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Flavia Deluce

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Text of Flavia Deluce

  • Inglaterra, 1950. Na manso Buckshaw, Flavia de Luce mora com sua excntrica famlia: Coronel de Luce, o pai vivo e taciturno, colecionador obsessivo de se-los, e as duas esnobes irms mais velhas, Daphne e Ophelia. H tambm o esqui-sito jardineiro Dogger e a mal-humorada cozinheira Sra. Mullet, cujos dotes culi-nrios deixam muito a desejar a torta de creme que ela prepara comparada por Flavia a uma arma letal.

    Flavia vive num mundo prprio. Refu-giada no velho laboratrio que perten-ceu me, diverte-se criando venenos inofensivos que servem apenas s suas pequenas vinganas domsticas e aprofundando seus conhecimentos em qumica, sua matria preferida. Afinal, aps a morte da me, a monotonia se ins-taurou naquele lar.

    Certo dia, porm, a rotina da casa assustadoramente abalada. Um pssaro morto com um selo raro espetado no bico deixado porta. Em seguida, o Coronel de Luce recebe a visita de um estranho, e uma acalorada discusso entre os dois deixa todos alarmados. E, para concluir a sucesso de eventos bizarros, Flavia en-contra algum estendido no jardim o homem que discutiu com seu pai no dia anterior e, ao se aproximar dele, ouve seu ltimo suspiro.

    Por iniciativa prpria, Flavia dire-ciona seus conhecimentos de qumica, seu humor sarcstico e seu raciocnio rpido para uma nova tarefa: a inves-tigao do crime. Seu pai o princi-pal suspeito, mas ela sabe que, apesar do jeito reservado, ele no seria capaz disso. Ento, quem poderia ter sido? A destemida Flavia inicia sozinha uma jornada para inocentar o pai e descobrir o verdadeiro assassino. Ah, talvez seja importante dizer que Flavia tem apenas 11 anos...

    gil, divertido e emocionante, Flavia de Luce e o mistrio da torta o primeiro volume das aventuras da pequena detetive especialista em venenos. Em seu roman-ce de estreia, Alan Bradley nos apresen-ta uma das mais singulares e cativantes heronas da recente fico.

    Leitores de mais de 27 pases j se ren-deram ao encanto de Flavia de Luce. Voc certamente tambm se render!

    Alan Bradley canadense, formado em Engenharia e, no incio de sua carreira, tra-balhou com comunicao, em rdio e TV. Ingressou na literatura com divertidas e ousadas histrias para crianas. Presidiu al-gumas associaes de escritores no Canad e foi membro-fundador da The Casebook of Saskatoon, sociedade secreta dedi-cada ao estudo das aventuras de Sherlock Holmes. Ganhou, recentemente, o prmio da Crime Writers Associations, o Debut Dagger 2007 (importante prmio brit-nico concedido aos escritores de romances policiais e de suspense) por Flavia de Luce e o mistrio da torta, antes mesmo de o livro ser publicado. Mora em Kelowna, British Columbia, com a mulher e dois gatos.

    Eu gostaria de poder dizer que meu corao ficou chocado, mas ele no ficou. Eu gostaria de poder dizer que

    meu instinto foi sair correndo, mas isso no seria verdade. Em vez disso, fiquei olhando

    maravilhada, saboreando cada detalhe: os dedos se agitando levemente, a quase imperceptvel turvao bronze metlico que aparece sobre a pele, como se, diante dos meus prprios olhos,

    ela estivesse sendo bafejada pela morte. E, ento, a quietude total.

    Eu gostaria de poder dizer que fiquei com medo, mas no fiquei. Muito pelo contrrio. Aquela era, de longe, a coisa mais interessante

    que acontecera em toda a minha vida.

    Conhea Flavia de Luce. Uma detetive perfidamente inteligente, brilhante, imprevisvel, inabalvel

    e com apenas 11 anos. e o m

    istrio da torta al

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    Alan Bradley

    by

    Jeff

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    ISBN 978- 850209227-3

    9 788502 092273

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    Dentro do armrio estava tudo escuro como sangue velho. elas me empurraram para l e trancaram a porta. Inspirei for-te, lutando para permanecer calma. Tentei contar at dez a cada inspirao, e at oito ao liberar o ar lentamente para dentro das trevas. Para minha sorte, elas tinham pren-dido a mordaa to apertado em minha boca aberta que minhas narinas ficaram desobstrudas, e fui capaz de encher vagarosa e plenamente o pulmo com o ar viciado e mofado.

    Tentei enfiar as unhas por baixo do xale de seda que me amarrava as mos atrs das costas, mas como eu sempre as ro at a carne, no tinha como agarrar o tecido. Sorte eu ter me lembrado de juntar as pontas dos dedos, usando-as como dez bases pequenas e firmes para afastar as palmas, quando elas amarraram fortemente os ns.

    Girei os pulsos, apertando um contra o outro at sentir um pouco de folga. Usei os polegares para puxar a seda para baixo at os ns ficarem entre minhas palmas e, ento, entre meus dedos. Se elas tivessem sido espertas o bastante para pensar

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    em amarrar meus polegares juntos, eu nunca teria conseguido escapar. Que completas idiotas elas eram.

    Com as mos por fim livres, me desfiz rapidamente da mordaa.Agora, a porta do armrio. Mas, primeiro, para certificar-

    -me de que elas no estariam de tocaia me aguardando, agachei-me e espiei atravs do buraco da fechadura que estava livre. Graas aos cus, elas tinham levado a chave. Ningum vista! Com exceo do perptuo emaranhado de sombras, tras-tes velhos e deplorveis bugigangas, o comprido sto estava vazio. A rea estava livre.

    Esticando a mo acima da cabea no armrio, desatarraxei o gancho de um cabide para casaco. Enfiei a parte curva no buraco da fechadura e usei a outra ponta como alavanca. Depois de cutucar e futucar um pouco, o mecanismo produziu um gratificante clique. Foi quase fcil demais. A porta se abriu, e eu estava livre.

    Desci aos pulos a larga escadaria de pedra at o vestbulo, paran-do na porta da sala de jantar s o tempo suficiente para jogar minhas tranas para trs por cima dos ombros, como uso sempre.

    O pai ainda insistia em que o jantar fosse servido na hora exata e comido na macia mesa de carvalho, exatamente como quando a me ainda estava viva.

    Ophelia e Daphne ainda no desceram, Flavia? ele per-guntou em um tom irritado, olhando por cima da ltima edio do British Philatelist, aberto ao lado da sua carne com batatas.

    Eu no as vejo h sculos respondi.Era verdade. Eu no as via desde que me amordaaram e me

    vendaram, depois me arrastaram com as mos amarradas pelas escadas sto acima e me trancaram no armrio.

    O pai olhou para mim por cima dos culos pelos quatro segundos de sempre antes de voltar a murmurar algo sobre seus tesouros.

    Lancei-lhe um sorriso suficientemente amplo para apre- sentar-lhe uma boa viso do aparelho que engaiolava meus

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    dentes. O pai sempre gostou de ser lembrado de que seu dinheiro estava sendo bem empregado. Mas desta vez ele estava preocupado demais para notar.

    Levantei a tampa da tigela de porcelana com legumes e, das profundezas de suas borboletas e framboesas pintadas mo, pes-quei uma generosa colherada de ervilhas. Usando a faca como rgua e o garfo como ancinho, organizei as ervilhas para que formassem meticulosas fileiras e colunas ao longo do meu prato; fileira aps fileira de pequenas esferas verdes, espaadas com uma preciso que teria deleitado o corao do mais exigente relojoeiro suo. Ento, comeando da esquerda, espetei a primeira ervilha com o garfo e a comi.

    Foi tudo culpa de Ophelia. Ela, afinal, tinha dezessete anos e, portanto, esperava-se que possusse um mnimo de maturida-de. Que ela se enturmasse com Daphne, que tinha treze, simples-mente no era justo. Suas idades combinadas totalizavam trinta anos. Trinta anos! contra meus onze. No era apenas antiespor- tivo, era absolutamente desprezvel. E simplesmente clamava por vingana.

    Na manh seguinte, eu estava atarefada no meio dos frascos e vasos do meu laboratrio qumico, no piso superior da ala leste, quando Ophelia invadiu o recinto e perguntou:

    Cad meu colar de prolas?Encolhi os ombros e respondi: No sou guardi das suas bugigangas. Eu sei que voc pegou. As pastilhas de menta que estavam

    na minha gaveta de lingerie tambm sumiram, e observei que as pastilhas de menta desaparecidas nesta casa parecem acabar sempre na mesma boquinha suja.

    Ajustei a chama de uma lamparina a lcool que estava esquen-tando uma proveta de lquido vermelho.

    Se est insinuando que minha higiene pessoal no tem o mesmo padro da sua, voc pode ir lamber minhas galochas.

    Flavia!

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    Bem, voc pode, sim. Estou cansada de ser culpada por tudo, Felinha.

    Mas minha virtuosa indignao foi interrompida brusca- mente quando Ophelia espiou com olhinhos mopes para dentro do frasco cor de rubi, que justamente comeava a ferver.

    O que esta massa grudenta no fundo? pergun-tou, dando pancadinhas no vidro com suas unhas compridas e esmaltadas.

    um experimento. Cuidado, Felinha, cido!O rosto de Ophelia ficou branco. So as minhas prolas! Pertenciam mame!Ophelia era a nica das filhas de Harriet que se referia a ela

    como mame: a nica de ns velha o bastante para ter quais-quer lembranas reais da mulher de carne e osso que nos car-regou em seu corpo, fato que ela nunca se cansava de nos lem-brar. Harriet morrera em um acidente de alpinismo quando eu tinha apenas um ano, e no se falava muito dela em Buckshaw.

    Se eu ficava com inveja das lembranas de Ophelia? Se eu ficava ressentida com elas? No, era mais profundo que isso. De um jeito um tanto estranho, eu desprezava as lembranas dela sobre nossa me.

    Ergui os olhos lentamente do meu trabalho para que as len-tes redondas dos meus culos relampejassem um brilho de luz branca e vazia para ela. Eu sabia que, sempre que fazia isso, Ophelia tinha a horrenda impresso de que estava na presena de algum cien