Gell, Alfred. - Arte e agncia - Cap 1.pdf

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    Definio do problema: a necessidade de umaantropologia da arte

    Alfred Gell*

    *Alfred Gell (1945-1997), antroplogo britnico, lecionou na London School of Economics and Political Science. Publicou os livros

    Metamorphosis of the Cassowaries (1975), The Anthropology of Time (1992) e Wrapping in Images: Tattooing in Polynesia (1993). Art

    and Agency foi finalizado um pouco antes de sua morte.

    Nesse captulo de Art and agency: an anthropological theory, Alfred Gell questiona o carter antropolgico de teorias sobre a arte que reivindicam esse atributo, e apresenta os pressupostos para a formulao de uma teoria que leve em conta efetivamente reas de reflexo da Antropologia.

    antropologia da arte, agncia, teoria antropolgica

    A expresso teoria antropolgica da arte visual provavelmente evoca uma teoria que lide com a produo de arte nas sociedades coloniais e ps-coloniais tipicamente estudadas pe-los antroplogos, mais a chamada arte primitiva agora normalmente denominada arte etnogrfica nos acervos dos museus. A expresso teoria antropolgica da arte seria igual teoria da arte aplicada arte antropolgica. Mas no isso que tenho em mente. A arte das margens coloniais e ps-coloniais, na medida em que arte, pode ser abordada atravs de qualquer uma das teorias da arte existentes, ou de todas elas, at onde essas abordagens so teis. Os crticos, filsofos e estetas vm trabalhando h muito tempo; as teorias da arte constituem um campo vasto e bem estabelecido. Aqueles cuja profisso descrever e compreender a arte de Picasso e Brancusi podem escrever sobre as mscaras af-ricanas enquanto arte, e de fato precisam faz-lo por causa das relaes fundamentais entre arte da frica e a arte ocidental do sculo vinte. No faria sentido desenvolver uma teoria da arte para a nossa prpria arte e uma outra teoria, claramente diferente, para a arte daquelas culturas que por acaso, no passado, estiveram sob o domnio colonialista. Se as teorias da arte ocidentais (estticas) se aplicam nossa arte, ento elas se aplicam arte de todos, e devem ser utilizadas para tal.

    Sally Price (1989) queixa-se com razo da essencializao e a consequente guetificao da chamada arte primitiva. Argumenta ela que essa arte merece ser avaliada pelos espectadores

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  • ocidentais de acordo com os mesmos padres crticos que aplicamos nossa prpria arte. A arte das culturas no-ocidentais no essencialmente diferente da nossa, na medida em que produzida por artistas individuais, talentosos e imaginosos, que merecem o mesmo grau de reconhecimento que os artistas ocidentais, no devendo ser vistos nem como filhos da na-tureza instintivos, exprimindo espontaneamente seus impulsos primitivos, nem tampouco como expoentes subservientes de algum estilo tribal rgido. Como outros autores contem-porneos que escrevem sobre artes etnogrficas (Coote 1992, 1996; Morphy 1994, 1996), Price acredita que cada cultura tem uma esttica especfica, e a tarefa da antropologia da arte definir as caractersticas da esttica inerente de cada cultura, de modo que as contribuies estticas de artistas no-ocidentais especficos possam ser avaliadas corretamente, isto , em relao a suas intenes estticas culturalmente especficas. Eis o credo dessa autora:

    O xis do problema, tal como o vejo, que a apreciao da arte primitiva quase sempre ex-pressa em termos de uma escolha falaciosa: uma opo deixar que o olho esteticamente discriminador seja nosso guia com base em algum conceito de beleza universal jamais definido. A outra mergulhar em - material tribal - para descobrir a funo utilitria ou ritualstica dos objetos em questo. Essas duas rotas so geralmente encaradas como antagnicas e incom-patveis. [...] Eu proporia a possibilidade de uma terceira conceitualizao situada mais ou me-nos entre esses dois extremos. [...] Ela requer a aceitao de dois princpios que ainda no so muito aceitos pelas pessoas cultas nas sociedades ocidentais.

    Um dos princpios que o - olho - at mesmo do especialista mais dotado de talentos naturais no nu, porm enxerga a arte atravs da lente de uma formao cultural ocidental.

    O segundo princpio que muitos primitivos (includos tantos artistas quanto crticos) tambm so dotados de um - olho - discriminador - o qual tambm v atravs de um dispositivo ptico que reflete sua prpria formao cultural.

    No referencial desses dois princpios, a contextualizao antropolgica representa no uma elaborao tediosa de costumes exticos que competem com a verdadeira - experincia est-tica -, e sim um meio de expandir a experincia esttica para alm de nosso prprio campo de viso estreitamente limitado por nossa cultura. Tendo aceito as obras da arte primitiva como merecedoras de representao lado a lado com as obras dos artistas mais reputados das nos-sas prprias sociedades [...] nossa prxima tarefa reconhecer a existncia e a legitimidade dos referenciais estticos dentro dos quais elas foram produzidas. (Price 1989:92-3)

    Esta viso perfeitamente coerente com a relao estreita entre histria da arte e teoria da arte que vigora no Ocidente. H uma analogia bvia entre esttica especfica de uma cultura e esttica especfica de um perodo. Tericos da arte como Baxendall (1972) demonstraram que a recepo da arte de perodos especficos na histria da arte ocidental dependeu do

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    modo com a arte era vista no perodo, e que as maneiras de ver mudam ao longo do tempo. Para apreciar a arte de um perodo especfico, devemos tentar redescobrir a maneira de ver que os artistas desse perodo implicitamente supunham que seu pblico utilizaria para apreciar suas obras. Uma das tarefas do historiador da arte ajudar nesse processo, forne-cendo o contexto histrico. A antropologia da arte, seria razovel concluir, tem um objetivo mais ou menos semelhante, embora seja a maneira de ver de um sistema cultural e no de um perodo histrico que tem de ser elucidado.

    No fao nenhuma objeo s sugestes de Price no que diz respeito a dar mais reconheci-mento arte e aos artistas no-ocidentais. De fato, a nica objeo que uma pessoa bem-intencionada poderia levantar com relao a um determinado programa seria talvez a de al-guns especialistas, os quais tm o prazer reacionrio de imaginar que os produtores da arte primitiva colecionados por eles so selvagens, ainda recentemente moradores das rvores. Esses idiotas podem ser deixados de lado logo de sada.

    No obstante, no acho que a elucidao dos sistemas estticos no-ocidentais constitua uma antropologia da arte. Em primeiro lugar, um tal programa exclusivamente cultural, e no social. A antropologia, do meu ponto de vista, uma disciplina das cincias sociais, e

    no uma das humanidades. Essa distino, reconheo, sutil, porm implica o fato de que a

    antropologia da arte focaliza o contexto social da produo, circulao e recepo da arte, e

    no a avaliao de obras de arte especficas, o que, a meu ver, funo do crtico. Talvez seja

    interessante saber, por exemplo, por que os Yoruba avaliam um entalhe como esteticamente

    superior a outro (R. F. Thompson 1973), mas isso no nos diz muito a respeito do porqu os

    Yoruba fazem entalhes. A presena de um grande nmero de entalhes, entalhadores e crticos

    de entalhes entre os Yoruba num determinado perodo um fato social, cuja explicao no per-

    tence ao domnio da esttica indgena. Do mesmo modo, as nossas preferncias estticas no

    podem por si s dar conta da existncia dos objetos que coletamos em museus e apreciamos

    esteticamente. Os juzos estticos so apenas atos mentais interiores; j os objetos de arte

    so produzidos e entram em circulao no mundo fsico e social exterior. Essa produo e essa

    circulao tm de ser mantidas por certos processos sociais de natureza objetiva, que esto

    ligados a outros processos sociais (troca, poltica, religio, parentesco, etc.). Se no existissem,

    por exemplo, sociedades secretas como a Poro e a Sande na frica Ocidental, no existiriam

    mscaras Poro e Sande. As mscaras Poro e Sande podem ser consideradas e avaliadas do

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    ponto de vista esttico, por ns e pelo pblico de arte indgena, apenas por causa da presena

    de certas instituies sociais nessa regio. Mesmo que reconhecssemos a existncia de algo

    semelhante a uma esttica como trao do sistema ideacional de toda a cultura, estaramos

    longe de possuirmos uma teoria que pudesse dar conta da produo e circulao de objetos

    de arte especficos em meios sociais especficos. De fato, como j argumentei em outro lugar

    (Gell 1995), no estou de modo algum convencido de que toda cultura tem um componente

    de seu sistema ideacional comparvel nossa esttica. Creio que o desejo de ver a arte de

    outras culturas esteticamente nos diz mais a respeito da nossa prpria ideologia e a venerao

    quase religiosa de objetos de arte como talisms estticos, do que a respeito dessas outras

    culturas. O projeto de uma esttica indgena est essencialmente voltado para o refinamento

    e a expanso das sensibilidades estticas do pblico de arte ocidental, fornecendo o contexto

    cultural dentro do qual os objetos de arte no-ocidentais possam ser assimilados s categorias