Classificacao das Terras Pretas de Indio e Outros Solos Antropicos

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  • Classificao das Terras Pretas de ndio e OutrosSolos Antrpicos Antigos

    Nestor KmpfWilliam I. WoodsDirse Clara Kern

    Tony Jarbas Cunha

    Na Regio Amaznica ocorrem reas onde as caractersticas originais do solo foram modificadas pela atividade humana pr-histrica. Esses solos apresentam cor escura, restos de material arqueolgico (fragmentos cermicos e de artefatos lticos) e altos teores de carbono orgnico, fsforo, clcio, magnsio, zinco e mangans contrastando com os solos naturais. Em funo da colorao escura da camada superficial, tais solos so conhecidos por designaes como Terra Preta, Terra Preta de ndio, Terra Preta Antropognica e Terra Preta Arqueolgica. As caractersticas das Terras Pretas TPs (e de outros solos antrpicos) podem ser altamente variveis entre stios (Smith, 1980) e dentro de stios (Kern, 1988, 1996), dando origem a diferentes tipos de indivduos TP. Essas diferenas explicam porque o termo Terra Preta tem significado distinto para diferentes pessoas (arquelogos, antroplogos, etnlogos, gegrafos, agrnomos, pedlogos, caboclos), no raro dificultando o intercmbio de informaes.

    O crescente conhecimento produzido por especialistas de diversas reas e a conscincia da diversidade de indivduos TP tm gerado uma demanda para a organizao das informaes, objetivando dar suporte pesquisa e, neste contexto, orientar a identificao e a classificao dos tipos de TPs amaznicas. Assim, com base no interesse multidisciplinar manifestado no First International TPA Workshop (Manaus, julho de 2002), foi proposta a Legenda de Classificao Arqueopedolgica (LCA), no intuito de promover a interdisciplinaridade das vrias reas de pesquisa engajadas com ambientes desses solos (Kmpf et al., 2003). A LCA identifica classes de Arqueoantrossolos, distinguindo a variedade de TPs amaznicas e de outros solos antrpicos antigos.

    Terra Preta: Processo e Produto

    Stios de ocupao humana pr-histrica na Amaznia so comumente encontrados prximos a cursos de gua, ocupando vrzeas, elevaes marginais adjacentes e a terra firme interior em extenses de menos de um hectare disseminados em solos de terra firme, at vrios quilmetros quadrados ao longo dos rios e interflvios. Entre esses stios so mais conhecidos os nominados Terra Preta (TP), alm de uma variante menos evidente, a Terra Mulata (TM). As TPs so encontradas em uma variedade de tipos de solo (Smith, 1980; Kern et al., 2003), e no campo so identificadas por feies no usuais para solos amaznicos de terra firme, tais como a camada superficial de colorao escura (bruno-escura preta) e a presena de artefatos de cermica e lticos. Sua elevada fertilidade qumica (altos teores de C orgnico, Ca, Mg, P e microelementos) tambm contrasta com os solos circunvizinhos usualmente pobres em nutrientes para as plantas (Sombroek, 1966; Falesi, 1972; Smith, 1980; Eden et al., 1984; Kern & Kmpf, 1989; Lima et al., 2002).

    O termo Terra Preta abrange uma grande variabilidade de caractersticas de solo, como expresso do processo de formao e do ambiente local. Devido amplitude de cores (do cinzento ao preto) da camada superficial das Terras Pretas, Woods & McCann (1999) propuseram que esses solos sejam referidos de forma mais abrangente como Terras Escuras (dark earths, Amazonian Dark Earths), termo este utilizado em publicaes recentes (Lehmann et al., 2003; Glaser & Woods, 2004). No Brasil, h preferncia pelo termo original Terra Preta (e as demais expresses de TPs acima citadas, bem como Terra Mulata) por ser historicamente arraigado na Regio Amaznica e familiar ao pblico interessado - do caboclo ao cientista - nas suas implicaes locais (Kmpf & Kern, 2005).

  • Das diversas teorias sobre a gnese das Terras Pretas (Falesi, 1972; Smith, 1980; Kmpf & Kern, 2005), atualmente est confirmado que se formaram por atividade humana relacionada a assentamentos e prticas agrcolas de indgenas pr-colombianos (Ranzani et al., 1970; Smith, 1980; Eden et al., 1984; Pabst, 1985; Andrade, 1986; Correa, 1987; Mora et al., 1991; Kern, 1988 e 1996; Neves et al., 2003). Dataes por radiocarbono de stios TP agrupam-se em 1500 anos antes do contato europeu (Eden et al., 1984; Andrade, 1986; Petersen et al., 2001), entretanto, h relato de TPs pr-cermicas com dataes em torno de 4800 AP (Miller, 1999). Esse antigo processo humano de formao do solo foi interrompido no incio do perodo histrico com o avano dos colonizadores europeus, e o rpido desaparecimento (por enfermidades, escravizao, disperso) da populao indgena (Moran, 1990). Por constiturem evidncia de assentamentos permanentes ou semipermanentes pr-histricos, extensos e populosos, provavelmente associados com lavouras permanentes ou semipermanentes, as TPs registram a dinmica da ocupao humana no pr-histrico tardio, mostrando a viabilidade agrcola e suas implicaes para o desenvolvimento contemporneo da Amaznia.

    Histrico da Classificao e Caracterizao de TPs

    Classificao popular

    Conforme German (2003a, b), a classificao indgena e popular de solos amaznicos, e particularmente das TPs, extremamente limitada. A maioria dos residentes (caboclos) das regies de guas pretas da Amaznia Central reconhece que, no seu estado natural sob floresta, a TP resultado de queimadas, entretanto no a compreendem como um produto antropognico. Novos stios de TP so identificados com base na composio e estrutura distinta da vegetao desses locais (McCann, 1999). Os agricultores fazem distino, ainda, entre Terra Preta e Terra Comum (usualmente Latossolos), e diferenciam as TPs entre s por colorao (preta a quase branca), ou por textura (arenosa argilosa), atribuindo a melhoria na qualidade das TPs ao teor crescente de argila. Eles tambm reconhecem diferenas na dinmica de nutrientes entre as TPs, tais como a tendncia para uma recolonizao mais rpida desses stios por espcies sucessionais precoces. A preferncia por esses solos deve-se, geralmente, sua capacidade de permitir o cultivo de uma maior diversidade de culturas. Entretanto, como as TPs mostram uma alta variabilidade no rendimento das culturas, os agricultores tambm esto cientes da variao entre esses solos, expressa nas palavras de um agricultor: cada TP diferente, uma da outra. (German, 2003b). Woods & McCann (1999) relatam uma classificao e ranqueamento da fertilidade de TPs por agricultores na regio do baixo Tapajs, prximo a Santarm, Par: entre os solos, a Terra Preta qualificada como a mais frtil, seguindo-se o solo argiloso (barro), enquanto que o solo arenoso (areio) o menos frtil. Alguns indivduos reconhecem variedades de Terra Preta superior (legtima) e inferior (fraca), que parecem corresponder distino entre TP e TM, respectivamente.

    Verifica-se, portanto, que a noo dos agricultores locais acerca da variabilidade do solo expressa em uma classificao funcional de TPs baseada, principalmente, em duas caractersticas fsicas do horizonte superficial: colorao (preta a quase branca) e textura (argilosa arenosa). Como essas caractersticas esto associadas a qualidades do solo (e.g., teor de MOS, CTC, reteno de umidade etc.), essa classificao til para avaliar a aptido do solo local e a seleo de culturas. Os agricultores no parecem considerar a espessura das TPs, em acordo com os relatos de que classificaes populares usualmente so derivadas somente de propriedades de horizontes superficiais (Williams & Ortiz-Solorio, 1981).

    Nestor Kmpf et al.88

  • Nestor Kmpf et al.90

  • Nestor Kmpf et al. 91

  • Nestor Kmpf et al.92

  • Argumentos que favorecem ao uso de P extravel segundo Mehlich-1 so o seu amplo uso nos laboratrios de anlise de solo brasileiros, bem como os numerosos dados (tambm brasileiros) de TPs j disponveis. A inconvenincia da forma P extravel (por qualquer mtodo) so situaes onde h depleo por cultivos recentes e variaes sazonais devido a condies de umidade do solo; nesses casos, a forma P total seria a melhor opo. Entretanto, o P total tambm tem seus senes, como por exemplo, quando o material de origem apresenta um alto teor de P total. Conforme relatado por Kern (1996) e Costa & Kern (1999), ao contrrio do P extravel, o teor de P total no discriminou solos TP do Latossolo Amarelo circunvizinho. Em conseqncia, na caracterizao de TPs conveniente analisar ambas as formas de P, a extravel e a total. Adicionalmente, o teste de diferentes formas de P (P-Ca, -Fe, -Al, -orgnico) para caracterizar a dinmica do fsforo nas TPs pode oferecer novas perspectivas (Woods, 1977; Heckenberger et al., 1999; Lima, 2001). A extrao de P com cido ctrico, alm das dificuldades operacionais, aparentemente no acrescentou informao caracterizao do P em TPs conforme os resultados similares ou menores que o P extravel com Mehlich-1 (Kern & Kmpf, 1989; Lima, 2001). Ainda, deve ser mencionada a confuso na expresso dos resultados, onde o P elementar

    3-freqentemente igualado com vrias formas de fosfato (P O , PO e outras) que requerem converso 2 5 4matemtica para uma comparao quantitativa (Woods et al., 2000). A unidade recomendada para

    -1expressar o teor de P elementar mg kg de terra fina.

    Proposio de Legenda de Classificao de Terras Pretas de ndio e Outros Solos Antrpicos Antigos

    Apesar de haver restries por insuficincia de dados (Sombroek et al., 2002), oportuno e vlido pensar-se em uma legenda de classificao especfica para TPs amaznicas. Uma proposta nesse sentido faz uso dos princpios de classificao (Cline, 1949) e adapta termos usados em sistemas de classificao de solos j vigentes (WRB, U.S. Soil Taxonomy, SiBCS, Australiano).

    Conforme Cline (1949), o processo de classificao envolve a formao de classes atravs do agrupamento dos objetos com base em suas propriedades comuns e, ainda, o objetivo da classificao organizar o conhecimento de maneira que as propriedades dos objetos possam ser lembradas e as suas relaes possam ser mais facilmente entendidas para um objetivo especfi