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Girafa Conto

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Agualusa a Girafa

Text of Girafa Conto

  • A girafa que comia estrelasJos Eduardo Agualusa

    ILUSTRAESHenrique Cayatte7. edio

  • Para a Vera Regina, que um dia me ensinar a danar.

  • E era verdade, a pura verdade. Aos cinco anos, Olmpia j ultrapassava em altura todas as girafas da savana. Era to alta que quando levantava o pescoo e se punha na pontinha dos ps a cabea dela desaparecia entre as nuvens. A me de Olmpia, Dona Augusta, no gostava daquilo:s vezes a me ralhava com ela:Olmpia, Olmpia, l ests tu outra vez com a cabea nas nuvens!

  • As nuvens so hmidas e frias, Olimpiazinha, olha que te constipas.O pior que pode acontecer a uma girafa ficar constipada.Primeiro porque quando espirram assustam todos os outros bichos, e sacodem as rvores e as coisas, e algumas chegam mesmo a perder a cabea (a cabea pode saltar com a fora do espirro); depois, porque difcil conseguir um cachecol capaz de cobrir pescoos to compridos.

  • Olmpia, porm, gostava de andar com a cabea nas nuvens queria ver os anjos.A av Roslia, me da Dona Augusta, dissera-lhe que os anjos dormem nas nuvens. Tambm lhe dissera que quando as pessoas morrem se transformam em anjos.Dissera-lhe isto pouco antes de morrer.Por isso, Olmpia passava o dia inteiro com a cabea enfiada nas nuvens. Tinha saudades da av. noite comia estrelas.Enquanto as outras girafas dormiam, Olmpia subia ao morro mais alto da savana, levantava o pescoo e comia estrelas. As estrelas ardiam um pouco na garganta, mas eram doces e macias, e sabiam a pssego. Ao contrrio do que seria de supor, a noite no ficava mais vazia por causa disso.

  • medida que Olmpia comia estrelas, outras estrelas nasciam, novinhas em folha, brilhando ainda mais do que as antigas.Assim, de certa maneira, ela renovava a noite. Olmpia nunca encontrou nenhum anjo.

    Um dia, porm, descobriu uma galinha-do-mato que fizera ninho no meio das nuvens.O ninho estava cheio de objetos brilhantes que a galinha trouxera da terra: trs pares de culos, oito berlindes coloridos, um colar de prolas, um arco-ris de bolso, um olho de vidro que havia pertencido (dizia ela) ao famoso pirata da perna de pau.

    As galinhas do mato so muito bonitas, todas pretas com pintinhas brancas e, por isso, tambm lhes chamam galinhas pintadas.Aquela pareceu a Olmpia ainda mais bonita do que as restantes. As penas dela brilhavam com uma luz prpria, como se pelo facto de viver to alto tivesse adquirido um pouco de fulgor do sol.

  • Olha l, perguntou-lhe Olmpia admirada, tu s um anjo?No, era apenas uma galinha que gostava de viver nas nuvens. Chamava-se Dona Margarida.

    No era muito inteligente, coitada, mas gostava de pensar. Pensava, pensava e depois dizia coisas bvias, que j toda a gente sabia, como se ela mesmo as tivesse inventado. Por exemplo:

    Quem tudo quer tudo perde.Devagar se vai ao longe.Nem tudo o que reluz oiro.Etc. Dizia estas coisas piscando os olhinhos e torcendo a cabea. Via-se que fazia muita fora para pensar.

  • E anjos, insistiu Olmpia, nunca viste anjos nas nuvens?No, nunca vira.Mas podia ser que os houvesse. Por vezes ouvia vozes, macias e remotas, vindas de nuvens mais altas e plumas enormes, que no se pareciam com as de nenhuma ave que ela conhecia. Caam l de cima nas tardes de vento. Olmpia e Dona Margarida tornaram-se grandes amigas.

    Todas as manhs quando acordava, com a barriga cheia de estrelas, Olmpia enfiava a cabea nas nuvens para procurar Dona Margarida.

  • Como as nuvens correm no cu, por vezes a grande velocidade, Dona Margarida viajava muito. Um dia estava em cima da savana. E no outro podia acordar em Luanda, em Lisboa ou at em Nova Iorque. L de cima, das nuvens, espreitava o mundo e tirava as suas concluses.

    Os homens, contou ela a Olmpia depois de pensar muito, os homens so animais estranhos: vivem empoleirados uns em cima dos outros, em grandes galinheiros.Esto sempre com pressa, correm o tempo todo, como formigas, de um lado para o outro, e acham que so felizes assim.

    Uma bela manh Olmpia acordou e viu que no havia nuvens. Enquanto o sol brilhou o cu estava sempre azul. No dia seguinte a mesma coisa e no outro tambm.Por onde andaria Dona Margarida? Passou-se um ms sem sinal de nuvens.

  • No havendo nuvens, tambm no chove e a savana comeou a secar. Era difcil encontrar alguma coisa para comer. As girafas estavam muito fracas. Dona Augusta j quase no conseguia caminhar. Olmpia era o nico animal, em toda a savana, que continuava gordo.Podia faltar capim, podia ser difcil encontrar rvores com folhas tenras, mas noite, no cu, havia sempre estrelas saborosas para comer.

    Decidiu ento partir procura de ajuda.

  • Andou, andou, andou. Andou muito. Uma madrugada acordou com um alegre cacarejar. Abriu os olhos e viu Dona Margarida, l em cima, pendurada numa nuvem.Levantou o pescoo e foi ter com ela.Contou-lhe o que tinha acontecido: na savana no chovia h muito tempo, o capim secara, as rvores tinham perdido as folhas e os animais estavam a morrer.O que fazer?Dona Margarida fechou os olhinhos para pensar melhor.Pensou com muita fora:J sei, vamos soprar as nuvens.Parecia uma ideia tola, mas Olmpia experimentou e deu certo. As duas juntas, soprando e soprando, foram pouco a pouco, enchendo de nuvens o cu da savana.

  • E agora?, quis saber Olmpia quando finalmente conseguiram juntar uma boa centena de nuvens mesmo em cima da terra seca.

    O que temos de fazer para que a chuva caia?

    Dona Margarida arrancou uma pena da asa direita e colocou-a no nariz da girafa:

    Agora espirra!

    Olmpia espirrou.

    O espirro sacudiu as nuvens e comeou a chover.

    Choveu durante trs dias e a terra voltou a ficar verde.

    por isso que, at hoje, as girafas so amigas das galinhas do mato.

  • Era uma vez Olmpia, uma girafa, que andava sempre com a cabea nas nuvens, a tentar ver anjos e a comer estrelas, e Dona Margarida, uma galinha-do-mato com a cabea cheia de frases feitas. Conhecem-se e ficam amigas. Queriam resolver o problema da seca que tanto prejudicava a sua terra. Ser que conseguiram?Com humor, mestria e simplicidade, Jos Eduardo Agualusa e Henrique Cayatte contam-nos uma bela histria de amizade e engenho.

    obra ESTRANHES E BIZARROCOS, dos mesmos autores, foram atribudos os mais importantes prmios a nvel nacional na rea da educao infantil: o Prmio Nacional de Ilustrao 2000, do Instituto Portugus do Livro e das Bibliotecas e o Grande Prmio Gulbenkian de Literatura para Crianas e Jovens, na modalidade de livro ilustrado.