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n , i.. Iniermezzo KARL HAUSHOFER EA GEOPOLITIK ALEIvIÃ Por que um intermezzo? A té aqui foram analisados a filosofia da história, o corpo de conceitos e os aspectos estratégicos que formam o arcabouço teórico da geopolítica do poder terrestre. Para tanto, revisitou-se a obra de Mackinder desde sua formulação inicial esboçada na conferência de 1904, passando pela sistematização mais elaborada exposta no li- vro de 1919, até chegar à revisão e atualização finais conti- das no artigo de 1943. Esse balanço da geopolítica do poder terrestre estabele- ceu o marco de referência para a etapa subseqüente: a in- fluência do-pensamento de Mackinder sobre dois geopolíticos americanos,.Nicholas.Spykman·eZbigniew Brzezinski. Ambos são intelectuais oriundos dos meios acadêmicos cujas idéias encontraram receptividade entre a elite dirigen- te estadunidense e, em larga medida, foram utilizadas como "guia prático para ação" entre determinados círculos gover- namentais de seu país. A aceitação obtida extramuros do seleto e restrito ambiente universitário deve-se ao fato de seus diagnósticos e normas prescritivas de ação fornecerem 71

Karl Haushofer e a Geopolitik Alemã

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IniermezzoKARL HAUSHOFERE A GEOPOLITIK ALEIvIÃ

Por que um intermezzo?

Até aqui foram analisados a filosofia da história,o corpo de conceitos e os aspectos estratégicos

que formam o arcabouço teórico da geopolítica do poderterrestre. Para tanto, revisitou-se a obra de Mackinder desdesua formulação inicial esboçada na conferência de 1904,passando pela sistematização mais elaborada exposta no li-vro de 1919, até chegar à revisão e atualização finais conti-das no artigo de 1943.

Esse balanço da geopolítica do poder terrestre estabele-ceu o marco de referência para a etapa subseqüente: a in-fluência do-pensamento de Mackinder sobre dois geopolíticosamericanos,.Nicholas.Spykman·eZbigniew Brzezinski.

Ambos são intelectuais oriundos dos meios acadêmicoscujas idéias encontraram receptividade entre a elite dirigen-te estadunidense e, em larga medida, foram utilizadas como"guia prático para ação" entre determinados círculos gover-namentais de seu país. A aceitação obtida extramuros doseleto e restrito ambiente universitário deve-se ao fato deseus diagnósticos e normas prescritivas de ação fornecerem

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K.\R.L H:\USIlOFER ]i. .\ GFOPOLITIK ALEM.\. KARL H\CSHOFER E t\ GEOPOUTIK ALEMA 7?J

relevantes subsídios ;\ formulação da grande estratégia ame-ricana do segundo P()s-guerra. Segundo Liddell Har t, his-ro riador milita) inglês, a grande estratégia consisre no em-

prego lÜU só dos meios militares, mas de todos os outros re-cursos de poder - econômicos, diplomáticos, humanos,psicossociais -, para atingir o objetivo jJoUtico da guerra).

Tanto Spykrnan como Brzezinski adotam em relações in-ternacionais uma postura realista que enfatiza a convergên-cia ou a afinidade elctiva entre política de poder e realida-des geográficas. O termo "política de poder" é aqui o equi-valente a Maclüpolitik, vocábulo alemão que designa a amea-ça do uso da força ou seu emprego efetivo na condução dapolítica internacional". Além das componentes militar, eco-nômica e psicossocial, ambos também consideram a geogra-fia como uma importante expressão do poder estatal. Emoutras palavras, o espaço, a posição e os recursos naturais ehumanos de um país são fatores de poder que afetam a to-mada de decisões no campo das relações intercstatais.

No caso de Spykman, trata-se de geógrafo político, cujaprodução intelectual subsidiou a elaboração da estratégia decontenção adotada pela política de poder americana a partirda Guerra Fria. Brzezinski é um cientista político que assesso-rou a administração Carter em assuntos de segurança nacio-nal, combinando, depois, formação acadêmica e experiênciagovernamental numa reflexão teórica, fundamental à COI11-

preensào do desfecho incruento do conflito americano-sovié-

tico. O que se pretende investigar é em que medida as con-cepções geopolíticas e estratégicas desses dois intelectuaisamericanos foram influenciadas pelas idéias de Mackindcr.

Contudo, antes de abordar diretamente o tema em ques-tão, é preciso fazer uma ressalva preliminar que, por ser abso-lutamente indispensável, é também relativamente extensa.

Ao ajustar o foco de análise na provável influência do geó-grafo britânico sobre dois expoentes ela geopolítica america-na do pós-guerra, pretendia-se deliberadamcnte dcsconsi-derar a inegável influência de Mackinder sobre a Geopolitikalemã do entreguerr as, especialmente sobre o primaz doInstituto Geopolítico de Munique: o general-geógrafo KarlHaushofer. Isso porque as múltiplas e complexas relaçõesentre a geopolítica de Mackinder e a Geopoluik de Haushoferjá haviam sido objeto de longa e exaustiva investigação dogeógrafo americano Hans W. Weigert". Como dificilmentese poderia acrescentar algo de realmente novo sobre essetema, o ideal seria não incorrer no risco de ser meramenterepetitivo e centrar a análise predominantemente na geopo-lítica americana.

Estigmatizada no segundo pós-guerra como "geografia donazismo", a geopolítica tornou-se matéria de acirradas polê-micas e controvérsias no interior de um seleto e fechado CÍrcu-lo de intelectuais. E, na tentativa de identificar mecanicamen-te geopolítica e nazismo - termos que se tornaram até certoponto intercambiáveis e mesmo equivalentes -, chegou-se aoextremo de, parafraseando uma expressão coloquial, quasese jogar fora a criança junto com a água do banho.

LicldelJ Harr, 1\. H. Estsategia de aproxi mación mdirecta. Bucnos Aucs: EditorialRioplarensc, 197:>, p. '\41-R4.Wight, Marli". i\ [rolitlca do 1)0'&1'. Br.isflia: UnB, 1985, p. 15·20. Ver t arnbémSpykrnan, Nicholas. Estado", Unidos [rente ai mundo. México: Pondo de CulturaEconômica, 1\)1,1, p. 25-6.

:\ Wcigcrl, Hans \V. Ceopolitica: generales )' geógrajos. México: Fondo de CulturaECOI1Óll1ica, 19'13,

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74 KAKL l-L\CSHOFER E .\ GFOPOL1TIK ALEMA KARL HAUSHOFER E A GEOPOUTlK ALF.i\'lf\ 75

Por isso, ê preciso antes de mais nada demarcar as frontei-ras do campo do debate e distinguir claramente a diferençaentre geopolíLica e Geopoliiik, o que remete à fronteira cin-zenta que separa ciência e ideologia.

A geofJolíl-ica é um ramo autônomo da ciência política quetem por objeto de estudo as relações e as mútuas imeraçõesentre o Estado e sua geografia. Esta disciplina possuiu umacervo de conhecimentos teóricos e ernpíricos que pode serutilizado no planejamento da política de segurança de umpaís no tocante a seus fatores geográficos. Como afirmaSpykman:

tivamente poucos pesquisadores e um assunto praticamentedesconhecido do público não especializado. Portanto, nãoseria fora de propósito retomar aqui a discussão das comple-xas e controvertidas relações entre a geopolítica e o nazis-mo. Porém, entre repetir o já sabido ou passar ao largo doproblema, optou-se por uma solução intermediária: analisarsucintamente as relações Mackinder/Haushofer e Hausho-fery'Hitler, apoiando-se quando necessário nas idéias de\Veigert, quamo ao impacto da geopolítica inglesa sobre aGeopolitik alemã.

A conexão Mackinder-Haushofer"o campo da geopolítica é, contudo, o campo da políticaexterna e seu tipo particular de análise usa os fatores geo-gráficos para ajudar a formulação de políticas adequadaspara a consecução de certos fins justificáveis.":'

1\0 início ela Segunda Guerra, quando a máquina militarnazista dominava quase todo o continente europeu, váriosautores e publicações sustentaram a tese de que o general-geógrafo alemão Karl Haushofer, por intermédio de RudolfHess, seu discípulo e secretário de Hitler, havia colaboradona redação da bíblia do nacional-socialismo:

Embora oriunda da geopolítica, a Geopolitih alemã trans-formou-se numa pseudociência ou, mais precisamente, numaideologia geográfica, manipulada por alguns círculos políti-co-militares para legitimar a política de poder do Hl Reich.Como doutrina justificadora da conquista do "espaço vital"e instrumento de racionalização da política de agressão e doexpansionismo territorial nacional-socialista, a Geopolitik ale-mã nada mais é do que um subproduto espúrio e ilegítimoda geopolítica.

Embora seja um tema de grande relevância e inegável in-teresse, a Geopolitik alemã tem sido objeto de estudo de rela-

"Diz-se que os conselhos de Haushofer inspiraram o Ca-pítulo XIV do Mein. Kampj, no qual se definem os objeti-vos da política exterior nazista e se expressa o conceitoque Hitler tem de Lebensraum."

Mais do que isso, afirmava-se mesmo que Haushofer erana realidade o verdadeiro mentor intelectual das decisõestomadas por Hitler:

Spykman, Nicholas J. The Geogm.jilty oJ the Peace. Nova York: Harcourt, Brace anelCompany, 191'1, p. 6.

Suauz-Hupé, Robert. Geopolitica: Ia. lucha j}()r cl esfJaáo)' cl !Joc/e1". México: Edito-rial Hermes. s.d., p. 70.

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7G KARL H.\\,SILER E A GEOPOLl71K ALHIA

"Haushoícr c seu Instituto de Munique com seus milcienustas, técnicos e espiões são quase desconhecidos elopúblicu, c ;lLl: mesmo nu 111 Reich. Porém, suas idéias,cartas geográficas, mapas, estatísticas, informação e pla-nos ditaram os movimentos de Hitler desde o começo.[...]. O Instituto de Haushofer não é mero instrumento aserviço de Hitler. É exatamente o contrário. O Dr. Haus-hofer e seus homens dominam o pensamento de Hitler."

Mesmo antes da eclosâo da guerra, Herrnann Rauschning,militante nazista dissidente, cnfatizou categoricamente emlivro a influência do general-geógrafo sobre a política exter-na do lII Reich:

"É preciso mencionar aqui, sobretudo, o presidente daI

Academia alemã, o. professor Haushofer, antigo major-ge-neral. Sua escola de geopolítica ajudou amplamente a fixaras intenções do regime em política estrangeira e até podedizer-se que lhe permitiu tomar plenamente consciência desi rnesmo nesse terreno. Suas declarações são sempre im-portantes, porque explicam com uma franqueza absolutaos desejos e as intenções do nacional-socialismo.";

Porém, ao examinar ü impacto do pensamento de Mac-kinder sobre a Geopolitik de Haushofer, Weigert desenvolveuem 1942 - no auge da Segunda Guerra - tese oposta, sus-tentando que, ao contrário do que se propalava nos círculosintelectuais e na imprensa da época, Haushofer não desern-

A ,

G "Los mil científicos que hay dctr.is de Hiiler". Tlie Reader's Digest, 1941. Apurl:Ibns Wcigert. Oro cit., p. I cJ-21.Rauschning, llermann.Larevo/ución delrulnlismo. Buenos Aires: Editorial Lesada,19,10, p. 2:,~·'L

e- --.•

KARL HAUSI'IOFER E A GEOPOUTIK .\LEMA 77penhou O papel de "conselheiro do Príncipe" nas decisõespolíticas e militares de Hitler. Discordando dos que viam nogencral-gcógrafo o "Maquiavel nazista" ou a eminência par-da de Hitler, Weigert8 sustentou que uma comparação dasidéias expostas no célebre capítulo XIV - intitulado "Orien-tação para leste ou política de leste" - com os escritosgeopolíticos de Haushofer demonstrava que ambos pos-suíam visões diferentes e mesmo antagônicas da política ex-terna do III Reich.

A rigor, não é segreclo de iniciados o quanto o general-geógrafo alemão é tributário do geógrafo britânico,já que opróprio Haushofer por diversas vezes reconheceu publica-mente seu débito intelectual com Mackinder. Referindo-seao "The Geographical Pivot of History", Haushofer classifi-cava-o como "a maior de todas as concepções geográficas",ou então afirmava enfaticamente:

"Nunca vi nada mais grandioso do que estas poucaspáginas de uma obra-prima gcopolítica.'?

Como já foi mencionado, o grande temor de Mackindersempre foi o perigo de que urna eventual aliança entre asduas potências continentais européias - a Alemanha e aRússia - poderia representar para o futuro do império britâ-nico. Para ele, uma coalizão do Estado-pivô com a potênciacentro-européia implicaria uma alteração radical do equilí-brio de poder em toda a Eurásia.

No que tange à oposição oceanismo uersus contíncl1talísrno,a conseqüência mais provável dessa nova correlação de for-

Weigert, H:H1S. Op. cii., p. 152·').'. Ibidcm, p. 12~)

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ças seria a ascensão de um poder terrestre russo-germânico- quase que certamente regido e orquestrado pela Alema-nha - com a conseqüente derrocada do poder marítimo bri-tânico. Uma coalizão russo-germânica engendraria as condi-ções necessárias para o desenvolvimento de um poder anfí-bio continental-oceânico capaz de arrebatar das potênciasinsulares a preponderância mundial.

É principalmente nessa questão crucial das relações entrea Alemanha e a Rússia, assim como na visceral oposição aopoder marítimo britânico, que Weigert detecta a grande in-fluência exerci da pela geopolítica de Mackinder sobre aGeopolitik de Haushofer.

Com efeito, Mackinder desenvolveu sua peculiar visão domundo a partir de uma ótica especificamente britânica eantigermânica: tratava-se de impedir por todos os meios quea segurança insular e a hegemonia naval britânicas pudes-sem ser postas em perigo por uma aliança russo-alemã.Haushofer, por sua vez, assimilou os escritos geopolíticos deseu mentor e antagonista inglês, segundo uma perspectivaalemã e ferrenhamente antibritânica: para ele o estabeleci-mento de uma aliança com a Rússia era a chave para vencera Grã-Bretanha e pôr a Europa sob a suserania de uma Cran-de Alemanha.

Essa leitura às avessas, por assim dizer, demonstra o quan-to Haushofer é tributário de Mackinder no que concerne àinfluência da geopolítica inglesa sobre a Geopolitih germânica.Segundo Weiger t'", quando o general-geógrafo alemão refe-ria-se ao geógrafo britânico citava sempre um antigo ditado

10 Haushofer, Karl. Potências conquistadoras de espaço, 1937, p. 76. Apud: HansWeígert. Op. cit., p.129.

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de origem latina: Fas est ab haste doceri ["É preciso aprendercom o inimigo"].

Haushofer via na Rússia bolchevista o aliado geopolíticonatural, que serviria de ponte ou elo de ligação entre a Ale-manha e os povos asiáticos da região indo-pacífica, cujo ini-migo comum eram o colonialismo e o poder marítimo britâ-nicos. Portanto, eram os imperativos geopolíticos da posi-ção ocupada pelos alemães no centro da Europa e pelos rus-sos no Heartland da Eurásia - e não as divergências ideológi-cas entre nazismo e bolchevismo - que deveriam nortear apolítica da Alemanha em relação à Rússia.

Nesse sentido, o general-geógrafo alemão opunha-se a uma.guerra contra a Rússia, pois sabia ser quase impossível con-quistar um Estado-pivô de dimensões continentais que tinhaà sua retaguarda os imensos recursos e os grandes espaçosdo Heartland eurasiano. Para Haushofer, o fracasso da cam-panha napoleônica na Rússia no século passado e; em sua

I Y .época, o impasse em que se encontrava o Japão na guerracontra a China confirmavam a tese de Mackinder sobre osriscos inerentes à invasão de um país com vasta retaguardacontinental, grandes contingentes populacionais e a vanta-gem estratégica de manobrar a partir de linhas interiores.

O haushoferismo advogava uma aliança da Alemanha coma Rússia e o Japão, que deveriam ajustar suas respectivasesferas de influência e formar uma nova constelação de po-der na Eurásia. Na visão de Haushofer, essa partilha levariaà constituição de três grandes áreas supercontinentais deno-minadas pan-regiões: a Euráfrica (englobando Europa, Áfri-ca e Oriente Médio) = rsubmetida à suserania alemã; a Pan-Ásia (abarcando a China, Coréia, Sudeste asiático e Oceânia)- sob domínio japonês; e, entre ambas, aPan-Rússia (gigantes-

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ca zona-tampãojforrnada pela Rússia, Irã e Índia) - tuteladapela União Sovi~Lica. Finalmente, o general-geógrafo alemãoconcebia ainda uma quarta panregião - a Pan-América -,que englobava todo o continente americano sob domínioelos ElJA. Em síntese, a Ceopolitil: de Haushofer defendia aconstituição de um bloco nanscontinental eurasiático, for-mado por uma aliança russo-germânicojaponesa, que teriaà sua disposição um excedente de poder não compensado,em termos militares, econômicos e demográficos, capaz decolocar em xeque o poderio naval do império britânico!'.

No início de 1941, quando a França estava submetida àocupação alemã, a Inglaterra completamente isolada do con-tinente e a Rússia não havia ainda sido invadida, a Revista deGeopoliiica, editada por Haushofer, fazia a seguinte previsão:

"O crescimento dos novos grandes espaços continen-tais c sua proteção mediante a força aérea significam aruína do Império Britânico; será derrotado d pulverizadoentre estas forças em expansão. Com o Japão por compa-nheiro, com os recursos da RúSSÍa à nossa disposição, ocerco em torno da Inglaterra se aperta cada vez mais. So-bre o horizonte surge agora um novo bloco eurasiáticoem formação. Estende-se da Espanha até a Sibéria, da

Noruega até a África."12

Entretanto, a substituição da operação "Leão-Marinho"pela operação "Barbarossa" reverteu totalmente o quadro

11 Haushofer, Karl. "Le bloc continental Europe Centrale-Eurasie-japon". In: De Ia

géojJolitiquc. Paris: Faya rcl, 19S6, p. 127.12 Apud: Weigert, Hans. Op. cit., p. 171.

KARL HAUSHOFER E A GEOPOLITIK ALEMÃ 81

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82 E.ARl. I-íAusHOFER E A GEOPOLITIK ALEMA K>'\RL HAUSHOFER E A GEOPOLITIKALEMA 83

da guerra na Europa e representou um golpe mortal no so-nho hausliofcriano de organização do bloco transcontinentaleurasiático.

A conexão Haushofer-Hitler

Diversamente de Haushofer, Hitler parecia não conheceras idéias de Mackinder nem demonstrava possuir concep-ção geopolítica coerente da política de poder alemã. Aliás,nada indica que sua visão global da política exterior nazistaestivesse embasada em qualquer conhecimento sistemáticoe organizado de geopolítica.

Com efeito, para Hitlcr não existia antagonismo inconci-liável entre os interesses da Crã-Bretanha como potência in-sular e os da Alemanha como potência contin1ental. Segun-do sua concepção de política de poder, a Alemanha deveriareconhecer a supremacia naval e colonial britânicas em tro-ca do abandono, pela Grã-Bretanha, de sua posição de árbi-tro do equilíbrio europeu e da aceitação da hegemonia ale-mã no continente.

O "inimigo mortal" era a França, à qual Hitler imputava osuposto projeto de dividir a Alemanha como meio de imporsua hegernonia à Europa continental:

"Não elevemos ter a mínima dúvida de que o inimigomortal, incxorável, do povo alemão é e será sempre a Fran-ça. É indiferente que a França seja governada por Bourbonsou jacobinos, bonapartistas ou democratas burgueses, re-publicanos clericais ou bolcheviques vermelhos. O objeti-vo de sua atividade política será sempre a tentativa de con-quista das fronteiras do Reno e de uma garantia para a

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posse desse rio, pela França, para o enfraquecimento elaAlem;ullla,"I:l

Primeiro (l Alemanha deveria aniquilar a França no oci-dente e só depois voltar-se em direção ao leste para conquis-tar e colonizar a Europa Oriental. Era nos territórios do les-te que os alemâes deveriam buscar o Lebensraum para cons-truir () Reich de mil anos da raça ariana. A rigor, o projetohitlerista de uma Marcha para o Leste nada tinha de origi-nal, inovador ou revolucionário: era apenas a versão moder-na do Drang nacli Ostem dos cavaleiros teutônicos medievaise a retomada da secular rivalidade entre germanos e eslavospelo domínio das terras orientais.

Em resumo, na visão tacanha e eurocêntrica do hitlerismo,o destino do Herrenuolk era assenhorear-se de um impérioterritorial nos grandes espaços contíguos do Leste Europeue não se lançar temerariamente aos oceanos em busca dedistantes colônias ultramarinas. A vocação continentalista eantioceânica da política externa alemã foi enunciada porHitler nos seguintes termos:

"A aquisição de colônias não resolve a questão. De faro,não há solução fora da conquista terr itorial para a coloni-zação que aumente a extensão territorial da mãe-pátria ecom isso não só mantenha os colonizadores em contatoíntimo com o seu país de origem como também assegureas vantagens de uma unidade perfeita. [...]. Terminamos,finalmente, a política colonial e comercial de antes daguerra e passamos ;1política tcrritorial do futuro. Quan-

1>' llitler, Adolf, Minha lula. S'10 Paulo: Editora Mestre j ou, 1962, p. :)86.

K-\RL H.\USIIOFER E. li. GEOPOLJ7IK ALEM."'.. 85

do hoje falamos, na Europa, de nosso solo, pensamos, emprimeira linha, somente na Rússia e Estados adjacentes, aela subordinados."!'

O projeto hitlerista de um império territorial alemãoconstruido a expensas da Rússia e coexistindo com o impé-rio marítimo e colonial britânico foi também confirmadoindiretamente por Winston Churchill em suas Memorias daSegunda Guerra Mundial. Nesta obra, Churchill relata umareunião, realizada em 1937, com Von Ribbentrop, àquelaépoca embaixador alemão na Grã-Bretanha, na qual este dis-correu sobre as propostas de aproximação diplomática e asreivindicações territoriais do III Reich.

O estadista e escritor inglês oferece uma versão desse en-contro com Von Ribbentrop, na embaixada da Alemanha,

• "" que confirma, por vias transversas, a concepção eurocêntr icae continentalista da política de poder hitlerista:

"Disse-me que poderia ter sido ministro das RelaçõesExteriores, mas que pedira a Hitler que o deixasse vir paraLondres, a fim de trabalhar plenamente por um entendi-mento ou até uma aliança anglo-germânica: A Alemanhadefenderia o Império Britânico em toda a sua grandeza eextensão. Talvez pleiteasse a devolução das colônias ale-mãs, mas isso, evidentemente, não era fundamental. Oque se pretendia era que a Grã-Bretanha desse carta bran-ca à Alemanha no Leste Europeu. Ela precisava ter seu

n r Lebensraum; ou espaço vital, para sua população cada vezmaior. Assim, a Polônia e o Corredor de Danzig deveriam

11 Ibirlcm. p. 41)1;-7.

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ser absorvidos. A Rússia Branca e a Ucrânia eram indis-pensáveis para a vida futura do Reich alemão, com seuscerca de 70 milhões de habitantes. Nada aquém disso se-ria suficiente. Tudo o que se pleiteava da ComunidadeBritânica de Nações e do Império Britânico era sua não-interferência. Havia um mapa grande na parede e, porvárias vezes, o embaixador levou-me até ele para ilustrarseus projetos."!'

quando não uma prova conclusiva, ela suposta ascendência

ele Haushofer e do Instituto Geopolítico de Munique sobreos círculos político-militares elo III Reich. Entretanto, o cursoelos acontecimentos demonstrou que o pacto russo-germânicofoi utilizado por Hitler apenas como expediente tático pardneutralizar temporariamente a frente oriental e promover aBlitzkrieg no Ocidente europeu, evitando que a Alemanhafosse envolvida num conflito bélico em duas fi-entes, comohavia ocorrido na Primeira Guerra.

Em meados de ~941, a su.post.a .influênci~ exerci.f, porHaushofer sobre Hitler e a elite dirigente nazista - hipótesede resto nunca realmente comprovada - teria sofrido umgolpe mortal com a invasão da União Soviética pela máqui-na militar alemã. A guerra russo-germânica na frenteorien-tal foi uma brusca guinada na política de poder hitleristaque, a rigor, nada tinha de surpreendente. A ruptura do pac-to Ribbentrop-Molotov representou coerentemente a retoma-da do projeto original da "política de leste" delineada nolvlein Kampjmuito antes da Segunda Guerra Mundial.A per-sistência na linha de ação baseada na secular rivalidade en-tre germanos e eslavos inviabilizou definitivamente qualquerpossibilidade de articulação do bloco transcontinental eur a-siático, que era a razão de ser da Geopolitik de Haushofer.

Com efeito, o projeto hitlerista de obtenção de um "espaçovital" alemão no Leste Europeu não só excluía a aliança coma Rússia como tornava inevitável uma guerra sem quartel con-tra o Estado soviético. Além disso, para viabilizar a edificaçãode um império continental alemão, Hitler parece ter acalenta-elo até o último momento a expectativa ele contar com o apoio,a aquiescência ou, no mínimo, a neutralidade da potênciamarítimo-insular do outro lado do canal da Mancha.

Segundo o relato, Churchill teria redargüido que, embo-ra não fosse aliada da Rússia e odiasse o comunismo tantoquanto Hitler, a Grã-Bretanha jamais aceitaria o domínio ale-mão sobre a Europa Central e Oriental. E concluiu afirman-do que o governo britânico não poderia dar carta branca àAlemanha nem permanecer alheio aos destinos do continenteeuropeu, mesmo que a França fosse salvaguardada. Depoisde ouvir essas considerações, teria sido a seguinte a respostade Von Ribbentrop:

"Nesse caso, a guerra é inevitável".

A suprema aspiração geopolítica de Haushofer era, con-forme foi dito, o reverso do grande pesadelo de Mackinder:o estabelecimento de uma aliança russo-alemã. Nesse senti-do" o p~cto dazi-Soviétic~) ele 1939 foi saudado pelo gen,eral-geografo COdlO o embnao de uma futura aliança estratégica

entre as duas grandes potências continentais. A assinaturado pacto de não-agressão pareceu ser um indício seguro,

l:, Cluuchill. \Vinston S. Menunias da segunda guerTu mundi.:l. Rio dcJí111eiro: Edi-[01':\ '"\0\':I Fronteira, 1'1'l0, p, 118-\1.

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cepções de Hitler e Haushofer sobre a política de aliança daAlemanha eram antagônicas no que diz respeito à Inglater-ra e à Rússia:

A título de especulação, talvez seja essa a chave para des-vendar o mistério que envolveu o controvertido vôo de RudolfHess até a Escócia em 10 de maio de 1941 - no auge da ba-talha da Inglaterra e seis semanas antes da invasão da UniãoSoviética -, ClÜO objetivo nunca foi inteiramente esclarecidoe ainda hoje é motivo de controvérsias'", É provável que ovice-Fúhrer de Hitler - e discípulo de Haushofer - tenhasido portador da proposta de uma "cruzada ant'icomunista"dontru a Rússia e seu fracasso deveu-se, provavelmente, àrecusa do governo britânico de aceitar uma paz anglo-germâníca que, em troca da preservação do império britâni-co, exigia o reconhecimento da supremacia alemã no LesteEuropeu.

Ora, a substituição deuma Europa dividida e equilibrada,com poderes mutuamente compensados, por uma Europaunificada até os Ur.ais e submetida à tutela alemã redunda-ria inexoravelmente na satelitização da Inglaterra pela po-tência continental dominante. Desnecessário recordar queessa hipótese e suas inevitáveis conseqüências já haviam sidoprevistas no início do século pela análise geopolítica deMackinder. Mais do que isso, uma Europagermanizada eraincompatível coma secular política britânica de poder que- desde a Paz de Vestfália, passando pelas guerras da Revo-lução e do Império, até a Primeira Grande Guerra - tornou-se fiadora do equilíbrio europeu e, conseqüentemente, ini-miga jurada de qualquer potência aspirante à hegemoniacontinental, fosse ela a França, a Rússia ou a Alemanha.

A seguinte passagem do Mein Karnpj demonstra enfatica-mente, sem nenhuma margem para dúvidas, o quanto as con-

"Sob o ponto ele vista puramente militar, as conscqúên-das, no caso de uma guerra da Alemanha c da Rússiacontra o Ocidente da Europa e, provavelmente, também,contra o resto do mundo, seriam verdadeiramente catas-tróficas. A luta desenrolar-se-ia, não em terreno russo, masem território alemão, sem que a Alemanha pudesse rece-ber da Rússia o menor auxílio eficiente [... ]. Assim, pois, osimples fato de uma aliança com a Rússia é uma indichçãoda próxima guerra. O seu desenlace seria o fim da AI~ma-nha [...]. Admito que, durante a guerra teria sido melhorpara a Alemanha que ela tivesse renunciado à sua loucapolítica colonial e à sua política naval, que se tivesse uni-do à Inglaterra em uma aliança ele defesa contra a invasãoda Rússia"?

Em suma, Haushofer concebia uma constelação antibritânica

de poder, com seu eixo no Heartland russo-soviético e seuspontos terminais alemão e japonês ligados entre si por umarede de transporte terrestre. Porém, em vez de apontar paraesse bloco transcontinental antibritânico, as linhas mestras elapolítica externa formulada por Hitler apontavam exatamentena direção oposta à do general-geógrafo alemão: a aceitaçãoda hegemonia naval e colonial britânicas em troca do reco-nhecimento da supremacia continental alemã, com base numajuste recíproco feito a expensas da Rússia.

JG Kilzer, Louis C. A farsa de Churchill. Rio de Janeiro: Editora Revan, 1995. 17 Hitler, Adolf. Op. cit., p. 409-12.

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90 KARL HAUSHOFER E A GEOPOLITIK ALEMÃ

Esses são osprincipais aspectos da complexa relação en-tre a geopolítica inglesa e a Geopolitik alemã que permitemtanto demonstrar a influência de Mackinder sobre Haushoferquanto refutara suposta ascendência de Haushofer sobreHitler. O Fúhrer era, quando muito, um neófito em proble-mas geopolíticos, ignorava certamente a visão mackinderianaI L

da pugna oceanismo versus continentalismo e não existe ne-nhum indício, em seus escritos, de que se tenha inspiradonas idéias de Haushofer para formular as linhas mestras dapolítica externa do III Reich.

Por outro lado, o general-geógrafo não só presta o devidotributo ao inimigo e mentor intelectual inglês como, depoisda guerra e pouco antes de sua morte, no depoimento dedefesa redigido por ordem das autoridades americanas, ne-gou categoricamente qualquer participação pessoal na ela-boração da bíblia do nacional-socialismo:

"Eu vi o livro Mein KamPJpela primeira vez quando seutomo I já estava impresso e recusei-me a fazer sua críticaporque ele nada tinha a ver com a geopolítica. [...]. Eviden-temente não tive nenhum papel em sua elaboração e pen-so que uma comparação científica de meu estilo com odesse livro afastará de mim toda suspeita de ter nele cola-borado - suspeita que foi manifestada pela imprensa po-pular."18

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III

Enfim, o intuito deste Intermezzo foi o de realizar uma aná-lise concisa da trama das intricadas e contraditórias relações

re Haushofer, Karl, "Apologie de ia 'géopolitique' allernande" (11/1945). ln: De iagéopolitique. Paris: Fayard, 1986, p. 162.

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K~RL HAUSHOFER E !\ GEOPOLlTIK ALE?v[t\ 9]

entre a geopolítica inglesa e a Geopolitik alemã, assim comoentre a Geopoluil: alemã e a política externa do III Reich. Oargumento aqui sustentado poderia ser resumido dá seguin-te forma: é perfeitamente possível comprovar a real influên-cia exercida pela geopolítica de Mackincler sobre a Geopolitikde Haushofer, mas é extremamente difícil demonstrar a su-posta influência exercida pela Geopolitik de Haushofer sobrea política de poder de Adolf Hitler. Isso posto, passa-s~ ago-~-a_pa~a ~ próxima ~tapa, cujo escop~ é i~vestigar a p0,rsívelint luência de Mackinder sobre o geógrafo norte-americano

c b

Nicholas J. Spykman e as idéias contidas em sua geopolíticado Rimland.

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