Gilberto Freyre e a singularidade cultural brasileira

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    SOUZA, Jess. Gilberto Freyre e a singularidade cultural brasileira. Tempo Social; Rev. Sociol. USP, S. Paulo, 12(1): 69-100,maio de 2000.

    Tempo Social; Rev. Sociol. USP, S. Paulo, 12(1): 69-100, maio de 2000.

    G

    A R T I G O

    RESUMO: O texto procura enfatizar o contedo macrossociolgico da obra

    dos anos trinta de Gilberto Freyre. Ao invs dos temas classicamente vincula-

    dos obra de Gilberto Freyre, como a mestiagem e a histria da vida privada,

    o ponto principal da argumentao reconstruir o embate entre valores oci-

    dentais da Europa j burguesa, que tomam o pas de assalto a partir de 1808,

    e os valores tradicionais que Freyre chama de orientais para se referir ao

    conjunto de valores africanos, portugueses e rurais da vida colonial brasileira.

    Gilberto Freyre desenvolve em Sobrados e mucambos uma historiografia da

    institucionalizao desses novos valores ocidentalizantes que se contrape,

    com vantagens, verso dominante do Brasil como ainda dominado por valo-

    res pessoais e semi-tradicionais.

    ilberto Freyre , talvez, o mais complexo, difcil e contraditrio entrenossos grandes pensadores. Sua obra tem permanecido um desafioconstante aos comentadores, como iremos ver a seguir, e a vitalidadede seu pensamento se mostra no crescente interesse por sua obra.Ele , talvez, o mais moderno entre os clssicos do pensamentosocial brasileiro e suas questes ganham ao invs de perderemem atualidade.A enorme dificuldade envolvida numa adequada compreenso de sua

    obra resulta de vrios fatores combinados. Uma razo importante parece-me aextraordinria disparidade de sua obra. Enquanto, normalmente, na maioria dosgrandes autores, a obra de maturidade representa uma condensao intelectualque propicia maior grau de coerncia e elaborao dos temas que marcaram a

    Gilberto Freyre e asingularidade cultural brasileira

    JESS SOUZA

    Professor do Departa-mento de Sociologiado ICS - UnB

    UNITERMOS:cultura brasileira,cultura ocidental,iberismo,macrossociologia,Gilberto Freyre.

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    trajetria intelectual desses autores, Gilberto parece ser uma exceo a essa re-gra. Seus melhores livros so escritos ainda na dcada de trinta, quando o autorainda era muito jovem, e dentre eles, alm de Casa-grande e senzala, especial-mente Sobrados e mucambos, a sua obra prima no nosso ponto de vista.

    Sua obra de juventude marcada pelo tom aberto, propositivo, hi-pottico, o que levou a alguns comentadores a interpret-lo pelo paradigma daambigidade e da contradio constitutivas. Foi precisamente esse aspectoaberto, inquisitivo, de sua obra de juventude, que foi substitudo na maturida-de por um esprito de sistema fechado, uma compilao de certezas e de su-gestes de interveno prtica e poltica.

    No prefcio de 1969 para a edio brasileira de Novo mundo nostrpicos, livro originalmente publicado em ingls em 1963, percebe-se essatoro peculiar da atitude de Freyre em relao aos estudos realizados na d-cada de 30. Aqui, Freyre pretende responder aos seus primeiros crticos quereclamavam que ele no conclua, no possua uma tese central clara, nemmuito menos tinha uma proposio concreta e clara sobre o que fazer.

    Essa certamente uma crtica e uma demanda ao pesquisador bembrasileira. A pequena distncia objetiva e subjetiva entre o domnio da refle-xo, a cincia, e a esfera da ao prtica, a poltica, torna entre ns quaseimpossvel uma clara diviso de trabalho entre essas duas esferas comple-mentares. Pede-se, constantemente, o apagamento das fronteiras, confundin-do-se as condies de validade de cada domnio, exigindo-se de uma esfera oque s razovel demandar-se de outra.

    Gilberto Freyre, seja por oportunismo poltico, seja por vaidadepessoal, cede ao apelo. Aqui, talvez, tenham-se encontrado expectativas obje-tivas e inclinaes pessoais. O certo que a obra madura de Freyre umaespcie de caricatura de sua obra de juventude. O que nesta abre-se indaga-o do leitor, um constante descortinar de aspectos e variantes que se ofere-cem curiosidade e ao escrutnio deste, naquela tende sempre ao enrijecimento,um fechamento de horizontes e perspectivas.

    Efetivamente Gilberto Freyre conclui na sua obra madura. Concluitransformando algumas de suas brilhantes intuies de juventude acerca daespecificidade e singularidade da formao social brasileira em uma ideologianacionalista e luso-imperialista de duvidoso potencial democrtico. O que antesadquiria a forma do questionar-se acerca das peculiaridades e transformaesde uma cultura europia nos trpicos, transforma-se em tropicologia, umconjunto de asseres de cientificidade duvidosa, carregadas de impres-sionismo, mas facilmente utilizveis como uma ideologia unitria do tropi-cal e mestio. Uma ideologia do apagamento das diferenas.

    A tropicologia transforma-se, inclusive, em cincia especfica, aqual, j referendada pelos sbios da Sorbonne (Freyre, 1969, p. 20), sededicaria ao estudo do homem nas condies tropicais. O fato do elementomesolgico aqui ser o dado essencial no de forma alguma acidental. Aocontrrio, ele representa o fundamento mesmo daquilo que j foi chamadoconcepo neolamarckiana (Arajo, 1993, p. 39) de cincia em Gilberto

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    Freyre. Essa concepo parte da possibilidade de considerao simultnea deelementos to heterogneos como as influncias biolgicas, mesolgicas eculturais na determinao da especificidade de uma formao social singular.

    Se nos escritos da juventude os outros elementos esto subordina-dos dimenso cultural, como teremos oportunidade de discutir mais adiante,nas obras de maturidade a dimenso mesolgica assume o lugar de maiorpreeminncia como o nome da nova cincia j sugere. Os motivos para essedeslocamento so polticos, ou melhor, geopolticos, pela facilidade mesmade se apontar a necessidade de defender-se de imperialismos de potnciasno-tropicais com relao a espaos, recursos, populao e culturas tropi-cais (Freyre, 1969, p. XIX).

    A transformao da cincia em geopoltica tem pelo menos duaslimitaes decisivas. A primeira refere-se ao fato de supor uma comunidadeindistinta, mesologicamente unificada, em relao ao que lhe externo. Asegunda limitao, irm e complementar em relao anterior, a proposioimplcita de comunidade indistinta para dentro, onde a dimenso conflitivae o componente do poder secundarizado.

    A separao entre trabalhos da juventude e da maturidade no feita no sentido de demonstrar qualquer corte epistemolgico no autor.Freyre o mesmo pensador holista, que pensa a sociedade como um todoorgnico a partir de partes que se completam. Nesse tipo de concepo desociedade, a hierarquia o dado central e cada pessoa, grupo ou classe, tem oseu lugar. Igualdade poltica e econmica jamais foi o princpio mais im-portante do socilogo Gilberto Freyre. Ao inverso, sua ateno esteve semprevoltada a perceber formas de integrao harmnica de contrrios,interdependncia e comunicao recproca entre diferentes, sejam essas dife-renas entre culturas, grupos, gneros ou classes.

    No entanto, para o esforo hermenutico e interpretativo, faz muitadiferena se estamos falando de potencialidades inscritas em uma sociedade dosc. XVI e XVII, como o Brasil de Casa-grande e senzala, ou de supostascaractersticas de uma nao em plena segunda metade do sculo XX, como nocaso dos textos que tratam da luso-tropicologia. Esse dado temporal fundamen-tal nem sempre levado em considerao por comentadores que teimam emperceber o quadro histrico desenvolvido por Freyre para o Brasil colnia pelaslentes de categorias e noes surgidas sculos mais tarde. A refrao operadapor esse tipo de interpretao a melhor maneira de deixar-se de perceber algu-mas intuies de um pensador de talento e saber emprico excepcional.

    Estou convencido de que algumas idias fundamentais de Freyreno precisam ser tratadas, necessariamente, dentro do mesmo horizontecategorial e normativo usado pelo autor. Por conta disso, gostaria de proporuma anlise em separado dos dois livros mais importantes de sua juventu-de, Casa-grande e senzala (Freyre, 1957) e Sobrados e mucambos (Freyre,1990). Cada um desses livros refere-se a perodos histricos distintos e apon-tam para questes dspares.

    Em Casa-grande e senzala a questo central efetivamente o en-

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    contro intercultural nos trpicos. Esse texto parece-me concentrar os temasque associamos comumente com o debate ligado a Gilberto Freyre, como amiscigenao e a comparao, s vezes explcita, o mais das vezes implcitamas sempre presente, com o desenvolvimento norte-americano.

    Em Sobrados e mucambos, no entanto, a questo central parece-meum ponto, at onde pude perceber, secundarizado pela crtica pelo menos comrelao ao desenvolvimento de todas as suas conseqncias: a ambigidadecultural brasileira a partir do embate entre a tradio patriarcal e o processo deocidentalizao a partir da influncia da Europa burguesa, e no mais por-tuguesa, que toma de assalto o pas no sc. XIX. Esse processo tem sido perce-bido, geralmente, como mudana de hbitos de vestir, de leitura, de consumoem geral. O brasileiro se transveste de civilizado, conferindo sentido quelafrase ainda hoje utilizada por todo brasileiro, civilizando-se para ingls ver1.

    Existe, na realidade, toda uma sociologia do para ingls ver, quese nutre na idia de que o processo de absoro da modernidade europia noBrasil um verniz, uma aparncia, ou no melhor dos casos uma primeiraepiderme. Acredito que uma leitura alternativa de Sobrados e mucambos podenos trazer uma outra concep