Fonoaudiologia Empreendedora.rtf

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CAPTULO 3ESTRATGIAS DE ABORDAGEM DO TEMA "EMPREENDEDORISMO" EM UM REFERENCIAL JUNGUIANO: RELATO DE UMA EXPERINCIA

Cludio Paixo Anastcio de Paula Raquel Ferreira Miranda

Em nossa experincia como professores e psicoterapeutas inicialmente de administradores e futuros administradores e, posteriormente, de estudantes de Fonoaudiologia, tivemos, por diversas vezes, a oportunidade de abordar a influncia de uma dimenso inconsciente na atitude empreendedora. Nessas ocasies, esbarramos constantemente numa viso pragmtica, provavelmente oriunda da utilizao desse conceito no campo das cincias gerenciais, que imagina o confronto com o inconsciente como uma proposta que visa trabalhar certas questes com o objetivo de melhorar a prpria performance nas atividades laborativas visando o sucesso profissional. Embora possamos tomar a mxima freudiana para uma anlise bem sucedida (o indivduo deveria ser capaz de amar e trabalhar) como uma verdade, raramente nos conformamos com um equacionamento direto trabalhar + incremento de performance = sucesso. A idia de performance nessa viso, carrega, em seu bojo, fantasias de controle, eficincia, prestgio e crescimento ... descritas, por Hillman (2001), como um amlgama de idias convencionais e sedimentadas. Embora para um ponto de vista mais ortodoxo essa viso simplista comporte uma "aura" negativa a opinio dos autores que esse posicionamento encerra um formidvel potencial para um "trabalho da alma"l fora do setting tradicional da psicoterapia. Potencial esse, na maioria dos casos, superficialmente trabalhado. AExpresso utilizada como referncia expresso "cultivo da alma", utilizada por Hillman (1995) para descrever o que deveria ser, dentro dos moldes por ele sugeridos, o principal objetivo da psicoterapia. Essa expresso foi extrada de uma parfrase aos poetas Willian Blake e, particularmente, John Keats quando esse prope: "chame o mundo, eu lhe peo, 'o vale do cultivo da alma'. Ento descobrir para que serve o mundo" (Keats apud Hillman, 1995, p.54). Hillman descreve o "Cultivo da Alma" como uma des-literalizao: "aquela atitude psicolgica que suspeita do nvel dado e ingnuo dos acontecimentos e o rejeita para explorar seus significados sombrios e metafricos" (Hillman, 1995, p.55). Essa atitude significaria uma abertura para imaginao que, criativamente, elimina a oposio artificial entre psique e mundo, privado e pblico, interior e exterior; uma atitude que seria de grande valia quando se deseja ir alm das idias fceis, sedimentadas, indiferenciadas e no questionadas.1.

idia da performance empresarialmente eficaz (e, conseqentemente, a expectativa de sucesso) pode, dentro da viso ora proposta, ser utilizada como um manancial de energia que mobilizaria os indivduos para um processo de amplificao e aprofundamento sem precedentes nas abordagens tradicionais sobre o tema. Temos trabalhado, junto ao pblico da FEAD - Minas, numa perspectiva que busca apresentar o contato com o imaginaF e com o inconsciente como uma oportunidade para a individua03 dentro da organizao. Utilizamos como veculo a idia de empreendedorismo (altamente atraente para esse pblico) e temos chamado (no sem ironia) esse trabalho de Aprimoramento de Performance. Essa abordagem foi motivada pela percepo que uma infinidade de treinamentos executivos (alguns mais tericos, outros mais prticos) eram oferecidos para profissionais e estudantes, no s de Cincias Gerenciais, mas a todos aqueles interessados em administrar suas carreiras: negcios, marketing, empreendedorismo, finanas, RH, estratgia, propaganda, direito empresarial e internacional, internet... No entanto, pouco era proposto no sentido de capacitar esses interessados a trabalharem as suas capacidades e dificuldades pessoais, lugar onde residem os meios que podem facilitar ou dificultar o uso de todos aqueles conhecimentos onde foram investidas quantias significativas e horas de treinamento. Persistncia, criatividade, auto-estima, capacidade para construir competncias pessoais e para lidar com as emoes e as tenses tpicas da atividade empreendedora eram considerados pr-requisitos para o sucesso profissional, frmulas eram oferecidas para que as pessoas adquirissem essas habilidades masNome utilizado na obra de Hillman, como um contraponto simples imaginao ou fantasia frouxa, para fazer referncia ao mundus imaginalzs: um campo distinto e privilegiado da imaginao que requer do indivduo mtodos e habilidades perceptuais diferentes daqueles que operam no mundo da senso percepo genrica e das formulaes ingnuas. 3 A conceituao de individuao demanda, por ser uma expresso utilizada de formas diferentes por diferentes correntes, um pouco mais de ateno. Embora o conceito de individuao possa, por exemplo, ser tomado pela Psicologia Social Cognitivista como um campo limitador individual, construdo a partir da sociedade internalizada (em conseqncia do processo de socializao), ndvduao, no presente contextD, sel cDTIypiee!\d"d" de forma diversa. O conceito ser tomado numa viso que remonta ao filsofo Schopenhauer quando este sugere um principium individuationis. Jung aplica esse conceito psicologia entendendo-o como um processo com os seguintes atributos: (1) objetiva o desenvolvimento da personalidade; (2) pressupe e inclui relacionamentos coletivos, isto , no ocorre em estado de isolamento; (3) envolve um lSrau de oposio a normas sociais que no tem uma validade absoluta. Em termos bem genericos a noo individuao poderia ser compreendida como um processo de diferenciao psicolgica que tem como finalidade o desenvolvimento de uma personalidade individual (in-dividual: uma unidade indivisvel, todo) despindo esse ncleo psquico dos falsos invlucros da persona social. Esse processo no ocorreria com a prpria psicologia pessoal sendo sobrepujada em detrimento de alguma misteriosa dimenso mconsciente, etornando o indivduo perfeito, mas familiarizando-o com ambas as instncias numa conscincia crescente de sua realidade psicolgica nica.2

pouco era feito para implic-Ias profundamente nos "mecanismos" por onde essas habilidades eram alimentadas. O movimento desencadeador para esse tipo de mudana necessitaria de uma forma de nsght e percepo que (como afirma Laszlo, 2001) a arte, a literatura e os domnios do esprito proporcionam. O estmulo criatividade proporcionado por essas atividades seria comunicado por palavras e imagens, sons e movimentos, emoes e novas tecnologias. Esse estmulo funcionaria como "gatilho" para produzir nsghts sobre novas possibilidades e perspectivas, problemas locais e globais. Despertando a ateno para as oportunidades e a mudana. 2. Re-conceituando Empreendedorismo Os aspectos discutidos anteriormente tornaram-se fundamentais para que pudssemos trabalhar dentro da viso que sustenta a perspectiva de empreendedorismo adotada pela FEAD - Minas: "Mais importante que conseguir algo ter sido capaz de desenvolver os meios para alcanar esse algo" (Rocha, 2002). Profissionais e direo dessa instituio tem se esforado para romper a viso estreita (ou de senso comum) de que uma atitude empreendedora se vincula exclusivamente atividade de criao de empresas ou a gerao do auto emprego ("uma orientao ou induo para uma atividade, ao, profisso ou trabalho", segundo Rocha, 2002). O conceito empreendedorismo nessa viso estreita tomado como uma atitude de conquista, de superao, de persistncia, de combate e luta por sonhos (um modelo HERICO SOLAR ou um regime de relao DIURNO com o meio ambiente). O regime diurno (segundo Gilbert Durant, 1988) seria marcado pela utilizao da excluso, contradio e identidade como princpios de explicao (separar, discernir, distinguir como princpios verbais). Embora esse regime de relao com o ambiente seja extremamente eficiente em situaes que demandam uma atitude ativa: o empreendedor como um "realizador teimoso e incansvel que nunca desiste ou recua", por desprezar os princpios da analogia e similitude, acaba por conduzir a uma postura de pouca flexibilidade (e adaptabilidade a mudanas) onde a proporo de fracassos se torna estatisticamente to elevada quanto a de iniciativas bem sucedidas. Temos, em nossa proposta junto a FEAD, trabalhado com uma viso ampla da atitude empreendedora onde o indivduo adote

como estilo de vida uma abertura para leituras complexas do ambiente e de si mesmo adquirindo no somente a capacidade de ao e de reao diante de incertezas, a capacidade de inovao e de produzir mudanas em si mesmo e no meio ambiente mas tambm, exercitar uma atitude mais flexvel e tica diante dos ambientes construindo meios de buscar uma auto-realizao. Ou seja, integrando nessa viso empreendedora caractersticas de um regime NOTURNO de relao com o meio, caracterizado pelo compromisso, indulgncia e fuso como princpios de explicao. Entretanto, como Durant deixa claro, no se trata simplesmente de caminhar para o oposto, adotando uma atitude marcada pela vontade de unio e mecanismos de explicao (analogia ou similitude). Deixando o modelo anterior e adotando um novo posicionamento exemplificado por esquemas verbais como confundir, descer, possuir, ligar, aproximar e penetrar o indvduo estar apenas trocando um problema por outro. Estar adotando uma atitude MSTICA, matizada por atitudes de redobramento, perseverao, viscosidade (recusa em dividir e separar), realismo sensorial e miniaturizao. O objetivo do trabalho proposto criar condies para que os participantes criem condies de unir ao princpio herico, solar e masculino um princpio noturno e feminino construindo um regime SINTTICO de relao: uma atitude disseminatria e dramtica que enseja causalidade e fim, que tem como esquemas verbais reunir, amadurecer, progredir, voltar, enumerar, e que possui um carter copulativo unindo presente, passado e porvir (uma confluncia amadurecida das atitudes herica e mstica).3. Aprimoramento de Performance": estratgia de abordagem do problema11

A perspectiva por ns adotada tem buscado utilizar o dinamismo criador do imaginrio em funo da construo de uma