Dissertacao guilhermesauerbronn

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  • 1. UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO CENTRO DE LETRAS E ARTES ESCOLA DE MSICA PS-GRADUAO EM MSICA O PIANISTA BRASILEIRO: DO "MITO" DO VIRTUOSE REALIDADE DO INTRPRETE GUILHERME ANTONIO SAUERBRONN DE BARROS

2. RIO DE JANEIRO, JULHO DE 1998 GUILHERME ANTONIO SAUERBRONN DE BARROS O PIANISTA BRASILEIRO: DO "MITO" DO VIRTUOSE REALIDADE DO INTRPRETE Dissertao apresentada Escola de Msica da Universidade Federal do Rio de Janeiro, como requisito parcial obteno do ttulo de Mestre em Msica, sob a orientao da Dr Vanda Lima Bellard Freire (UFRJ) e co- orientao da Dr Martha Tupinamb de Ulha (Uni-Rio). 3. ii RIO DE JANEIRO JULHO /1998 FICHA CATALOGRFICA Barros, Guilherme Antonio Sauerbronn de, 1971 O Pianista Brasileiro: Do Mito do Virtuose Realidade do Intrprete. Rio de Janeiro. UFRJ, Escola de Msica, 1998. vii 114p. Dissertao. Mestre em Msica (Piano) 1. Educao musical. 2. Formao do pianista I. Universidade Federal do Rio de Janeiro II. Ttulo 4. iii RESUMO Nosso objeto de estudo o pianista erudito brasileiro: sua histria, sua formao musical, suas perspectivas futuras. Com o objetivo de compreender as razes da tradio pianstica no Brasil, realizamos uma reviso bibliogrfica que deu origem ao primeiro captulo. Cobrimos um perodo que principia em 1808 e termina nas primeiras dcadas do sculo XX, procurando relacionar as grandes transformaes pelas quais o pas passou nesse perodo ao papel do piano na sociedade brasileira. Em seguida, realizamos entrevistas com os pianistas e pedagogos Heitor Alimonda, Saloma Gandelman e Luis Carlos de Moura Castro. No segundo captulo, elaborado a partir dessas entrevistas, tratamos da histria do piano no Brasil ao longo do sculo XX e discutimos aspectos relacionados ao trabalho e formao do intrprete de msica erudita. A fim de embasar essa discusso, escolhemos como referencial terico a "Esttica - Teoria da Formatividade" de Luigi Pareyson (1918-1991). Pareyson analisa a obra de arte a partir de um ponto de vista dinmico, "formativo" e dedica especial ateno ao processo interpretativo. Nosso objetivo no era chegar a concluses absolutas ou definitivas. Confirmamos porm a nossa premissa de que o ensino de piano erudito no Brasil necessita de reformulao, no sentido de reaproximar o intrprete da criao musical e preparar o msico para o mercado. 5. iv ABSTRACT The subject of this work is the Brazilian classic pianist: his history, his education, his future perspectives. With the purpose of finding the roots of pianistic tradition in Brazil, we undertook a bibliographical research that originated the first chapter. This chapter covers a period that begins in 1808 and ends in the first decades of the 20th century. We sought to relate the great changes that took place in Brazil during this period with the role of the piano in the Brazilian society. After that, we conducted a series of interviews with the pianists and pedagogues Heitor Alimonda, Saloma Gandelman and Luis Carlos de Moura Castro. These interviews were the basis for the elaboration of the second chapter, in wich we discuss piano history in Brazil in the 20th century, as well as aspects related to the education and work of the classical interpreter. To base these discussions we have chosen the "sthetics - Theory of Formativity", from Luigi Pareyson (1918-1991). Pareyson considers the work of art from a dynamic point of view and has a particular interest in the concept of interpretation. Our goal was not to reach absolute or definitive conclusions. Nevertheless, we have confirmed our premise that the classical pianist's education must change, so that the interpreter gets more acquainted with musical creation and more versatile as a professional. 6. v AGRADECIMENTOS A Marta Ulha, Paulo Pinheiro, Luis Carlos, Mnica, Teresinha, Laura, Tiago, Theodoro, Jacintha, Vanda Freire e CAPES. 7. vi NDICE Pgina RESUMO iv ABSTRACT v INTRODUO ........................................................................................................... 2 1 CAPTULO ......................................................................................................... 5 2 CAPTULO ........................................................................................................ 43 CONCLUSO ............................................................................................................ 95 BIBLIOGRAFIA ....................................................................................................... 102 8. vii "(...) os pensamentos postos no papel nada mais so que pegadas de um caminhante na areia: vemos o caminho que percorreu, mas para sabermos o que ele viu nesse caminho, precisamos usar nossos prprios olhos." Schopenhauer, Sobre Livros e Leitura, 292 9. 2 INTRODUO Este trabalho fruto de um interesse por questes relativas carreira de pianista concertista no Brasil e teve origem na minha prpria experincia como aluno de piano. Minha formao inicial foi feita atravs de professores particulares e teve prosseguimento na Universidade, nos cursos de Bacharelado e de Mestrado. Foi principalmente na Universidade que eu pude observar, a partir do convvio com msicos de outras reas e que traziam uma experincia musical diferente da minha, as contradies que envolviam o trabalho do pianista erudito nos dias de hoje. Contando com um pblico numericamente pouco expressivo, sua msica no tem muito valor para o mercado fonogrfico. Isolado no estudo dirio do instrumento, ele raramente participa de atividades musicais coletivas. Esses problemas se tornam ainda mais graves quando pensamos no contexto brasileiro, onde existe uma forte tradio musical popular e onde os meios de comunicao so dominados pela cultura de massa. Como explicar ento a fora e a imutabilidade da tradio pianstica no Brasil ao longo do sculo XX? A resposta se encontra nas origens dessa tradio, no prprio surgimento do pianista erudito brasileiro. Ele surge da cultura das classes mais favorecidas e ainda hoje um smbolo dessa cultura. Atualmente, sua situao semelhante de um nobre que j no possui fortuna, mas ainda mantm as aparncias e o seu ttulo. Se no for capaz de assumir as dificuldades que envolvem sua profisso, tender cada vez mais a fechar-se para o mundo. Ao contrrio, encarando de 10. 3 frente sua situao, ser talvez capaz de modific-la e de modificar-se a si mesmo. Neste trabalho, defendemos o princpio de que, tanto a formao como os objetivos profissionais do pianista erudito precisam ser reformulados, a fim de que ele venha a se tornar um intrprete melhor preparado e um msico mais verstil. O trabalho foi dividido em dois captulos: o primeiro, essencialmente histrico, trata do processo de assimilao do piano pela sociedade brasileira e do surgimento da tradio pianstica no Brasil. Esse captulo abrange um perodo que vai do incio do sculo XIX, com a transferncia da corte portuguesa para o Rio de Janeiro em 1808, at as primeiras dcadas do sculo XX, quando pela primeira vez pianistas brasileiros alcanam prestgio internacional. O segundo captulo foi elaborado a partir de trs entrevistas, realizadas com os seguintes pianistas: Heitor Alimonda, Saloma Gandelman e Luis Carlos de Moura Castro. As entrevistas foram, segundo a definio de Selltiz, do tipo no estruturado 1. As perguntas no foram pr estabelecidas, obedecendo, porm, a um roteiro de tpicos relativos ao trabalho e histria do pianista intrprete no Brasil. Os entrevistados puderam desenvolver suas respostas com liberdade, atendo-se aos temas e aos fatos que consideraram mais importantes. O contedo das entrevistas foi ento dividido em assuntos e deu origem a dez sees: ESTUDOS DE FORMAO ESCOLAS PIANISTICAS O PUBLICO E OS CONCERTOS REPERTORIO 1MARCONI, Marina de Andrade e Lakatos, Eva M. Tcnicas de Pesquisa. So Paulo, Ed. Atlas, 1990, p. 85 11. 4 O INTRPRETE E O COMPOSITOR INTERPRETAO PROFESSORES E PEDAGOGIA FORMAO ACADEMICA ACADEMIA E MERCADO CARREIRA PROFISSIONAL O principal referencial terico, que serviu de base para os comentrios sobre as entrevistas, foi a "Esttica - teoria da formatividade" de Luigi Pareyson. Apresentamos essa obra, em seus pontos essenciais, no incio do segundo captulo, na seo intitulada "REFERENCIAL TEORICO". Este trabalho reforou o nosso ponto de vista inicial, atravs da constatao de que, nos dias de hoje, o pianista erudito brasileiro carece de uma formao musical mais ampla; de uma formao que possibilite a ele adaptar-se s exigncias do mercado; que o transforme num intrprete melhor, com uma conscincia mais profunda daquilo que executa; que faa dele, enfim, um msico mais completo. Essa formao subentende uma maior intimidade com o processo composicional, uma maior proximidade entre as matrias tericas e as prticas, uma base pedaggica mais consciente e consistente. E depende diretamente, por parte dos pianistas e intrpretes em geral, da vontade de refletir e de buscar solues para os problemas da profisso. 12. 5 1 CAPTULO Neste captulo, revisaremos a trajetria do piano na sociedade brasileira, desde os primeiros registros da sua presena, como artigo de luxo, at o perodo de hegemonia sobre os demais instrumentos. Perodo esse que culmina com a consagrao de diversos virtuoses nacionais e estrangeiros no cenrio musical brasileiro e com a consolidao do "repertrio de concerto", estruturado basicamente nas obras do classicismo-romantismo germnico. Na virada do sculo XVIII para o sculo XIX, j se observava "(...) a decadncia do uso do violo como principal instrumento acompanhador dos saraus familiares no Rio de Janeiro,(...). O socilogo Gilberto Freyre liga o fato ao panorama maior das transformaes urbanas da primeira metade do sculo passado, onde se inscreve a passagem de um Brasil rural, patriarcal, feudal, para o mundo burgus, que vai se concretizando na "aristocracia dos sobrados"2 Cabe aqui explicitar que o "panorama maior das transformaes urbanas" assinalado por Gilberto Freyre, se insere num processo ainda mais amplo de "(...) transformaes