Myrna Coelho

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ARTE E LOUCURA: alguns fundamentos clínico-estéticos

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    Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista Jlio de Mesquita Filho, So Paulo, Brasil.

    9 , 10, 11 de outubro de 2012 ISBN: 978-85-62309-06-9

    ARTE E LOUCURA: alguns fundamentos clnico-estticos

    Myrna Coelho 1

    Resumo: O presente artigo trata da interface arte-loucura. Esse tema ser problematizado a

    partir dos resultados de uma pesquisa sobre a experincia de criao coletiva de um grupo de

    dana-teatro chamado Cia. Experimental Mu...Dana formado por militantes da Luta Antimanicomial em seus quatro segmentos: usurios dos servios de sade mental, seus

    familiares, profissionais e estudantes. Essa pesquisa foi realizada entre os anos de 1999 e 2006 e

    sistematizada na dissertao de mestrado das loucuras Da Histria: dana -teatro, sofrimento psquico e incluso social., apresentada ao Programa de Ps Graduao Interunidades em

    Esttica e Histria da Arte da Universidade de So Paulo (USP) .

    Muitos tm sido os esforos dos pesquisadores antimanicomiais em teorizar sobre suas

    prticas, na tentativa de rumar a reforma psiquitrica brasileira para um terreno de

    transformao de paradigmas. Esse modo diferente de relao com o fenmeno da loucura

    conceitualizado na reforma psiquitrica a partir de quatro dimenses inter-relacionadas,

    salientando a relao da arte neste campo.

    Conceitualizaremos, primeiramente, os fundamentos da Reforma Psiquitrica para

    posteriormente compreendermos a insero das artes no campo da sade mental, exemplificada a

    partir dos achados tericos da pesquisa referida. Abordamos a interface arte-loucura discutindo

    esta experincia como criao de um espao de participao poltica . Palavras-Chave: Arte-Loucura. Reforma Psiquitrica. Oficinas Artsticas. Fenomenologia.

    Dana-teatro.

    Introduo

    A discusso sobre loucura no nova, Foucault (2000) traz uma dimenso deste

    fenmeno pensando na diviso incessante entre razo e loucura e na interdio que a

    indicao do rtulo loucura contm. No Brasil essa discusso ganhou maior destaque,

    inclusive acadmico, com a criao do Movimento Nacional da Luta Antimanicomial, em

    1987, e posterior aprovao da Lei 10.216 em 2001, e com toda a construo das prticas em

    sade mental desenvolvidas pelos profissionais ligados ao pensamento desse movimento, que

    versa sobre a extino progressiva dos manicmios e sua substituio por uma rede de sade

    mental inserida em equipamentos de sade e cultura no territrio. A partir da, tambm se

    passou a inserir artistas como trabalhadores na rede de sade mental, produzindo um novo

    desafio na consolidao dessas equipes interdisciplinares.

    A metodologia de construo das oficinas artsticas no campo da reforma psiquitrica

    deve se fundamentar na possibilidade de sair de um lugar de troca-zero como o lugar da

    loucura para um lugar de criao, abre caminho para que outras potencialidades sejam

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    Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista Jlio de Mesquita Filho, So Paulo, Brasil.

    9 , 10, 11 de outubro de 2012 ISBN: 978-85-62309-06-9

    exploradas pelos usurios. Sair do papel social do louco a possibilidade de ocupar mltiplos

    papis sociais. A apropriao de uma nova linguagem, a vivncia de uma construo grupal, a

    ampliao da percepo sobre ser-no-mundo-com-os-outros e lutar pela mudana do

    imaginrio social da loucura o que possibilita ao grupo a vivncia do trabalho como

    ressignificao do ser-louco.

    Ressaltamos que o trabalho , tambm, pensado com Hannah Arendt em sua

    distino entre trabalho e labor, distino esta gerada por uma sociedade de consumo. A idia

    de trabalhar est relacionada hoje com o suor, a supresso, mas Arendt chama nossa ateno

    para quanto estes aspectos relacionam-se com a idia de labor. Labor pensado como ciclos

    repetitivos, de longa durao. a diferena entre fabricar bens durveis e no durveis,

    produzir fruio de beleza e produzir escravido (Arendt, 2003).

    Mas para fechar os manicmios no basta derrubar seus muros, mas os muros

    daquilo que Peter Pal Plbart (Plbart, 1990) chama de Manicmio Mental, ou seja, da

    significao do imaginrio social da loucura. O autor mostra que uma sociedade no pode

    erradicar seus loucos e sua loucura. Precisamos do direito liberdade de desarrazoar, ou seja:

    (...) uma dimenso essencial de nossa cultura: a estranheza, a ameaa, a alteridade radical,

    tudo aquilo que uma civilizao enxerga como seu limite, o seu contrrio, o seu outro, o seu

    alm (Plbart, 1990).

    1. Reforma Psiquitrica

    O conceito de loucura na dinmica da reforma psiquitrica entendido no como uma

    doena que necessita de cura e que, portanto, pede remdio, mas sim a partir de uma tentativa

    de colocar a doena entre parnteses, que muito bem definida por Paulo Amarante:

    Esta atitude epistemolgica de colocar a doena entre parnteses no

    significa a negao da doena no sentido de no reconhecimento de uma

    determinada experincia de sofrimento ou diversidade. Em outras palavras, no

    significa a recusa em aceitar que exista uma experincia que possa produzir dor,

    sofrimento, diferena ou mal-estar. Significa, isto sim, a recusa explicao

    oferecida pela psiquiatria, para dar conta daquela experincia, como se esta pudesse

    ser exp licada pelo simples fato de ser nomeada como doena.

    (...) A doena entre parnteses , ao mesmo tempo, a denncia social e

    poltica da excluso, e a ruptura epistemolgica com o saber da psiquiatria que

    adotou o modelo das cincias naturais para objetivar conhecer a subjetividade. (...) O

    1 Psicloga, mestre em Esttica e Histria da Arte USP, doutora em Integrao da Amrica Lat ina USP,

    integrante da Comisso de Direitos Humanos do Conselho Regional de Psicologia de So Paulo CRP-06,

    integrante da Associao Brasileira de Daseinsanalyse ABD.

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    Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista Jlio de Mesquita Filho, So Paulo, Brasil.

    9 , 10, 11 de outubro de 2012 ISBN: 978-85-62309-06-9

    resultado prtico desta psiquiatria, ao considerar que a loucura doena, no sentido

    do erro, fo i criar para o louco um lugar de excluso, um lugar zero de trocas sociais,

    que como Rotelli se refere ao manicmio.

    (...) necessrio estabelecer rupturas com conceitos tais como o de

    doena, de teraputica, de cura, de cincia, de tcnica, de verdade! (...) pois a relao

    a ser estabelecida no com a doena, mas com o sujeito da experincia . (Amarante,

    2003, p. 56 - 61).

    Quando colocamos a loucura entre parnteses estamos lanando mo da postura

    husserliana da poch (Husserl, 1952), implicando-nos com o compromisso de deixar de lado

    os psicologismos envolvidos nos pensamentos que se ocupam da sade mental, fundados no

    dualismo cartesiano.

    Esse modo diferente de relao com o fenmeno da loucura conceitualizado na

    reforma psiquitrica a partir de quatro dimenses inter-relacionadas.

    A primeira dimenso refere-se ao campo terico-conceitual, ou epistemolgico. Aqui,

    ressaltamos o conceito de desinstitucionalizao como um processo tico-esttico de

    reconhecimento de novas situaes que produzem novos sujeitos de direito, e novos direitos

    para os sujeitos. Tambm submete o conceito de doena a uma desconstruo, supondo que

    as relaes entre as pessoas envolvidas tambm sero transformadas, assim como os servios,

    os dispositivos e os espaos. O sujeito, no mais visto como alteridade incompreensvel

    possibilita outras formas de conhecimento, as quais produziro novas prticas clnicas e

    sociais. Na dimenso epistemolgica, busca-se estabelecer uma relao entre a transio

    paradigmtica das cincias e a ruptura epistemolgica em relao psiquiatria tradicional,

    presente nos fundamentos da inveno da loucura como doena mental.

    A segunda dimenso seria a tcnico-assistencial, donde emerge a questo do

    modelo assistencial. O modelo psiquitrico calcado na tutela, na custdia, na disciplina e na

    vigilncia, legitimando a institucionalizao, expressando-se no manicmio. Enquanto

    alienado, o louco estaria incapaz de decidir pelo seu tratamento e o asilo seria o local ideal

    para o exerccio do tratamento moral, da reeducao pedaggica, da vigilncia e da

    disciplina. O conceito de alienao se oporia, ento, ao conceito de cidadania, pois o alienado

    no pode exercer sua cidadania por sua condio de ausncia de Razo. Na dimenso tcnico-

    assistencial prope-se realizar uma analise dos principais conceitos que norteiam a produo

    de cuidados na rede substitutiva, entendida no apenas como um conjunto de servios, mas

    como uma estratgia que produz uma ruptura com o modelo assistencial hegemnico.

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    Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista Jlio de Mesquita Filho, So Paulo, Brasil.

    9 , 10, 11 de outubro de 2012 ISBN: 978-85-62309-06-9

    Uma terceira dimenso da Reforma Psiquitrica diz respeito ao campo jurdico-

    poltico, onde importa rediscutir e redefinir as relaes sociais e civis em termos de cidadania,

    de direitos humanos e sociais, pelo fato da psiquiatria ter institudo uma srie de noes que

    relacionam loucura periculosidade, irracionalidade, incapacidade e irresponsabilidade civil.

    Na dimenso jurdico-poltica, atravs de uma anlise do percurso histrico da Reforma

    Psiquitrica, prope-se destacar as tenses e conflitos decorrentes das aes dos diferentes

    atores sociais que provoca