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    Vera Vale Do tecer ao remendar: os fios da competncia socio-emocional

    e d u c a o / f o r m a o

    Do tecer ao remendar: os fios da competncia socio-emocional

    Vera do Vale

    Escola Superior de Educao Instituto Politcnico de Coimbra

    Resumo

    A educao de infncia surge como uma importante estratgia de preveno ao ajudar as crianas a desenvolver com segurana as suas competncias sociais e emocionais. Por seu lado os educadores devem estar conscientes da importncia da competncia social e dos comportamentos interpessoais como requisito essencial para uma boa adaptao da criana, tanto no presente, como no seu desenvolvimento futuro.

    Este artigo desenvolve-se em torno da reflexo acerca do desenvolvimento das competncias sociais e emocionais das crianas em idade pr-escolar.

    Palavras-chave

    Competncia emocional, Competncia social, Educao de infncia

    Abstract

    In this article, we present a reflection about the development of social and emotional competence in preschool age. Research provides extant evidence of the relation between social competence, mental health and academic success. The interpersonal contributors and the relational context in which socialization takes place is also considered. Finally, extant information is detailed on the modeling, contingency and teaching mechanisms of socialization of emotions.

    Key-words

    Emotional competence, Social competence, Early childhood education

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    1. A Educao socio-emocional no jardim de infncia

    A instituio Escola tem tido a seu cargo a tarefa de desenvolver nas crianas mais

    novas competncias ao nvel da leitura, da escrita e da matemtica. Mas tambm misso

    da escola preparar as crianas para desempenharem com sucesso os mltiplos papis que

    as esperam no futuro. Com esta carga acrescida, a escola tem que alargar o seu mbito

    de esforos para incluir outra gama de competncias, como seja ajudar as crianas a

    desenvolverem atitudes pessoais, valores, competncias interpessoais que sirvam, ento,

    de sustentculo para os papis que elas iro ter que assumir: serem estudantes, colegas,

    amigos, membros de uma comunidade, pais. De entre estas competncias prefiguram-se

    as competncias socio-emocionais.

    Saarni (1999, p. 57) define a competncia emocional como a demonstrao da

    eficcia pessoal nos relacionamentos sociais que evocam emoo. Esta definio

    desmistifica um pouco a complexidade da competncia emocional, e fala da eficcia

    pessoal aplicada aos relacionamentos sociais, como sendo a capacidade de alcanar um

    resultado desejado. Quando a eficcia pessoal aplicada aos relacionamentos sociais, a

    pessoa pode, ao mesmo tempo que reage emocionalmente, aplicar os seus conhecimentos

    e a sua significao sobre as emoes. Fica assim implcito que as reaces emocionais

    esto imbudas de um significado social: a competncia emocional inseparvel do

    contexto cultural (Saarni, op. cit, p. 58). Toda a nossa relao social influencia as nossas

    emoes e, por sua vez, as nossas emoes influenciam os nossos relacionamentos.

    Saarni defende ainda que como a competncia emocional est ligada a conceitos como

    compaixo, autocontrolo, justia e senso de reciprocidade, tambm no se pode separar

    competncia emocional do senso moral.

    A principal tarefa que se impe a uma criana que entra no jardim de infncia

    precisamente a competncia emocional para gerir as suas emoes que, por sua vez, se

    encontra directamente relacionada com as interaces sociais, as quais so fundamentais

    para o aumento da capacidade de relacionamento com os outros (Saarni, 1990).

    Para maximizar a competncia social necessrio perscrutar cuidadosamente

    como que a competncia emocional permite criana mobilizar recursos pessoais e

    ambientais, para se relacionar com os seus pares. Sabe-se que, se uma criana mostrar

    determinados padres de expressividade ela provavelmente mais pr-social do que

    outra que esteja sempre triste ou zangada, pois provavelmente esta estar mais sozinha.

    As crianas que percebem melhor as emoes tm mais relaes positivas nas suas

    interaces com pares. Os que percebem as emoes dos outros, interagem com mais

    sucesso, quando um amigo se magoa ou est zangado. A criana que consegue falar das

    suas emoes tambm melhor a negociar as disputas entre os seus pares (Denham,

    1998). Esta percepo emocional ajuda a criana a reagir adequadamente, e a capacidade

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    de regular as emoes ajuda-a a ter mais sucesso junto dos pares.

    A educao pr-escolar surge, ento, como uma importante estratgia de preveno

    para ajudar as crianas a desenvolverem com segurana as suas competncias sociais e

    emocionais. Estas competncias incluem a auto-conscincia, o controlo dos impulsos, a

    empatia, a escolha de perspectiva, a cooperao, a resoluo de conflitos, e tornam-se

    ferramentas-chave quando a criana na adolescncia tem que fazer face a apelos, por

    exemplo, ao uso de substncias ou violncia.

    Analisando alguns dos programas dedicados educao socio-emocional (Bisquerra,

    2000; Goleman, 1997; Valls & Valls, 2000) encontrmos objectivos gerais recorrentes

    que agrupmos em cinco categorias:

    1. Auto-conscincia emocional: adquirir um melhor conhecimento das prprias emoes, reconhecer as diferenas entre sentimentos e aces e compreender as causas dos sentimentos;

    2. Gesto das emoes: desenvolver habilidades para controlar as prprias emoes, prevenir os efeitos prejudiciais das emoes negativas (por exemplo, melhorar a capacidade para expressar verbalmente a ira sem lutar), desenvolver habilidades de resistncia frustrao, desenvolver habilidades para gerar emoes positivas;

    3. Controlar produtivamente as emoes: desenvolver habilidades de auto-motivao, maior capacidade de concentrao nas tarefas e maiores responsabilidades, desenvolver a capacidade de saber esperar por recompensas a longo prazo em detrimento de recompensas imediatas;

    4. Empatia: desenvolver a capacidade de aceitar a perspectiva do outro, desenvolver sentimentos de empatia e sensibilidade com os outros, e desenvolver a capacidade de escuta;

    5. Gerir relacionamentos: desenvolver competncias para resolver conflitos e negociar acordos, desenvolver a capacidade de cooperao, de partilha e de ajuda.

    Todos estes objectivos tm como convergncia o aumento das capacidades sociais

    e de relaes inter e intrapessoais satisfatrias, melhor adaptao escolar, social e

    familiar, bem como a diminuio de pensamentos auto-destrutivos e violentos, o que

    ajuda a construir uma boa auto-estima na criana. Assim, a educao socio-emocional

    toma a forma de preveno primria para uma conduta anti-social, tentando minimizar

    a vulnerabilidade s disfunes.

    Mas uma questo se impe: a educao emocional mais uma rea de contedo a

    somar s j existentes na educao pr-escolar? Apesar de termos tido acesso a vrios

    programas de educao emocional, que se encontram implementados sobretudo nos

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    EUA, e com ganhos positivos em termos de resultados, defendemos que os contedos da

    educao emocional devem ser integrados, de forma transversal, nas prticas curriculares

    para a educao pr-escolar. Se a educao socio-emocional vista como um processo

    contnuo e permanente, no pode ser determinado um horrio durante a semana para

    ensinar s crianas a gesto emocional. At porque no seio de um grupo de crianas,

    as emoes so transmitidas tanto do adulto para a criana, como da criana para o

    adulto, como de criana para criana. Muitos educadores no se do conta, por vezes,

    dos sinais aos quais as crianas so mais susceptveis, muito menos das circunstncias

    que provocam respostas emocionais nas crianas. O prprio ambiente fsico (estrutura

    da sala, mobilirio, luz, acstica, ventilao) pode estimular emoes de prazer ou de

    raiva. O mesmo se passa em termos da atmosfera da sala, do tom de voz do educador,

    do barulho, do tamanho do grupo, das informaes ou das pistas visuais que o educador

    transmite.

    Por outro lado, as crianas acreditam que o educador sente aquilo que demonstra e

    no seu comportamento que elas se vo concentrar. At ao perodo da adolescncia as

    crianas no compreendem situaes emocionais complexas, nem to pouco percebem

    as explicaes que se possam dar sobre determinadas intenes que no so visivelmente

    explcitas. na primeira infncia que as crianas aprendem a rotular as emoes, mas s

    muito mais tarde aprendem a distinguir as manifestaes emocionais comportamentais.

    Se algum assume um tom de voz assustador, a criana interpreta isso como uma emoo

    de raiva, por mais explicaes que se possa dar em contrrio.

    Tambm as investigaes longitudinais que tm vindo a ser feitas demonstram que

    existe uma relao entre a competncia social na infncia e o posterior desenvolvimento

    psicolgico e acadmico. As relaes interpessoais so a mais importante fonte de

    gratificao e prazer para a maioria das pessoas de todas as idades, traduzindo-se em

    solido e angstia a incapacidade de iniciar e manter essas relaes (Ladd, 1990, citado

    por Katz & MacClellan, 1997).

    2. O educador e o desenvolvimento de competncias socio-emocionais na criana

    fundamental que os currculos destinados educao pr-escolar contemplem

    o desenvolvimento das competncias socio-emocionais e que os educadores se

    consciencializem da sua importncia vital e criem um ambiente propcio sua

    implementao.

    O des