good at providing close-grained analyses of apparently ... Alfred Gell) ∗ A antropologia

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Text of good at providing close-grained analyses of apparently ... Alfred Gell) ∗ A...

Anthropology is, to put it bluntly, considered good at providing close-grained analyses of

apparently irrational behavior, performances, utterances, etc.

(Art and agency: an anthropological theory, Alfred Gell)

A antropologia , para ser franco, considerada boa em fornecer anlises detalhadas sobre comportamentos, performances, discursos aparentemente irracionais etc.

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2 A etnografia por uma outsider antropologia

No sapatinho eu vou, pra chega, conquista respeito! Eles querem que voc disista, mas jamais se de

por vencido! (...) envolvido at o pescoo, no fosse assim

a de mim s tava o osso! (No sapatinho, Criolo)

Este captulo esclarece as escolhas adotadas que guiaram o

trajeto1 percorrido e experimentado para aproximao dos sujeitos

que ajudam a construir o cenrio da body modification, em So

Paulo, a partir da relaes estabelecidas com seus integrantes

autodenominados body mods. Escolhe-se como epgrafe as rimas do

rapper Criolo. Os versos trazem tona os dilemas e possibilidades

envolvidos na deciso em realizar um trabalho etnogrfico, quando

se um outsider antropologia.

Diante deste solo arenoso, cheio de obstculos e de difcil

locomoo, o caminho foi chegar no sapatinho2, no apenas para

se apropriar do mtodo etnogrfico, mas tambm como forma de

se aproximar dos sujeitos envolvidos na cena da body modification

paulista. Houve vrios tropeos, tombos e tomadas de direes

equivocadas que simplesmente no levavam a lugar nenhum,

perdendo-se um tempo inenarrvel. Muitas vezes, a sensao era de

se estar perdida mesmo, sem saber qual rumo tomar nem tampouco

1 Uma licena potica para se fazer referncia fundamentao do mtodo adotado, cuja descrio se encontra apresentada ao longo do texto. 2 Gria urbana que significa agir de maneira cautelosa, sem induzir qualquer precipitao.

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onde se ia chegar. Como o toc toc do martelo em suas batidas

frequentes e ininterruptas, uma pergunta martelava a cabea:

aonde vai se chegar com isso?

Neste terreno estranho no qual se desconhecia onde se

estava pisando, havia algumas poucas certezas. Era necessrio

indagar: quem so estes sujeitos, o que fazem da vida, quais so

suas brigas polticas, por onde circulam, onde e como fazem as

modificaes, o que pretendem com isso e qual o sentido que

atribuem a elas.

De acordo com a perspectiva antropolgica, era preciso

escutar o discurso dos body mods paulistas do ponto de vista deles

como sujeito local. Era essencial privilegiar o aspecto relativizador

propiciado pela experincia de um contato estreito com a diferena

alteridade que aqui se d atravs da presena dos body mods na

condio de "outro".

Esta postura se refere, na realidade, a um jogo de espelhos

no qual a imagem do observador aparece refletida no outro, de

modo a conduzir a busca de significados onde, primeira vista, a

viso desatenta ou preconceituosa s enxerga o exotismo, quando

no o perigo, ou a anormalidade (MAGNANI, 1996:5).

Atravs desse olhar em direo valorizao da alteridade, o

que se pretende atravs da etnografia como uma escuta do sujeito

local o alargamento do universo do discurso humano (GEERTZ,

2008:10). Aprender, acima de tudo, outras formas de olhar com

vistas a multiplicar o prprio mundo do observador, povoando-o de

todos os exprimidos, que no existem fora de suas expresses

(DELEUZE, 1992:132).

A pesquisa vai sendo paulatinamente construda junto com os

interlocutores, a partir de um dilogo aberto e franco entre as

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partes. Melhor ainda, a partir de um jogo interacional fortemente

embasado numa relao de confiana contnua e crescente. Um

procedimento que exige um caminhar a passos de formiga, uma

disposio, uma capacidade para ser ser afetado por outras

experincias, entendendo sempre que os afetos envolvidos no,

necessariamente, so os mesmos para o observador e para os

sujeitos alvos da observao (GOLDMAN, 2008:8).

Neste processo, entende-se os interlocutores como dotados

de capacidade reflexiva prpria, enquanto especialistas do

ambiente onde residem, transitam, estabelecem vnculos e criam

afetos e desafetos. Construtores e conhecedores de seu prprio

espao sociocultural, so, no obstante, os sujeitos com quem se

deve dialogar para que se possa aprender (GOLDMAN 2008:7)

outros pensamentos, outras possibilidades de ser e outras formas

de agir.

Aqui, no existem categorias a priori, imperativos

epistemolgicos sendo utilizados como forma de adequar o

fenmeno (a ser) estudado a determinados arcabouos tericos.

Em outras palavras, no h imposies conceituais; no h

aplicao de conceitos extrnsecos sobre a maneira como os

sujeitos constroem e veem seu mundo (VIVEIROS DE CASTRO,

2002:116).

Contudo, esta postura no pode ser interpretada como

negao, em absoluto, de qualquer fundamento conceitual, visto

que estar treinado e atualizado teoricamente no significa estar

carregado de ideias preconcebidas (MALINOWSKY, 1978: 23). A

teoria e a prtica so inseparveis [], mas a afirmao de que o

campo perpassado pela teoria no exprime a ideia que ele est

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submetido a ela. Por definio, a realidade sempre ir superar a

teoria (URIARTE, 2012:2), pois:

Os discursos e prticas nativos devem servir, fundamentalmente, para desestabilizar nosso pensamento (e, eventualmente, tambm nossos sentimentos). Desestabilizao que incide sobre nossas formas dominantes de pensar, permitindo, ao mesmo tempo, novas conexes com as foras minoritrias que pululam em ns mesmos (GOLDMAN, 2008:6).

Por fim, preciso deixar claro que esta postura deve ser

entendida, de acordo com Marcio Goldman, como uma equiparao

conceitual entre formas distintas de percepo e entendimento. O

que, segundo autor, permite, por um lado, clarear as questes

sem pretender esclarecer nada nem, sobretudo, ningum. Por

outro, elucidar as transformaes do pensamento do observador.

Neste caso, os conceitos so usados no como categorias dentro

das quais algumas coisas entrariam e outras no, mas como modos

de organizao e formas de criao (GOLDMAN, 2008:8). 2.1 Alguns conceitos em revista

Se o pressuposto aqui adotado de que a teoria tem de se

adaptar ao campo e no o contrrio, ento voil. Na literatura

antropolgica, no raro o termo nativo urbano empregado para

se referir a sujeitos enquanto integrantes de grupos/ grupamentos

ou associaes que se conformam no contexto de uma grande

cidade. No domnio da relao observado/observador, Viveiros de

Castro (2002:113), por exemplo, estabelece que o nativo no

precisa ser especialmente selvagem, ou tradicionalista, tampouco

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natural do lugar onde o antroplogo o encontra. Trata-se, em suma,

de uma terminologia muito ampla.

Segue-se, desse modo, o rastro deixado por Magnani (1992)

ao criticar o uso da expresso tribos urbanas. O autor evidencia

que este termo deve ser empregado no sentido mais metafrico

que conceitual, em funo de suas limitaes para retratar as

formas de associao que se estabelecem nos meios urbanos.

Como contraponto terminologia nativo urbano, sugere-se,

ento, a apropriao da gria urbana local por ter um sentido mais

especfico. Esta empregada para se referir a sujeitos naturais,

pertencentes ou habitus de determinados espaos, reas ou locais

urbanos, que a antropologia social urbana retrata como circuito,

pedao, mancha ou trajeto3.

A segunda abordagem considerada insuficiente para

caracterizao do fenmeno em questo, refere-se ao emprego do

termo grupo, em conformidade com a viso da sociologia e da

antropologia social tradicional. Alm de retratar de modo

inapropriado o tipo de conformao peculiar BM, julga-se que a

identificao de uma estrutura organizacional uniforme

representada por um conjunto de sujeitos com interesses, valores e

ideais comuns, idade aproximada e pertencimento ao mesmo

estrato socioeconmico muito precria.

Suscetvel a grandes questionamentos dentro e fora do

campo destas respectivas reas de saber, o termo no d conta dos

tipos de conformaes existentes nem caracteriza a grande

vitalidade peculiar s atuais formas de configurao socioculturais.

Os vnculos se alteram constantemente, na medida em que elos so 3 Para uma discusso mais ampla sobre os recortes espaciais circuito, pedao, mancha e trajeto no interior da antropologia urbana paulistana, consultar, por exemplo, Magnani 2005.

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feitos e desfeitos com grande fugacidade. As relaes so

efmeras, muitas vezes, pontuais e momentneas, como identificou

Maffesoli (2000).

Por fim, refuta-se o emprego do