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Flutuação dos modos indicativo e subjuntivo em orações iniciadas

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    633Linguagem, Teoria, Anlise e Aplicaes (8)

    Flutuao dos modos indicativo e subjuntivoem oraes iniciadas pelo advrbio talvez breves

    exploraes com base em corpus

    Juliana da Silva Neto (PUC-Rio)*1 | Cludia Freitas (PUC-Rio)*2

    *1 Mestranda do Programa de Ps-graduao em Estudos da Linguagem do Departamento de Letras da PUC-Rio e bolsista CAPES.

    *2 Professora doutora do mesmo Programa e colaboradora da Linguateca.

    Este trabalho apresenta os resultados preliminares de uma pesquisa em que se buscou verificar a flutuao entre os modos subjuntivo e indicativo nas oraes independentes introduzidas pelo advrbio de dvida talvez, com o objetivo de contribuir para a descrio do portugus tendo em vista o seu ensino como lngua no materna. A metodologia baseou-se em explorao de dois corpora de lngua portuguesa, a saber: a coleo CHAVE (corpus majoritariamente de textos jornalstico) e o Museu da Pessoa (corpus de transcries de entrevistas), ambos disponibilizados pelo projeto AC/DC, mantido pela Linguateca. Os principais resultados da pesquisa apontam para a maior flutuao entre os dois modos na linguagem oral e informal, dado que a maior ocorrncia do modo indicativo nessas oraes se deu no corpus Museu da Pessoa. Os resultados tambm indicam que essas oraes so construdas com as formas nominais dos verbos, sobretudo no corpus CHAVE.

    1. IntroduoEste trabalho visa a contribuir para a descrio do portugus para a rea de

    ensino de portugus como segunda lngua para estrangeiros, tendo a explorao de corpora eletrnico como subsdio para a o estudo e descrio lingustica (Sampson, 2002; Santos, 2008, 2014).

    Um fenmeno que oferece desafios para o ensino de portugus para estrangeiros no Brasil a flutuao entre os modos subjuntivo e indicativo. Tendo isso em vista, o objetivo deste artigo apresentar os resultados preliminares de uma pesquisa cujo propsito foi o de analisar a flutuao entre os modos indicativo e subjuntivo em oraes iniciadas pelo advrbio de dvida talvez, atravs da explorao de dois corpora de lngua portuguesa, tomados como representaes das variantes formal/escrita e informal/falada considerando as seguintes perguntas norteadoras: i) Em qual dos corpora a flutuao entre indicativo e subjuntivo maior?; ii) Quais os tempos do subjuntivo so mais usados com talvez?; iii) Quais tempos do indicativo so mais usados com talvez?; iv) Na estrutura talvez+subjuntivo, utilizam-se tempos do modo subjuntivo para os quais no h expectativa?, e v) As oraes iniciadas por talvez so realizadas com quais formas nominais do verbo?

    A pesquisa foi motivada pela constatao de uma das autoras, em sua prtica de professora de portugus como lngua no materna, de que as oraes iniciadas

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    Flutuao dos modos indicativo e subjuntivo em oraes iniciadas pelo advrbio talvez

    Juliana da Silva Neto | Cludia Freitas

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    por talvez, na modalidade oral, sobretudo, ocorrem no s com o modo subjuntivo, modo recomendado pela norma padro culta (Bechara, 2009, p. 280), mas com o modo indicativo. Apesar desta exigncia da norma padro, no raro encontram-se enunciados como os listados abaixo:

    (1) FSP940116-027: Mas se ela fosse utilizada de forma racional, talvez no seria preciso investir nesse setor durante dois ou trs anos.

    (2) FSP950720-112: Batize seu filho e talvez ele conseguir um pargrafo na Joyce.

    (3) FSP940129-164: Por exemplo, ningum talvez faz idia, e no a faz principalmente o governo, que entretanto a quem mais interessava saber

    (4) E144-BR-235: Vocs talvez so muito jovens, no devem lembrar disso.

    (5) E206-BR-60 : Quando entrei l -- talvez eu tinha 15 anos de idade -- pra quem vem de famlia judaica como eu, depois de fazer a cerimnia bar mitzvah, aos 13 anos eu ia na congregao na qual minha famlia estava vinculada e tinha duas vezes por semana filosofia judaica e outras questes.

    Os enunciados (1), (2) e (3) foram retirados do corpus CHAVE (Santos e Rocha, 2005) e os enunciados (4) e (5), do corpus Museu da Pessoa (Santos et al. 2004). Nestes enunciados, em que se espera o uso do modo subjuntivo, h, pelo contrrio, o uso do modo indicativo.

    Os autores de compndios gramaticais do portugus (Bechara, 2009; Cunha e Cintra, 2001), ao tecerem suas consideraes sobre os modos subjuntivo e indicativo, raramente observam casos em que h interferncia do modo indicativo em enunciados em que previsto o uso do modo subjuntivo. As oraes independentes iniciadas por talvez, especificamente, so mencionadas apenas por Bechara (2009). O gramtico afirma que o subjuntivo, alm de ser empregado em outras oraes, nas independentes optativas, nas imperativas negativas e nas subordinadas em que o fato considerado como incerto, duvidoso ou impossvel de se realizar, empregado nas dubitativas com o advrbio talvez (Bechara, 2009, p. 280).

    No mbito da pesquisa acadmica, muitos trabalhos sobre o uso do modo subjuntivo em contextos em que h interferncia do modo indicativo esto sendo desenvolvidos com fim de analisar, dentre muitos fatores, aqueles que levam ao uso do modo indicativo num enunciado cujos itens lexicais, gramaticais ou morfo-sintticos exigem o uso do subjuntivo. Destacam-se, entre eles, os trabalhos de Gonalves (1995), Medeiros (1996), Gonalves (2003) e Almeida (2010), mas muitos outros poderiam figurar aqui.

    1.2. O que um corpus e qual a sua relao com a descrio da lngua portuguesa?Como o presente trabalho baseado em explorao de corpus, torna-se necessrio

    esclarecer o que se entende por corpus. Considera-se que corpus uma coletnea de

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    textos autnticos, proferidos ou escritos em situaes espontneas de fala. A coletnea que compe um corpus foi reunida com algum propsito, geralmente o de pesquisa em lnguas; alm disso, hoje em dia, um corpus est em formato eletrnico e possui dimenso considervel, o que justifica o seu processamento automtico. (Sinclair, 2005; Santos, 2008; Freitas, 2015).

    Por se considerar aqui que a descrio de qualquer fenmeno do portugus e de qualquer lngua enriquecida com a anlise de corpus, que proporciona outra viso sobre os fenmenos lingusticos, essencial explicitar a relao entre descrio de uma lngua e, em especial, da lngua portuguesa, e corpus no modo como est sendo entendido aqui. A relao mais bvia que h entre corpus e descrio lingustica que o corpus fornece material para tal descrio. O corpus seria, ento, a melhor fonte de dados para estudar um fenmeno do portugus e para, a partir da, descrev-lo. Robert de Beaugrande (2002) e Geoffrey Sampson (2002) defendem essa posio e outras assumidas nesse trabalho. Para os autores, o corpus pode ser um instrumento de mudana na atividade de descrio e estudo lingustico, porque as tecnologias disponveis hoje em dia possibilitam a manipulao de grandes volumes de dados lingusticos, permitindo a explorao de grandes quantidades de texto. Esta nova atitude oferece ao linguista novas e mais poderosas possibilidades de generalizar sobre a lngua, em estudos respaldados por dados lingusticos autnticos.

    1.3. Como se relacionam corpus e teoria lingustica?Como afirma Freitas (2015), as diferentes maneiras de aproximar corpus e pesquisa,

    ou de relacionar corpus e teorias, costumam ser classificadas como abordagens corpus-driven (ou guiada por corpus) ou abordagens corpus-based (baseada em corpus). Ainda que, mais recentemente, essa discusso (e distino) venha se diluindo, ela sintetiza no apenas diferentes maneiras de relacionar corpus e linguagem, mas tambm diferentes opes epistemolgicas.

    Segundo Freitas (2015), quando, a partir dos anos 1990, grandes corpora eletrnicos comeam a participar sistematicamente da prtica lingustica, tem-se um ambiente propcio para pr em xeque os modelos tericos vigentes. Nesse contexto, toma corpo boa parte do que se entende por uma abordagem corpus-driven, em que comum a referncia a dados ou fenmenos que emergem do corpus. Enfatiza-se a obteno desinteressada de dados e a imparcialidade (ou distanciamento) do investigador, responsvel por relatar dados ou que, a partir da observao distanciada, ir construir suas hipteses e generalizaes. O corpus o espao que promove uma observao neutra dos fatos da lngua, que, por sua vez, ir promover a criao de hipteses. Ainda de acordo com Freitas (2015), na abordagem corpus-based, o corpus assume o espao de auxiliar na investigao de hipteses prvias, servindo ora (i) como fonte de exemplos, ora (ii) como fonte de dados capazes de validar, refutar ou especificar uma

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    dada teoria. Neste caso, seriam as hipteses, ou questes de pesquisa, as responsveis por direcionar a observao dos dados, capazes de dar novos contornos a hipteses e questes previamente formuladas, em um processo dialgico. Frequentemente, a utilizao da tecnologia tambm vista como garantia de neutralidade e objetividade na abordagem corpus-based, mostrando como a polarizao entre ambas as perspectivas no to clara.

    Com Beaugrande (2002), tambm reconhecemos que no h mais espao para o abismo que separa, nos estudos atuais da linguagem, dados e teoria..

    Rajagopalan (2007), cujo posicionamento muito se assemelha ao de Beaugrande (2002), critica a criao de uma teoria lingustica a partir de conceitos previamente estabelecidos e o fato de haver seleo de dados para fundamentao desses conceitos:

    Entre essas ortodoxias est a ideia de que a anlise de uma lngua x deve suceder formulao de uma teoria a respeito do que a lngua, isto , lngua em seu sentido genri

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