Machado de Assis - rio.rj.gov. Organiza§£o da antologia Ana Lucia Machado de Oliveira, Maria Cristina

  • View
    212

  • Download
    0

Embed Size (px)

Text of Machado de Assis - rio.rj.gov. Organiza§£o da antologia Ana Lucia Machado de Oliveira,...

  • Machado de Assis arioca Coleq ao Bibliotecd

    Biblioteca Carioca Cdeo Biblioteca Carioca CdeBo Bib Carioca Cd@o Biblioraca Carioca

    l i ~ l d ~ Carioca Colqdo Biblibteca Carioca C&& Biblioteca Car C&& Biblioteca Caioca Cole+?& Bibliofww Carioca Cdado B

    Biblioteca Carioca CdsreO B C d d Biblioteca Carioca Colecdo BiMioteca Carioca Colacbo Bibli

  • Machado de Assis a gwide figura & conto literrio no sculo XIX brasileiro e um mrirco, para a argngo dessa forma ficcional entre &S. Escreveu continua- mente durante toda a segunda metade da sculo - o perlodo de coluolibo da Monarquia, sua queda, o advento da Re- pblica. Foram quase trezentos conta disaibuldos por jmais e revistas do Rio de Janeiro.

    O conto tornou-se em suas nifos mattria diictil, com perfil reconhecivtl e inumedveis possibilidades para vazar seu tema prcdilao: a humanibde e seus vcios intemporais, tmdo como ciirio o Rio e seus habitantes a percomerem rs mas do Centro da cidade ou amedores mais longlnquos.

    A geografi dos contos, graas a sua abundante produo, oferece um verda- deiro mapa do Rio antigo, da Cpoca da Conciliao, em meados do stculo, aos finais do republicano 1900. Ek nos auxilia a recompor um espao urbano jP desfigurado, onde despontam os escom- bros de alguma casa sobrevivente b de- moliks, avenidas e viadutos, paisagens apenas entrevistas em fotos de Victor Frond, Marc Ferrez ou Malta.

    Mas onde o cora&o da c k k k bate acekrado na rua do Ouvidor. Junte-se a ela uma rede de ruelas centrais que vai da zona do Pao at o Cmpo de Santma, adentrando a %&, Gamboa e Sgo Cristvb. Dada a classe social de deus personagens, Botafogo. Flamcngo. Tiju- ca e Santa Teresa so os ambientes pro

  • PAPIS VELHOS E OUTRAS HIST~RIAS

  • PREFEITURA DA CIDADE DO RI0 DE JANEIRO Cesar M aia

    SECRETARIA MUNICIPAL DE CULTURA Helena Severo

    DEPARTAMENTO GERAL DE DOCUMENTAO E INFORMAO CULTURAL Graa Salgado

    DIVISO DE EDITORAO Heloisa Frossard

    CONSELHO EDITORIAL

    Graa Salgado @residente), Beatnz Resende, Heloisa Buarque de Hollanda, Alexandre Nazareth, Margarida de Souza Neves, Heloisa Frossard, Margareth da Silva Pereira, Renato Cordeiro Gomes, Anna Maria Rodrigues e Alexander Nicolaeff.

  • Machado de Assis

    1995 1" Edio

    Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro Secretaria Municipal de Cultura

    Departamento Geral de Documentao e Informao Cultural Diviso de Editorao

  • ColqSo BIBLIOTECA CARIOCA Volume 35 SBrie Literatura

    Organizadora Heloisa Frossard

    Printed in Brau'll Impresso no Brasil

    ISBN 85-85096-41-1

    Capa e projeto grfico da coleo Heloisa Frossard

    Equipe de editorao Diva Maria Dias Gracios4 Paulo Roberto de Araujo Santai e Rosemary de Siqueira Ramos

    Organizao da antologia Ana Lucia Machado de Oliveira, Maria Cristina Franco Ferraz e Rosa Maria de Carvaiho Gens

    Editorao eletrdnica Cbar R. Garcia

    cataloga'o: Diviso de Rocessamento Tcnico da Diretoria de Bibliotecas do C/DGDI

    M149p Machado de Assis. Joaquim Maria de, 1839-1908 Papis Velbos e outras hist6ria.s I Machado de Assis. - Rio de Janeiro: Secrehria

    Municipal de Cultura, Departamento Geral de Documentao e Informao Cultural. Diviso de Editorapo, 1995.

    268 p. :il. -(Biblioteca carioca; v. 35. srie literatura) I. Titulo. U. Srie.

    CDD B869.3 CDU 869.0 (81)-3

    Diviso de Editorao CIDGDI Rua Amoroso Lima, no 15, sala 112 - Cidade Nova

    20211-120 - Rio de Janeiro - RJ Telefone 2733141

    Fax 2734582

  • Apresentao, 9

    Machado de Assis e a arte do conto, por Sonia Brayner, 11

    PAPIS VELHOS E OUTRAS HISTRIAS, O relgio de ouro, 23 Ponto de vista, 30 Teoria do medalho, 45 A chinela turca, 53 O segredo do bonzo, 62 O anel de Polcrates, 69 O emprstimo, 76 Galeria pstuma, 83 Captulo dos chapus, 91 Conto alexandrino, 103 Uma senhora, 11 1 Entre santos, 11 8 A desejada das gentes, 125 Conto de escola, 133 O cnego ou Metafsica do estilo, 140 O dicionrio, 145

  • .Um erradio, 1 48 Idias de canrio, 164

    - Lgrimas de Xerxes, 169 Papis velhos, 175 Pai contra me, 182 Suje-se, gordo!, 192 Evoluo, 196 Anedota do cabriolet, 202 Tempo de crise, 208 Um esqueleto, 220 O sainete, 236 A idia do Ezequiel Maia, 244 A carteira, 25 1 Um dstico, 255

    BIOGRAFIA, 259 ' .BIBLIOGRAFIA DO AUTOR, 261 SUGESTES DE LEITURA SOBRE O AUTOR, 262

  • Uma senhora

    mais velha da filha, e o projeto desfez-se. Foi dessa noite em diante que d. Camila entrou a dizer a todos que casara muito criana.

    Um dia, poucos meses depois, apontou no horizonte o primeiro na- morado. d. Camila pensara vagamente nessa calamidade, sem encar-la, sem apareihar-se para a defesa. Quando menos esperava, achou um pre- tendente A porta. Interrogou a fiiha; descobriu-lhe um alvoroo indefin- vel, a inclinao dos vinte anos, e ficou prostrada. Cas-la era o menos; mas, se os seres so como as guas da Escritura, que no voltam mais, C porque atrs deles vm outros, como atrs das guas outras guas; e, para definir essas ondas sucessivas C que os homens inventaram este nome de netos. D. Camila viu iminente o primeiro neto, e determinou adi-lo. Est claro que no formulou a resolu@o, como no formulara a idCia do perigo. A aima entende-se a si mesma; uma sensao vale um raciocnio. As que ela teve foram rpidas, obscuras, no mais intimo do seu ser, donde no as extraiu para no ser obrigada a encar-las. - Mas que C que voc acha de mau do Ribeiro? perguntou-lhe o

    marido, uma noite, A janela. D. Camila levantou os ombros. - Acho-ihe o nariz torto, disse. - Mau! Voc est nervosa; falemos de outra cousa, respondeu o

    marido. E, depois de olhar uns dous minutos para a ma, controlando na garganta, tomou ao Ribeiro, que achava um genro aceitvel, e se ihe pe- disse Emestina, entendia que deviam ceder-lha. Era inteligente e educa- do. Era tambCm o herdeiro provvel de uma tia de Cantagalo. E depois tinha um coram de ouro. Contavam-se dele cousas muito bonitas. Na academia, por exemplo ... Dona Camila ouviu o resto, batendo com a ponta do p no cho e rufando com os dedos a sonata da impacincia; mas, quando o marido ihe disse que o Ribeiro esperava um despacho do ministro de estrangeiros, um lugar para os Estados Unidos, no pde ter- se e cortou-lhe a palavra: - O qu? separar-me de minha filha? No, senhor. Em que dose entrara neste grito o amor materno e o sentimento pes-

    soal, 6 um problema difcil de resolver, principalmente agora, longe dos acontecimentos e das pessoas. Suponhamos que em partes iguais. A ver- dade C que o marido no soube que inventar para defender o ministro de estrangeiros, as necessidades diplomticas, a fatalidade do matrimnio, e, no achando que inventar, foi dormir. Dois dias depois veio a nomea- o. No terceiro dia, a moa declarou ao namorado que no a pedisse ao pai, porque no queria separar-se da famiia. Era o mesmo que dizer:

  • Machado de Assis

    prefiro a famlia ao senhor. verdade que tinha a voz trmula e sumida, e um ar de profunda consternao; mas o Ribeiro viu to-somente a re- jeio, e embarcou. Assim acabou a primeira aventura.

    D. Camila padeceu com o desgosto da filha; mas consolou-se de- pressa. No faltam noivos, refletiu ela. Para consolar a filha, levou-a a passear a toda parte. Eram ambas bonitas, e Emestina tinha a frescura dos anos; mas a beleza da me era mais perfeita, e apesar dos anos, su- perava a da fdha. No vamos ao ponto de crer que o sentimento da supe- rioridade C que animava d. Camila a prolongar e repetir os passeios. No: o amor materno, s por si, explica tudo. Mas concedamos que ani- masse um pouco. Que mal h nisso? Que mal h em que um bravo coro- nel defenda nobremente a ptria, e as suas dragonas? Nem por isso aca- ba o amor da ptria e o amor das mes.

    Meses depois, despontou a orelha de um segundo namorado. Desta vez era um vivo, advogado, vinte e sete anos. Ernestina no sentiu por ele a mesma e m w o que o outro lhe dera; limitou-se a aceit-lo. D. Ca- mila farejou depressa a nova candidatura. No podia alegar nada contra ele: tinha o nariz reto como a conscincia, e profunda averso vida di- plomtica. Mas haveria outros defeitos, devia haver outros. D. Camila buscou-os com alma; indagou de suas relaes, hbitos, passado. Conse- guiu achar umas cousinhas midas. to-somente a unha da imperfeio humana, alternativas de humor, ausncia de graas intelectuais, e, final- mente, um grande excesso de amor-prprio. Foi nesse ponto que a bela dama o apanhou. Comeou a levantar vagarosamente a muralha do si- lncio; lanou primeiro a camada das pausas, mais ou menos longas, de- pois as frases curtas, depois os monossiabos, as distraes, as absor- es, os olhares complacentes, os ouvidos resignados, os bocejos fingi- dos por trs da ventarola. Ele no entendeu logo; mas, quando reparou que os enfados da me coincidiam com as ausncias da filha, achou que era ali .demais e retirou-se. Se fosse homem de luta, tinha saltado a mu- ralha; mas era orgulhoso e fraco. D. Camila deu graas aos deuses.

    Houve um m e s t r e de respiro. Depois apareceram alguns namori- cos de uma noite, insetos efmeros, que no deixaram histria. D. Cami- la compreendeu que eles tinham de multiplicar-se, atC vir algum decisi- vo que a obrigasse a ceder; mas ao menos, duia ela a si mesma, queria um genro que trouxesse filha a mesma felicidade que o marido lhe deu. E, uma vez, ou para robustecer este decreto da vontade, ou por ou- tro motivo, repetiu o conceito em voz alta, embora s6 ela pudesse ouvi-

  • Uma senhora

    10. Tu, psic6logo sutil, podes imaginar que ela queria convencer-se a si mesma; eu prefiro contar o que lhe aconteceu em 186 ...

    Era de manh. D. Camila estava ao espelho, a janela aberta, a ch- cara verde e sonora de cigarras e passarinhos. Ela sentia em si a harmo- nia