantadas

    Dos sonhos da vida inteira.

    E tenho-as hoje cortadas,

    J nem alcano a ladeira.

    As asas me conduziam

    Por terras, tempos, distncia.

    Memria e vida traziam,

    Contornos densos de infncia.

    Palavras, sons me diziam

    Essas asas do meu sonho.

    Hoje apenas denunciam

    Viver amargo, bisonho.

  • 50

    Eram belas essas asas,

    Planar branco de gaivotas.

    Nada as tolhia, nem casas,

    Muros, fronteiras ignotas.

  • 51

    Rastejam nas ruas planas

    Asas que eram meus sonhos.

    Meus olhos sabem a terra,

    Longe planam as gaivotas.

  • 53

    Lagos

    Nos cus de Lagos, no seu azul suave,

    As gaivotas so pontos e traos no infinito,

    Em complexas geometrias se cruzam

    Precisas e sem erros ou enganos.

    No declive suave das encostas

    Debruam-se as casas atentas

    E espelham-se no mido revrbero das guas.

    Descem em alvas escadas at ao porto.

    A cidade rev-se vaidosa na concha da baa.

    Por momentos, tropeam os olhos descuidados

    Nos campanrios de Santa Maria e Santo Antnio.

  • 55

    As gaivotas planam na brisa da tarde

    E signos traam de ocultas mensagens:

    O silncio da escrita no rigor das imagens.

    No pedestal da praa olha o Infante o longe.

    Que mundos e segredos divisa alm do mar?

    Fixo silncio vela o seu olhar atento.

    Lamenta ao lado,

    A memria de escravos de outros tempos.

    Vozear de vida nas tardes de vero

    sombra do Forte e das muralhas

    Que guardam a presena do passado.

    Os sonhos que se geram, logo partem.

    Fluxo e refluxo das gentes e das ondas.

    Vem a enchente

    E alarga-se o porto e o movimento.

  • 57

    Quente nasce o vero na vida a cachoar,

    Mas esfria o fervor o outono

    E aos poucos rola o peso do silncio:

    Pacato adormece nas ruas o inverno.

    Ocupa o vazio e cidade e se instala nos recantos

    E as fugidias imagens das gaivotas

    Que sonhos profetizam da cidade?

    Germina a presena do passado

    E grvido decorre o fluir presente.

    As gaivotas povoam a memria

    De leveza, de harmonia e de distncia

    Fluxo e refluxo de vida e de silncio.

  • 59

    A voz das ondas

    O silncio fundo nas ruas de Lagos:

    O cansao do vero a descansar.

    Recolhe o fino gume do frio do vento

    E a cidade adormece na calma de Inverno.

    As gaivotas hibernam e deixam que o sol aquea,

    Acena D. Sebastio aos transeuntes

    Os raros que por ali passam e o olham.

    Pensa de certo como suster elmo to pesado.

    Gil Eanes recolhe sombra das muralhas.

    E D. Henrique sente a calma e o sossego

    De olhar o mar e a distncia irresistvel.

  • 61

    As gaivotas alimentam a memria de figuras

    E a voz das ondas mais forte e sedutora.

    Chamares de sereias e de longes sem recusa.

  • 63

    O vento de Lagos

    Deitou-se a tarde na mrmura sombra das ondas,

    E as gaivotas de Lagos, ntidas, nos cus recortadas.

    Que lugares invisveis, que cidades nos constroem

    Os seus voos de arquitectura controlada, desenhada?

    A bem medida segurana no espao azul do infinito.

    A perfeio de corpo no voo

    E o controlo da vertigem no domnio dos ventos.

    Planam ao rugir e silvo de nortadas e mars,

    Planam as gaivotas,

    Formas impassveis na penumbra do anoitecer.

  • 65

    Assobia o vento nas copas das palmeiras

    E o sussurro percorre a avenida solitria.

    Recolheu-se o inverno nas praas e ruas

    E, denso, o silncio da noite envolve Lagos.

    Tudo parado em tensa espera de manh de dezembro.

    S a rsea claridade e a brisa fresca parecem destoar,

    Em anncio de que o sol desponta e traz de novo a vida.

    Bailam os sons na brisa da manh

    E leve sente-se o rumor dos tempos.

    O sussurro da Histria nas ruas de Lagos.

    Deitou-se a tarde na sombra das ondas.

    Ntidas, em azul recortadas as gaivotas.

    Que cidades invisveis nos constroem

  • 66

    Os seus voos de arquitectura controlada

    Desenho bem medido nos longes e infinito?

  • 67

    Rugem as nortadas, estrugem nos rochedos as mars.

    Leves nas asas do vento, planam as gaivotas de Lagos,

    Formas impassveis na penumbra do anoitecer.

    A perfeio do corpo no voo

    E o controlo da vertigem no domnio dos ventos.

    Sonhar, bom sonhar... Comanda

    O sonho a vida e todos ns partimos

    Demanda de novas tacas, outras sempre.

    Ilhas imaginadas que nunca descobrimos.

    Chegamos, porm, ao fim do dia,

    Sufocam a alma o choro e as lgrimas.

    Mgoa funda oprime a bloquear todos os poros.

  • 69

    Os ventos sacodem a vida,

    E ligam as linhas pontos e contactos.

    Que mo secreta conduz o dia a dia?

    Que fora empurra os nossos gestos?

    Que impositiva voz nos dita as palavras?

    Esvaem-se todos os sonhos pela tarde.

    Dos passos, palavras e gestos nem vestgio

    Na crespa areia movedia do deserto.

    Um ar de vento, um leve sopro tudo ruiu.

    Frgeis casas de carto nas cheias de outono.

    Fumo e nada no labirntico fio da memria.

    Deitou-se a tarde na mrmura sombra das ondas.

    E as gaivotas, ntidas, recortadas na densidade do azul.

    Que cidades invisveis nos constroem os seus voos

    Arquitectura controlada, desenhada, bem medida?

  • 71

    As gaivotas de Lagos e seus voos precisos e simtricos!

    Quase pontos indistintos no denso azul do infinito.

    Desfia a memria o fino fio do rio do tempo

    E a vazia corrente da vida desliza e no abarca nada,

    Quais ltimas folhas secas levadas pelos ventos.

    Os passos medem os caminhos da existncia

    E marcam-nos as faces de sulcos e ausncias.

    Figuras recortadas na senda do passado,

    Em trao grosso e vivo umas, mais delidas outras,

    Ano a ano deixadas na tela da memria.

    Nos mares e nos cus de Lagos

    Mensageiros de paz e de unio

    Fossem barcos, corvetas, avies.

  • 73

    Em voos planados e linhas precisas e seguras,

    Fossem as gaivotas apelos de longes e de infinito.

    Fossem solidrias e atentas as pessoas,

    Nos gestos, nos actos, nas palavras,

    Nos olhares, nos sorrisos, nos silncios!

    Ouvisse cada um o marulho e cadncia do mar

    E sentisse o eco e o apelo apetente da distncia

    Busca insistente que no encontra nunca!

    Observasse a leve dana da espuma

    E escutasse a msica insistente do vento!

    E na memria coexistiriam ento ao menos

    Alegria, felicidade e a ternura do afago de um olhar.

    Ressoaria novo hino de seiva renascida sobre a Terra.

  • 75

    As gaivotas, ntida perfeio do corpo no voo,

    E o controlo da vertigem no domnio dos ventos.

    Ao som do rugir de nortadas e mars vivas

    Planam as gaivotas de Lagos,

    Formas impassveis na penumbra do anoitecer.

    As gaivotas de Lagos e seus voos simtricos!

    Quase pontos indistintos no denso azul do infinito.

    Assobia o vento nas copas das palmeiras

    E o sussurro percorre a avenida solitria.

    Recolheu-se o inverno nas praas e ruas

    E, denso, o silncio da noite envolve Lagos.

  • 77

    O azul envolve

    O azul envolve

    O voo das gaivotas.

    Sem medo

    Olha o cu

    E pousa a confiana

    A cabea.

  • 78

    Sem nuvens

    O azul envolve...

    Sem sombras

    Seduz a esperana

    E o sonho toma ao longe

    A forma do voo das gaivotas.

  • 79

    Ali mo Desce a limpidez da tarde. Afluem as ideias, Uma aps outra, Claras, ordenadas. No sonho real, o infinito Ali mo. O voo pleno da gaivota.

  • 81

    Amizade

    Forte e intensa

    A presena

    Reflexa as ondas

    E o planar sereno das gaivotas.

    Afluem as imagens.

    Memria acumulada

    As vozes reconvocam.

    Refazem-se de novo

    Actos, palavras e gestos.

    A manh dedilha os poros

    E voo relana o reencontro:

    Harmonias, sensaes e coros.

  • 83

    Nos adustos passos da vida,

    Um dossel de rosas

    O brilho dos olhos jubila:

    Asas da amizade nas ondas da brisa

    Planar sereno de gaivota

    No azul lmpido da manh que nasce.

  • 85

    A janela

    Recortados na baa e na marina

    A partida e o aceno das gaivotas.

    O azul do mar reflexa o cu e a distncia.

    Ali mo, a baa de Lagos

    Recolhe as ondas no cncavo da concha

    E atrai a cidade de casas debruadas e atentas:

    O horizonte desce da janela e nos longes se alarga.

    Brilham os olhos felizes no alvor da espuma

    E deles partem, fastas e festivas, gals e gaivotas.

  • 87

    Se framos gaivotas

    Se framos gaivotas, amada minha,

    Ou crilos.

    Atravessvamos as procelas da vida

    Nas longas buscas da memria perdida.

    Forma-se aos poucos o denso tecido

    Que nos faz

    E nosso rosto na viso dos outros.

    E no mais

    Nos abandonam as marcas que deixamos.

    Tesselas que so no passeio da nossa vida.

  • 89

    Cada um de ns, homem ou cidade,

    O que ? Que lhe imprime carcter?

    Apenas passado que o conforma faz e marca

    E sonhos projectos que nutre e alimenta.

    Se framos gaivotas, amada minha,

    Ou crilos.

    As longas asas de aconchego acolheriam

    O espesso passado de ternura e desencontros.

    A origem leve e magra de um atrito

    Ou o tmido aflorar de um gesto de ternura.

    To leve e to inconsistente,

    Simples esboo de mover de dedo

    E logo sombria a borrasca desaba

    Ou hmido sorri o brilho inteiro dos olhos.

  • 91

    Se framos gaivotas, amada minha,

    Ou crilos.

    O denso novelo do tempo aos poucos

    A memria, solcita, desfiaria:

  • 92

    Actos gestos palavras olhares silncio risos.

    Todos nos pnhamos nesse tecer laborioso.

    Tudo concentrado nas asas desse voo

    Longo, medido, sempre exacto em cada lano.

    Nas linhas, nas curvas, no sereno azul intenso...

    Nos ventos desencontrados...

  • 93

    Se framos gaivotas, amada minha,

    Ou crilos

  • O MUNDO E O INFINITO

  • 97

    Arte potica

    1 Sentou-se na areia e lanou aos ventos as palavras

    procuradas. E as vozes partiram nos ventos e nas brisas,

    quais gaivotas ou crilos.

    Partiu a mensagem que trouxera nos dedos das

    ondas, no suave fluir das brisas ou no agreste aoite dos

    ventos. Pelo azul se espalhara, dispersara.

    Aos poucos o poema se conforma no silncio das

    vozes que lhe traz o marulho do mar ou lhe escreve o

    voo das gaivotas.

    E espalham os ramos o poema e os olhos das

    janelas. Um silncio fundo se propaga na claridade da

    manh e frutifica no sazonamento e na madurez da

    tarde...

    E as vozes partiram nos ventos e nas brisas, quais

    gaivotas ou crilos.

  • 98

    2 Nas areias finas e macias distende o corpo a

    pensar no futuro. Estirado, atira ao vento as palavras e,

    sem demora, sente o mar erguer-se e ser descanso para a

    alma.

    No azul intenso se concentra a luz clara de

    realidade nova. Praia de luz sonora, pensa em si e entoa

    um hino no rolar das ondas e no sumir da espuma.

    Sem esperar a tarde, embarca logo na manh que

    estava ali e trazia um futuro para se colher e ser vivido.

  • 99

    Embarcado, rema forte para o porto que trazia nos

    olhos. Na praia deixara ventos e empecilhos. Com a

    proa guiada pelo voo das gaivotas, transporta no bornal

    a vida, os sonhos, a busca de lonjura.

    A lancha de ondas e de espuma sulca a luz fresca

    da manh que ilumina os contornos e volumes do poema

    que o poeta embala nos braos em carcia de dedos.

    No fogo proftico que transforma o brilho do

    olhar, as palavras dispersam no brua que acolhe a sua

    voz. E o sonho que trouxe abala e se esvai.

    E as vozes partiram nos ventos e nas brisas, quais

    gaivotas ou crilos.

  • 100

    3

    Procura e movimento no podem calar-se. O

    sonho os fecunda e impele-os o pulsar quente da cidade

    acumulada na memria.

    Sem uns e outros, bzio vazio d praia e as

    ondas o arrastam de lado para lado. E no tem amanh,

    sempre agora mesmo no transformar-se ondulado em

    fluxo e refluxo.

    No se parte nunca amanh. Vive-se sempre o

    agora nas crinas sedutoras do que lento germina em

    cada passo. E a presena est em cada acto que, mal

    aflora, transpe os umbrais do futuro.

    No embalo das ondas, os pensamentos de mar em

    movimento so estrada nova por onde tudo parte. Fcil

    ou difcil que seja a caminhada, devem ser dados os

    passos.

  • 101

    O autocarro do futuro viaja por a. Sem muitas

    paragens, mas sempre as necessrias. E nele os sonhos e

    a busca, o penar e o sorrir. Sempre se insinuam na

    felicidade esforo e sofrimento.

    Na viagem devem todos ter lugar. Nunca uma

    estrada de coutada. Nunca o aviso a proibir a passagem

    a pessoas estranhas. Estendidos os braos, deve o

    ceifeiro moreno abarcar toda a seara no abrao pejado.

    Nem esquinas que obstruam ruas, nem praas

    desertas, nem harpas expostas aos quatro ventos, sem

    cordas. Nas sendas e orquestras da memria, o fluir

    permanente das imagens e dos sons.

    E nesse rememorar procura sempre as vozes

    sinceras e fortes que escutou e conformou. Empunhadas,

    espalha-as nas palavras de vento, nas ondas.

    E nesse rememorar procura sempre as vozes

    sinceras e fortes que, escutadas ou vistas, se instalaram.

    Empunhadas, espalha-as nas palavras de vento, nas

    ondas.

  • 102

    As vozes que partiram nos ventos e nas brisas,

    quais gaivotas ou crilos.

  • 103

    4

    A cidade mergulha no silncio de esfera insegura?

    Ser que adormecida nessa quietude de noite? Ou atenta

    escuta, ouve bater o corao da vida e das coisas?

    Movimento de ondas e de espuma na quilha do

    navio traz a vida nos dedos indistintos e multmodos. E

    o ritmo, o mrmuro marulho acordam e instigam a

    cidade.

    Sem perder nunca os raios da manh, invadem os

    jardins, ruas, praas, vielas. E nas vozes que pressente

    arde a chama em que pastam as palavras.

    Quase sempre a voz nasce discreta, na penumbra.

    Voz que traz as gaivotas e as acaricia na brancura da

    pgina. E com elas, no rectngulo mgico, parte pelo

    azul intenso do mar e do cu.

    A voz canta nas ruas, na estrada e nos caminhos

  • 104

    por onde tudo parte na manh. Canta o porto onde todos

    embarcam no veleiro para a mesma viagem.

    E a voz, nas velas, ventos, movimento; na proa,

    ondas e espuma. De tudo se enfuna o pensamento. De

    tudo se alimentam as palavras. E tudo entretece no ritmo

    secreto do poema.

    E as vozes partiram nos ventos e nas brisas, quais

    gaivotas ou crilos.

  • 105

    5 Rolam na areia as ondas. Na manh que se estende

    e brilha na nitidez do azul, arde a chama do futuro. No

    corpo a terra pulsa, geme em cada poro.

    Uma sombra entristece o horizonte e aflora a

    espaos o azul turquesa das guas da baa. A terra

    estremece e afigura soluar baixinho, em ntimo gemer.

    Envenenam-lhe o corpo rios poludos. Morrem as

    brisas da tarde e capacetes de cinza envolvem as

    cidades. A vida agoniza nos recantos, e tudo parece

    querer tonificar-se, sorvendo o ar em haustos longos,

    compassados.

    E as vozes gemem nos ventos e nas brisas, quais

    trens de gaivotas ou de crilos.

  • 106

    6 Veio ter praia em descanso nas areias quentes do

    vero o denso e consistente hmus da memria.

    No olhar crepita o fogo e, labareda altiva, sua voz

    chama que incendeia. Combusto real e certa, arde a

    esperana. Aberto e sem nvoas tudo se modela.

    Nova bandeira de vida e movimento drapeja na

    cidade. Chegam gentes e carros, ruas e casas movem-se

    no denso refluir das coisas e dos dias.

    Sentado em rochedo afeioado, olha as gaivotas

    que planam na distncia da vida ou pousam na babugem

    das ondas.

    Por ele, perpassa a lembrana das cidades

    espera. luz do entardecer da vida atira as palavras e

    sonha. Uma espera serena e reflexiva.

    Hoje, reclinado na praia, olha para trs e v as

    palavras que lhe deram. O tocar dos sinos chama as

    iluses as palavras e as formas chegam mesmo na

    sombra da madrugada.

  • 107

    Na praia, olha o horizonte longnquo. Os olhos,

    seguindo o voo de gaivota, fixam o infinito.

    Atento desdoba o novelo o inconstil tecer do

    tempo. Em sucesso, umas s outras se empurram as

    questes.

    As suas palavras semearam esperana e

    movimento? Ou enquistaram em quietude estril,

    amorfa e ftil? Ficara esquecimento ou lembrana do

    fogo?

    O brilho dos seus olhos consome o desfiar da

    memria.

    E as vozes e imagens partem nos ventos e nas

    brisas, quais gaivotas ou crilos.

  • 108

    7 Vogam corvetas de sonho em que todos querem

    partir. As lanchas navegam nas ondas e na espuma, o

    bulcio ocupa praias e cidades.

    As nuvens brancas passam pelo cu. Deitado na

    praia e no marulho, pensa as palavras que espalhou.

    Procura colh-las ainda, a ver se lhe enchem a mo.

    To sfara a colheita! E tanto sonho investido nos

    passos, nos gestos, nas palavras. To sfara a colheita!

    E as vozes e imagens calam nos ventos e nas

    brisas, quais gaivotas ou crilos recolhidos nos recantos.

  • 109

    8 As gaivotas apelam distncia. E a impositiva voz

    a insistir:

    No se demore o descanso na tepidez enlaante

    da areia. Chama a vida sempre a espera.

    Vai poeta, vai espalhar o fogo que te arde e s as

    ondas em que navegue a realidade dia a dia.

    O cansao tolhe os membros e a vontade. Densa

    desiluso parece apagar todos os passos marcas vozes e

    palavras.

    A frustrao medrou, razes fundas na vontade que

    havia e nunca acolhida. Um vazio, que pode ser tudo,

    cobre a alma de silncio e expectativa.

    S o voo das gaivotas no deixa de chamar o

    poeta e o leva no seu seguro voo planado.

    O apelo de longes e infinito.

    E as vozes imagens partem nos ventos e brisas,

    quais chamares incessantes de gaivotas ou de crilos.

  • 111

    Na limpidez da manh

    1

    Cruzam o cu cinzento as gaivotas em linhas e

    figuras bem medidas. Todo o espao lhes pertence, num

    planar certo e seguro, mais leves do que o vento ou a brisa.

    Luminosas na rstia de sol que rompe as nuvens,

    parecem penetrar os longes e distncias

    Na limpidez da manh rememoro o tempo que todo

    flui e se desenrola no momento no momento preciso que

    passa, e nos foge mal se pensa.

    Nunca as mesmas guas nos banham o corpo ou

    repetem os acasos e actos sentidos ou vividos. Sempre

    outras, as imagens desfiam no rio do tempo, reais, ntidas,

    espessas, consistentes.

  • 113

    O dia corre cinzento, ventoso, salpicado a espaos

    por chuveiros. O vento fresco, por vezes agreste, tresmalha

    o cabelo. A sensao de que o frio penetra os poros e quer

    residir.

    E as gaivotas, plumas serenas na grisalha espessura

    dos cus de Lagos, esquecem o momento. So liberdade do

    corpo, elevao do esprito, alegria do corao.

    E vamos com as gaivotas no dobar da memria que

    leve desfia o tempo e recorda as marcas do passado: cores,

    sonhos, sabores, cheiros, sons, imagens, relevos,

    espessuras.

    Da esplanada onde me sento, olho-as, interessado e

    divertido. Olho-as, sempre atentas que as vejo s nortadas e

    a tudo quanto em redor se move.

  • 115

    2

    As nuvens, alvas, difanas ou mais grisalhas, so

    vertigem de carrossel. No seu enlouquecido curso, parecem

    competir com as gaivotas que as cruzam e recruzam.

    De entretido na contemplao no noto sequer que

    uma delas me espia: uma das muitas que planavam.

    Gaivota atrevida, trocista.

    Pousa no rebordo da marina, caminha no seu andar

    lento e cadenciado, pra junto porta da esplanada, de

    cabecita ao lado, olhos vivos, atentos, investigativos, de

    quem se lembra de passadas eras e de outras encarnaes.

    Que me querem dizer seus olhos, intensos,

    brilhantes, percucientes? Miro-a e adivinho qualquer laivo

    de ironia ou troa naquele brilho dos olhos midos. Que se

    esconde naquele inquisitivo olhar vivaz?

  • 117

    A fundura das coisas chega-me da luz que neles

    pressinto. E j nem sei se sou eu que me penso ou se todo o

    passado se concentra naquele momento para ser quem sou.

    O pensar sai de mim desfilada, e tenho de o seguir,

    lesto, apressando o passo. E enquanto estugo o andar para

    o no perder, a gaivota continua atenta e concentrada.

    Tem agora a companhia zelosa, interessada. E o co

    rafeiro que agora na porta tambm se perfila acumula

    ternura nos olhos que pedem, imploram mesmo.

    E os ingleses, sempre efusivos, entram, saem,

    reentram na esplanada. E tudo parece domnio de herana,

    territrio afanosamente conquistado.

    Entretenho-me a olhar a gaivota que da porta da

    esplanada observa por bom bocado e depois parte no seu

    passo lento, desengonado. E perco-me a pensar

    Na limpidez da memria, a gaivota regressa do seu

  • 118

    passeio explorativo, olha-nos por momentos da porta da

    esplanada, com os mesmos olhos interrogadores, e logo

    parte, em voo tenso e poderoso, a reunir-se s outras que

    planam nos cus de Lagos, calmas, serenas, alheias a

    ventos e tempestades.

  • 119

    3

    O silncio denso forma-se aos poucos nos recessos

    da memria e por a se queda, aconchegado e mudo. O pai

    natal tudo avassala e tudo mancha de vermelho.

    Procuro com os olhos o leve e artstico voo das

    gaivotas e dou com o bisonho pai natal a planar sobre a

    Marina. Sobrevoa veleiros e iates, num baloiar suave ou

    sacudido, de acordo com a brisa ou ventania.

    Quer a canhestra e vermelha criatura emular com as

    figuras leves ziguezagueantes das gaivotas? O baloiar

    desengonado com os desenhos seguros, precisos,

    medidos?

    A msica no deixa de proclamar Noite feliz! Noite

    feliz! e Noite de paz! Noite de paz!. Ou ser que nada

    dizem j a mensagem e os votos formulados?

  • 121

    As pessoas continuam apressadas e em constantes

    atropelos, alheias de todo a tais apelos, e nem sequer os

    ouvem na limpidez do dia que desponta.

    Nessa luz ntima da manh, s as gaivotas, cada vez

    mais altas e mais distantes, parecem espalhar a mensagem

    at ao infinito.

    E sensao de paz comea em mim a ganhar

    espessura. Sinto que se estende em redor e se espelha nas

    coisas e no dia.

    Dia de paz na limpidez da manh.

    Natal de 2005

  • 123

    A voz do mar

    Desertas e vazias, as ruas evitam o fino gume do

    vento e recolhem os raros transeuntes na primeira porta

    ou na esquina mais prxima. De quando em quando,

    espreita um gato, mas de imediato encolhe o focinho.

    Silncio nas ruas e na vida.

  • 124

    As gaivotas, quedas e mudas, hibernam num

    torpor parado. Pousadas nas chamins, casas ou

    rochedos, olham a cidade, as ruas e a praia.

    Interessadas em msicas e sons de longes e mares,

    fixam o vago e a distncia como se nada vissem.

    Deixam apenas talvez que o sol aquea ou que o tempo

    passe.

  • 126

    D. Sebastio, no meio da praa, pisca os olhos aos

    raros transeuntes que por ali passam e o contemplam.

    Cansado de guerra e de armadura to pesada, pensa

    talvez na impossibilidade de erguer e suster o elmo que

    jaz aos ps.

    To delicada a figura! E as armas, de to pesadas,

    assustam! E quase nem as gaivotas o visitam!

  • 127

    Gil Eanes cobre o desabrigo da avenida com o

    manto do arvoredo e adormece sombra das muralhas.

    Por vezes, parece, quem sabe, assustado com os gritos

    que ouve no hospital? e o distraem da voz que o

    chama.

    Um apelo que lhe vem do mar e, premente, insiste.

    E, a contemplar as evolues e o planar seguro das

    gaivotas, os seus olhos parecem seguir a distncia dos

    seus voos, na busca de transpor longes e medos.

  • 128

    D. Henrique, na calma e no sossego da praa,

    esquadrinha o mar e a distncia irresistvel. Tudo se concentra naquele olhar e rosto. Atento, ouve chamares e sons distantes msica e carcia lhe chegam de locais e longes, e apelam, e seduzem.

    E o marulho das ondas cada vez mais forte, mais sedutor: vozes de sereias, chamares de longes sem recusa. Como se o mar cantasse e o apelo viesse do outro lado da terra, de alm da vida, de alm do sonho.

  • 129

    Quem resiste quela melodia insistente que envolve e toma as veias e o corpo?!

    Tudo apelo, chamar e voz de distncia: desejo insatisfeito de quem sente a certeza de que esse distante apelo a procurada taca.

    Sempre o mesmo sonho e a mesma busca nos

    passos apressados ou nos silncios contidos.

  • 131

    O sol despede-se por trs dos outeiros

    1

    O sol despede-se por trs dos outeiros e o dia

    encolhe-se nas primeiras sombras da tarde.

    Um anil de vinho espesso percorre os veios do mar

    e tinge as guas serenas da baa.

    O crepsculo desce ternamente a envolver de

    sombras e figuras as ruas, praas e recantos.

  • 132

    2

    Pontos distantes, delidos na tarde, as ltimas

    gaivotas aproveitam as asas da brisa, quase

    imperceptvel.

    E planam, pouco mais que quedas, em estranha

    emulao com o balancear cadenciado dos mastros na

    Marina.

    Por fim, s um ligeiro crucitar denuncia, na densa

    capa da noite, o seu poiso nocturno.

  • 134

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    Tudo perde nitidez de traos e contornos

    pardacento fluir de imagens e de formas.

    A noite ganha vida e movimento: nascem vozes,

    vultos e vislumbres deslizam, assomam sombras

    expectantes.

    Numa espessura cada vez mais densa, suspende-se

    a conversa, atentos aos contornos pressentidos num

    recanto.

    co, gato, alucinao ou par de duendes

    abraados?

  • 136

    4

    O forte perdera nitidez contornos delidos

    primeiro, depois silhueta na noite que aos poucos o

    devora.

    Estranho mundo de sombras, figuras imprecisas,

    vagas formas, fugidios traos, grvidos de receios e

    pavores.

  • 137

    Um mundo de sombras. At que, de sbito, a luz

    dos holofotes ilumina o forte e toda aquela dana se

    desfaz.

    E as gaivotas, sonolentas, erguem espantadas a

    cabea.

    Leve sobressalto apenas. Logo cerram plpebras e

    recaem na mesma quietude.

    A serena quietude da noite com seu manto denso a

    envolver mazelas no aconchego da sua proteco.

  • 139

    O mundo e o infinito

    Traam as gaivotas figuras de linhas certas e

    medidas. E o espao se preenche de imagens indistintas

    que sublinham o azul fundo e concentrado.

    Alongam os olhos o debrum da espuma. E os

    contornos das figuras dirigem a mente em voos calmos ou

    picados. Um silncio corporiza e cria a sensao.

    Ver as gaivotas planar em tardes de maresia adivinha

    a harmonia dos contrrios. Braveja o mar em ondas e em

    espuma. Que voz o altera e aperta o corao?

    O marulho reflexa as falsias e desdobra as ondas em

    quebradas e penhascos os ecos repetidos na distncia.

  • 141

    E as gaivotas cada vez mais meticulosas, to calmas

    de paradas, suspensas do infinito. Desenham o silncio nos

    olhos concentrados, onde se abrem sendas e sons.

    Nem uma mancha macula a nitidez azul do cu. A

    brisa nas tardes adustas de estio traz a voz de longes e

    chamares.

    Deitou-se a tarde na espuma das ondas. As sombras

    estendem seu manto que lentamente se espessa. E as

    gaivotas, ntidas, recortadas, cruzam o azul anilado da

    tardinha.

    Que cidades invisveis nos constroem? Ou que

    mundos nos chegam nas figuras que traam? Reabre a

    memria o ba e evoca tempos idos.

    A perfeio de um corpo e o controlo da vertigem no

    domnio dos ventos. No rugir de ventos e mars, planam as

    formas, impassveis, na penumbra do anoitecer.

  • 143

    E o mar recolheu no rubor que aos poucos esmorece

    o dia e adensa o horizonte. Um claro de fogo incendiou o

    mar e comprime o corao no peito sufocado.

    Que laivos amadura o cair da tarde? Desce o silncio

    a envolver as coisas. E tudo fica suspenso.

    Que segredos arrastam seus pores? Que promessas,

    ameaas ou medos trazem suas sombras?

    A noite dos fundos silncios que tudo revela e

    desmascara.

    Na mente, as linhas dos voos das gaivotas insistem,

    ntidas, multmodas, a traar imagens, volumes e

    contornos. Planam e a cidade adormecida ganha a forma

    indistinta de um sonho e de um apelo.

    O planar certo, metdico, medido.

    Nos ventos que sacodem a vida, ligam as linhas

    pontos e contactos. Que mo secreta conduz o dia a dia?

    Os passos medem os caminhos da existncia e

    marcam-nos as faces de sulcos e ausncias. Figuras

  • 144

    recortadas na senda do passado, ano a ano deixadas na

    memria.

  • 145

    Nada nos deixa indiferentes: um simples cheiro, a

    alfazema, a hortel; um rude tacto, a casca rugosa da

    figueira ou de uma amendoeira, de um pinheiro; um gosto,

    um incisivo gosto, a erva azeda, a macela; ou a cor, a cor

    sonora no verde de inverno, a brancura reluzente de uma

    casa exposta ao sol.

    Forte, o apelo cruzado desses traos invisveis. Tudo

    construo real e pertinente. Tudo aflora denso, intruso,

    intenso, impositivo.

    Desdobam as linhas o fio do passado e assomam as

    figuras s janelas do tempo: ntidas umas, outras difusas,

    vislumbre rpido ainda outras, ou contornos apenas na luz

    forte que sufoca a emoo.

    E as imagens perfilam-se na mente; desfilada

    percorre a imaginao a memria. A fundura de que somos

    abismo e o peso do passado que nos puxa e trava os

    passos!

  • 147

    Nada esquece a memria, quer certa e arrumada,

    quer catica e impulsiva. Incisivas curvas nas linhas

    cruzadas das gaivotas. O destino rapidamente traado em

    dois lanos de vento?

    A vida, que a vida, ao olh-la nas linhas medidas

    do planar das gaivotas? Um poo cheio de sonhos

    abortados antes de ganharem forma?

    Tem asas a mente e nada a detm nas loucas

    cavalgadas. Linhas concisas, contidas nos traos invisveis

    do voo das gaivotas. Em potncia, mundos, sonhos,

    emoes, o forte fluir das coisas.

    A vida concentrada no voo das gaivotas: ponto

    conciso, traado pelo encontro do planar distante com a

    linha do horizonte.

  • 149

    Do fundo da memria afloram figuras e formas.

    Na mente se perfilam reais e evidentes.

    O mundo e o infinito.

  • 151

    Eplogo

    A impregnada nvoa das idades

    Que dilui todos os contornos.

    E quase os no distingo.

    Dispersos me fogem os olhos e ateno.

    O azul do cu profundo recorta

    A silhueta planada das gaivotas.

    O horizonte atrai o azul insatisfeito do mar

    E os olhos se nos vo na distancia que os apela.