Gilberto Freyre e José Lins do Rego: diálogos do senhor da casa

  • View
    225

  • Download
    5

Embed Size (px)

Text of Gilberto Freyre e José Lins do Rego: diálogos do senhor da casa

  • Gilberto Freyre e Jos Lins do Rego:dilogos do senhor da casa-grande

    com o menino de engenho

  • Universidade Estadual da Paraba

    Prof. Antonio Guedes Rangel Junior | ReitorProf. Jos Etham de Lucena Barbosa | Vice-Reitor

    Editora da Universidade Estadual da ParabaAntonio Roberto Faustino da Costa | Diretor

    Conselho Editorial

    PresidenteAntonio Roberto Faustino da Costa

    Conselho CientficoAlberto Soares MeloCidoval Morais de SousaHermes Magalhes TavaresJos Esteban CastroJos Etham de Lucena BarbosaJos Tavares de SousaMarcionila FernandesOlival Freire JrRoberto Mauro Cortez Motta

    Editor AssistenteAro de Azevedo Souza

    Editora filiada a ABEU

    EDITORA DA UNIVERSIDADE ESTADUAL DA PARABARua Baranas, 351 - Bairro Universitrio - Campina Grande-PB - CEP 58429-500

    Fone/Fax: (83) 3315-3381 - http://eduepb.uepb.edu.br - email: eduepb@uepb.edu.br

  • Gilberto Freyre e Jos Lins do Rego:dilogos do senhor da casa-grande

    com o menino de engenho

    Cauby Dantas

    Campina Grande - PB2015

  • Copyright EDUEPB

    A reproduo no-autorizada desta publicao, por qualquer meio, seja total ou parcial, constitui violao da Lei n 9.610/98.

    A EDUEPB segue o acordo ortogrfico da Lngua Portuguesa de 1990, em vigor no Brasil, desde 2009.

    Editora da Universidade Estadual da ParabaAntonio Roberto Faustino da Costa | DiretorAro de Azevdo Souza | Editor Assistente de projetos visuais

    Design GrficoErick Ferreira CabralJefferson Ricardo Lima Araujo Nunes Lediana CostaLeonardo Ramos Araujo

    Comercializao e DistribuoVilani Sulpino da Silva Danielle Correia Gomes

    DivulgaoZoraide Barbosa de Oliveira Pereira

    Reviso LingusticaElizete Amaral de Medeiros

    Normalizao TcnicaJane Pompilo dos Santos

    Depsito legal na Biblioteca Nacional, conforme decreto n 1.825, de 20 de dezembro de 1907.

  • A literatura e a arte no pertencem apenas ao domnio da crtica literria ou de arte: incidem tambm no domnio do socilogo, do historiador social, do antroplogo e do psi-clogo social. Porque atravs da literatura e da arte que os homens parecem mais projetar a sua personalidade, e, atra-vs da personalidade, o seu thos nacional. Atravs das artes eles descrevem as condies mais angustiantes do meio em que vivem e refletem os seus desejos mais revolucionrios.

    (Gilberto Freyre)

  • Sumrio

    ApreSentAo, 9

    introduo, 13

    CAptulo i, 27Textos e contextos, 27O intelectual orgnico da Casa-grande, 40Hegemonia e intelectuais, 42O Olhar Senhorial, 44 O Equilbrio de Antagonismos, 48

    CAptulo ii, 53Ser de sua casa para ser intensamente da humanidade, 53Apresentando a Regio, 70A Fortuna Crtica, 84

    CAptulo iii, 93O pacto epistolar, 93Confisses, 98

    CAptulo iV, 123Afinidades Eletivas nos Romances, 123O senhor de engenho, 126Memrias da Escravido, 139A Fora Telrica: Terra e gua, 142

    ConSiderAeS FinAiS , 157

    reFernCiAS, 165

  • 9

    ApreSentAo

    Dilogos do Senhor da Casa-Grande com O Menino de Engenho

    Por Elizabeth Christina de Andrade Lima

    A escrita de um texto, seja com que pretenses forem, sempre no s um grande desafio, mas uma janela que se abre para descober-tas. O texto escrito por Cauby Dantas, que passo a partir de agora a ter o prazer de apresentar , para mim, e espero que o seja igualmente para o leitor, uma grande descoberta, cercada de inusitados pontilha-dos que costuram um rendilhado, que at certo ponto poderia, num primeiro momento, parecer confuso ou mesmo desconectado.

    O presente livro resultado de sua dissertao de mestrado, embora no seja uma reproduo da mesma, defendida no ano de 2005, junto ao Programa de Ps-Graduao em Sociologia da Universidade Federal de Campina Grande, atual Programa de Ps-Graduao em Cincias Sociais, intitulada Dilogos do Senhor da Casa Grande com o Menino de Engenho: Interseo Sociologia-Literatura em Gilberto Freyre e Jos Lins do Rego, que tive o prazer de orientar.

    Como imaginar algum ter a ideia em pensar a Sociologia de Gilberto Freyre e a Literatura regionalista de Jos Lins do Rego, prin-cipalmente atravs do dilogo entre ambos? E j vale a ressalva, por meio de um dilogo que no se faz no contato face a face, mas por meio de missivas e de obras dos dois autores?

    Para um leitor desavisado no mnimo talvez indagasse: esse autor louco! Como construir um pensamento e raciocnio sociolgico atra-vs de trocas de cartas, talvez isso se adequasse bem aos enamorados

  • 10

    e ao estudo sobre, quem sabe, a relao entre o amor e dio; e entre obras com pretenses e/ou construes to diversas, a Sociologia e a Literatura? Mas pasmem! Ele o faz e o faz com tal viso e amplitude da importncia contedistica de tais missivas e obras, que consegue sim, produzir um srio e competente texto scio-literrio.

    A grande questo proposta pelo autor analisar at que ponto Gilberto Freyre influenciou e contribuiu com a obra de Jos Lins do Rego e at que ponto Jos Lins influenciou e contribuiu com a obra de Gilberto Freyre. Da a sua proposta de promover uma interseo entre Sociologia e Literatura e entre o pensamento dos dois.

    At onde comea o Gilberto Freyre, ensasta, socilogo e termina o Jos Lins, escritor regionalista, e vice-versa. O que h do pensamento regionalista de Jos Lins em Gilberto Freyre e o que h do pensamento sociolgico de Gilberto Freyre em Jos Lins? Essa a sua questo.

    Para responder a enunciada questo, o autor leu e analisou os seguintes romances de Jos Lins do Rego: Menino de Engenho e Bangu. De Gilberto Freyre selecionou as seguintes obras que apresentam os temas centrais do seu regionalismo: Vida social do Brasil nos meados do sculo XIX, o Manifesto Regionalista, Nordeste e o ensaio Aspectos de um sculo de transio do Nordeste do Brasil. Alm da consulta, incidental, sua trilogia Casa-Grande & senzala, Sobrados e mucambos e Ordem e progresso.

    A outra fonte de pesquisa, as cartas, trocadas entre os dois autores, no total de 238, se revela para o autor como excelente ambiente no s de reflexo mas de sensibilidade. As cartas, ao contrrio das obras escritas por ambos, so profundamente intimistas, que desnudam o ser sem qualquer vergonha ou tentativa de construes e uso de mscaras sociais. As cartas entre amigos, no permitem, to clara-mente, o jogo de aparncias e as pessoas se revelam como elas so, com suas fragilidades e fortalezas, necessidades e autonomias etc. No total, foram lidas e analisadas 116 cartas escritas por Gilberto e 122 por Jos Lins.

    Boa parte das cartas trocadas entre os amigos trataram de diversos assuntos, merecem destaque comentrios sobre conceitos, categorias regionais e linhas de interpretao usadas, por um e outro, em forma de conselhos, sugestes, revises. Outro tema, em menor quantidade, foram as de carter mais intimista e privado. Chegou-se a tratar de

  • 11

    temas tais como: dvidas contradas, dificuldades financeiras, sofridas principalmente por Gilberto Freyre, doenas na famlia, entre outros assuntos.

    O presente texto tem cheiro de mato, de canavial, de cozinha e de mesa farta; tem gosto de amizade e devaneios com sinhs-moas e mucamas, tem tambm e igualmente, a presena contundente do pater famlias e do olhar senhorial, imposto arrogante e prepotente-mente pelo senhor de engenho, to bem descrito na obra de Jos Lins do Rego. J se disse, e o autor desta obra corrobora com isso, que o olhar de Gilberto Freyre sobre o Brasil Colonial nutrido por um olhar senhorial; parece ser do alpendre da Casa Grande e da pompa econ-mica, poltica e autossuficincia do senhor de engenho que Gilberto Freyre interpreta o Brasil. A obra de Jos Lins talvez seja um pouco mais dura, at mesmo mais realista, portanto menos romntica que a de seu amigo, por denunciar a loucura, arrogncia e violncia do senhor de engenho.

    J encontramos aqui uma relao de proximidade no que diz repeito produo scio-literria dos dois amigos: ambos possuem uma ascendncia senhorial, seus avs foram senhores de engenho. Descrever as experincias, bem como as vivncias suas e de seus familiares parece ser o objetivo fulcral de to intensas e vivas obras. Recuperar esses cheiros, a vida ntima das cozinhas, quartos e salas de estar, marcadas por relaes primrias, o principal intento.

    A essa recuperao de um Brasil colonial, misturado com o melao da cana, da ordem servil e intimidade da famlia brasileira, presente na obra tanto de Jos Lins quanto de Gilberto Freyre o autor denomi-nar de afinidades eletivas.

    Uma outra afinidade a encontrada na semelhana da tempora-lidade na qual ambos iniciam suas atividades de escritores, Jos Lins em 1932 e Gilberto Freyre em 1933. Nas cartas lidas e analisadas pelo autor, bem como na leitura e discusso das obras analisadas do literato e do socilogo, se configura muito claramente que tal temporalidade no mera coincidncia ou obra do acaso; ao contrrio, tais temas, so em grande medida, resultado do burburinho e efervescncia de temas discutidos e trocados entre ambos, atravs das cartas e das conversas em encontros pessoais.

  • 12

    Uma ltima afinidade destacada pelo autor da presente obra, quanto a uma certa semelhana do universo temtico. A produo de ambos caracterizada como regionalista, preocupada em destacar aspectos da natureza dos bichos, plantas e climas , do cotidiano da famlia patriarcal brasileira e das relaes marcadamente dualistas entre: senhor e escravo, senhor e agregado, marido e esposa, mucama e sinh moa, dentre outras relaes.

    Com base no exposto, defender o autor, at a ltima pgina de seu belo trabalho, que so tais afinidades a principal responsvel pelo dilogo entre ambos, bem como pela consequente interseo entre a Sociologia e a Literatura.

    O texto, portanto, que apresento, merece ser lido, sem preconcei-tos ou m-vontade, pois como Gilberto Fre