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Metodismo releitura-latino-americana

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  • 1. METODISMO: RELEITURA LATINO-AMERICANAJos Miguez BoninoCo-edio: Editora UNIMEP Faculdade de Teologia (Editeo)Publicao de 1883 Traduo: Adesses Antnio Oliveira ArajoOBS: O presente livro resultado de Conferncias proferidas na Semana Wesleyana em maio de 1882 na Faculdade de Teologia-SP.

2. I CAPTULOFOI O METODISMO UM MOVIMENTO LIBERTADOR? Quem somos, como cristos evanglicos metodistas na Amrica Latina? Afinal de contas, importante tal pergunta? No suficiente identificarmo-nos como cristos latino-americanos? A pergunta no apenas retrica. Tem, ao contrrio, dois aspectos importantes. Um tem a ver com a urgncia das situaes que enfrentamos em nosso continente: enquanto so assassinados dezenas de milhares de camponeses, indgenas e jovens; enquanto governos ditatoriais condenam milhes misria e fome com seus planos econmicos , enquanto o ferrolho dos interesses multinacionais se fecha sobre o futuro de nossos povos, tem sentido determo-nos a investigar histria e tradies do sculo XVI, ainda que para legitimar nossas lutas do presente? Seria necessria ou til tal legitimao? No nos basta o questionamento do Evangelho e a urgncia da situao? O outro tem que ver com a nossa verdadeira identidade de metodistas latinoamericanos. Existe, realmente, uma tal identidade que nos distinga como metodistas? No ser artificial a tentativa de reconhecermo-nos em modelos de supostos antepassados com os quais no temos quase nenhuma vinculao? Mais do que buscar uma linhagem histrica na Inglaterra dos Lordes, no estaremos sendo chamados para nos identificarmos plenamente com a realidade atual de nosso povo? Em principio, creio que as duas observaes so corretas. A investigao de nossa herana metodista como costumamos chama-la no pode ser nem nossa primeira propriedade nem nossa lealdade derradeira. Nossa identidade no se forja primeiramente numa identificao com o passado, mas na realizao de tarefas presentes e no compromisso com um projeto histrico. Entretanto e aqui comeamos com uma resposta positiva to pouco se forja semo passado. H momentos na histria das pessoas e dos povos, particularmente em tempos de crises, escreveu John Mackay em 1943, quando a memria do ontem abre um caminho para o amanh, quando o despertar de um sentido de herana se converte em poderoso determinante de um destino (1). Pode o passado wesleyano, a herana histrica metodista, ter para ns essa significao? Essa pergunta mereceria uma resposta mais profunda e documentada do que a que posso tentar aqui (*). Mas gostaria ao menos de fazer trs colocaes a respeito. A primeira que nossa identidade como metodistas latino-americanos est, de fato, s muito indiretamente vinculada com a gnese do wesleyanismo, devido mediao da experincia histrica norte-americana. Ainda que ela nos transmita a tradio teolgica de Wesley, o faz seletivamente, conforme as nfases que se desenvolveram no metodismo norte-americano e muito particularmente na fronteira, onde o metodismo realizou uma verdadeira epopia pastoral e evangelizadora que o marcou em sua organizao, em suas modalidades teolgicas e litrgicas e sobre tudo em seu ethos 3. cultural. Basta visitar a congregao ou uma assemblia metodista britnica e outra americana para notar a grande diferena. Com raras excees (ou em pequenos grupos com clara conscincia histrica) o metodismo norte-americano a matriz do nosso metodismo. Necessariamente, pois como noutros casos- uma volta ad fontes provoca uma certa crise em nossa identidade atual. A segunda observao me parece ainda mais significativa e se refere ao nosso ingresso na vida latino-americana ocorrido especialmente no ltimo quarto de sculo passado. Historicamente, isso acontece com o projeto civilizador ou modernizante de nossas elites liberais. Reconhece-se o protestantismo como portador, no plano religioso, dessa modernidade liberdade, democracia, cultura, cincia a que se aspira. a religio da transio da sociedade tradicional para a moderna. E o protestantismo assume essa identidade, no s por atribuio, mas tambm por convico. Tanto as propostas das sociedades missionrias como os conclios evanglicos latino-americanos so fartos em afirmaes da misso evanglica que coincidem inteiramente com o projeto liberal modernizador (2). Aqui comea-se a notar uma relevncia desta histria devido ao entrelaamento de duas circunstncias sobre as quais trataremos mais adiante. A primeira que a histria original do metodismo situa-se, precisamente, num momento crucial de passagem da sociedade inglesa para o mundo novo: a revoluo industrial. Qual foi o papel do metodismo nessa transformao constitui-se numa pergunta significativa em relao com nossa prpria histria metodista latinoamericana. A segunda circunstncia a atual crise (por certo surgida j h algum tempo) desse projeto em nosso continente. Que significam nossas origens, tanto na Inglaterra do culo XVIII como na Amrica Latina do sculo XIX, para nossa misso numa conjuntura histrica em que se faz necessrio superar esse projeto e buscar uma nova configurao de nossa sociedade? A observao anterior fora uma terceira considerao: possvel e necessria uma releitura de nossa tradio (tanto original quanto latino-americana) a fim de poder participar significativamente nessa busca de um novo horizonte histrico para nossos povos? A Histria desde a prpria histria bblica nos mostra a importncia de tais releituras, mediante as quais uma experincia histria significativa descobre, numa conjuntura nova, uma reserva de sentido e pe em movimento um grupo humano, servindo de inspirao e estmulo para um novo projeto histrico. Esta observao nos mostra a ambigidade da tarefa que enfrentamos nestes dias. Ou pode ser um retrocesso ao passado em busca de uma identidade que nos permita resistir s mudanas e perplexidades do presente, uma memria que nos livre de criar um projeto, ou pode ser um chamado a uma re-interpretao da histria que nos desbloqueie e nos permita participar nessas mudanas, uma memria que evoque um chamado e uma misso. 4. Que boa parte do confessionalismo que renasce com vigor em nossa poca pertence ao primeiro caso parece muito evidente. Corremos um grave perigo de sermos incorporados nessa dinmica. Por isso s podemos empreender essa empreitada com extrema cautela e modstia, com um profundo sentido crtico, criando as defesas necessrias para evitar desvios que levam, necessariamente, ao isolamento e esterilidade. Dentro destes parmetros, buscaremos alguns pontos de partida para a tal re-leitura. Um trabalho mais aprofundado exigiria uma viso histrica e uma anlise teolgica no s do metodismo wesleyano original como tambm de sua evoluo posterior nos Estados Unidos e seu estabelecimento em nosso continente. Durante estes dias nos limitaremos ao primeiro ponto; algumas investigaes, certamente bastante superficiais, na gnese do metodismo britnico e mais particularmente em Joo Wesley mesmo. O tema se presta a vrios enfoques. Um seria scio-histrico: Que representou o metodismo para a sociedade britnica do sculo XVIII e comeos do sculo XIX? Procurar-se-ia ver em tal caso as relaes mtuas entre a sociedade e a igreja, como fez, por exemplo Ernest Troeltsch em sua obra monumental (3). Nesse campo h numerosos trabalhos embora freqentemente com hipteses e resultados diferentes (4). S muito de leve tocaremos neste aspecto na primeira apresentao. Um segundo enfoque poderia ser atravs da doutrina social de Wesley seu conceito da sociedade, do trabalho, da propriedade, do Estado. Tambm aqui h muito material que s utilizaremos ocasionalmente. Finalmente, permanece a possibilidade de nos questionarmos sobre o significado, a nvel scio-histrico, da prpria doutrina e religiosidade wesleyana, semelhana da tentativa de Max Weber de detectar a influncia da doutrina e piedade calvinistapuritana no desenvolvimento do capitalismo. nesse campo particularmente no que se refere converso, santificao e eclesiologia que pretendemos nos deter mais. Noutras palavras, nos perguntamos no somente qual o contedo conceptual da teologia wesleyana, mas tambm qual o ethos que reflete e impulsiona, especialmente no que tem de mais original e prprio.A PREOCUPAAO SOCIAL DE WESLEY A relao de Wesley e seu movimento com a vida social e poltica da Gr-Bretanha tem sido e continua sendo objeto de apaixonada discusso. O que dificilmente se poderia discutir, entretanto, o evidente interesse de Wesley pelos problemas sociais da sua poca, tanto a partir das condies deplorveis que suas constantes viagens lhe do ampla oportunidade de comprovar e que descreve com realismo e paixo, como em relao aos ideais morais que considera implcitos em suas convices religiosas. No de se estranhar que, numa concepo decididamente ativa da f como a que caracteriza Wesley, a preocupao pela condio das pessoas o tenha impulsionado a criar de formas concretas de ao social. Assim, como diz Madron, citando a Sherwin: 5. A velha fundio de Londres, por exemplo, transformou-se num verdadeiro crisol de projetos casa de misericrdia para vivas, escola para meninos, dispensrio para enfermos, bolsa de trabalho e agncia de emprego, cooperativa de crdito e agncia de emprstimo, sala de leitura e igreja (5) A coleta de fundos e sua distribuio entre as pessoas necessitadas uma atividade regular nas sociedades wesleyanas. E a preocupao no se limita aos integrantes das mesmas. Ao contrrio, inclui especificamente uma organizao (Straugers Friend Society) totalmente para assistncia, no de nossa sociedade, mas de pobres, enfermos e solitrios alheios a ela (6). Sua anlise da crise social de seu pas que retomaremos em seguida o leva a ver o desemprego como a raiz da misria. Por isso desenvolve uma srie de projetos destinados a criar fontes de trabalho e inclusive a capacitar as pessoas para melhor se desempenharem nele. (7) Tambm, no falta em Wesley a nota proftica relativa aos graves problemas da nascente sociedade industrial. Destacamos dois deles como amostra. O primeiro a pobreza, a respeito da qual Wesley

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