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Iracema, de José de Alencar Fonte: ALENCAR, José de. Iracema. 24. ed. São Paulo: Ática, 1991. (Bom Livro). Texto proveniente de: A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro <http://www.bibvirt.futuro.usp.br> A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo Permitido o uso apenas para fins educacionais. Este material pode ser redistribuído livremente, desde que não seja alterado, e que as informações acima sejam mantidas. Para maiores informações, escreva para <[email protected]>. Estamos em busca de patrocinadores e voluntários para nos ajudar a manter este projeto. Se você quer ajudar de alguma forma, mande um e-mail para <[email protected]> e saiba como isso é possível. IRACEMA José de Alencar Prólogo da 1ª Edição Meu amigo. Este livro o vai naturalmente encontrar em seu pitoresco sítio da várzea, no doce lar, a que povoa a numerosa prole, alegria e esperança do casal. Imagino que é a hora mais ardente da sesta. O sol a pino dardeja raios de fogo sobre as areias natais; as aves emudecem; as plantas languem. A natureza sofre a influência da poderosa irradiação tropical, que produz o diamante e o gênio, as duas mais brilhantes expanções do poder criador. Os meninos brincam na sombra do outão, com pequenos ossos de reses, que figuram a boiada. Era assim que eu brincava, há quantos anos, em outro sítio, não mui distante do seu. A dona da casa, terna e incansável, manda abrir o coco verde, ou prepara o saboroso creme do buriti para refrigerar o esposo, que pouco há recolheu de sua excursão pelo sítio, e agora repousa embalandose na macia e cômoda rede. Abra então este livrinho, que lhe chega da corte imprevisto. Percorra suas páginas para desenfastiar o espírito das cousas graves que o trazem ocupado. Talvez me desvaneça amor do ninho, ou se iludam as reminiscências da infância avivadas recentemente. Se não, creio que, ao abrir o pequeno volume, sentirá uma onda do mesmo aroma silvestre e bravio que lhe vem da várzea. Derrama-o, a brisa que perpassou nos espatos da carnaúba e na ramagem das aroeiras em flor. Essa onda é a inspiração da pátria que volve a ela, agora e sempre, como volve de continuo o olhar do infante para o materno semblante que lhe sorri. O livro é cearense. Foi imaginado aí, na limpidez desse céu de cristalino azul, e depois vazado no coração cheio das recordações vivaces de uma imaginação virgem. Escrevi-o para ser lido lá, na varanda da casa rústica ou na fresca sombra do pomar, ao doce embalo da rede, entre os múrmuros do vento que crepita na areia, ou farfalha nas palmas dos coqueiros. Para lá, pois, que é o berço seu, o envio. Mas assim mandado por um filho ausente, para muitos estranho, esquecido talvez dos poucos amigos, e só lembrado pela incessante desafeição, qual sorte será a do livro? Que lhe falte hospitalidade, não há temer. As auras de nossos campos parecem tão impregnadas dessa virtude primitiva, que nenhuma raça habita aí, que não a inspire com o hálito vital. Receio, sim, que o livro seja recebido como estrangeiro e hóspede na terra dos meus.

Iracema josé de alencar

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  • 1. Iracema, de Jos de AlencarFonte:ALENCAR, Jos de. Iracema. 24. ed. So Paulo: tica, 1991. (Bom Livro).Texto proveniente de:A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro A Escola do Futuro da Universidade de So PauloPermitido o uso apenas para fins educacionais.Este material pode ser redistribudo livremente, desde que no seja alterado, e que as informaesacima sejam mantidas. Para maiores informaes, escreva para .Estamos em busca de patrocinadores e voluntrios para nos ajudar a manter este projeto. Se vocquer ajudar de alguma forma, mande um e-mail para e saiba como isso possvel. IRACEMA Jos de Alencar Prlogo da 1 Edio Meu amigo. Este livro o vai naturalmente encontrar em seu pitoresco stio da vrzea, no doce lar, a quepovoa a numerosa prole, alegria e esperana do casal. Imagino que a hora mais ardente da sesta. O sol a pino dardeja raios de fogo sobre as areias natais; as aves emudecem; as plantaslanguem. A natureza sofre a influncia da poderosa irradiao tropical, que produz o diamante e ognio, as duas mais brilhantes expanes do poder criador. Os meninos brincam na sombra do outo, com pequenos ossos de reses, que figuram aboiada. Era assim que eu brincava, h quantos anos, em outro stio, no mui distante do seu. A donada casa, terna e incansvel, manda abrir o coco verde, ou prepara o saboroso creme do buriti pararefrigerar o esposo, que pouco h recolheu de sua excurso pelo stio, e agora repousa embalandosena macia e cmoda rede. Abra ento este livrinho, que lhe chega da corte imprevisto. Percorra suas pginas paradesenfastiar o esprito das cousas graves que o trazem ocupado. Talvez me desvanea amor do ninho, ou se iludam as reminiscncias da infncia avivadasrecentemente. Se no, creio que, ao abrir o pequeno volume, sentir uma onda do mesmo aromasilvestre e bravio que lhe vem da vrzea. Derrama-o, a brisa que perpassou nos espatos da carnabae na ramagem das aroeiras em flor. Essa onda a inspirao da ptria que volve a ela, agora e sempre, como volve de continuoo olhar do infante para o materno semblante que lhe sorri. O livro cearense. Foi imaginado a, na limpidez desse cu de cristalino azul, e depoisvazado no corao cheio das recordaes vivaces de uma imaginao virgem. Escrevi-o para serlido l, na varanda da casa rstica ou na fresca sombra do pomar, ao doce embalo da rede, entre osmrmuros do vento que crepita na areia, ou farfalha nas palmas dos coqueiros. Para l, pois, que o bero seu, o envio. Mas assim mandado por um filho ausente, para muitos estranho, esquecido talvez dospoucos amigos, e s lembrado pela incessante desafeio, qual sorte ser a do livro? Que lhe falte hospitalidade, no h temer. As auras de nossos campos parecem toimpregnadas dessa virtude primitiva, que nenhuma raa habita a, que no a inspire com o hlitovital. Receio, sim, que o livro seja recebido como estrangeiro e hspede na terra dos meus.
  • 2. Se porm, ao abordar as plagas do Mocoripe, for acolhido pelo bom cearense, prezado deseus irmos ainda mais na adversidade do que nos tempos prsperos, estou certo que o filho deminha alma achar na terra de seu pai, a intimidade e conchego da famlia. O nome de outros filhos enobrece nossa provncia na poltica e na cincia; entre eles omeu, hoje apagado, quando o trazia brilhantemente aquele que primeiro o criou. Neste momento mesmo, a espada herica de muito bravo cearense vai ceifando no campoda batalha ampla messe de glria. Quem no pode ilustrar a terra natal, canta as suas lendas, semmetro, na rude toada de seus antigos filhos. Acolha pois esta primeira mostra para oferec-la a nossos patrcios a quem dedicada. Este pedido foi um dos motivos de lhe enderear o livro; o outro saber depois que o tenhalido. Muita cousa me ocorre dizer sobre o assunto, que talvez devera antecipar leitura da obra,para prevenir a surpresa de alguns e responder s observaes ou reparos de outros. Mas sempre fui avesso aos prlogos; em meu conceito eles fazem obra, o mesmo que opssaro fruta antes de colhida; roubam as primcias do sabor literrio. Por isso me reservo paradepois Na ltima pgina me encontrar de novo; ento conversaremos a gosto, em mais liberdadedo que teramos neste prtico do livro, onde a etiqueta manda receber o pblico com a gravidade ereverncia devida a to alto senhor. Rio de Janeiro, maio de 1865. J. DE ALENCAR
  • 3. Carta ao Dr. Jaguaribe Eis-me de novo, conforme o prometido. l leu o livro e as notas que o acompanham; conversemos pois. Conversemos sem cerimnia, em toda familiaridade, como se cada um estivesse recostadoem sua rede, ao vaivm do lnguido balano, que convida doce prtica. Se algum leitor curioso se puser escuta, deix-lo. No devemos por isso de mudar o tomrasteiro da intimidade pela frase garrida das salas. Sem mais. H de recordar-se voc de uma noite que, entrando em minha casa, quatro anos a estaparte, achou-me rabiscando um livro. Era isso em uma quadra importante, pois que uma novalegislatura, filha de nova lei, fazia sua primeira sesso; e o pas tinha os olhos nela, de quemesperava iniciativa generosa para melhor situao. J estava eu meio descrido das cousas, e mais dos homens; e por isso buscava na literaturadiverso tristeza que me infundia o estado da ptria entorpecida pela indiferena. Cuidava euporm que voc, poltico de antiga e melhor tmpera, pouco se preocupava com as cousas literrias,no por menospreo, sim por vocao. A conversa que tivemos ento revelou meu engano; achei um cultor e amigo da literaturaamena; e juntos lemos alguns trechos da obra, que tinha, e ainda no perdeu, pretenses a umpoema. como viu e como ento lhe esbocei a largos traos, uma herica que tem por assunto astradies dos indgenas brasileiros e seus costumes. Nunca me lembrara eu de dedicar-me a essegnero de literatura, de que me abstive sempre, passados que foram os primeiros e fugaces arroubosda juventude. Suporta-se uma prosa medocre, e at estima-se pelo quilate da idia; mas o versomedocre a pior triaga que se possa impingir ao pior leitor. Cometi a imprudncia quando escrevi algumas cartas sobre a Confederao dos Tamoiosde dizer: "as tradies dos indgenas do matria para um grande poema que talvez um diaapresente sem rudo nem aparato, com modesto fruto de suas viglias". Tanto bastou para que supusessem que o escritor se referia a si, e tinha j em mo opoema; vrias pessoas perguntaram-me por ele. Meteu-me isto brios literrios; sem calcular dasforas mnimas para empresa to grande que assoberbou dois ilustres poetas, tracei o plano da obra,e a comecei com quase tal vigor que a levei de um flego ao quarto canto. Esse flego susteve-se cerca de cinco meses, mas amorteceu; e vou lhe confessar o motivo. Desde cedo, quando comearam os primeiros pruridos literrios uma espcie de instintome impelia a imaginao para a raa selvagem indgena. Digo instinto, porque no tinha eu entoestudos bastantes para apreciar devidamente a nacionalidade de uma literatura, era simples prazerque me deleitada na leitura das crnicas e memrias antigas. Mais tarde, discernindo melhor as cousas, lia as produes que se publicavam sobre o temaindgena; no realizavam elas a poesia nacional, tal como me aparecia no estudo da vida selvagemdos autctonos brasileiros. Muitas pecavam pelo abuso dos termos indgenas acumulados uns sobreos outros, o que no s quebrava a harmonia da lngua portuguesa, como perturbava a intelignciado texto. Outras eram primorosas no estilo e ricas de belas imagens; porm faltava-lhes certa rudezingnua de pensamento e expresso, que devia ser a linguagem dos indgenas. Gonalves Dias o poeta nacional por excelncia; ningum lhe disputa na opulncia daimaginao, no fino lavor do verso, no conhecimento da natureza brasileira e dos costumesselvagens. Em suas poesias americanas aproveitou muitas das mais lindas tradies dos indgenas; eem seu poema no concludo dos Timbiras, props-se a descrever a epopia brasileira. Entretanto, os selvagens de seu poema falam uma linguagem clssica, o que lhe foicensurado por outro poeta de grande estro, o Dr. Bernardo Guimares; eles exprimem idiasprprias do homem civilizado, e que no verossmil tivessem no estado da natureza. Sem dvida que o poeta brasileiro tem de traduzir em sua lngua as idias, embora rudes egrosseiras, dos ndios; mas nessa traduo est a grande dificuldade; preciso que a lnguacivilizada se molde quanto possa singeleza primitiva da lngua brbara; e no represente as
  • 4. imagens e pensamentos indgenas seno por termos e frases que ao leitor paream naturais na bocado selvagem. O conhecimento da lngua indgena o melhor critrio para a nacionalidade da literatura.Ele nos d no s o verdadeiro estilo, como as imagens poticas do selvagem, os modos de seupensamento, as tendncias de seu esprito, e at as menores particularidades de sua vida. E nessa fonte que deve beber o poeta brasileiro, dela que h de sair o verdadeiro poemanacional, tal como eu o imagino. Cometendo portanto o grande arrojo, aproveitei o ensejo de realizar as idias que meflutuavam no esprito, e no eram ainda plano fixo, a reflexo consolidou.as e robusteceu. Na parte escrita da obra foram elas vazadas em grande cpia. Se a investigao laboriosadas belezas nativas, feita sobre imperfeitos e esprios dicionrios, exauria o esprito; a satisfao decultivar essas flores agrestes da poesia brasileira, deleitada. Um dia porm fatigado da constante eaturada meditao ou anlise para descobrir a etimologia de algum vocbulo, assaltou-me umreceio. Todo este improbo trabalho que s vezes custava uma s palavra, me seria levado conta?Saberiam que esse escrpulo douro fino tinha sido desentranhado da profunda camada, onde dormeuma raa extinta? Ou pensariam que fora achado na superfcie e trazido ao vento da fcilinspirao? E sobre esse, logo outro receio. A imagem ou pensamento com tanta fadiga esmerilhados seriam apreciados em seu justovalor, pela maioria dos leitores? No os julgariam inferiores a qualquer das imagens em voga,usadas na literatura moderna? Ocorre-me um exemplo tirado deste livro. Guia, chamavam os indgenas, senhor docaminho, piguara. A beleza da expresso selvagem em sua traduo literal e etimolgica, me parecebem saliente. No diziam sabedor do caminho, embora tivessem termo prprio, couab, porque essafrase no exprimiria a energia de seu pensamento. O caminho no estado selvagem no existe; no coisa de saber; faz-se na ocasio da marcha atravs da floresta ou do campo, e em certa direo;aquele que o tem e o d, realmente senhor do caminho. No bonito? No est ai uma jia da poesia nacional? Pois haver quem prefira a expresso-rei do caminho, embora os brasis no tivessem rei,nem idia de tal instituio. Outros se inclinaram palavra guia, como mais simples e natural emportugus, embora no corresponda ao pensamento do selvagem. Ora, escrever um poema que devia alongar-se para correr o risco de no ser entendido, equando entendido no apreciado, era para desanimar o mais robusto talento, quanto mais a minhamediocridade. Que fazer? Encher o livro de grifos que o tornariam mais contuso e de notas queningum l? Publicar a obra parcialmente para que os entendidos preferissem o veredito literrio?Dar leitura dela a um circulo escolhido, que emitisse juzo ilustrado? Todos estes meios tinham seu inconveniente, e todos foram repelidos: o primeiro afeava olivro; o segundo o truncava em pedaos; o terceiro no lhe aproveitaria pela cerimoniosobenevolncia dos censores. O que pareceu melhor e mais acertado foi desviar o esprito dessa obra edar-lhe novos rumos. Mas no se abandona assim um livro comeado, por pior que ele seja; ai nessas pginascheias de rasuras e borres dorme a larva. do pensamento, que pode ser ninfa de asas douradas, se ainspirao fecundar o grosseiro casulo. Nas diversas pausas de suas preocupaes o esprito volviapois ao livro, onde esto ainda incubados e estaro cerca de dois mil versos hericos. Conforme a benevolncia ou serenidade de minha conscincia, s vezes os acho bonitos edignos de verem a luz; outras me parecem vulgares, montonos, e somenos a quanta prosa charratenho eu estendido sobre o papel. Se o amor de pai abranda afinal esse rigor, no desvanece pormnunca o receio de "perder inutilmente meu tempo a fazer versos para caboclos". Em um desses volveres do esprito obra comeada, lembrou-me de fazer uma experinciaem prosa. O verso pela sua dignidade e nobreza no comporta certa flexibilidade de expresso queentretanto no vai mal prosa mais elevada. A elasticidade da frase permitiria ento que se
  • 5. empregassem com mais clareza as imagens indgenas, de modo a no passarem desapercebidas. Poroutro lado conhecer-se-ia o efeito que havia de ter o verso pelo efeito que tivesse a prosa. O assunto para a experincia, de antemo estava achado. Quando em 1848 revi nossa terranatal, tive a idia de aproveitar suas lendas e tradies em alguma obra literria. J em So Paulotinha comeado uma biografia do Camaro. Sua mocidade, a amizade herica que o ligava a SoaresMoreno, a bravura e lealdade de Jacana, aliado dos portugueses, e suas guerras contra o clebreMel Redondo; ai estava o tema. Faltava-lhe o perfume que derrama sobre as paixes do homem e damulher. Sabe voc agora o outro motivo que eu tinha de lhe enderear o livro; precisava dizer todasestas cousas, contar o como e por que escrevi Iracema. li com quem melhor conversaria sobre issodo que com uma testemunha de meu trabalho, a nica, das poucas, que respira agora as aurascearenses? Este livro pois um ensaio ou antes amostra. Ver realizadas nele minhas idias a respeitoda literatura nacional; e achar ai poesia inteiramente brasileira, haurida na lngua dos selvagens. Aetimologia de nomes das diversas localidades, e certos modos de dizer tirados da composio daspalavras, so de cunho original. Compreende voc que no podia eu derramar em abundncia essas riquezas no livrinhoagora publicado, porque elas ficariam desfloradas na obra de maior vulto, a qual s teria a novidadeda fbula. Entretanto h a de sobra para dar matria crtica e servir de base ao juzo dosentendidos. Se o pblico ledor gostar dessa forma literria que me parece ter algum atrativo, ento sefar um esforo para levar ao cabo o comeado poema, embora o verso tenha perdido muito de seuprimitivo encanto. Se porm o livro for acoimado de sedio, e Iracema encontrar a usual indiferenaque vai acolhendo o bom e o mau com a mesma complacncia, quando no silncio desdenhoso eingrato; nesse caso o autor se desenganar de mais esse gnero de literatura, como j se desenganoudo teatro, e os versos, como as comdias, passaro para a gaveta dos papis velhos, relquiasautobiogrficas. Depois de concludo o livro e quando o reli j aparado na estampa, conheci que me tinhamescapado seno que se devam corrigir, noto algum excesso de comparaes, repetio de certasimagens, desalinho no estilo dos ltimos captulos. Tambm me parece que devia conservar aosnomes das localidades sua atual verso, embora corrompida. Se a obra tiver segunda edio ser escoimada destes e doutros defeitos que lhe descubramos entendidos. Agosto de 1865 J. DE ALENCAR
  • 6. I Verdes mares bravios de minha terra natal, onde canta a jandaia nas frondes da carnaba; Verdes mares, que brilhais como lquida esmeralda aos raios do sol nascente, perlongandoas alvas praias ensombradas de coqueiros; Serenai, verdes mares, e alisai docemente a vaga impetuosa, para que o barco aventureiromanso resvale flor das guas. Onde vai a afouta jangada, que deixa rpida a costa cearense, aberta ao fresco terral agrande vela? Onde vai como branca alcone buscando o rochedo ptrio nas solides do oceano? Trs entes respiram sobre o frgil lenho que vai singrando veloce, mar em fora Um jovem guerreiro cuja tez branca no cora o sangue americano; uma criana e umrafeiro que viram a luz no bero das florestas, e brincam irmos, filhos ambos da mesma terraselvagem A lufada intermitente traz da praia um eco vibrante, que ressoa entre o marulho das vagas: Iracema! O moo guerreiro, encostado ao mastro, leva os olhos presos na sombra fugitiva da terra; aespaos o olhar empanado por tnue lgrima cai sobre o jirau, onde folgam as duas inocentescriaturas, companheiras de seu infortnio. Nesse momento o lbio arranca dalma um agro sorriso Que deixara ele na terra do exlio? Uma histria que me contaram nas lindas vrzeas onde nasci, calada da noite, quando alua passeava no cu argenteando os campos, e a brisa rugitava nos palmares. Refresca o vento. O rulo das vagas precipita. O barco salta sobre as ondas e desaparece no horizonte. Abre-sea imensidade dos mares, e a borrasca enverga, como o condor, as foscas asas sobre o abismo. Deus te leve a salvo, brioso e altivo barco, por entre as vagas revoltas, e te poje nalgumaenseada amiga. Soprem para ti as brandas auras; e para ti jaspeie a bonana mares de leite! Enquanto vogas assim discrio do vento, airoso barco, volva s brancas areias asaudade, que te acompanha, mas no se parte da terra onde revoa.
  • 7. II Alm, muito alm daquela serra, que ainda azula no horizonte, nasceu Iracema. Iracema, a virgem dos lbios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da granae mais longos que seu talhe de palmeira. O favo da jati no era doce como seu sorriso; nem a baunilha recendia no bosque como seuhlito perfumado. Mais rpida que a ema selvagem, a morena virgem corria o serto e as matas do Ipu?" ondecampeava sua guerreira tribo da grande nao tabajara, o p grcil e nu, mal roando alisava apenasa verde pelcia que vestia a terra com as primeiras guas. Um dia, ao pino do sol, ela repousava em um claro da floresta. Banhava-lhe o corpo asombra da oiticica, mais fresca do que o orvalho da noite. Os ramos da accia silvestre esparziamflores sobre os midos cabelos Escondidos na folhagem os pssaros ameigavam o canto Iracema saiu do banho; o aljfar dgua ainda a roreja, como doce mangaba que corou emmanh de chuva Enquanto repousa, empluma das penas do gar as flechas de seu arco, e concertacom o sabi da mata, pousado no galho prximo, o canto agreste A graciosa ar, sua companheira e amiga, brinca junto dela As vezes sobe aos ramos darvore e de l chama a virgem pelo nome; outras remexe o uru te palha matizada, onde traz aselvagem seus perfumes, os alvos fios do craut , as agulhas da juara com que tece a renda, e astintas de que matiza o algodo. Rumor suspeito quebra a doce harmonia da sesta. Ergue a virgem os olhos, que o sol nodeslumbra; sua vista perturba-se. Diante dela e todo a contempl-la, est um guerreiro estranho, se guerreiro e no algummau esprito da floresta. Tem nas faces o branco das areias que bordam o mar; nos olhos o azultriste das guas profundas. Ignotas armas e tecidos ignotos cobrem-lhe o corpo. Foi rpido, como o olhar, o gesto de Iracema. A flecha embebida no arco partiu Gotas desangue borbulham na face do desconhecido. De primeiro mpeto, a mo lesta caiu sobre a cruz da espada, mas logo sorriu. O mooguerreiro aprendeu na religio de sua me, onde a mulher smbolo de ternura e amor. Sofreu maisdalma que da ferida. O sentimento que ele pos nos olhos e no rosto, no o sei eu. Porm a virgem lanou de si oarco e a uiraaba, e correu para o guerreiro, sentida da mgoa que causara. A mo que rpida ferira, estancou mais rpida e compassiva o sangue que gotejava. DepoisIracema quebrou a flecha homicida: deu a haste ao desconhecido, guardando consigo a pontafarpada. O guerreiro falou: Quebras comigo a flecha da paz? Quem te ensinou, guerreiro branco, a linguagem de meus irmos? Donde vieste a estasmatas, que nunca viram outro guerreiro como tu? Venho de bem longe, filha das florestas. Venho das terras que teus irmos j possuram,e hoje tm os meus. Bem-vindo seja o estrangeiro aos campos dos tabajaras, senhores das aldeias, e cabanade Araqum, pai de Iracema.
  • 8. III O estrangeiro seguiu a virgem atravs da floresta. Quando o sol descambava sobre a crista dos montes, e a rola desatava do fundo da mata osprimeiros arrulhos, eles descobriram no vale a grande taba; e mais longe, pendurada no rochedo, sombra dos altos juazeiros, a cabana do Paj. O ancio fumava porta, sentado na esteira de carnaba, meditando os sagrados ritos deTup. O tnue sopro da brisa carmeava, como frocos de algodo, os compridos e raros cabelosbrancos. De imvel que estava, sumia a vida nos olhos cavos e nas rugas profundas. O Paj lobrigou os dois vultos que avanavam; cuidou ver a sombra de uma rvoresolitria que vinha alongando-se pelo vale fora. Quando os viajantes entraram na densa penumbra do bosque, ento seu olhar como o dotigre, afeito s trevas, conheceu Iracema e viu que a seguia um jovem guerreiro, de estranha raa elonges terras. As tribos tabajaras, dalm Ibiapaba, falavam de uma nova raa de guerreiros, alvos comoflores de borrasca, e vindos de remota plaga s margens do Mearim. O ancio pensou que fosse umguerreiro semelhante, aquele que pisava os campos nativos. Tranqilo, esperou. A virgem aponta para o estrangeiro e diz: Ele veio, pai. Veio bem. E Tup que traz o hspede cabana de Araqum. Assim dizendo, o Paj passou o cachimbo ao estrangeiro; e entraram ambos na cabana. O mancebo sentou-se na rede principal, suspensa no centro da habitao. Iracema acendeu o fogo da hospitalidade; e trouxe o que havia de provises para satisfazera fome e a sede: trouxe o resto da caa, a farinha-dgua, os frutos silvestres, os favos de mel, ovinho de caju e anans. Depois a virgem entrou com a igaaba, que na fonte prxima enchera de gua fresca paralavar o rosto e as mos do estrangeiro. Quando o guerreiro terminou a refeio, o velho Paj apagou o cachimbo e falou: Vieste? Vim; respondeu o desconhecido. Bem-vindo sejas. O estrangeiro senhor na cabana de Araqum. Os tabajaras tem milguerreiros para defend-lo, e mulheres sem conta para servi-lo. Dize, e todos te obedecero. Paj, eu te agradeo o agasalho que me deste. Logo que o sol nascer, deixarei tuacabana e teus campos aonde vim perdido; mas no devo deix-los sem dizer-te quem o guerreiro,que fizeste amigo. Foi a Tup que o Paj serviu: ele te trouxe, ele te levar. Araqum nada fez pelo seuhspede; no pergunta donde vem e quando vai Se queres dormir, desam sobre ti os sonhosalegres; se queres falar, teu hspede escuta. O estrangeiro disse: Sou dos guerreiros brancos, que levantaram a taba nas margens do Jaguaribe, perto domar, onde habitam os pitiguaras, inimigos de tua nao. Meu nome Martim, que na tua lnguaquer dizer filho de guerreiro; meu sangue, o do grande povo que primeiro viu as terras de tua ptria.J meus destroados companheiros voltaram por mar s margens do Paraba, de onde vieram; e ochefe, desamparado dos seus, atravessa agora os vastos sertes do Apodi. S eu de tantos fiquei,porque estava entre os pitiguaras de Acaracu, na cabana do bravo Poti, irmo de Jacana, queplantou comigo a rvore da amizade. H trs sis partimos para a caa; e perdido dos meus, vim aoscampos dos tabajaras. Foi algum mau esprito da floresta que cegou o guerreiro branco no escuro da mata:respondeu o ancio. A cau piou, alm, na extrema do vale. Caa a noite.
  • 9. IV O Paj vibrou o marac e saiu da cabana, porm o estrangeiro no ficou s. Iracema voltara com as mulheres chamadas para servir o hspede de Araqum, e osguerreiros vindos para obedecer-lhe. Guerreiro branco, disse a virgem, o prazer embale tua rede durante a noite; e o sol tragaluz a teus olhos, alegria tua alma. E assim dizendo, Iracema tinha o lbio trmulo, e mida a plpebra. Tu me deixas? perguntou Martim. As mais belas mulheres , da grande taba contigo ficam. Para elas a filha de Araqum no devia ter conduzido o hspede cabana do Paj. Estrangeiro, Iracema no pode ser tua serva. ela que guarda o segredo da jurema e omistrio do sonho. Sua mo fabrica para o Paj a bebida de Tup. O guerreiro cristo atravessou a cabana e sumiu-se na treva. A grande taba erguia-se no fundo do vale, iluminada pelos fachos da alegria. Rugia omarac; ao quebro lento do canto selvagem, batia a dana em torno a rude cadncia O Pajinspirado conduzia o sagrado tripdio e dizia ao povo crente os segredos de Tup. O maior chefe da nao tabajara, Irapu , descera do alto da serra Ibiapaba, para levar astribos do serto contra o inimigo pitiguara. Os guerreiros do vale festejam a vinda do chefe, e oprximo combate. O mancebo cristo viu longe o claro da festa; passou alm e olhou o cu azul sem nuvensA estrela morta s que ento brilhava sobre a cpula da floresta, guiou seu passo firme para asfrescas margens do rio das garas. Quando ele transmontou o vale e ia penetrar na mata, surgiu um vulto de Iracema. Avirgem seguira o estrangeiro como a brisa sutil que resvala sem murmurejar por entre a ramagem. Por que, disse ela, o estrangeiro abandona a cabana hospedeira sem levar o presente davolta? Quem fez mal ao guerreiro branco na terra dos tabajaras? O cristo sentiu quanto era justa a queixa; e achou-se ingrato. Ningum fez mal ao teu hspede, filha de Araqum. Era o desejo de ver seus amigosque o afastava dos campos dos tabajaras. No levava o presente da volta; mas leva em sua alma alembrana de Iracema. Se a lembrana de Iracema estivesse nalma do estrangeiro, ela no o deixaria partir. Ovento no leva a areia da vrzea, quando a areia bebe a gua da chuva. A virgem suspirou: Guerreiro branco, espera que Caubi volte da caa. O irmo de Iracema tem o ouvidosutil que pressente a boicininga entre os rumores da mata; e olhar do oitib que v melhor nastrevas. Ele te guiar s margens do rio das garas. Quanto tempo se passar antes que o irmo de Iracema esteja de volta na cabana deAraqum? O sol, que vai nascer, tornar com o guerreiro Caubi aos campos do Ipu. Teu hspede espera, filha de Araqum; mas se o sol tornando no trouxer o irmo deIracema, ele levar o guerreiro branco taba dos pitiguaras Martim voltou cabana do Paj. A alva rede, que Iracema perfumara com a resina do beijoim, guardava-lhe um sono calmoe doce. O cristo adormeceu ouvindo suspirar entre os murmrios da floresta, o canto mavioso davirgem indiana.
  • 10. V O galo da campina ergue a poupa escarlate fora do ninho. Seu lmpido trinado anuncia a aproximao do dia. Ainda a sombra cobre a terra. J o povo selvagem colhe as redes na grande taba e caminhapara o banho O velho Paj que velou toda a noite, falando s estrelas, conjurando os maus espritosdas trevas , entra furtivamente na cabana Eis retroa o bor pela amplido do vale. Travam das armas os rpidos guerreiros, e correm ao campo. Quando foram todos na vastaocara circular, Irapu, o chefe, soltou o grito de guerra: Tup deu grande nao tabajara toda esta terra. Ns guardamos as serras, dondemanam os crregos, com os frescos ipus onde cresce a maniva e o algodo; e abandonamos aobrbaro potiguara , comedor de camaro, as areias nuas do mar, com os secos tabuleiros sem gua esem florestas. Agora os pescadores da praia, sempre vencidos, deixam vir pelo mar a raa brancados guerreiros de fogo, inimigos de Tup. J os emboabas estiveram no Jaguaribe; logo estaro emnossos campos; e com eles os potiguaras. Faremos ns, senhores das aldeias, como a pomba, que seencolhe em seu ninho, quando a serpente enrosca pelos galhos? O irado chefe brande o tacape e o arremessa no meio do campo. Derrubando a fronte,cobre o rbico olhar: Irapu falou: disse. O mais moo dos guerreiros avana: O gavio paira nos ares. Quando o nambu levanta, ele cai das nuvens e rasga asentranhas da vtima. O guerreiro tabajara, filho da serra, como o gavio. Troa e retroa a pocema da guerra. O jovem guerreiro erguera o tacape; e por sua vez o brandiu Girando no ar, rpida eameaadora, a arma do chefe passou de mo em mo. O velho Andira irmo do Paj, a deixou tombar, e calcou no cho, com o p gil ainda efirme. Pasma o povo tabajara da ao desusada. Voto de paz em to provado e impetuosoguerreiro! E o velho heri, que cresceu na sanha, crescendo nos anos, o feroz Andira quemderrubou o tacape, nncio da prxima luta? Incertos todos e mudos escutam: Andira, o velho Andira, bebeu mais sangue na guerra do que j bebram cauim nasfestas de Tup, todos quantos guerreiros alumia agora a luz de seus olhos. Ele viu mais combatesem sua vida, do que luas lhe despiram a fronte. Quanto crnio de potiguara escalpelou sua moimplacvel, antes que o tempo lhe arrancasse o primeiro cabelo? E o velho Andira nunca temeu queo inimigo pisasse a terra de seus pais; mas alegrava-se quando ele vinha, e sentia com o faro daguerra a juventude renascer no corpo decrpito, como a rvore seca renasce com o sopro do invernoA nao tabajara prudente. Ela deve encostar o tacape da luta para ranger o membi da festa.Celebra, Irapu, a vinda dos emboabas e deixa que cheguem todos aos nossos campos. EntoAndira te promete o banquete da vitria! Desabriu, enfim, Irapu a funda clera: Fica tu, escondido entre as igaabas de vinho, fica, velho morcego, porque temes a luzdo dia e s bebes o sangue da vtima que dorme. Irapu leva a guerra no punho de seu tacape. Oterror que ele inspira voa com o rouco som do bor. O potiguara j tremeu ouvindo rugir na serra,mais forte que o ribombo do mar,
  • 11. VI Martim vai a passo e passo por entre os altos juazeiros que cercam a cabana do Paj. Era o tempo em que o doce aracati chega do mar, e derrama a deliciosa frescura pelo ridoserto. A planta respira; um suave arrepio erria a verde coma da floresta. O cristo contempla o ocaso do sol. A sombra, que desce dos montes e cobre o vale,penetra sua alma. Lembra-se do lugar onde nasceu, dos entes queridos que ali deixou. Sabe ele setornar a v-los algum dia? Em torno carpe a natureza o dia que expira. Solua a onda trpida e lacrimosa; geme abrisa na folhagem; o mesmo silencio anela de opresso. Iracema parou em face do jovem guerreiro: E a presena de Iracema que perturba a serenidade no rosto do estrangeiro? Martim pousou brandos olhos na face da virgem: No, filha de Araqum: tua presena alegra, como a luz da manh. Foi a lembrana daptria que trouxe a saudade ao corao pressago. Uma noiva te espera? O forasteiro desviou os olhos. Iracema dobrou a cabea sobre a espdua, como a tenrapalma da carnaba, quando a chuva peneira na vrzea. Ela no mais doce do que Iracema, a virgem dos lbios de mel, nem mais formosa!murmurou o estrangeiro. A flor da mata formosa quando tem rama que a abrigue, e tronco onde se enlace.Iracema no vive nalma de um guerreiro: nunca sentiu a frescura do seu sorriso. Emudeceram ambos, com os olhos no cho, escutando a palpitao dos seios que batiamopressos. A virgem falou enfim: A alegria voltar logo alma do guerreiro branco; porque Iracema quer que ele veja antes da noite a noiva que o espera. Martim sorriu do ingnuo desejo da filha do Paj Vem! disse a virgem. Atravessaram o bosque e desceram ao vale. Onde morria a falda da colina, o arvoredo erabasto: densa abbada de folhagem verde-negra cobria o dito agreste, reservado aos mistrios dorito brbaro. Era de jurema o bosque sagrado. Em torno corriam os troncos rugosos da rvore de Tup;dos galhos pendiam ocultos pela rama escura os vasos do sacrifcio; lastravam o cho as cinzas deextinto fogo, que servira festa da ltima lua. Antes de penetrar o recndito stio, a virgem que conduzia o guerreiro pela mo, hesitou,inclinando o ouvido sutil aos suspiros da brisa. Todos os ligeiros rumores da mata tinham uma vozpara a selvagem filha do serto. Nada havia porm de suspeito no intenso respiro da floresta. Iracema fez ao estrangeiro um gesto de espera e silncio; logo depois desapareceu no maissombrio do bosque. O sol ainda pairava suspenso no viso da serrania; e j noite profunda enchiaaquela solido. Quando a virgem tornou, trazia numa folha gotas de verde e estranho licor vazadas daigaaba, que ela tirara do seio da terra. Apresentou ao guerreiro a taa agreste: Bebe! Martim sentiu perpassar nos olhos o sono da morte; porm logo a luz inundou-lhe os seiosdalma; a fora exuberou em seu corao. Reviveu os dias passados melhor do que os tinha vivido:fruiu a realidade de suas mais belas esperanas. Ei-lo que volta terra natal, abraa a velha me, rev mais lindo e terno o anjo puro dosamores infantis. Mas por que, mal de volta ao bero da ptria, o jovem guerreiro de novo deixa o tetopaterno e demanda o serto? J atravessa as florestas; j chega aos campos do Ipu. Busca na selva a filha do Paj. Segueo rasto ligeiro da virgem arisca, soltando brisa com o crebro suspiro o doce nome:
  • 12. Iracema! Iracema!... J a alcana e cinge-lhe o brao pelo talhe esbelto. Cedendo meiga presso, a virgem reclinou-se ao peito do guerreiro, e ficou ali trmula epalpitante como a tmida perdiz, quando o terno companheiro lhe arrufa com o bico a maciapenugem. O lbio do guerreiro suspirou mais uma vez o doce nome e soluou, como se chamaraoutro lbio amante. Iracema sentiu que sua alma se escapava para embeber-se no sculo ardente. A fronte reclinara, e a flor do sorriso expandia-se como o nenfar ao beijo do sol. Sbito a virgem tremeu; soltando-se rpida do brao que a cingia, travou do arco.
  • 13. VII Iracema passou entre as rvores, silenciosa como uma sombra; seu olhar cintilante coavaentre as folhas, qual frouxo raio de estrelas; ela escutava o silncio profundo da noite e aspirava asauras sutis que aflavam . Parou. Uma sombra resvalava entre as ramas; e nas folhas crepitava um passo ligeiro, seno era o roer de algum inseto. A pouco e pouco o tnue rumor foi crescendo e a sombra avultou. Era um guerreiro. De um salto a virgem estava em face dele, trmula de susto e mais declera. Iracema! exclamou o guerreiro recuando. Anhanga turbou sem dvida o sono de Irapu, que o trouxe perdido ao bosque dajurema, onde nenhum guerreiro penetra contra a vontade de Araqum. No foi Anhanga, mas a lembrana de Iracema, que turbou o sono do primeiro guerreirotabajara. Irapu desceu do seu ninho de guia para seguir na vrzea a gara do rio. Chegou, eIracema fugiu de seus olhos As vozes da taba contaram ao ouvido do chefe que um estrangeiro eravindo cabana de Araqum. A virgem estremeceu. O guerreiro cravou nela o olhar abrasado: O corao aqui no peito de Irapu, ficou tigre. Pulou de raiva. Veio farejando a presa. Oestrangeiro est no bosque, e Iracema o acompanhava. Quero beber-lhe o sangue todo: quando osangue do guerreiro branco correr nas veias do chefe tabajara, talvez o ame a filha de Arequm. A pupila negra da virgem cintilou na treva, e de seu lbio borbulhou, como gotas do leitecustico de eufrbia, um sorriso de desprezo: Nunca Iracema daria seu seio, que o esprito de Tup habita s, ao guerreiro mais vildos guerreiros tabajaras! Torpe o morcego porque foge da luz e bebe o sangue da vtimaadormecida! Filha de Araqum, no assanha o jaguar. O nome de Irapu voa mais longe que o goando lago, quando sente a chuva alm das serras. Que o guerreiro branco venha, e o seio de Iracema seabra para o vencedor. O guerreiro branco hspede de Araqum. A paz o trouxe aos campos de Ipu, a paz oguarda. Quem ofender o estrangeiro, ofende o Paj. Rugiu de sanha o chefe tabajara: A raiva de Irapu s ouve agora o grito de vingana. O estrangeiro vai morrer. A filha de Araqum mais forte que o chefe dos guerreiros, disse Iracema travando dainbia. Ela tem aqui a voz de Tup, que chama seu povo. Mas no chamar! respondeu o chefe escarnecendo No, porque Irapu vai ser punido pela mo de Iracema. Seu primeiro passo o passoda morte. A virgem retraiu dum salto o avano que tomara, e vibrou o arco. O chefe cerrou ainda opunho do formidvel tacape; mas pela vez primeira sentiu que pesava ao brao robusto. O golpe quedevia ferir Iracema, ainda no alado, j lhe trespassava, a ele prprio, o corao Conheceu quanto o varo forte , pela sua mesma fortaleza, mais cativo das grandespaixes. A sombra de Iracema no esconder sempre o estrangeiro vingana de Irapu. Viu oguerreiro, que se deixa proteger por uma mulher Dizendo estas palavras, o chefe desapareceu entre as rvores. A virgem sempre alerta volveu para o cristo adormecido; e velou o resto da noite a seulado. As emoes recentes, que agitaram sua alma, a abriram ainda mais doce afeio, que iamfiltrando nela os olhos do estrangeiro. Desejava abrig-lo contra todo o perigo, recolh-lo em si como em um asilo impenetrvel.Acompanhando o pensamento, seus braos cingiam a cabea do guerreiro, e a apertavam ao seio. Mas, quando passou a alegria de o ver salvo dos perigos da noite, entrou-a mais vivainquietao, com a lembrana dos novos perigos que iam surgir.
  • 14. O amor de Iracema como o vento dos areais; mata a flor das arvores: suspirou avirgem. E afastou-se lentamente.
  • 15. VIII A alvorada abriu o dia e os olhos do guerreiro branco. A luz da manh dissipou os sonhosda noite, e arrancou de sua alma a lembrana do que sonhara. Ficou apenas um vago sentir, comofica na mouta o perfume da flor que o vento da serra desfolha na madrugada. No sabia onde estava. A sada do bosque sagrado encontrou Iracema: a virgem reclinava num tronco spero doarvoredo; tinha os olhos no cho; o sangue fugira das faces; o corao lhe tremia nos lbios, comogota de orvalho nas folhas do bambu. No tinha sorrisos, nem cores, a virgem indiana: no tem borbulhas, nem rosas, a acciaque o sol crestou; no tem azul, nem estrelas, a noite que enlutam os ventos. As flores da mata j abriram aos raios do sol; as aves j cantaram: disse o guerreiro. Porque s Iracema curva a fronte e emudece? A filha do Paj estremeceu. Assim estremece a verde palma, quando a haste frgil foiabalada; rorejam do espato as lgrimas da chuva, e os leques ciciam brandamente. O guerreiro Caubi vai chegar taba de seus irmos. O estrangeiro poder partir com osol que vem nascendo. Iracema quer ver o estrangeiro fora dos campos dos tabajaras; ento a alegria voltar aseu seio. A juruti, quando a rvore seca, foge do ninho em que nasceu. Nunca mais a alegriavoltar ao seio de Iracema: ela vai ficar, como o tronco nu, sem ramas, nem sombras. Martim amparou o corpo trmulo da virgem; ela reclinou lnguida sobre o peito doguerreiro, como o tenro pmpano da baunilha que enlaa o rijo galho do angico. O mancebo murmurou: Teu hspede fica, virgem dos olhos negros: ele fica para ver abrir em tuas faces a florda alegria, e para sorver, como o colibri, o mel de teus lbios. Iracema soltou-se dos braos do mancebo, e olhou-o com tristeza: Guerreiro branco, Iracema filha do Paj, e guarda o segredo da jurema. O guerreiroque possuisse a virgem de Tup morreria. E Iracema? Pois que tu morrias!... Esta palavra foi como um sopro de tormenta. A cabea do mancebo vergou e pendeu sobreo peito; mas logo se ergueu. Os guerreiros de meu sangue trazem a morte consigo, filha dos tabajaras. No a temempara si, no a poupam para o inimigo. Mas nunca fora do combate eles deixaro aberto o camucimda virgem na taba de seu hspede. A verdade falou pela boca de Iracema. O estrangeiro deveabandonar os campos dos tabajaras. Deve: respondeu a virgem como um eco. Depois a sua voz suspirou: O mel dos lbios de Iracema como o favo que a abelha fabrica no tronco da andiroba :tem na doura o veneno. A virgem dos olhos azuis e dos cabelos do sol guarda para seu guerreiro nataba dos brancos o mel da aucena. Martim afastou-se rpido; mas voltou lentamente. A palavra tremia em seu lbio: O estrangeiro partir pata que o sossego volte ao seio da virgem. Tu levas a luz dos olhos de Iracema, e a flor de sua alma. Reboa longe na selva um clamor estranho. Os olhos do mancebo alongam-se. o grito de alegria do guerreiro Caubi: disse a virgem. O irmo de Iracema anuncia que chegado aos campos dos tabajaras. Filha de Araqum, guia teu hspede cabana. tempo de partir. Eles caminharam par a par, como dois jovens cervos que ao pr do sol atravessam acapoeira recolhendo ao aprisco de onde lhes traz a brisa um faro suspeito. Quando chegavam perto dos juazeiros, viram que passava alm o guerreiro Caubi,vergando os ombros robustos ao peso da caa. Iracema caminhou para ele.
  • 16. O estrangeiro entrou s na cabana.
  • 17. IX O sono da manh pousava nos olhos do Paj como nvoas de bonana pairam ao romper do dia sobre as profundas cavernas da montanha. Martim parou indeciso; mas o rumor de seu passo penetrou no ouvido do ancio, e abalouseu corpo decrpito. Araqum dorme! murmurou o guerreiro devolvendo o passo. O velho ficou imvel: O Paj dorme porque j Tup voltou o rosto para a terra e a luz correu os maus espritosda treva. Mas o sono leve nos olhos de Araqum, como o fumo do sap no cocuruto da serra. Se o estrangeiro veio para oPaj, fale; seu ouvido escuta. O estrangeiro veio, para te anunciar que parte. O hspede senhor na cabana de Araqum; todos os caminhos esto abertos para ele.Tup o leve taba dos seus. Vieram Caubi e Iracema: Caubi voltou: disse o guerreiro tabajara. Traz a Araqum o melhor de sua caa. O guerreiro Caubi um grande caador de montes e florestas. Os olhos de seu paigostam de v-lo. O velho abriu as plpebras e cerrou-as logo: Filha de Araqum, escolhe para teu hspede o presente da volta e prepara o moqum daviagem. Se o estrangeiro precisa de guia, o guerreiro Caubi, senhor do caminho , O acompanhar. O sono voltou aos olhos do Paj. Enquanto Caubi pendurava no fumeiro as peas de caa, Iracema colheu a sua alva rede dealgodo com franjas de penas, e acomodou-a dentro do uru de palha tranada. Martim esperava na porta da cabana. A virgem veio a ele: Guerreiro, que levas o sono de meus olhos, leva a minha rede tambm. Quando neladormites, falem em tua alma os sonhos de Iracema. Tua rede, virgem dos tabajaras, ser minha companheira no deserto: venha embora ovento frio da noite, ela guardar para o estrangeiro o calor e o perfume do seio de Iracema. Caubi saiu para ir sua cabana, que ainda no tinha visto depois da volta. Iracema foipreparar o moqum da viagem. Ficaram ss na cabana o Paj que ressonava, e o mancebo com suatristeza. O sol, transmontando, j comeava a declinar para o ocidente, quando o irmo de Iracematornou da grande taba. O dia vai ficar triste , disse Caubi. A sombra caminha para a noite. tempo de partir. A virgem pousou a mo de leve no punho da rede de Araqum. Ele vai! murmuraram os lbios trmulos. O Paj levantou-se em p no meio da cabana e acendeu o cachimbo. Ele e o mancebotrocaram a fumaa da despedida. Bem-ido seja o hspede, como foi bem-vindo cabana de Araqum. O velho andou at porta para soltar ao vento uma espessa baforada de tabaco; quando ofumo se dissipou no ar, ele murmurou: Jurupari se esconda para deixar passar o hspede do Paj. Araqum voltou rede e dormiu de novo. O mancebo tomou as armas que chegando, suspendera s varas da cabana, e disps-se a partir. Adiante seguiu Caubi; a alguma distancia o estrangeiro; logo aps, Iracema. Desceram a colina e entraram na mata sombria. O sabi do serto, mavioso cantor da tarde,escondido nas moitas espessas da ubaia , soltava os preldios da suave endecha. A virgem suspirou: A tarde a tristeza do sol. Os dias de Iracema vo ser longas tardes sem manh, at quevenha para ela a grande noite.
  • 18. O mancebo se voltara. Seu lbio emudeceu, mas os olhos falaram. Uma lgrima correupela face guerreira, como as umidades que durante os ardores do estio transudam da escarpa dosrochedos. Caubi avanado sempre, sumira-se entre a densa ramagem. O seio da filha de Araqum arfou, como o esto da vaga que se franja de espuma e solua.Mas sua alma, negra de tristura, teve ainda um plido reflexo para iluminar a seca flor das faces.Assim em noite escura vem um fogo-ftuo luzir nas brancas areias do tabuleiro. Estrangeiro, toma o ltimo sorriso de Iracema... e foge! A boca do guerreiro pousou na boca mimosa da virgem. Ficaram ambos assim unidoscomo dois frutos gmeos do ara, que saram do seio da mesma flor. A voz de Caubi chamou o estrangeiro. Iracema abraou para no cair, o tronco de umapalmeira.
  • 19. X Na cabana silenciosa medita o velho Paj. Iracema est apoiada no tronco rudo, que serve de esteio. Os grandes olhos negros, fitosnos recortes da floresta e rasos de pranto, esto naqueles olhares longos e trmulos enfiando edesfiando os alfajres das lgrimas, que rorejam as faces. A ar, pousada no jirau fronteiro, alonga para sua formosa senhora os verdes tristes olhos.Desde que o guerreiro branco pisou a terra dos tabajaras, Iracema a esqueceu. Os rseos lbios da virgem no se abriram mais para que ela colhesse entre eles a polpa dafruta ou a papa do milho verde; nem a doce mo a afagara uma s vez, alisando a dourada penugemda cabea. Se repetia o mavioso nome da senhora, o sorriso de Iracema j no se voltava para ela, nemo ouvido parecia escutar a voz da companheira e amiga, que dantes to suave era ao seu corao. Triste dela! A gente tupi a chamava jandaia , porque sempre alegre estrugia os campos comseu canto fremente. Mas agora, triste e muda, desdenhada de sua senhora, no parecia mais a lindajandaia, e sim o feio urutau que somente sabe gemer. O sol remontou a umbria das serras; seus raios douravam apenas o viso das eminncias. A surdina merencria da tarde, precedendo o silncio da noite, comeava de velar oscrebros rumores do campo. Uma ave noturna, talvez iludida com a sombra mais espessa do bosque,desatou o estrdulo. O velho ergueu a fronte calva: Foi o canto da inhuma que acordou o ouvido de Araqum? disse ele admirado. A virgem estremecera, e j fora da cabana, voltou-se, para responder pergunta do Paj: E o grito de guerra do guerreiro Caubi! Quando o segundo pio da inhuma ressoou, Iracema corria na mata como a coraperseguida pelo caador. S respirou chegando campina, que recortava o bosque, como um grandelago. Quem seus olhos primeiro viram, Martim, estava tranqilamente sentado em umasapopema, olhando o que passava ali. Contra, cem guerreiros tabajaras com Irapu frente,formavam arco. O bravo Caubi os afrontava a todos, com o olhar cheio de ira e as armas valentesempunhadas na mo robusta. O chefe exigira a entrega do estrangeiro, e o guia respondera simplesmente: Matai Caubi antes. A filha do Paj passara como uma flecha: ei-la diante de Martim, opondo tambm seucorpo gentil aos golpes dos guerreiros. Irapu soltou o bramido da ona atacada na furna. Filha do Paj, disse Caubi em voz baixa: conduz o estrangeiro cabana: s Araqumpode salv-lo. Iracema voltou-se para o guerreiro branco: Vem! Ele ficou imvel. Se tu no vens, disse a virgem, Iracema morrer contigo. Martim ergueu-se; mas longe de seguir a virgem, caminhou direito a Irapu. Sua espadaflamejou no ar. Os guerreiros de meu sangue, chefe, jamais recusaram combate. Se aquele que tu vsno foi o primeiro a provoc-lo, porque seus pais lhe ensinaram a no derramar sangue na terrahospedeira. O chefe tabajara rugiu de alegria; sua mo possante brandiu o tacape. Mas os doiscampees mal tiveram tempo de medir-se com os olhos; quando fendiam o primeiro golpe, j Caubie Iracema estavam entre eles. A filha de Araqum debalde rogava ao cristo, debalde o cingia nos braos buscandoarranc-lo ao combate. De seu lado Caubi em vo provocava Irapu para atrair a si a raiva do chefe. A um gesto de Irapu, os guerreiros afastaram os dois irmos; o combate prosseguiu.
  • 20. De repente o rouco som da inbia reboou pela mata; os filhos da serra estremeceramreconhecendo o estrdulo do bzio guerreiro dos pitiguaras, senhores das praias ensombradas decoqueiros. O eco vinha da grande taba, que o inimigo talvez assaltava j. Os guerreiros precipitaram levando por diante o chefe. Com o estrangeiro s ficou a filhade Araqum
  • 21. XI Os guerreiros tabajaras, acorridos taba, esperavam o inimigo diante da calara. No vindo ele, saram a busc-lo. Bateram as matas em torno e percorreram os campos; nem vestgios encontraram dapassagem dos pitiguaras; mas o conhecido frmito do bzio das praias tinha ressoado ao ouvido dosguerreiros da montanha; no havia duvidar. Suspeitou Irapu que fosse um ardil da filha de Araqum para salvar o estrangeiro, ecaminhou direito cabana do Paj. Como trota o guar pela orla da mata, quando vai seguindo orasto da presa escpula, assim estugava o passo o sanhudo guerreiro. Araqum viu entrar em sua cabana o grande chefe da nao tabajara, e no se moveu.Sentado na rede, com as pernas cruzadas, escutava Iracema. A virgem referia os sucessos da tarde;avistando a figura sinistra de Irapu, saltou sobre o arco e uniu-se ao flanco do jovem guerreirobranco. Martim a afastou docemente de si, e promoveu o passo. A proteo, de que o cercava, a ele guerreiro, a virgem tabajara, o desgostava. Araqum, a vingana dos tabajaras espera o guerreiro branco; Irapu veio busc-lo. O hspede amigo de Tup: quem ofender o estrangeiro, ouvir rugir o trovo. O estrangeiro foi quem ofendeu a Tup, roubando sua virgem, que guarda os sonhos dajurema. Tua boca mente como o ronco da jibia : exclamou Iracema. Martim disse: Irapu vil e indigno de ser chefe de guerreiros valentes! O Paj falou grave e lento: Se a virgem abandonou ao guerreiro branco a flor de seu corpo, ela morrer; mas ohspede de Tup sagrado; ningum o ofender; Araqum o protege. Bramiu Irapu; o grito ronco troou nas arcas do peito, como o frmito da sucuri naprofundeza do rio. A raiva de Irapu no pode mais ouvir-te, velho Paj! Caia ela sobre ti, se ousaressubtrair o estrangeiro vingana dos tabajaras. O velho Andira, irmo do Paj, entrou na cabana; trazia no punho o terrivel tacape; e nosolhos uma sanha ainda mais terrvel. O morcego vem te chupar o sangue, Irapu, se que tens sangue e no lama nas veias,tu que ameaas em sua cabana o velho Paj. Araqum afastou o irmo:-Paz e silncio, Andira. O Paj desenvolvera a alta e magra estatura, como a caninana assanhada, que se enristasobre a cauda, para afrontar a vtima em face. Afundaram-lhe as rogas; e repuxando as pelesengelhadas, esbugalharam os dentes alvos e afilados: Ousa um passo mais, e as iras de Tup te esmagaro sob o peso desta mo seca emirrada! Neste momento, Tup no contigo! replicou o chefe. O Paj riu; e seu riso sinistro reboou pelo espao como o regougo da ariranha. Ouve seu trovo e treme em teu seio, guerreiro, como a terra em sua profundeza. Araqum proferindo essa palavra terrvel, avanou at o meio da cabana; ali ergueu agrande pedra e calcou o p com fora no cho; sbito, abriu-se a terra. Do antro profundo saiu ummedonho gemido, que parecia arrancado das entranhas do rochedo. Irapu no tremeu, nem enfiou de susto; mas sentiu estremecer a luz nos olhos, e a voz noslbios. O senhor do trovo por ti; o senhor da guerra ser por Irapu: disse o chefe. O torvo guerreiro deixou a cabana; com pouco seu grande vulto mergulhou se nas sombrasdo crepsculo. O Paj e seu irmo travaram a prtica na porta da cabana.
  • 22. Ainda surpreso do que vira, Martim no tirava os olhos da funda cava, que a planta dovelho Paj abrira no cho da cabana. Um surdo rumor, como o eco das ondas quebrando nas praias,ruidava ali. Cismava o guerreiro cristo; ele no podia crer que o deus dos tabajaras desse a seusacerdote tamanho poder. Percebendo o que passava nalma do estrangeiro, Araqum acendeu o cachimbo e travoudo marac : tempo de aplacar as iras de Tup, e calar a voz do trovo. Disse e partiu da cabana. Iracema achegou-se ento do mancebo; levava os lbios em riso, os olhos em jbilo: O corao de Iracema est como o abati dgua do rio. Ningum far mal ao guerreirobranco na cabana de Araqum. Arreda-te do inimigo, virgem dos tabajaras: respondeu o estrangeiro com aspereza devoz. Voltando brusco para o lado oposto, furtou o semblante aos olhos ternos e queixosos davirgem. Que fez Iracema, para que o guerreiro branco desvie seus olhos, como se ela fora overme da terra? As falas da virgem ressoaram docemente no corao de Martim. Assim ressoam osmurmrios da aragem nas frondes da palmeira. Teve o mancebo desgosto de si, e pena dela: No ouves tu, virgem formosa? exclamou ele, apontando para o antro fremente. a voz de Tup! Teu deus falou pela boca do Paj: "Se a virgem de Tup abandonar ao estrangeiro a florde seu corpo, ela morrer!" Iracema pendeu a fronte abatida: No a voz de Tup que ouve teu corao, guerreiro de longes terras, o canto davirgem loura, que te chama! O rumor estranho que saa das profundezas da terra apagou-se de repente: fez-se na cabanato grande silncio, que ouvia-se pulsar o sangue na artria do guerreiro, e tremer o suspiro no lbioda virgem.
  • 23. XII O dia enegreceu; era noite j. O Paj tornara cabana; sopesando de novo a grossa laje, fechou com ela a boca do antro.Caubi chegara tambm da grande taba, onde com seus irmos guerreiros, se recolhera depois quebateram a floresta, em busca do inimigo pitiguara. No meio da cabana, entre as redes armadas em quadro, estendeu Iracema a esteira dacarnauba, e sobre ela serviu os restos da caa, e a proviso de vinhos da ltima lua. S o guerreirotabajara achou sabor na ceia, porque o fel do corao que a tristeza espreme no amargurara seulbio. O Paj enchia o cachimbo da erva de Tup; o estrangeiro respirava o ar puro da noite pararefrescar o sangue efervescente, a virgem destilava sua alma como o mel de um favo nos crebrossoluos que lhe estalavam entre os lbios trmulos. J partiu Caubi para a grande taba; o Paj traga as baforadas do fumo, que prepara omistrio do rito sagrado. Levanta-se no ressono da noite um grito vibrante, que remonta ao cu. Ergue Martim a fronte e inclina o ouvido. Outro clamor semelhante ressoa. O guerreiromurmura, que o oua a virgem e s ela: Escutou, Iracema, cantar a gaivota? Iracema escutou o grito de uma ave que ela no conhece. a atiati, a gara do mar, e tu s a virgem da serra, que nunca desceu s alvas praiasonde arrebentam as vagas. As praias so dos pitiguaras, senhores das palmeiras. Os guerreiros da grande nao que habitava as bordas do mar, se chamavam a si mesmospitiguaras, senhores dos vales; mas os tabajaras, seus inimigos, por escrnio os apelidavampotiguaras, comedores de camaro. Temeu Iracema ofender o guerreiro branco; por isso falando dos pitiguaras, no lhesrecusou o nome guerreiro que eles haviam tomado para si. O estrangeiro reteve por um instante a palavra no lbio prudente, enquanto refletia: O canto da gaivota o grito de guerra do valente Poti, amigo de teu hspede! A virgem estremeceu por seus irmos. A fama do bravo Poti, irmo de Jacana, subiu dasribeiras do mar ao cimo da Ibiapaba; rara a cabana onde j no rugiu contra ele o grito davingana, porque cada golpe do vlido tacape deitou um guerreiro tabajara em seu camucim. Cuidou Iracema que Poti vinha frente de seus guerreiros para livrar o amigo. Era ele semduvida que fizera retroar o bzio das praias, no momento do combate. Foi com um tom misturadode doura e tristeza que replicou: O estrangeiro est salvo; os irmos de Iracema vo morrer, porque ela no falar. Despede essa tristeza de tua alma. O estrangeiro partindo-se de teus campos, virgemtabajara, no deixar neles rasto de sangue, como o tigre esfaimado. Iracema tomou a mo do guerreiro branco e beijou-a. Teu sorriso, filha do Paj, apagou a lembrana do mal que eles me querem. Martim ergueu-se e caminhou para a porta. Onde vai o guerreiro branco? Ao encontro de Poti. O hspede de Araqum no pode sair desta cabana, porque os guerreiros de Irapu omataro. Um guerreiro s pede proteo a Deus e a suas armas. No carece que o defendam osvelhos e as mulheres. Que vale um guerreiro s contra mil guerreiros? Valente e forte o tamandu, quemordem os gatos selvagens por serem muitos e o acabam. Tuas armas s chegam at onde mede asombra de teu corpo; as armas deles voam alto e direito como o anaj. Todo o guerreiro tem seu dia. No queres tu que morra Iracema, e queres que ela te deixe morrer!
  • 24. Martim ficou perplexo. Iracema ir ao encontro do chefe pitiguara e trar a seu hspede as falas do guerreiroamigo. Saiu enfim o Paj da sua contemplao. O marac rugiu-lhe na destra; tiniram os guizoscom o passo hirto e lento. Chamou ele a filha de parte: Se os guerreiros de Irapu vierem contra a cabana, levanta a pedra e esconde oestrangeiro no seio da terra. O hspede no deve ficar s; espere que volte Iracema. Ainda no cantou a inhuma. Tornou a sentar-se na rede o velho. A virgem partiu, cerrando a porta da cabana
  • 25. XIII Avana a filha de Araqum nas trevas; pra e escuta. O grito da gaivota terceira vez ressoa a seu ouvido; vai direito ao lugar donde partiu; chega borda de um tanque; seu olhar investiga a escurido, e nada v do que busca. A voz maviosa, dbil como sussurro de colibri, murmura: Guerreiro Poti, teu irmo branco te chama pela boca de Iracema. S o eco respondeu-lhe. A filha de teus inimigos vem a ti, porque o estrangeiro te ama, e ela ama o estrangeiro. Fendeu-se a lisa face do lago e um vulto se mostra, que nada para a margem, e surge fora. Foi Martim, que te mandou, pois tu sabes o nome de Poti, seu irmo na guerra. Fala, chefe pitiguara; o guerreiro branco espera. Torna a ele e diz que Poti chegado para o salvar. Ele sabe; e mandou-me a ti. As falas de Poti sairo de sua boca para o ouvido de seu irmo. Espera ento que Araqum parta e a cabana fique deserta; eu te guiarei presena doestrangeiro. Nunca, filha dos tabajaras, um guerreiro pitiguara passou a soleira da cabana inimiga, seno foi como vencedor. Conduz aqui o guerreiro do mar. A vingana de Irapu fareja em roda da cabana de Araqum. Trouxe o irmo doestrangeiro bastantes guerreiros pitiguaras para o defender e salvar? Poti refletiu: Conta, virgem das serras, o que sucedeu em teus campos depois que a eles chegou oguerreiro do mar. Referiu Iracema como a clera de Irapu se havia assanhado contra o estrangeiro, at que avoz de Tup, chamada pelo Paj, tinha acalmado seu furor: A raiva de Irapu como a andira: foge da luz e voa nas trevas. A mo de Poti cerrou sbito os lbios da virgem; sua fala parecia um sopro: Suspende a voz e o respiro, virgem das florestas; o ouvido inimigo escuta na sombra. As folhas creditavam de manso, como se por elas passasse a fragueira nambu. Um rumor,partido da orla da mata, vinha discorrendo pelo vale. O valente Poti, resvalando pela relva, como o ligeiro camaro, de que ele tomara o nome ea viveza, desapareceu no lago profundo. A gua no soltou um murmrio, e cerrou sobre ele suaonda lmpida. Voltou Iracema cabana; em meio do caminho perceberam seus olhos as sombras demuitos guerreiros que rojavam pelo cho como a intanha Vendo-a entrar, Araqum partiu. A virgem tabajara contou a Martim o que ouvira de Poti; o guerreiro cristo ergueu-se deum mpeto para correr em defesa de seu irmo pitiguara. Cingiu-lhe Iracema o colo com os lindosbraos: O chefe no carece de ti: ele filho das guas; as guas o protegem. Mais tarde oestrangeiro escutar as falas do amigo. Iracema, tempo que teu hspede deixe a cabana do Paj e os campos dos tabajaras.Ele no tem medo dos guerreiros de Irapu: tem medo dos olhos da virgem de Tup. Estes fugiro de ti. Fuja deles o estrangeiro, como o oitib da estrela da manh. Martim promoveu o passo. Vai, guerreiro ingrato; vai matar teu irmo primeiro, depois a ti. Iracema te seguir ataos campos alegres onde vo as sombras dos que morrem. Matar meu irmo, dizes tu, virgem cruel. Teu rasto guiar o inimigo aonde se oculta o guerreiro do vale. O cristo estacou em meio da cabana; e ali permaneceu mudo e quedo. Iracema, receosa defit-lo, punha os olhos na sombra do guerreiro que a chama projetava na vetusta parede da cabana.
  • 26. O co felpudo, deitado no borralho, deu sinal de aproximar-se gente amiga. A portaentretecida dos talos da carnaba foi aberta por fora. Caubi entrou. O cauim perturbou o esprito dos guerreiros; eles vm contra o estrangeiro. A virgem ergueu-se de um mpeto: Levanta a pedra que fecha a garganta de Tup, para que ela esconda o estrangeiro. O guerreiro tabajara, sopesando a laje enorme, emborcou-a no cho. Filho de Araqum, deita-te na porta da cabana, e nunca mais te levantes da terra, se umguerreiro passar por cima de teu corpo Caubi obedeceu; a virgem cerrou a porta. Decorreu breve trato. Ressoa perto o estrupido dos guerreiros; travam-se as vozes iradas deIrapu e Caubi, Eles vem; mas Tup salvar seu hspede. Nesse instante, como se o deus do trovo ouvisse as palavras de sua virgem, o antro mudoem princpio, retroou surdamente. Ouve! E a voz de Tup. Iracema cerra a mo do guerreiro e o leva borda do antro. Somem-se ambos nasentranhas da terra.
  • 27. XIV Os guerreiros tabajaras, excitados com as copiosas libaes do espumante cauim, se inflamam voz de Irapu que tantas vezes os guiou ao combate, quantas vitria. Aplaca o vinho a sede do corpo, mas acende outra sede maior na alma feroz. Rugemvinganas contra o estrangeiro audaz que afrontando suas armas, ofende o deus de seus pais e ochefe de guerra, o primeiro varo tabajara. L tripudiam de furor, e arremetem pelas sombras; a luz vermelha do ubirat , que brilhaao longe, os guia cabana de Araqum. De espao em espao erguem-se do cho os que primeirovieram para vigiar o inimigo. O Paj est na floresta! murmuram eles. E o estrangeiro? pergunta Irapu. Na cabana com Iracema. Lana o grande chefe terrvel salto; j chegado porta da cabana, e com ele seus valentesguerreiros. O vulto de Caubi enche o vo da porta; suas armas guardam diante dele o espao de umbote do maracaj. Vis guerreiros so aqueles que atacam em bando como os caititus. O jaguar , senhor dafloresta, e o anaj, senhor das nuvens, combatem s o inimigo. Morda o p a boca torpe que levanta a voz contra o mais valente guerreiro dosguerreiros tabajaras. Proferidas estas palavras, ergue o brao de Irapu o rgido tacape, mas estaca no ar; asentranhas da terra outra vez rugem, como rugiram, quando Araqum acordou a voz tremenda deTup. Levantam os guerreiros medonho alarido, e cercando seu chefe, o arrebatam ao funestolugar e clera de Tup, contra eles concitado. Caubi estende-se de novo na soleira da porta; seus olhos adormecem; mas o ouvido sutilvela no sono. Emudeceu a voz de Tup, Iracema e o cristo, perdidos nas entranhas da terra, descem a grata profunda. Sbito, umavoz que vinha reboando pela crasta, encheu seus ouvidos: O guerreiro do mar escuta a fala de seu irmo? _ E Poti,o amigo de teu hspede: disse o cristo para a virgem, Iracema estremeceu: Ele fala pela boca de Tup, Martim respondeu enfim ao pitiguara. As falas de Poti entram nalma de seu irmo. Nenhum outro ouvido escuta? Os da virgem que duas vezes em um sol defendeu a vida de teu irmo! A mulher fraca; o tabajara traidor, e o irmo de Jacana prudente. Iracema suspirou e pousou a cabea no peito do mancebo: Senhor de Iracema, cerra seus ouvidos para que ela no ona, Martim repeliu docemente a gentil fronte: Fale o chefe pitiguara; s o escutam ouvidos amigos e fiis. Tu ordenas, Poti fala. Antes que o sol se levante na serra, o guerreiro do mar deve partirpara as margens do ninho das garas; a estrela morta o guiar. Nenhum tabajara o seguir, porque ainbia dos pitiguaras rugir da banda da serra, Quantos guerreiros pitiguaras acompanham seu chefe valente? Nenhum; Poti veio s, Quando os espritos maus das florestas separaram o guerreiro domar de seu irmo, Poti veio em seguimento do rasto. Seu corao no deixou que voltasse parachamar os guerreiros de sua taba; mas despediu o co fiel ao grande Jacana. O chefe pitiguara est s; no deve rugir a inbia que chamar contra si todos osguerreiros tabajaras.
  • 28. Assim preciso para salvar o irmo branco; Poti zombar de Irapu, como zombouquando combatiam cem contra ti, A filha do Paj que ouvia calada, debruou-se ao ouvido do cristo: Iracema quer te salvar e a teu irmo; ela tem seu pensamento. O chefe pitiguara valente e audaz; Irapu manhoso e traioeiro como a acau . Antes que chegues floresta, cairs;e teu irmo da outra banda cair contigo. Que far a virgem tabajara para salvar o estrangeiro e seu irmo? perguntou Martim. A lua das flores vai nascer. o tempo da festa, em que os guerreiros tabajaras passam anoite no bosque sagrado, e recebem do Paj os sonhos alegres. Quando estiverem todosadormecidos, o guerreiro branco deixar os campos de Ipu, e os olhos de Iracema, mas sua alma,no. Martim estreitou a virgem ao seio; mas logo a repeliu. O toque de seu corpo, doce como aaucena da mata, e macio como o ninho do beija-flor, magoou seu corao, porque lhe recordou aspalavras terrveis do Paj. A voz do cristo transmitiu a Poti o pensamento de Iracema; o chefe pitiguara, prudentecomo o tamandu, pensou e respondeu: A sabedoria falou pela boca da virgem tabajara. Poti espera o nascimento da lua.
  • 29. XV Nasceu o dia e expirou. J brilha na cabana de Araqum o fogo, companheiro da noite. Correm lentas e silenciosasno azul do cu, as estrelas, filhas da lua, que esperam a volta da me ausente. Martim se embala docemente; e como a alva rede que vai e vem, sua vontade oscila de uma outro pensamento. L o espera a virgem loura dos castos afetos; aqui lhe sorri a virgem morenados ardentes amores. Iracema recosta-se langue ao punho da rede; seus olhos negros e flgidos, ternos olhos desabi, buscam o estrangeiro e lhe entram nalma. O cristo sorri; a virgem palpita; como o sa,fascinado pela serpente, vai declinando o lascivo talhe, que se debrua enfim sobre o peito doguerreiro. J o estrangeiro a preme ao seio; e o lbio vido busca o lbio que o espera, para celebrarnesse dito dalma, o himeneu do amor. No recanto escuro o velho Paj, imerso em funda contemplao e alheio s cousas destemundo, soltou um gemido doloroso Pressentira o corao o que no viram os olhos? Ou foi algumfunesto pressgio para a raa de seus filhos, que assim ecoou nalma de Araqum? Ningum o soube. O cristo repetiu do seio a virgem indiana. Ele no deixar o rasto da desgraa na cabanahospedeira. Cerra os olhos para no ver; e enche sua alma com o nome e a venerao de seu Deus: Cristo! . . . Cristo! . . . Volta a serenidade ao seio do guerreiro branco, mas todas as vezes que seu olhar pousasobre a virgem tabajara, ele sente correr-lhe pelas veias uma onda de ardente chama. Assim quandoa criana imprudente revolve o brasido de intenso fogo, saltam as falhas inflamadas que lhequeimam as faces. Fecha os olhos o cristo, mas na sombra de seu pensamento surge a imagem da virgem,talvez mais bela. Embalde chama o sono s plpebras fatigadas; abrem-se, malgrado seu. Desce-lhe do cu ao atribulado pensamento uma inspirao. Virgem formosa do serto, esta a ultima noite que teu hspede dorme na cabana deAraqum, onde nunca viera, para teu bem e seu. Faze que seu sono seja alegre e feliz. Manda; Iracema te obedece. Que pode ela para tua alegria? O cristo falou submisso, para que no o ouvisse o velho Paj: A virgem de Tup guarda os sonhos da jurema que so doces e saborosos! Um triste sorriso pungiu os lbios de Iracema: O estrangeiro vai viver para sempre cintura da virgem branca; nunca mais seus olhosvero a filha de Araqum, e ele j quer que o sono feche suas plpebras, e que o sonho o leve terrade seus irmos! O sono o descanso do guerreiro, disse Martim; e o sonho a alegria dalma. Oestrangeiro no quer levar consigo a tristeza da terra hospedeira, nem deix-la no corao deIracema! A virgem ficou imvel. Vai, e torna com o vinho de Tup. Quando Iracema foi de volta, j o Paj no estava na cabana; tirou a virgem do seio o vasoque ali trazia oculto sob a carioba de algodo entretecida de penas. Martim lho arrebatou das mos,e libou as gotas do verde e amargo licor. Agora podia viver com Iracema, e colher em seus lbios o beijo, que ali viava entresorrisos, como o fruto na corola da flor. Podia am-la, e sugar desse amor o mel e o perfume, semdeixar veneno no seio da virgem. O gozo era vida, pois o sentia mais forte e intenso; o mal era sonho e iluso, que da virgemno possuia seno a imagem. Iracema afastara-se opressa e suspirosa. Abriram-se os braos do guerreiro adormecido e seus lbios; o nome da virgem ressooudocemente.
  • 30. A juruti, que divaga pela floresta, ouve o terno arrulho do companheiro; bate as asas, e voaa conchegar-se ao tpido ninho. Assim a virgem do serto, aninhou-se nos braos do guerreiro. Quando veio a manh, ainda achou Iracema ali debruada, qual borboleta que dormiu noseio do formoso cacto. Em seu lindo semblante acendia o pejo vivos rubores; e como entre osarrebis da manh cintila o primeiro raio do sol, em suas faces incendidas rutilava o primeirosorriso da esposa, aurora de frudo amor. A jandaia fugira ao romper dalva e para no tornar mais cabana. Vendo Martim a virgem unida ao seu corao, cuidou que o sonho continuava; cerrou osolhos para torn-los a abrir. A pocema dos guerreiros, troando pelo vale, o arrancou ao doce engano; sentiu que j nosonhava, mas vivia. Sua mo cruel abafou nos lbios da virgem o beijo que ali se espanejava. Os beijos de Iracema so doces no sonho; o guerreiro branco encheu deles sua alma. Navida, os lbios da virgem de Tup amargam e doem como o espinho da jurema. A filha de Araqum escondeu no corao a sua ventura. Ficou tmida e inquieta, como aave que pressente a borrasca no horizonte. Afastou-se rpida, e partiu. As guas do rio banharam o corpo casto da recente esposa. Tup j no tinha sua virgem na terra dos tabajaras
  • 31. XVI O alvo disco da lua surgiu no horizonte. A luz brilhante do sol empalideceu a virgem do cu, como o amor do guerreiro desmaia aface da esposa. Jaci!... Me nossa!. . . exclamaram os guerreiros tabajaras. E brandindo os arcos, lanaram ao cu com a chuva das flechas, o canto da lua nova: "Veio no cu a me dos guerreiros; j volta o rosto para ver seus filhos. Ela traz as guas,que enchem os rios e a polpa do caju. "J veio a esposa do sol; j sorri s virgens da terra, filhas suas. A doce luz acende o amorno corao dos guerreiros e fecunda o seio da jovem me." Cai a tarde. Folgam as mulheres e os meninos na vasta ocara; os mancebos, que ainda no ganharamnome de guerra por algum feito brilhante, discorrem no vale. Os guerreiros seguem Irapu ao bosque sagrado, onde os espera o Paj e sua filha para omistrio da jurema. Iracema j acendeu os fogos da alegria, Araqum est imvel e exttico no seiode uma nuvem de fumo. Cada guerreiro que chega depe a seus ps uma oferenda a Tup. Traz um a suculentacaa; outro a farinha-dgua; aquele o saboroso piracm da trara. O velho Paj, para quem so estasddivas, as recebe com desdm. Quando foram todos sentados em torno do grande fogo, o ministro de Tup ordena osilncio com um gesto, e tres vezes clamando o nome terrvel, enche-se do deus, que o habita: Tup! . . . Tup! . . . Tup! . . . De grota em grota o eco ao longe repercutiu. Vem Iracema com a igaaba cheia do verde licor. Araqum decreta os sonhos a cadaguerreiro, e distribui o vinho da jurema, que transporta ao cu o valente tabajara. Este, grande caador, sonha que os veados e as pacas correm de encontro s suas flechaspara se traspassarem nelas; fatigado por fim de ferir, cava na terra o buc , e assa tamanhaquantidade de caa, que mil guerreiros em um ano no acabariam. Outro, fogoso em amores, sonha que as mais belas virgens tabajaras deixam a cabana deseus pais e o seguem cativas de seu querer. Nunca a rede de chefe algum embalou mais voluptuosascarcias, do que ele frui naquele xtase. O heri sonha tremendas latas e horrveis combates, de que sai vencedor, cheio de glria efama. O velho renasce na prole numerosa, e como o seco tronco donde rebenta nova e robusta sebe,ainda cobre-se de flores. Todos sentem a felicidade to viva e continua, que no espao da noite cuidam viver muitasluas. As bocas murmuram; o gesto fala; e o Paj, que tudo escuta e v, colhe o segredo no intimodalma. Iracema, depois que ofereceu aos chefes o licor de Tup, saiu do bosque. No permitia orito que ela assistisse ao sono dos guerreiros e ouvisse falar os sonhos. Foi dali direito cabana, onde a esperava Martim: Toma tuas armas, guerreiro branco. E tempo de partir. Leva-me aonde est Poti, meu irmo. A virgem caminhou para O vale; o cristo a seguiu. Chegaram falda do rochedo, que iamorrer beira do tanque, em um macio de verdura. Chama teu irmo! Soltou Martim o grito da gaivota. A pedra que fechava a entrada da gruta caiu; e o vulto doguerreiro Poti apareceu na sombra. Os dois irmos encostaram a fronte na fronte e o peito no peito, para exprimir que notinham ambos mais que uma cabea e um corao. Poti est contente porque v seu irmo, que o mau esprito da floresta arrebatou de seusolhos.
  • 32. Feliz o guerreiro que tem ao flanco um amigo como o bravo Poti; todos os guerreiroso invejaro. Iracema suspirou, pensando que a afeio do pitiguara bastava felicidade do estrangeiro. Os guerreiros tabajaras dormem. A filha de Araqum vi guiar os estrangeiros. Seguiu a virgem adiante; os dois guerreiros aps. Quando tinham andado o espao quetranspe a gara de um vo, o chefe pitiguara tornou-se inquieto e murmurou ao ouvido do cristo: Manda filha do Paj que volte cabana de seu pai. Ela demora a marcha dosguerreiros. Martim estremeceu; mas a voz da prudncia e da amizade penetrou em seu corao.Avanou para Iracema, e tirou do seio a voz mais terna para acalentar a saudade da virgem: Quanto mais afunda a raiz da planta na terra, mais custa arranc-la. Cada passo deIracema no caminho da partida uma raiz que lana no corao de seu hspede. Iracema quer te acompanhar at onde acabam os campos dos tabajaras, para voltar como sossego em seu corao. Martim no respondeu. Continuaram a caminhar, e com eles caminhava a noite; as estrelasdesmaiaram, e a frescura da alvorada alegrou a floresta. As roupas da manh, alvas como o algodo,apareceram no cu. Poti olhou a mata e parou. Martim compreendeu e disse a Iracema: Teu hspede j no pisa os campos dos tabajaras. o instante de separar-te dele.
  • 33. XVII Iracema pousou a mo no peito do guerreiro branco: A filha dos tabajaras j deixou os campos de seus pais; agora pode falar. Que segredo guardas em teu seio, virgem formosa do serto? Iracema no pode mais separar-se do estrangeiro. Assim preciso, filha de Araqum. Torna cabana de teu velho pai, que te espera. Araqum j no tem filha. Martim tornou com gesto rudo e severo: Um guerreiro de minha raa jamais deixou a cabana do hspede, viva de sua alegria.Araqum abraar sua filha, para no amaldioar o estrangeiro ingrato. Curvou a virgem a fronte; velando-se com as longas tranas negras que se espargiam pelocolo, cruzando ao grmio os lindos braos, recolheu em seu pudor. Assim o rseo cacto, que jdesabrochou em linda flor, cerra em boto o seio perfumado. Iracema te acompanhar, guerreiro branco, porque ela j tua esposa. Martim estremeceu. Os maus espritos da noite turbaram o esprito de Iracema. O guerreiro branco sonhava, quando Tup abandonou sua virgem. A filha do Paj traiuo segredo da jurema. O cristo escondeu as faces luz. Deus!... clamou seu lbio trmulo. Permaneceram ambos mudos e quedos. Afinal disse Poti: Os guerreiros tabajaras despertam. O corao da virgem, como o do estrangeiro, ficou surdo voz da prudncia. O sollevantou-se no horizonte; e o seu olhar majestoso desceu dos montes floresta. Poti, de p, mudo equedo, como um tronco decepado, esperou que seu irmo quisesse partir. Foi Iracema quem primeiro falou: Vem: enquanto no pisares as praias dos pitiguaras, tua vida corre perigo. Martim seguiu silencioso a virgem, que fugia entre as rvores como a selvagem cutia. Atristeza lhe confrangia o corao; mas a onda de perfumes que deixava na brisa a passagem daformosa tabajara, aulava o amor no seio do guerreiro. Seu passo era tardo, o peito lhe ofegava. Poti cismava. Em sua cabea de mancebo morava o esprito de um abaet . O chefepitiguara pensava que o amor como o cauim, o qual bebido com moderao, fortalece o guerreiro,e tomado em excesso, abate a coragem do heri Ele sabia quanto era veloz o p do tabajara; eesperava o momento de morrer defendendo o amigo. Quando as sombras da tarde entristeciam o dia, o cristo parou no meio da mata Potiacendeu o fogo da hospitalidade A virgem desdobrou a alva rede de algodo franjada de penas detucano, e suspendeu-a aos ramos da rvore: Esposo de Iracema, tua rede te espera. A filha de Araqum foi sentar-se longe, na raiz de uma rvore, como a cerva solitria, queo ingrato companheiro afugentou do aprisco. O guerreiro pitiguara desapareceu na espessura dafolhagem. Martim ficou modo e triste, semelhante ao tronco drvore a que o vento arrancou o lindocip que o entrelaada. A brisa perpassando levou um murmrio: Iracema! Era o balido do companheiro; cerva, arrufando-se, ganhou o doce aprisco. A floresta destilava suave fragrncia e exalava arpejos harmoniosos; os suspiros docorao se difundiram nos mrmuros do deserto. Foi a festa do amor e o canto do himeneu. J a luz da manh coou na selva densa. A voz grave e sonora de Poti repercutiu no sussurroda mata: O povo tabajara caminha na floresta!
  • 34. Iracema arrancou-se dos braos que a cingiam e do lbio que a tinha cativa; saltando darede como a rpida zabel, travou das armas do esposo e levou-o atravs da mata. De espao a espao, o prudente Poti escutava as entranhas da terra; sua cabea movia-sepesada de um a outro lado, como a nuvem que se balana no cocuruto do rochedo, aos vrios lufosda prxima borrasca. O que escuta o ouvido do guerreiro Poti? Escuta o passo veloz do povo tabajara. Ele vem como tapir rompendo a floresta. O guerreiro pitiguara a ema que voa sobre a terra; ns o seguiremos como suas asas:disse Iracema. O chefe sacudiu de novo a fronte: Enquanto o guerreiro do mar dormia, o inimigo correu. Os que primeiro partiram javanam alm com as pontas do arco. A vergonha mordeu o corao de Martim: Fuja o chefe Poti e salve Iracema. S deve morrer o guerreiro mau, que no escutou avoz de seu irmo e o pedido de sua esposa- Martim arrepiou o passo: No foi a alma do guerreiro do mar, que falou Poti e seu irmo s tm uma vida. O lbio de Iracema no falou; sorriu.
  • 35. XVIII Treme a selva com o estrupido da carreira do povo tabajara. O grande Irapu, primeiro, assoma entre as rvores. Seu olhar rbido viu o guerreiro branco entre nuvens de sangue; o ronco bravio do tigre rompe de seu peito cavernoso. O chefe tabajara e seu povo iam precipitar-se sobre os fugitivos, como a vaga encapeladaque arrebenta no Mocoripe. Eis que late o co selvagem. O amigo de Martim solta o grito da alegria: O co de Poti guia os guerreiros de sua taba em socorro teu. O rouco bzio dos pitiguaras estruge pela floresta. O grande Jacana, senhor das praias domar, chegava do rio das garas com seus melhores guerreiros. Os pitiguaras recebem o primeiro mpeto do inimigo nas pontas irriadas de suas flechas,que eles despedem do arco aos molhos, como o cuandu os espinhos do seu corpo. Logo aps soadapocema, estreita-se o espao, e a luta se trava face a face. Jacana atacou Irapu. Prossegue o horrvel combate que bastara a dez bravos, e noesgotou ainda a fora dos grandes chefes. Quando os dois tacapes se encontram, a batalha todaestremece como um s guerreiro, at s entranhas. O irmo de Iracema veio direito ao estrangeiro, que arrancara a filha de Araqum cabanahospitaleira; o faro da vingana o guia; a vista da irm assanha a raiva em seu peito. O guerreiroCaubi assalta com furor o inimigo. Iracema, unida ao flanco de seu guerreiro e esposo, viu de longe Caubi e falou assim: Senhor de Iracema, ouve o rogo de tua escrava; no derrama o sangue do filho deAraqum. Se o guerreiro Caubi tem de morrer, morra ele por esta mo, no pela tua. Martim ps no rosto da virgem olhos de horror: Iracema matar seu irmo? Iracema antes quer que o sangue de Caubi tinja sua mo que a tua; porque os olhos deIracema vem a ti, e a ela no. Travam a luta os guerreiros. Caubi combate com furor; o cristo defende-se apenas; mas aseta embebida no arco da esposa guarda a vida do guerreiro contra os botes do inimigo. Poti j prostrou o velho Andira e quantos guerreiros topou na luta seu vlido tacape.Martim lhe abandona o filho de Araqum e corre sobre Irapu. Jacanna um grande chefe, seu colar de guerra d trs voltas ao peito. O tabajarapertence ao guerreiro branco. A vingana a honra do guerreiro, e Jacana preza o amigo de Poti. O grande chefe pitiguara levou alm o formidvel tacape. Renhiu-se o combate entreIrapu e Martim. A espada do cristo batendo na clava do selvagem, fez-se em pedaos. O chefe tabajara avanou contra o peitoinerte do adversrio. Iracema silvou como a boicininga; e arrojou-se contra a fria do guerreiro