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Lacan, J - Escritos.pdf

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Text of Lacan, J - Escritos.pdf

 
Tr adu~ao   autorizada da r eimpressao de
.   fevereir o d e 1 99 5 ?a pr imeira   ed i~ao   f rancesa,
 pu blIcada em 1966 por Editions du Seuil, de   Paris, Fran~a
Copyright   ©   1966,   Ed itions du Seuil
Copyr ight   ©   1998 d a   edi~ao brasileir a:
Jorge Zahar Ed itor Ltda.
r ua Mexico 31 sobreloja
20031-144   R io d e   Janeiro,   R J
tel.: (21)   2240-0226/   fax: (21)   2262-5123
e-mail:   [email protected] .com. br 
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A r e produ~ao nao-autorizada   d esta publica~ao, no tod o
ou   em par te,   constitu i viola~ao do copyr ight.   (Lei 9.610)
Este   livr o,   publicado   no   ambito   do pr  ogr ama d e auxf lio   it  pu blica,ao,
contou   com   0 apoio   do Minister io fr ances   d as Rela,oes Exterior es,   d a
Em balxad a   d a Fr an,a no   Br asi l e da   Maison fr anl'aise   d o R io   de Janeir o
CIP-Brasil.   Cataloga,ao-na-fonte
Lacan,   Jacques,   1901-1981
L12ge   Escritos   I Jacq ues   Lacan   ;  trad u,ao   Vera   R ibeir o. -   R io
de Janeir o:   Jor ge   Zahar    Ed ., 1998.
(Cam po f r  eudiano   no   Br asil)
Tradu,ao   de:   Ecr its
I SB N 85-7110-443-3
o   seminario sobre "A car  ta roubada" 13
 De   nossos antecedentes   69
Par a-a le m d o   "Princfpio de realidade"   77
o   est<idio d o   espelho   como formador da fun~ao
do eu 96
Introdu<;ao teorica as fun~6es da psicanalise
em criminologia 127
For mula~6es sobre a causalid ad e p sf quica 152
o   tempo   logico e a asser~ao de certeza antecipada   197
Interven~ao sobre a   transferencia 214
 Do   sujeito enf im em q uestao 229
Fun~ao e campo da fala e da linguagem
em psicanalise 238
 De urn desfgnio   365
R esposta ao comentario de Jean   Hyppolite
sobre a "Ver neinung" de Freud 383
A coisa freud iana   .402
A psicanalise   e seu ensino   .438
Situac,:aoda psicanalise e formac,:aodo psicanalista
em   1956 461
De uma questao preliminar a todo   tratamento
 possivel da psicose 537
seu poder 591
A signif icac,:ao do falo 692
A   memoria de Er nest Jones:
Sobre sua teoria do simbolismo   704
 De um silabario a poster iori   725
Dir etr izes para   urn Congresso sobre a sexualidade
f eminina   734
Juventud e   de Gide ou   a letra e  0 dese jo   749
Kant   com Sade   776
no inconsciente freud iano 807
Posic,:ao d o inconsciente   843
Do "Tr ie b" d e   Freud e do desejo do psicanali st a 8 65
A ciencia   e   a verdade 869
APENDICE   I:   Comentario falado sabre a
"Ver neinung" de Freud ,   par Jean Hyppolite 893
Indice   ponderado dos princi pais conceitos,
 por   Jacques-Alain Miller .   ·908
Quadr o comentado das r e pr esentar;oes graficas 917
Termos   d e Freud em alemao   923
Indice dos nomes citados ··· ·926
 
Para maiores esclarecimentos acerea desta versao dos
 Escritos,   0   leitor deve remeter -se a "Nota a edic;ao
 brasileira" que se encontra no final deste volume (p.935).
 
"0 estilo e  0  pr o prio   homem", r e pete-se   sem nisso  ve r  malfcia,
e sem tam pouco   preocu par-se com  0 fato  de  0 homem   nao ser 
mais uma refer encia tao segura.   Alem d o   mais,   a imagem   da
rou pa q ue ad or n a Buffon ao escrever esta ai mesmo  p ara manter 
a desaten<;ao.
Uma   r eedi<;ao d a   V iagem  a Montbar   ( publicad a   no ana IX
 por Solvet, edi<;aopostuma),   d a lavr a de Herault d e Sechelles,
titulo q ue retoma   uma   Visita ao sr . d e Bu f  f on ,   d e 1785,
 propiciar ia   uma maior reflexao. Nao a penas por ali sa bor ear mos
urn outro estilo,   que pr ef igur a   0melhor   de   nossas reportagens
 bufas, mas por recolocar  0 propr io comentar io em ur n contexte
de impertinencia   no   qual   0 anf itriao   nada f  ica a dever a se u
visitante.
Pois   0 homem   br and id o   no adagio   ja entao classico,   por 
ter  s id e extrafd o de  urn d iscurso na Academia,   revela-se, nessa
escrita,   uma fantasia do grande   homem,   com posta em   urn
roteiro tal que ela toma sua casa   inteir a.   Nad a ali pr ovem   do
natural.   Quanto a  isso, Voltair e, estamos   lembr ad os,   gener aliza
maldosamente.
o  estilo   e  0 homem;   vamos ader ir   a essa formula,   somente
ao estend e-la:   0 homem   a q uem nos ender e<;amos?
Isso seria sim ples mente satisf azer   a este   pr incf  pio   por nos
 promovido:   na linguagem nossa  m ensagem nos vem do  O utr o,
e  p ara enuncia-lo ate  0 fim:   de forma   invertid a.   (E  l em br emos
q ue esse   princfpio se   aplicou   a   sua   pr opria enuncia<;ao,  pois,
tend o side   emitid o   por    nos, foi d  e   urn   outr o,   interlocutor 
eminente,   que   r ece beu   seu melhor   cunho.)
Mas se  0 homem   se  r eduzisse a  n ad a ser alem d o  lu gar de
retor no d e  n osso   discur so,   nao nos   voltaria   a quesUio d e  p ar a
q ue   Iho  e nd er e<;ar ?
 
Eis exatamente a questao que nos coloca esse novo   leitor 
do   qual   foi feito argumento   para reunir mos   estes escritos.
Cond escend emo-lhe   urn patamar   na escalada  de nosso estilo,
dando a  A carta roubad a   0 privilegio   d e a br ir sua  s equencia,
a despeito d e sua   diacr onia.
Ca be a esse leiter   d evolver a car  ta/letra em que stao, para-
alem   daq ueles   que   ur n   d ia foram seus end ere~ados , a q  uilo
mesmo   que ele   nela   encontrani como   palavra final:   sua desti-
na~ao.   Qual se ja, a  m ensagem   d e Poe decifrad a e d  ele,   leitor,
retor nand o   par a   que,   ao   Ie-la,  e le diga a si mesmo nao ser ela
mais fingida   do que   a verdad e quando ha bita a f ic~ao.
Esse "rou bo d a carta",  Idir-se-a ser a   parodia   d e nosso
discurso:   q uer nos atenhamos a etimologia   que indica   urn
acompanhamento e im plica a precedencia do  tr ajeto parodiado,
queI', reconduzind o   0   termo a seu empr ego   comum,   nele
vejamos escon jurada a sombra do   maitre   a   penser  ,   para o bter 
o efeito q ue pr eferirmos.
T he Ra pe o f the Lock  ,   0  rou bo da mecha:2 evoca-se aq ui   0
tftulo do poema   em que Pope, pela gra~a da parod i a,   arrebata
-   ele, da epopeia   -   0 tra~o secreta d o q  ue esta em jogo de
sua derrisao.
 Nossa taref a   conduz e ssa encantad ora   mecha   anelada ao
sentido   to pologico que ter  ia a palavra:   no  co m que urn tra jeto
se fecha,   pOl' seu red  o br amento   invertido   -   d e t a l maneira
que recentemente 0  promovemos a sustentar    a   estrutura   d o
su jeito.
E   exatamente   af que nossos alunos se fund amentariam para
reconhecer    0" ja"   pOl'meio  d o q ual  e les se contentam  as vezes
com homologias menos motivad as.
Pois   d eciframos aqui na f ic~ao de   Poe,   tao potente, no
senti d o   matematico d o termo,   a d ivisao   onde se ver if ica   0
sujeito pelo   f ato de ur n   ob jeto   0 atravessar sem que eles   em
nad a se penetr em,   divisao   que se encontr a   no  princfpio do que
I.   Vol  de   la  l ellr e,   que tambem se trad uziria pOl'"voo  d a letra".  Ao longodo texto, Lacan joga com a polissemia d esses  termos (cf .  notas adiante). (N.E.)
2.   A ex pr essao f r ancesa, I e  vo l   d e   la   boucle,   a br e-se num leque polissemieo em vir tude d os  termos vol  (voo, roubo etc.) e  boucle   (cacho,mecha, f echadur a, fecho, volta, cir euito, f ivela, argola ete.).  (N.E.)
se destaca,   no fim   desta coletiinea sou  0nome de   objeto   a   (a
ser   lido:   pequeno   a).
E   0  ob jeto que responde a pergunta sobre   0 estilo   que
f ormulamos logo de saf d a.  A esse lugar que, para Buf fon, era
marcado pelo   homern,   chamamos de q ueda desse   o bjeto,   re-
veladora   pOl'isola-Io,   ao   mesmo tem po, como causa   do  d esejo
em que   0 sujeito se   ecli psa e como su porte do sujeito entre
verdade e sa ber .  Q uerernos, com  0 percurso de q ue estes textos
sac os marcos e com   0 estilo q ue seu endere~amen to ir n poe,
levar  0 leitor a uma   conseq uencia em que ele precise colocar 
algo de si.
So sind es Ged anken ,
 Nossa investigac;:ao  l evou-nos ao ponto de reconhecer    que   0
automatismo de r epetiyao   (Wied er holungszwang)   extr ai   seu prin-
cipio do que   haviamos chamad o de   insistencia   da cadeia signi-
~e , E ss a p ro pri a   noc;:aofoi pOl'nos destacada como con'elata
da   ex-sistencia   (isto e do   lugar excentrico) em que convem
situarmos   0 sujeito do inconsciente, se devemos   levar a serio a
descoberta de Freud,   E,   como sabemos, na experiencia   inaugu-
rada pela psicanalise q  ue se pode apr eender pOl' q uais vieses do
imaginar io vem a se exercer, ate   no mais   intima   do organismo
humano, essa apreensao do  simb6lico ,
o   ensino deste seminar io serve para sustentar que essas
incidencias imaginarias,   longe de representarem   0 essencial de
nos r  iencia, ~!lda for necem ue nao se'a   inconsistente, a
eno s u e s e' am relacionadas   a   cadeia sim bolica   ue as   Ii   a e
as or ienta.   ; >   ~ ~ Decer to Sab?milJda importancia das impregnac;:6es imagina-
rias   (Pragung   nas parcializac;:6es da alter nativa sim bolica   que
dao   a   cadeia s ignif icante seu   aspecto. Mas   nos estabelecemos
que e a lei propr ia a essa   cadeia   que rege os efeitos   psicanalfticos
deter minantes para   0 sujeito,   tais   como a foraclusao   (Verwer-
 fung) ,   0r ecalq ue   (Ver d rangung)   e a  pro pria denegacao   (Vernei-
nung)   -,   acentuand o   com a enfase q ue convem que esses  efeitos
seguem tao fielmente   0 deslocamento   ( Ent stel!uns)   d o signifi-
.~te q ue o s f ator es   imagJn~rios,   a pesar   de sua   inercia,   neles
nao f igur am   senao como sombras e   r ef lexos.
Contudo, essa enfase seria pr od igaliz ad a em vao,   se apenas
ser visse,   na opiniao de voces, par a a bstr air   uma f  or ma   ger al d e
fenomenos   cu ja par ticularid ad e em nossa ex periencia   ser ia   para
voces   0   essencial, e   d os   quais   nao   seria sem ar tif fcio q  ue
rom perf amos (\.~~,~,~~,:~~r i~naI.,
~~UvvcLv
r (~~/~ ~1vvvJ> r /\P']   ,
Foi   por isso que   pensamos   em   ilustrar   hoje a verdade que   [12J
 brota do momenta do   pensamen to freudiano que estamos estu-  1//
dando, ou seja, que e a or dem sim bolica que e constituinte para r? o sujeito,   demonstrand o-Ihes   numa   historia a determinac;ao fun-
damental que  0sujeito rece be do percurso de urn slgmhcante.
E   essa verdade, podemos notar, que possibilita a propria
existencia da ficc;ao.Portanto,  uma fabula e tao apropriada quanta
outra historia para esclarece-la   -   nem que seja para testar sua
coerencia. Excetuada essa  r essalva, ela tern inclusive a vantagem
de manifestar tao puramente a necessidade simbolica que se
 poderia cre-Ia regida pelo arbitrio.
Poi por isso que, sem procurar mais longe, retiramos nosso
exemplo da propria historia em que esta inserida a dialetica
concernente ao jogo do par ou   impar,   do qual tiramos proveito
muito recentemente. Sem duvida,   nao foi por acaso que essa
historia revelou-se propicia a dar seguimento a urn curso de
investigac;ao que nela ja encontrara apoio.
Trata-se, c   0 sabem, d o   conto que Baudelaire traduziu com
o titulo   de " carta ro   ' . Logo de saida, nele distinguiremos
urn drama, a narrac;ao que dele e feita e as condi c;oes dessa
narrac;ao.
Ve-se logo, alias,   0que torna necessarios esses componentes,
e que eles nao puderam esca par as  intenc;oes de quem os compos.
A narrac;ao, com efeito,   r eforc;a 0drama com urn comentario
sem  0qual nao haveria encenac;ao possive!.   Digamos que a ac;ao
 permaneceria, propriamente falando,   invisivel para a plateia   -
sem contar que seu dialogo, pelas proprias necessidades do
drama, seria expressamente   vazio de q ualquer sentido que a ele
 pudesse relacionar -se para urn ouvinte: em   outras palavras, que
nada d o   drama poderia evidenciar-se,   nem nas tomadas nem na
sonorizac;ao, sem a luz  quebr ad a, digamos, que a narraxao confere
a cada cena do ponto de   vista que ur n   d e seus atores tinha ao
representa-  la.
Essas cenas sac duas,   d as   q uais designaremos prontamente a
 primeira pelo nome de (!ena pnmltiy e   nao por desatenc;ao,
uma vez que a segunda pode ser  considerada como sua repetic;ao,
no sentido de que esta, aqui   mesmo,   na ordem do dia.
A cena primitiva   desenr ola-se,   pois, segundo nos e dito, na
alcova real, de mod o   que suspeitamos que a pessoa da mais aIta   1 1 3 J
e";tirpe,   tambem chamada pessoa ilustr e,   q ue ali se encontra
MII.inha ao receber uma car ta e a Rainha. Esse sentiment o se
l()l1f 'irma pelo embarac;o em que e colocada pela entr ada   d o o utro
Jll'r sonagem ilustre, sobre   0 qual ja nos foi dito, antes   desse
It'lato,   que a ideia que ele poderia fazer da referida   car ta   por ia
('In jogo   nada menos do que a honra e a seguranc;a   da dama.
('om ef eito, prontamente nos livramos da duvida de  que se trate
-Cetivamente do Rei devido   a   cena que se inicia com   a entr ad a
do   ministro D ... Nesse momento, de fato, a Rainha   nao   pod e
Cazer nada melhor do que jogar com a desatenc;ao do   Rei,
deixando a carta sobr e a mesa, "virada para baixo, com   0
so brescrito para cima".   Mas esta nao escapa aos olhos   d e   lince
do   ministro, e tampouco ele deixa de notar   0 d esarvoramento
d a   R ainha e nem deixa, assim, de desvendar -Ihe   0 segredo. A
 partir dai tudo se desenrola como urn relogio. De pois   d e haver 
tratado, com a desenvoItura e a espirituosidade costumeir as,   d os
negocios de praxe,  0ministro tira do bolso  uma carta cu jo  as pecto
se   assemelha ao da que esta   a   sua vista e, fingindo Ie-la, ele a
coloca ao lade desta. Mais algumas palavras para entreter a
assembleia real, e ele se apodera com toda a fi r meza da carta
embarac;ante, despedindo-se sem que a Rainha, que nad a per d era
d e sua manobra, pudesse intervir , pOl'medo de despertar   a atenc;ao
d o real conjuge que, naquele momento, esta bem a seu lado.
Tudo, portanto, poderia ter passado despercebido   a  ur n es pec-
tador    ideal de uma operac;ao   a   qual ninguem reage, e cujv
quociente e que  0ministl·o fur tou   a   Rainha sua carta   e   que   -
r esultado ainda mais importante que  0 primeiro   -   a Rainha sabe
!er ele quem a detem agora e   nao inocentemente.
Urn resto,  que analista algum ha de desprezar, prepar ado   como
esta para   r eter tudo  0q ue e d a alc;ada do significant e, aind a   q ue
nem   sem pr e sai ba   0q ue fazer com isso: a carta,   deixad a displi-
centement e p elo ministro, de q  ue a mao da Rainha pode f  azer  uma bolinha de papel.
,/Segunda cena:   no gabinete   d o minist~o)   Passa-se   em sua
mansao,   e hcamos sabendo, pelo relata que faz   0 Ins petor d e
Polfcia a D u pin, cu jo talento especial para resolver   enigmas Poe
aqui   intr oduz pela segunda vez, que a polfcia, ha dezoito meses
voltand o ali tantas vezes q uantas   Iho permitinlm ausencias no-
turnas   e   ha bituais   d o ministro, vasculhou   meticulosamente   a
mansao e suas adjacencias. Em   vao, embora q  ualquer   urn possa   [14J
 
Dupin   faz-se anunciar    ao ministro. Este   0 recebe com uma
dis plicencia ostensiva e frases afetando   urn  tedio romantico. Mas
Du pi n, a q ue m es se f  ingimento   nao engana, com os   olhos
 protegidos pOl' oculos de   lentes verdes, inspeciona   0 recinto.
Quando seu o lhar recai sobre urn bilhete esgar~ado que   parece
abandonado no vao de ur n mediocr e porta-cartas de cartolina
q ue, atraindo   0 olhar pOl'urn certo brilho falso, esta pend urado
 bem no meio do painel da lareira, ele ja sabe que esta diante do
que procura. Sua convicc;ao e fortalecida pelos proprios detalhes,
q ue parecem forjados para contrariar a descric;ao que ele   tern  da
car ta roubada, exceto pe lo   f ormato, q ue e compativel.
A partir dai so the resta retirar -se depois de haver "esquecido"
sua   tabaqueira sobre a mesa, de modo a vol tar no dia seguinte
 para busca-Ia, munido de uma contrafac;ao que simule   0 atual
aspecto da carta. Aproveitando-se de urn incidente de rua, pre-
 parado para na hora certa atrair   0ministro   a   janela, Du pin por 
sua vez apodera-se da carta, substituindo-a por seu simulacro
[semblant] ,   so the restando, em seguida, salvaI', perante   0mi-
nistro, as aparencias de uma despedida normal.
Tambem ai, tudo se passa, se nao sem ruido, ao menos sem
estardalhac;o.  0quociente da operacao e que   0 ministr o n ao
 possui mais a carta, mas disso ele nao tem a menor ideia, longe
d e suspeitar ter side Du pin q uem a raptou. Ademais,   0q ue lhe
fica nas maos esta bem longe de ser insignificante para a
sequencia. Voltaremos ao   que   levou Du pin a dar uma redac;ao
a   sua carta facticia. Seja como for,   0 ministro, quando quiser 
utiliza-la, nela podera ler estas palavras, ali trac;adas para que
reconhec;a a mao de Dupin:
...   Un dessein si funeste S'il n'est digne d'Atree, est digne de Thyeste, 1
que Dupin nos indica provir   d o  Atree   de Crebillon.
Sera preciso sublinhar que essas   duas ac;6essac semelhantes?
Sim, pois a similitude q ue visamos nao e feita da simples reuniao
d e trac;os escolhidos com   0   tinico intuito de configurar sua
dif er enc;a. E nao bastaria reter  esses trac;osde semelhanc;a a   custa
~Ie outr~s   ' p~ra que dai resultasse uma verdade qualquer .   E   a
IIller subJetlvldade em ue as duas ac;6es se motivam ue uer e:
IllOSr essa tar, e os tres termos com que ela as estrutura.·   [15J
o  pr ivile~io destes tiltimos pode ser julgado por eles corres-  ponde.r~m, slmultaneamente, aos tres tempos logicos pel os quais iI  ?~clsao se precipita, e aos tres lugares que ela atribui aos sUJeItos, os quais ela desempata.
Essa decisao e concluida no momento de urn 01har .2   Pois as
manobras que se seguem, quando nelas ele se delonga sorratei- r amente, nao the acrescentam nada, como tampouco 0 adiamento
d e   sua oportunidade na segunda cena rompe a unidade desse momento.
Esse olhar sup6e dois outros, que ele reune numa visao da
a bert~ra d,eixa~a em sua. falaciosa complementaridade, para se anteclpar a rapma ofereclda nesse descobrir .   Tres tempos,   por -
lanto, ordenando tres olhares, sustentados pOl' tres sujeitos, alternadamente encarnados pO l' pessoas diferentes.
o  primeiro e 0 de urn olhar que nada ve: e  0Rei, e a policia.
o  s,egundo, 0 de um olhar que ve que  0 primeiro nada ve e se   engana pOl'   vel' encoberto   0 que ele oculta: e a Rainha e de pois,  0ministro. '
o   te~ e 0 que ve, desses dois olhares, que eles deixam a  descoberto   0que e para esconder, para que disso se apodere q uem quiser: e 0 ministro e, por   fim, Dupin.
. Para ~azer apreender em sua unidade 0 complexo intersubje- t~vo.ass1m de~crito, buscariamos   de born grado seu padrao na tec~lca len~anamente atribuida ao avestruz para se protegeI' dos
 pengos; pOlSesta mereceria afinal ser ualificada de olitica ao se re- par~ir aqui ~ntre tres parceiros, dos quais 0 segun   d   se acredltana revestIdo de invisibilidade, pelo fato de 0 primeiro
tel'. su~   cabec;a e~fiada na areia, enquanto, nesse meio tempo,
delxana urn terceno depenar -lhe tr anquilamente 0 traseiro' bas- taria   q ue,   enriquecendo com uma   letra sua proverbial   de~omi- nac;aO,3fizessemos dela a  politica d o autruiche,   para que em   si mesma ela encontrasse para sempre   um novo sentido.
 R ~ i / i- ' (I~Av J
2~ Aqui   a  r efer encia   necessar ia   d eve ser procur ada em nosso ensaio   "0   lempo loglco e  a  a ssen;:ao  d e certeza antecipada", p.197.
3 . N o   fr ances,   essa   "uma   lelra"   e   0 "i"   d e   aut r ui   (oulr em), q ue   transforma aut ruche   (avestr uz ) e m  aut r uiche,   neologismo   de   Lacan. (N.E.)
~   1.   "Urn   desf gnio   lao f unesto,   /  S e nao   e   d igno   d e Alreu,   e   digno d e Tiestes."
(N.E.)
Sendo assim dado   0modulo intersubjetivo da a~ao que se
repete, resta reconhecer af urn   automatismo de re peti£ao,   no
sentido Que nos interessa no texto de ~r~ud. _ 
 Naturalmente, a pluralidade dos sUJeltos nao po de ser ~ma
obje~ao para todos os que ha muito san adestrados as p~rspectlvas
resumidas por nossa formula:   0 inconsciente   e   0 dlscurso ~o
 Dutro.   E nao recordaremos agora  0que a ela acrescenta a no~ao
de  imis£ao dos sujeitos,   outrora   introduzida por nos ao retomar-
mos a analise do sonho da inje~ao de Irma.
o   que nos interessa hoje e a maneira como os   ~U!elt?S se
revezam em seu deslocamento no decorrer da repetI~ao mter-
subjetiva. ,. -   Veremos que seu deslocamento e determmado   pelo l~gar ..9ue
vem a ocupar em   seu trio esse significante puro que e a   ~arta
roubada. E e isso que para nos  0confirmara como automatIsmo
de repeti~ao.   lp,oCA   ' j)~  1b:s(qG,~5
 Nao parece demasiado, entretanto, antes de enver edarmos por 
esse caminho,   indagar se   0   objetivo visado pelo_ cont~ e   0
interesse que temos nele, uma vez que coincidem, nao se sltuam
em outro lugar .   .   .   _  sera possfvel   tomarmos por simples raclOnahza~ao,   segundo
nossa rude linguagem,   0 fato de a historia nos ser contada como
urn enigma policial? .
 Na verdade, estarfamos no direito de conslderar ess~ fa to
 pouco seguro, ao observarmos que tudo que ~o tiva esse   ~IPO de
enigma a partir de urn crime ou de urn dehto   -   ou seja: sua
natureza e seus moveis, seus instrumentos e sua execu~a~,   0
metoda para descobrir    seu autor e  0caminho para co~v~n.ce-lo
disso   -   e aqui cuidadosamente eliminado, desde   0mlCIOde
cada peripecia.   .
[email protected],   com efeito, e desde logo tao claramente conh:~ldo
quanta as artimanhas do culpado e se~s ~feitos,sobre sua vltl~a.
o   problema, quando nos e exposto, hmlta-se a busca, para fms
de devolu~ao, do objeto a que se deve esse dol?, e parece bastante
intencional gue sua solu~ao ja tenha sido obtlda guando ele nos
~ explicadv.   Sera por af que somos mantidos e~ suspens~? De
rato, por mais credito que se possa dar a conv~n~ao  _ deurn genero
 para desper tar urn interesse especifico no leItor, nao nos esque:
~amos de que"   0 ~n"   -   aqui,   0 segundo a aparecer   -   e
11I11~e que, na medida em que ele so recebe seu genero do primeir o, e urn pouco cedo para que  0 autor jogue com uma (·ol1ven~ao.
Scria   outro exagero,   no entanto, reduzir tudo a uma fabula
('uja  mo ral   consistisse em que,   para resguardar dos olhares uma
d 'ssas correspondencias cujo sigilo e as ve zes necessario a paz
con jugal, basta deixar tais libelos espalhados sobre nossa mesa,
mcsmo exi bindo sua face significante. Eis af urn engodo cuja
Icntativa, de nossa parte, nao recomendarfamos a ninguem, por  r cceio   de que se decepcionasse ao se fiar nisso.
Portanto, nao haveria agui outro enigma senao, por   parte do
Ins petor de Polfcia, uma incapacidade por principio de insucesso?
-   a nao ser talvez, do lado de Dupin, por uma certa discordancia,
q ue nao  r econhecemos de born grado entre as observa~6es decerto
muito penetrantes, embora nem sempre absolutamente pertinen -
les em sua generalidade, com que ele nos introduz em seu metodo, e   a   maneir a pela qual ele efetivamente intervem?
Exagerando urn pouco essa sensa~ao de cortina de fuma~a,
logo   estarfamos a nos perguntar se   -   da cena inaugural,   que
a penas a qualidade dos protagonistas salva do vaudeville, ate a
q ueda no ridfculo, que par ece reservada ao ministro no desfecho
- nao e 0fato de todo  0mundo ser ludibriado que produz nosso  prazer .
hestarfamos ainda mais inclinados a admitir isso na medida
em que af encontrarfamos, juntamente com aqueles que aqui nos
leem, a defini~ao que demos, de passagem em algum lugar, do
heroi moderno, "cujas fa~anhas derrisorias numa situa~ao de extravio ilustram"   .4
Mas nao somos nos mesmos tornados pela imponencia do
detetive amador, prototipo de urn novo fanfarrao, ainda preser - vado da insipidez do   superman   contemporaneo?
Pilheria   -   suficiente para nos fazer ressaltar nesse relato,
muito peI6   contrario, uma verossimilhan~a tao perfeita, que se
 pode dizer que a verdade af revela sua ordenan~a de fic~ao.   •.
Pois e justamente esse  0caminho aonde nos levam as raz6es
dessa verossimilhan~a.   Entrando primeiramente em seu metodo,
 percebemos com efeito urn novo drama, que dirfamos comple -
 
mentar ao primeiro, na medida em que este er a   0que se .chama
urn   drama   .sem pal.avras, enquanto e nas ~riedades do dlscurso
que se artlcula   0mteresse do segundo.
Se   e   patente, com efeito,   q ue cada   UIl~~   das ~uas cenas do
drama real nos e nan'ada ao longo de urn dlalogo dlferen~e,   basta
estar    munido das noc;6es que estipulamos em nosSO ensmo   ' p~ra
reconhecer que   isso nao se da pelo-simples prazer da exposlC;ao,
mas que esses pr6prios dialogos adq  uirem, no usa oposto que
neles   e   f eito das virtudes da fala, a tensao que os transforma
num   outro drama: aquele q  ue nosSO voca bulario distingue do
 primeir    0 sus te nt an do -se na o rd em si mb 6I i~~ . . o   rimeiro dialogo - entre   0Inspetor de poliCia e Dul,llJl -
desenro   _    0dialo~   entre urn surdo e alguem que ouve.
Isto   e ,   ele representa a verdadeira complexid a de d o q ue c om~-
mente se simplifica, com os mais confusos resultados,   na noc;ao
de comunicac;ao.   . - Captamos, de fato,   nesse exempl~   0 quant,o a co.~umcac;a~
 pode dar a impressao, na qual a teon,a .se dete~ amlUde,   de so
compor tar em sua transmissao urn umcO senti do, como se 0
comentar io pleno de significac;ao   q ue Ihe confere aquele que
ouve pud esse, por passar despercebido aquele que nao ouve, ser  
tido como neutralizad o. .   - o   fato e que, preservando apenas 0 senti do de exposlc; ao d o
d ialogo, evidencia-se q ue sua verossimilh~n?a   jo ga c om a ga-
rantia   d a exatidao. Mas, ei-Io entao mais fertl1 do que parece, e
cujo pr ocedimento poder  f amos demo~str~r -   como veremos
restr ingind o-nos ao r  elato de   nos sa pn.m~lra cena., £ ,   q ue 0 d uplo e a te t r iplo filt ro subJetlvo atraves do ~ual   ela
nos chega   -   a narrac;ao,   pelo amigo e   f nti mo d e Du pm ( q  ue
doravante chamaremos   de   narrador geral   d a hist6ria), do relato
 pelo q ual 0 Inspetor cta co~hecimento a Du~~n ~a narrativ~ q  ~e
lhe f izera a Rainha   -   nao e a penas a consequencla de urn alranJo
fortlli to.   ' Se,   com   efeito, a situac;ao extrema a  que foi levada a nar rad ora
or iginal   elimina a hi p6tese   d e q ue e la t enha alter ado os aconte-
5,   0 completo entend imento do   que se segue   exige"  e   claro: ,que se r  eleia e~se
texto extr emamente d if undid o (em  f rances e em  i ngles),   e aliaS  curto,   que  e   A
carta   r oubad a"   [cuja   traduyao brasileira   pod e ser   lid a   na  A nt ologia   d e cont os
d e Edgar  A llan   Poe ,   R io   d e   Janeiro,   Civilizay ao Brasileira,   1959].
\ lilt,·1.l10S,estar famos en'ad os e m crer q  ue   0 Inspetor s6 esteja
1t1lhIillad o a Ihe emprestar sua voz pela falta de   imagir.ac;ao da
C l l l a l ,   se assim podemos dizer, ele   ja tern a patente.
o   f at o d e q ue a me nsagem se ja assim retransmit ida nos
liS segu ra a re sp ei to d o q  ue n ao e a bs oluta me nt e e vidente ou
S  ' ja,   que ele com efeito pertence   a   dimensao da   linguagem'.
Os   que aqui se encontram conhecem nossas observac;6es sobre
isso,   e particularmente aq  uelas q  ue ilustramos pelo c ontraste
'om a EE,etensa   Iinguagem   d as a belh as , o nd e u rn   lingiiista6
'ol?se gu e v er a pe na s u ma simples sinalizac;ao da posic;ao do
o bJeto, em outras palavras, a penas   uma func;ao imaginar ia mai s
diferenciada do que as outras.
Assinalamos aq  ui que tal   forma de comunicac;ao   nao esta
ausente no homem, por mais evanescente que seja para ele 0
o bjeto no que tange a seu dad o natur al, em   razao da desintegrac;ao
q ue   sofre pelo uso do sfmbolo.
Pode-se, com efeito, apreender seu eq  uivalente na comunhao
q ue se estabelece entre d uas pessoas   no 6dio dirigido a   urn
mesmo objeto, com a diferenc;a de que   0 encontro nunca e
 possfvel senao em relac;ao a urn tini co o bjeto,   d efinido pelos
trac;os do ser que tanto uma   q uanto outra a rejeitam.
Mas tal comunicac;ao nao e transmissfvel sob forma simb6lica.
Sustenta-se apenas na relac;ao com esse ob jeto.   £ ,   assim que ela
 pode reunir    ur n ntimero   indefinido de sujeitos   num   mesmo
"ideal", sem   q ue por isso a comunicac;ao de urn sujeito com   0
utro,   no interior da   multid ao assim constitufda, seja   menos
redutivelmente med iatizada por uma relac;ao inefavel.
. Esta   d i.gressao   na o e a q  ui a penas uma convocac;ao de princf  -
 plOS  l ongmquamente enderec; ad a a os q  ue   nos imputam   ignorar 
a. comunicac;ao nao-verbal: ao deter  minar    0 alcance do   que 0
dlscur~o repete, ela prepara a q  uestao do   que   0 sintoma repete.
Asslm, a relac;ao ind ireta decanta a   d imensao   d a   Iinguagem,
e  0 nar r ador geral, ao reprod  uzi-Ia,   nada   the acr escenta "hi po-
teticamente". Ma s, no   q ue   diz respeito a seu offcio no segundo
dialogo,   a coisa   e   totalm en te d  iferente.
6"   Cf. Emile Benveniste, "Communication   animale et langage   humain",   Dio -
gene,   nUl, e  n osso   r elatorio   de  Rama   ["Funyaa e campo   d a fala e  d a  lin guagem
em  p sicamilise"],   p.238.
 
Pois,   este vem opor-se ao primeiro como os polos que dis-
tinguimos alhur es na Iinguagem, e que se opoem como a palavra   [20]
a   f ala.
o  qu e   equivale   a   dizer q ue   af se   passa do campo   da exatid ao
 par a   0 r egistro d  a   verdade. Ora,   esse regis tr o -   ousamos   cr er 
que nao   temo s de vol tar a i ss o -   situa-se num lugar completa-
mente   diferente, isto e, propriamente   na fund ac;ao   d a   inter sub-
 jetivid ade.   Situa-se   ali   onde 0sujeito   nada   pod e   captar senao   a
 pr o pria subjetivid ad e   que constitui urn Outro como absoluto.
 Nos   nos contentar emos, para aqui   apon ta r seu lugar , e m e vo car 
o dialogo   que nos par ece   mer ecer    a atribuic;ao d e   historiajud aica
do d es pojamento,   ond e a parece a relac;ao do   signif icante   com   a
fala,   na adjur ac;ao em que ele aca ba culminand o.   "Por que mentes
 par a   mim" ,  e exclamad o   quase   sem   fOlego, "sim,   por que men-
tes para   mim, d izend o-me   que vais   a   Cracovia, par a   que   eu cr eia
que estas   indo   a Lem ber g, q uand o,   na   r ealid ad e, e a   Cracovia
que   vais?"
I J   E   uma pergunta   semelhante que ser  ia   impos ta a   nosso espf r ito
 pela enxu rr ad a d  e a por ias, enigmas er  fsticos,   par adoxos   e   ate
 pilherias   que nos e a presentad a   a   guisa   de introd uc;ao   ao metod o
de Dupin - se,   por este   nos ser a presentado como   uma confi-
dencia   por    alguem que se coloca   como discfpulo,   n a o se   Ihe
acrescentasse uma   cer ta   virtude   por essa d  elegac;a o. Ta l   e   0
 prestf gio infalf  vel do testamento:   a f idelidade d  a   testemunha e
o ca puz com q ue   se endormece,   cegando-a, a   cr f tica ao   teste-
munho.
Que   ha   de mais convincente,   por    outro lado, que   0gesto   d e
mostr ar    as cartas na   mesa? Ele   0e   a  t al ponto que   nos convence,
 por urn momento,   de que  0 pr estidigitador ef  etivament e d  emons-
trou, como   havia   anunciado,   0 procedimento   d e seu numer  o,
em bor a   0 tenha   a penas   renovado   so b uma f orma   mais pur a: e
esse   momento nos faz   dimensionar    a   supremacia   do   significante
no sujeito.
Assim opera Dupin,   quando parte   d a   historia   do menino-pr o-
dfgio   que   tapeava   todos   os seus   colegas no jogo   do par ou fmpar 
com   seu truque   d a   identificac;ao   com   0 adversario,   sobre   0 qual
mostramos, no en tanto, que ele nao con segue atingir    0 primeir o
 plano d e   sua elabor ac;ao mental,   isto   e,   a noc;ao   d a   alternancia
inlcrsu bjetiva,   sem topar prontamente   com   0 empecilho d  e   seu r etor no.7
, N em por isso   nos   deixam d  e   ser    lanc;ad os,   par a nos encher 
os  o lhos, os   nomes   d e   La   Rochef oucauld La Bruy' ere M . I , C   II .   "   aqUlave
(,;   ampan~ a, c~Ja   r eputac;ao   so faria   par ecer    ma is f  util diante   [21]
d a   proeza   mfantIl.
Eo encadeamento com Chamfort,   cuja for mula   d e   que" pod e-
~c.a~ostar    ~ue tod  a   id eia publica, tod a   convenc;ao aceita   e   uma
IdIOtlce,   pOlS conveio   a   maioria" , com certeza   ha   de contentar 
a   t~d~s os que   pens   am escapar    a sua   lei, isto e, pr ecisamente a
ma~on,a. Que Dupin tache de trapac;a a   aplicac;ao   do termo analise
aI~e~nca   pelos fr  anceses,   eis   af algo sem   a   menor chance de
atmglr    noss~ orgulho, sobretud o   quando a liber ac;ao desse termo
 para outr?s _fms nad a   tern que impec;a   urn psicanalista de se sentir 
~.m ~O?dIC;OeSd e   impor    seus   dir eitos. E ei-Io em observac;oes
hlologlcas   que deleitam os aman te s d o l at im: q ue e le I h
relembr e, sem   se dignar di zer mai s n ada que   "a   b' t    :s .   'f    .   '   m   I  us   nao
slgm lea amblc;ao,   r eligio,   religiao, e   homines honest i   homens
honrados" ,   quem dentr e   voces nao   se   comprazeria   em lembrar .   ..
o   q~~ ~ssas   pala~r a.s quer em d izer    par a q ue m pratica   Cicer o e
LucleclO?   Sem duvld a, Poe se diverte ...
~as   vem-nos uma susp~ita:   nao   estar a essa exibic;ao de erudic;ao
destmad a a   nos fazer OUVlras palavr as -c ha ve d  e   nosso drama?8
Acaso   0 prestidigit ad or n ao r ep ete   seu truque diante de no~,
desta vez   sem nos   I~dibriar que esta fornecend o   seu segredo,
mas   levando seu pr  oJeto   a po nt o d e r  ealmente nos   esciar ecer 
sem que   enten.damos a bsolutamente nada?   Seria mesmo   0cumul;
do   que   podena atingir     0 ilusionista   f azer -nos   verdadeirament e enganar   por urn ser d  e   sua ficc;ao.
7.   Cf. nossa introduyiio, p.62.
8.   A princfpio,   eu dera uma   pincelada,   quanto a essas tr es   palavras, sobr e   0
sentldo com que ca~a um comentana essa   hist6ria,   se par a   isso niio bastasse a estrutura   a  qu e   ela e consagrada.
.Suprim~ a indicayiio,   imperfeita demais,   porque,   ao me   reler para esta
rel~pressao, uma pessoa me confirma que,   depois do tempo daqueles que me
ve~ em (est~mo~ mnda em 9 .12.68),   vem um outro em que me leem para malOres exphcayoes. '
Que teriam lugar fora desta pagina.
 
E   nao   SaDesses   efeitos q ue   nos   torn am   Ifcito, sem   nenhuma inten~ao d e malfcia, falar de   muitos   herois   imagimirios como
 personagens reais?   . Do mesmo mod o, q uando   nos d is pomos a entender a manelra
como Mar tin   Heid egger   nos revela na palavra   a / etMs   0 jogo da verdad e so fazemos red escobr ir urn segredo em q ue esta sempr e iniciou ~eus amantes,   e a partir   d o q ual eles sustentam q ue e ao se ocultar q ue ela   mais   verdad eiramente   se ofer ece a eles ..
Assim,   mesmo   que as af  ir ma~6es de Dupin nao   nos d esaflas- sem tao manifestamente a  nos f iar mos   nelas, ainda ser ia preciso   [22]
fazermos essa tentativa contr a a tenta~ao contraria. Descubramos ,   pois, sua pista onde ela nos despista.
9 Para
come~ar, na crftica com q ue ele motiva  0insucesso do Inspetor . Ja a vf r amos despontar    nas tro~as disf ar~adas de que   0Inspetor  nao se dera conta na pr imeira conversa,   so encontrando nelas motivo para gargalhar .   Que se ja, como insinuara Dupin, pOl'urn
 problema ser simples demais, ou evidente demais, que ele possa
 parecer obscuro, eis af algo   que nunc~ tera maior ~eso p~r.a0 Inspetor do que uma fr ic~ao urn tanto vlgorosa na calx~ .toraclca.
Tudo e feito para nos ind uzir a no~ao da i mbeClhdade   d o  personagem. E ela e vigorosamente articulada pelo fato d~ ele e seus acolitos   jamais   conce berem, para esconder   ur n   obJeto, nad a  q ue  ultrapasse  0q ue  urn maland r~ comum ~od er ia imaginal', isto e, precisamente a serie pOl' demals conhe.cld a dos escond e- r i jos extraor dinarios q ue  nos e passad a em  revlsta:   ~esd e gavetas dissimuladas da escrivaninha ate  0tampa   d esmontavel d a mesa, dos forros descozid os dos assentos ate seus   pes ocos, d as cha pas  pOl'tras  d o estanho dos espelhos ate a espessura da encad er na~ao
dos   livros. E se zomba   d o erro   q ue  0 Inspetor comete ao deduzir q  ue,
 pelo  f ato d e  0ministro   ser  poeta, ele  nao   esta longe de  ser louco,
9. Gostarfamos de  rec olocar   ao sr .  Benveniste a  questao do sentido  a ntin6mico
de certas palavras,   primitivas ou nao,  a p6s   a magistr al r etif icav.ao ~u~  ele  t r ouxe
1 1   falsa via   por onde   Fr eud    a fez   envered ar no terr eno   f ilologlCO (cf .   La
 ps ychanal yse,   v.I, p.5-l6 ). Pois parece-nos   que essa  qu estao permanece   mtacta,
destacando   em   seu   r igor    a instancia d o signif icante.   Bloch   e Yon   Wartbur g
d atam   de   1875  0 a par ecimento da significa<;ao  d o   ver  bo   (d e pist er )   no segundo
empr ego   que dele fazemos   em nossa   f r ase.   E   necessar io aqui  c hamar   a  aten<;ao
d o  lei tor para   os d ois   significad os   da  p alavr a   d e pist er :   seu emprego mals   usual
e atual   e com   0 signif icad o   d e descobrir alg!lem ou  a lgo   segUind o  s ua plsta;   e
o mais antigo ja em d esuso   na Fr an<; a e seu   exato   o posto, des pistar .
crro este, ar gumenta-se, que so se deveria   -   0que ja e dizer  mUlto  -   a   uma falsa distr ibui~ao do termo medio, pois esta longe   de r esultar   que todos os loucos sej am poetas.
Cer to,   mas nos mesmos somos deixados   na   errancia q uanto ao q ue  constitui,   em materia de esconderijo, a superioridade do
 poeta,   ainda que ele se revele duble de matematico,   pois de
repente interrompem nosso avan~o,  arrastando-nos para urn ma- lagal  de contesta~6es inf undadas ao raciocfnio dos matematicos
que,   ao que eu saiba, nunca   mostraram tanto apego a sua~ for mulas a pon~o de identifica-las com a razao raciocinante. Pelo menos, atestamos q ue,   ao contrar io   d o que parece ser a expe-
riencia de  Poe, sucede-nos as vezes diante de nosso amigo Riguet   [23]
- que e aqui para voces,   por sua pr esen~a,   a garantia   d e que llossas incurs6es pela analise combinatoria nao fazem com q ue nos  extraviemos -, deixarmo-nos levar pOl' extravagancias tao graves (Deus nos livre!,   segundo Poe) quanto afirmar que" x2
+  px   talvez   niio   seja exatamente igual   a  q"  ,  sem  jamais tel' tido (e  d eixamos a Poe desmenti-lo) q  ue nos precaver contra alguma violencia inopinada.
Portanto, nao se esbanja tanto   espf rito senao para desviar  0
nosso daquilo que antes nos fora indicado tomar por certo,   ista e,   que a polfcia procur ou   par toda parte:   0que ca beria enten- d ermos   -   no q ue concerne ao campo em que a po lfcia presumia, nao sem razao, q ue devesse   encontr ar -se a carta   -   no sentido
d e urn esgotamento do espa~o,   teor ico, sem duvid a,   mas cu ja tomada ao pe da letra constitui   a gra~a da historia,   sendo-nos a presentado como t ao exato  0 "esq uadr inhamento" que rege a o pera~ao, que nao permitir ia,   diz-se,   "que ur n  cinqiientesimo de linha  escapasse" a  explora~ao dos  investigadores. Estarfamos no direito, pOl'  conseguinte, de perguntar como a carta   nao foi
encontrada   em parte alguma,   ou   melhor, de observar q ue tudo o  que   nos dizem sobre a concep~ao da  mais alta recepta~ao   nao nos explica, a rigor, que a c arta tenha esca pado as buscas,   ja
que   0 campo que estas e sgotaram realmente a continha como enf im comprovou a descoberta   de Dupin.   '
Seria preciso q ue a carta,   dentre todos os ob jetos, fosse dotada
da propriedade de  nulubiedad e ,   10 para   nos servirmos   d esse termo
10 .   Em  i ngles,   nullibicity   ou  nullibiety ,   pr o priedad e d e  nao estar em par te a lguma,
mversa   a   d a ubiqUidade. ( N.E.)
 
26 Escritos
que   0 vocabulario celebrizado pelo titulo de   Roget   retomou da .   W'lk'   ?ll. .ologica do blspo I InS.
utopia semi '.   12   If    'dent)   q ue a carta, de fato, E evidente   (a htt le   too   s e eVl   .   nenhuma palavra
' m  0 lugar rela<;6es para as quais   . mantem ~o todo  0alcance do qualificativo ingles  odd. ~lza:re , francesa em   .  d    .'   10 e apenas aproxlmatlvo.Baudelaire costuma tla   UZI-   , .
~~;a:os que essas rela<;6es sao singulares, pois sao Justamente . 'f    te mantem com  0lugar .
essas que  0 slgm Ican _    ,   osso designio estabelecer reIa<;6es Voces sa bem qu e n a? ~ n _, dir a carta/letral3 com   [24]
"sutis"   que nosso proPOSltOnao e confun   i   ,.   14   e que ' : ue a recebamos pOl' pneumatlco, ..
o espIr lto, mes~o q mata enquanto  0outro vivlflca, admitimos perfeltamente q~e. urn   A   talvez esteiam
. igmf  lcante, como voces   J
na medlda eame~~~d~/'materializa a instancia da m.ort~.. Mas,
come.<;an~o.   na materialidade do slgmftcante que InSlstImos, se fOI pnmelro   ,.   muitos ontos   0 primeiro dos essa materialidade e   singular   e.~ P ' q ue ~ u m~ c art alletra em
quais .e nao supor~~n~~~:r~rt~ :~r ~ carta lletra que e, e num
 pedacmhos,. e   e~a d Ie de que a   Gestalttheorie   pode sentido mUlto dlferente aq ue _ do todo   15
dar conta, com  0vitalismo insidioso de sua no<;ao .
f Borcres em sua  o bra tao har monizada com 11.   A mesma a q ue   0 Sf .   Jo~ge Lu.~m d;sti~o que outros reduzem a suas justas o phylum   de nossas coloca~oes,   da .   h   .   Iho  d e 1955 p.2135-6,   e o utu bro
- Cf    Le   T  o   ps Modernes,   Jun   o-Ju   ,   'E   propor ~oes.   . s   em   .   I'   . a" a  q ue Lacan   se refer e e   0   ssay
de   1955, p.574-5.   [A "utopia   se;~ol~;~~hical Language   (1668), em q ue John
t owards aRe~1   Char~eter and a   I   fe/uma tentativa,   por muitos considerada Wilk ins, ClentIsta e blspo de Chester,   I por  cifras para  que elas perdessem
 br ilhante, mas inutil,   d e SubstltUIr as pa avras ,
seu cunho associativo. ( N.E.)]
12.   0 destaque e   d o autor .   _    •   I d e  l et lr e   que so br etud o a partir  d esse 13. Ou  "0   Verbo", outra acep~ao posslve d ;fere~tes signif ica~6es (car ta,
 ponto do texto, convem ter em mente em   suas
letra).   ( N.E.) . .  t   a par isiense   d e entrega ni pida   d e d .   na   ur n   antigo SISem . d  
14.   0 termo, q  ue eSlg   _    . ' ne as r ov em   do   latim  pne umalicus   e   0
cartas atraves de tu bula~oes subtelra"   '~')   e teve  na I dad e Media a acep~ao ." ma"   -   sopr o
grego pneulI;alik os   (r aIz   pneu.   -   ace ~o do "sopro divino"  ,  que Lacan
de  " sutil" . E com esta, e tambem comd  a
r e~iss6es q  ue   se perd e   na tradu~ao.  joga   nesse paragrafo,   num conJunto e
(N.E.)   .   f    nos exem plos   ja des botad os   pelo  u sa 15.   E  isso e tao verdadeiro   que a f IlOSdOla,  ' It. plo   nao em prega   para os  m esmos
a ·tlr  d o  urn  e   0mu   I   , com que argument a a pI.   0cfr culo inter rompid o, ou   0vasa f ins a simples folha branca   rasgad a ao  m ew e
A   linguagem profere seu veredito a quem sabe ouvi-Ia: pelo uso do  a rtigo,   empregado como partfcula partitiva.16   E ai mesmo
que,   nao menos singularmente,   0 espirito, se   0 espir it o e a
signif ica<;ao viva, aparece mais propenso  a   quantifica<;ao do que
iI cartalletra. A come<;ar pela propria significa<;ao, que suporta
que   digamos:   esse discurso pleno   de signification,   do mesmo
mod o   que reconhecemos   de l'intention   em urn ato, deploramos
q ue   nao haja mais   d'amour,   acumulamos   de La haine   e dispen-
samos   du devouement   e que tanta   d'injatuation   se concilie com
o   fato de sempre haver   de La cuisse  (pernil) para vender e   du r ~fi f i   (confusao) entre os homens.
Mas, quanto   a   cartalletra, quer a tomemos no sentido de
elemento tipografico, de epistola ou daquilo que faz   0 letrado,
dir emos que  0que se diz deve ser entendido   Ii   Letra, que M   uma
car ta   a   espera de voces com   0  carteiro, ou que voces tern
cartas/letras   -   mas nunca que ha ja  de Lalettre   em alguma parte,
nao importando a que   titulo   ela Ihes diga respeito, nem que seja  para designar a correspondencia em atraso.
~t    Pois  0 significante e unidade pOl' ser unjcQ,   nao sendo, pOl' I'   natureza, senao simbolo de uma ausencia.   E e pOl'isso que nao
('  poder nos   dizer dacart37ietra roubada que, a   semelhan<;ade outros
o bjetos, ela deva estar   ou   nao estar em algum lugar, mas sim
q ue, diferentemente deles, ela estar a   e   nao estara onde estiver, onde quer que va.
Ve jamos mais de perto, com efeito,   0que acontece com os  policiais. Nada nos e poupado q  uanto aos procedimentos me-
d iante os quais eles revistam   0   espa<;o destinado   a   sua   investi-   [25]
ga<;ao, a   divisao desse espa<;o em volumes q  ue nao deixam
escapar a menor espessura,   a   agulha que sonda   0macio e, na
falta da percussao que sonde  0d uro, ao microscopio que denuncia
os excrementos do caruncho na borda de sua perfura<;ao, ou   ate a   fenda inf ima de mesq  uinhos abismos.   Na medida mesma em
q ue sua rede se fecha, para q  ue,   nao satisfeitos em sacudir as  paginas dos   livros, eles cheguem   a conta-Ias, acaso nao vemos o   espa<;o desfolhear -se,   a   semelhan<;a da cartalletra?
 partid o, sem   falar d o verme cortado   [ond e  La can joga   com os sentid os   d e verme
(ver,   lar ve,   q ue   tambem   significa "fantasma") e  d e  i nsidioso   (larvej J .   (N.E.)
 
Mas   os   investigadores ter n   uma   no~ao   tao   imutavel d o real
q ue nao   notam que sua busca   ira tr  ansf orma-Io em seu   ob jeto.
Tra~o em   q ue talvez possam   distingui r esse o bjeto de todos os
outros.
Seria demais ped  ir -lh es i sso , s em d  uvida,   na o e m r az ao d e
sua f alta   d e visa o, ma s, antes,   da nossa . P oi s sua imbecilidade
nao e de tipo individual,   nem   corpor ativo,   mas de or  igem
subjetiva. E   a imbecilidade realista, q  ue   nao se   limita   a   se dizer 
que nad a, pOl' mais q  ue   uma mao venha a enter ra-lo nas entr anhas
do mund o,   jamais estara escond id o a li ,   um a v e z q  ue outra mao
 podera encontra-lo, e que   0q ue   esta escondid o nunca e outra
coisa senao   aquilo que falta em seu lugar,   como e expresso na
ficha   d e a rq ui vo de u rn v olume quando ele e st a p er di do n a
 biblioteca.   E este, de fato, estando na prateleira ou na estante
ao fado estar ia escondido, pOl' mais visfvel que parecesse.   E  que
s6 se po de dizer que algo falta em seu   lugar,   a   letra,   daquilo
que pod e mud ar d e lugar, isto e, do simbOlico. Pois, quanto ao
real,   nao   importa que perturba~ao se possa introd uzir nele,   ele
esta sem pre e de qualq uer modo e m seu lugar,   0 real   0 leva
colado na sola,   sem conhe ce r n ad a q  ue possa exila-lo disso.
E com   efeito, voltando a nossos policiais, como poderiam
eles apoderar -s e d a c ar ta , eles que a a panharam   no lugar on de
estava escond id a? Naquilo que r evira va m entre os dedos,   que
outra coisa se guravam   eles senao   0 que   niio correspondia   a
descri~ao q  ue tinham dela?   A letter,   a litter  ,   uma carta, uma
letra,   ur n lixo. Fizeram-se tr ocadilhos,   no cenaculo de Joyce,17
com a   homofonia dessas duas palavras em ingles. A especie de
dejeto   q ue os policiais manipulam   nesse   momenta tampouco
lhes revela sua outr a natureza pOl' estar a penas meio rasgada.
Urn sinete diferente so br e u rn l ac re d  e   outr a c or  ,   e   ur n outro
estilo   d e grafismo no sobrescrito s ao , a li,  0mais inquebrantavel
dos esconder i jos.18   E,   se eles se detem   no reverso da car ta, que,
17.  Cf .   Our   Examinat ion r ou nd his F act if ication   for I  ncamination   of    Wor k   in
Progr ess ,   Shakes pear e and Company,   rua  d o Odeon,   12, Par is,   1929.
18.   Lacan   ex plora   a homofonia   e  a polissemia   de  cac het   (sinete,   lacre, estilo d e
autor, selo, cal'ater peculiar )   e   cachett e   (escond erijo ), f azendo cruzar o s d  ois
verbos   cacher   (esconder) e   cachet er   (selar,   lacr ar uma carta).   Let t r e   d e   cachet 
signif ica car ta   r egia, carta im per ial,   or dem   de Plisao. (N.E.)
I11111,0   sah?m~s,   era on de se   inscrevia   na e poca   0   endere~o   d o
Iii   .1 1 1 1 :1 1 < 1 1 '1 0 ,   e por que,   para eles, a carta   nao tern outra face senao I' r  ·ver so.
011'   pod er iam eles , d e f ato, detectar de seu   anverso?   -   Sua
1lIl'lisagem, como se costuma d iz er pa ra alegria de   nossos   d o-
1IIIIIgos ci berneticos? Mas,   nao nos ocorre entao a ideia de   q ue
I   sa   mensagem ja chegara a sua   d estinatar ia,   e   que   Ihe fora
IIIl'1usive   a bandonada com aquele peda~o de papel insignificante,
'lIlt'   agor a   a representa t ao be m q uanto   0 bilhete original?
S '  pud essemos   dizer q  ue   uma   carta cum pr iu   seu d estino de pois
Ill' !Iwer    desempenhad o sua fun~ao,   a cer  imonia   d a devolur ;ao
II., cartas   seria menos a ceita para ser  vi r d e encer r amento q uando
IIi! eXlin~ao dos fogos   d os feste jos   d o amor .   0signif icante   nao
I f 'lIflcional.   E, da mesma maneir a,   a   mobilizar ; ao d o  belo mundo
IlljOS   passatempos acompanhamos aqu i nao teria sentido,   se   a
I Ir la,   pOl'   sua vez,   se   contentasse em tel'   ur n.   Pois   nao seria   urn
III<)(.JOmuito adequad o de mante-lo e m sigilo comunica-lo a   ur n
('squadrao d e ti ra s   [ poulets].)9
Poderfamos ate admitir    q ue a carta tivesse   urn sentido com-
 pi ' tamente   d ifer ente, senao mais ardoroso,   para a Rainha, do
q llc   0que ela oferece   ao entendimento do   ministr o.   A   marcha
d os acontecimentos   nao ser  ia sensivelmente a fe ta da p Ol '  isso,
/ I   'm   mesmo se ela fosse estr  itamente   incom preensf vel par a ( jllalquer lei tor desavisad o.
Pois ela cer tamente nao   0 e   para tod o   0mundo, ja   q ue, como
1l0-!o   assegura enf aticamente   0Inspeto r, p ar a chacota d e   tod os ••   d   '
csse ocument o, revel  ad o a   urn terceiro   personagem,   cu jo nome
sent   mantido em silencio" (esse   nome   q ue salta a os olhos como
".ra bo do porco entre os   d entes do pai U bu), " poriaem   questao",
<lIz-nos ele, "a   honr a   d e   ur n per sonagem   da   mais alta   estir  pe",
ou   ainda,   "a seguranr;a da augusta pessoa seria   assim colocad a em   perigo".
1 ' . 1 .   Poulet   e   urn termo polissemico,   cujas   significa90es   vao  d esd e   0 d enotativo
"f r an go " ou   " pinto"   ate   a  gf r ia   "tir a", passan do pelas   d e  " bilhetinho amor o-
so/car ta   de amor"   e pelo   tr atamento af etivo "quer id inho", " amorzinho" . Com
 
Por conseguinte,   na o e a penas   0  senti do,   mas   0  texto   d a
mensagem que seria pe r igoso par em circulacyao,  mais ainda quanto   mais anodino ele parecesse,   visto que os   r iscos seriam
aumentados pela indiscricyaoq ue urn de seus depos itar ios pudesse
cometer inadvertidamente.  Nada, portanto, pode salvar a posicyao da policia, e nao se
modificaria nada melhorand o "sua cultura".   Scripta manent  ,   e
em vao que ela aprenderia, de urn humanismo de edicy aode luxo,   [27J
a licyaoproverbial q ue  0 verba   volant   termina.   qxala os esc~itos
ficassem, como e ,   antes,   0  caso   d as falas: porque, destas, ao
~nos a dfvida indelevel   fecunda nossos   atos com suas transfe - ------------------ ---- --
rencias. '-o-s escritos carregam ao vento as promissorias em branco de
uma cavalgada louca.   E, se eles nao fossem folhas volantes, nao
haveria letras roubadas, cartas que voaram.20
Mas, em que pe estamos a esse respeito? Para que haja carta roubada, d iremos conosco, a quem pertence uma   cartalletra?
Acentuavamos ha pouco   0 que ha de singular na devolucyaoda
carta a quem outrora deixara ardoro samente arrebatar -se se u  penhor .   E em geral se julga indigno   0 procedimento das publi-
cacy6es prematuras, do tipo daq uela com que   0   Cavaleiro de
Eonte pas alguns de seus correspondentes   em situacyaobastante deplorivel .
Entao, a cartalletra sobre a q ual  quem a enviou ainda conserva
direitos nao pertenceria plenamente aquele   a quem se dirige?
Ou sera que este   ultimo   nunca foi seu   verd adeiro destinatario? Vejamos:   0 q ue ir a esclarecer -nos e aq  uilo que, a principio,
 pode obscurecer ainda   mais   0caso, ou   se ja,   q ue a historia nos
d eixa ignorar quase tudo so br e  0remetente,   nao  menos  q ue sobre
20.   Pela riqueza de sua polissemia,   0   tr echo merece ser re prod uzid o e m f  r ances:
"Les   ecr its empor t ent au  v ent les t r ait es   en blanc   d ' une cavalerief olle.   E t  ,  s ' ils
n'lit aient    feuilles   volantes ,   it   n'y aur ait pas   d e   lettres voli es ." T  raite,   na
linguagem comercial   e juridica,   e   urn ti po   de titulo, a  l etr a   de  c ambio,   e   traite
de cavalerie   (ou   effet   de cavaler ie   ou  d e complaisance)   e   a "letra f r ia",   0titulo
falso,   f icticio.   F euilles volant es,   f olhas soltas,   tr az aind a as signif ica~6es   d e
"f olhas ao vento", "volantes"   ou  " m6veis" . Por f  im, as  lettres   valies   tanto  si lo
as cartas r oubad as   (ou "voad as") q ua nto   as   letras   q ue voaram   ou   as   letr as
(comerciais)   roubad as.   ( N.E.)
II Iollt   'lido   da cartalletra.   Nos e dito   tao-somente   que  0ministr o
IIIOllh'ceu de imediato a graf ia   U ' ecriture]   de seu   enderecya- /III  1110H   R ainha, e,  e  i ncidentalmente, a proposito de   sua camu-
1111',t'lIl pelo   ministro,   q ue se menciona q ue   0 sinete original e II do Duq ue   d e   S...   Quanto a sua importancia, sabemos apenas d o~   p 'r igos   que   ela compor ta, caso venha a cair nas maos de 1 1 1 1 1   l' 'ItO  ter ceiro,  e que sua posse permitiu ao ministro "exercer 
I IIIll ponto   perigosfssimo, com objetivos politicos",   a ascen-
d IIcia q ue   ela the assegura sobre a interessada. Mas isso nad a 110 1'   diz da   mensagem que ela veicula.
('ar la   d e   amor ou   carta de conspiracyao, carta   d e delacyaoou 1I'lade instrucyao,carta de intimacyaoou carta   d e desolacyao, so
IIlHIl'mosreter dela uma coisa: e que a Rainha nao pode   leva-la 110   'onhecimento de seu mestre e senhor .
Or a, esses termos, longe de tolerar    0  toque de depreciacyao 'I1Il' lem   na   comed ia burguesa,   assumem   0 sentido eminente de
dl'signar seu soberano, a quem a liga seu juramento de fidelidade,   [28]
I  d·   maneira redobrada, ja que sua posicyaode canjuge nao a
I xime de  seu dever de sudita,  mas antes a eleva a g uard a daquiJo qll . a   realeza, segundo a lei,   encarna do poder: e que se chama ll·gilimidad e.
Por conseguinte,   seja qual for  0 paradeiro que a Rainha tenha Il plado por dar a cartalletra, essa carta nao deixa de ser  0 sf mbolo
dt· Illn pacto e que, mesmo que sua destinataria nao ass uma esse plI 'lo, a  existencia da carta a situa   numa cadeia simbolica distinta
d ll q ue constitui seu juramento. A prova de que e incompatf vel
I om   este   e dada pelo fato de que a posse da cart alletra e Illlpossf vel de validar publicamente como   legftima, e de q ue,
pllnt   faze-la respeitar, a Rainha so poderia invocar    0  direito a
slIa   privacidade,   urn direito cu jo privilegio f undamenta-se   na honra q ue   essa posse   d erroga.
Pois   aquela que encarna a imagem benevolente da soberania 11110   pode   acolher acordos, mesmo privados, sem q  ue eles impli-
q uem   0  poder,   e   nao pod e prevalecer-se do sigilo perante   0
soherano sem entrar na c landestinidade.
Portanto,   a responsabilidade do autor da car ta passa ao se- gundo   plano, comparad a aq uela de  quem a detem, pois a ofensa I)  l I1a jestad e faz-se acom panhar,   nesse caso, da mais  alta trair iio.
 
contestavel pa ra sua   d estinataria   d o   que par a   q ual~uer .un: e~
cujas maos   possa   cair,   uma v ez   que   nada, quanto a eXlsten~la
da   carta, pode vol tar a  n ormalidad e sem   q ue aq uele c~ntr a CU jaS
 prerrogativas ela atenta tenha tid o q ue s e p ronun cl ar a es se
respeito.   . Entretanto isso t udo nao   q uer    d izer que, pOl' mals q ue   0
segredo da c;rta seja   indefensavel,   a denuncia desse segredo seja
de algum modo honrosa. Os   honesti homines,   as pessoas de bern,
nao conseguiriam sail'   inteiramente   ilesas disso. Ha mais d~  un: a
r eligio,   e   nao   ha de ser amanha q ue os lac;os sagr~dos delxar .ao
de nos puxar   em sentidos contr arios. Quanto ao   ambItus,   0.rod~lO,
o desvio, como se ve,   nem sempre e a am bic;ao que   0msplra.
Pois se existe urn pelo qual passamos aqui,   nos nao   0roubamos,
tem~s que dize-Io, ja que, para Ihes confessar tudo, so adota mos
o tf tulo de B audelaire no intuito de bem marcar nao, como se
enuncia impropriamente,   0carateI'   convencional do   signif icante,
mas, antes,   sua precedencia em relac;ao ao significado. ~em pOl'
isso Baudelaire, malgrado sua dedicac;ao, deixou de trail' Po~ ao
traduzir pOl' "Ia lettre volee" seu tft ulo, que e   The Pur~otne.d 
 Letter,   ou   seja, que se vale de urn termo tao raro que nos e ma ls
facil definir sua etimologia do q  ue seu emprego.
To purloin,   diz-nos   0dicionario de Oxford, e uma palavra
anglo-francesa, isto e, composta do prefixo pur ~ ,   q ue ~Iamos
reencontrar em   purpose,   proposito,   purchase,   provlmento,   pur-
 port,   importancia,22 e do vocabulo do f rances antigo.   loing,
loigner, longe.   Reconhecemos no primeiro eleme nto ~ latlm   pro,
no que ele se distingue de   ante,   pOl' supor ~m detras   ,antes do
qual ele se aplica, eventual mente para garantl -Io ou, ate mesmo,
 para dar-lhe sua garantia como avalista (ao pas so que   ante   se
adianta em direc;ao aquilo que vem a seu encontro) .   Q~anto ao
segundo,   a antiga palavra francesa   loigner,   verbo do atnbuto de
21. Lacan usa   0 fr ances   provision   (provisao, a bastecimento, suprimento etc.),
enq uanto   purchase   ex pr essa, mais exatamente,   com pra,   aq uisi<;:ao, obten<;:ao,
recur so s e ate mesmo pilhagem. (N.E.) 22. Em irances,   por tee. Pur  por t,   em sua mod ern a polissemia, e teor, sUbstan~ia,
significado,   su bentend id o   etc. Para   uma compr eensao   m~is plena   d as trad u<;:o~s
francesas escolhidas por Lacan,   0leitor  int er essado devera consul tar  a ettmolog1a
d esses ter mos,   pois e e m suas or igens remotas que eles malS se a pr oxllnam.
(N.E.)
III   II   /11/   loing   (ou ainda   longe   [Iadeado]), ela nao significa ao
Itll l'l   1111/   loin],   mas ao longo de; trata-se, pois, de   por de lado,
1 1 1 1   J lII I '   I"COITer a uma locuc;ao familiar que joga com os dois
I  1 1 1 1 1   IllS,   dc   mettre   a   gauche ["   reservar disfarc;adamente" ou
o i l   \llIl\lIar "].
\',,'illl  n os   vemos confirmados,   em nosso desvio,   pelo proprio
IIlllt'lll   quc   a ele nos leva: pois e justamente a   carta desviada
1 /1 1  1   IIOSocupa, aquela cujo trajeto foi   alongado [prolonge]23   (0
1 1 1 1 1   ',Iitcr al me nt e, a pa la vr a inglesa),   ou, para recorrer ao
11\  , "HIlar io   postal,   la lettre en souffrance,   a   carta nao retirada.24
I':is  af,  portanto,   simple and odd,   como nos e anunciado desde
I   J lI   imcir a   pagina, reduzida a sua exp r essao mais simples, ~
111/'lIlar idade da carta/letra, que, como   indica   0 tftulo,   U "  /'  /  t  I ( / d eir o sujeito   do conto: e por poder sofrer um   d esvio que
IIIII'm   urn trajeto   que lhe e proprio.   Trac;;oo nd e se afirma, aqui,
1111Inclctencia de significante.   Pois aprendemos a conceber que
II si  r nificante s6 se sustenta num deslocamento comparavel ao .
d,'   nossas faixas de letreiros luminosos ou das mem6rias gira-
IIlrias   d e   nossas maquinas-de- pensar -como-os-homens,25   e   isso,
1'lIl   razao de seu funcionamento altern ante pOl '   princfpio, que
,'xi  ' C q ue ele deixe seu lugar, nem que se ja para retornar a este
cir cularmente.
Isso e  justamente   0q ue acontece no automatismo de repetic;;ao.
() que Freud nos ensina,   no texto que comentamos, e que   0   [30]
sujcito segue   0veio do simb61ico, mas   isso cuja ilustrac;ao voces
I'\m  aqui e ainda mais impressionante:   nao e apenas   0  sujeito,
mas   os sujeitos, tor nados em sua intersu bjetlvldade, que se
aItnham na f  ila   -   em outras palavras, nossos avestruzes, aos
quais els-nos de volta, e que, mals d6ce is que car  nelros, mod el   am
SCllproprio ser segundo   0 momenta da cadeia signif icante que
os   esta percor r endo.
Se   0q ue Freud descobr iu, e redescobre com urn gume cada
vcz   mais afiado, tern a lgum sentido,   e   q ue   0 deslocamento do
23. Tomando   0 pur-longee   ( purloined)   como" am pliada em  s ua extensao/alcance
 por um desvio   lateral   previo".   (N.E.)
24.   En sout  france,   tambem   "nao   r eclamada"   ou  " em sus penso". (N.E.)
25. Cf . nossa intr odu<;:ao,p.64.
 
significante deter mina o s sujeitos em   seus atos, seu  d estino, suas
recusas,   suas cegueiras, seu   sucesso e sua sorte,   nao obstante
seus dons   inatos e sua posis:ao social, sem   levar em conta   0
carMer ou 0 sexo,   e  q ue por bem ou   pOl'mal   seguini 0 rumo d .o
s!~itJ..G.a pte,como armas e bagagens, tudo aquilo que e da ordem
do dado pSi<;.JloJico.   .0:. .~   II
·1R cLo   J>J~   G »-t~   t - " "   ~
Eis-nos aqui, de fato, no~amente n N encruzilhada em que havfa-
mos   d eixado nosso drama e sua ronda com a q uestao da maneir a
como os sujeitos se revezam.   Nosso apologo serve para mos trar 
que sao a car taJletra e seu de:;vio q ue  r egem suas entradas e seus  papeis.   Nao sendo ela reclamad a   [en souffrance] ,   eles e que iraQ
 padecer .   Ao passarem sob sua sombra, tomam-se seu reflexo.
Ao entrarem de posse d a   cartaJletra   -   adminivel ambigtiidade
da   linguagem26 -,   e 0 sentido dela que os possui.
Isso e 0 que nos mostra   0 heroi do drama que aqui nos e
contado, quando se repete a propria situas:ao que sua audacia
tr amou pela primeira vez   para seu triunfo. Se agora ele sucumbe
a esta,   e pOl' haver passado para 0 segundo local da trfade de
que inicialmente fora   0  terceiro, ao mesmo tempo que   0  larapi027
-   em virtude do o b jeto de seu rapto. Pois se, agora ·como antes,   trata-se de pr oteger a carta dos
olhar e s, q  ue outra safda Ihe resta   senao empregar 0 mesmo
metodo q ue ele proprio desarticulou, 0 de deixa-Ia a descoberto? E e Ifcito d uvidarmos   de que ele sai ba   assim 0 que esta fazendo,
quando   logo 0 vemos capturado   numa relas:ao   dual em   que
encontramos todos os tras:os  d o engodo mimetico ou d o animal
que se faz de morto, apanhado na ar madilha da situas:ao tipica-   [3lj
mente imaginaria: pOl'vel' q ue nao e visto,  d esconhecer   a situas:ao
real   em   que   ele e v isto   nao vendo.   E  0que   e   q ue ele nao ve?
Justamente a situas:ao simbolica que ele mesmo soubera ver tao
 ber n,   e onde eis q ue agora e visto vendo-se   nao ser visto.
o ·ministro age como   urn   homem que sa be   q ue a   busca da
 polfcia e s ua   defesa,   porquanto nos d izem   que e de proposito
26. A ambigUidade   e   aind a   maior   no f r ances   (lomber en  possession),   onde   se
"cai em   posse" d a car ta. (N.E.)
27.   A   constr wr ao alud e   11 expressao   un lroisieme   larr on,   de   La Fontaine,
d esignativa   da pessoa q ue tir a   proveito d o conf lito entre   outr as   duas.   (N.E.)
1  /1 1 1 1  I I' III, deixa   0 campo   livre com   suas ausencias: e tam pouco II   lIlli/Ieee   q u