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Capítulo 2: Epidemiologia do uso de substâncias ... · PDF filedrogas, muitos mitos e concepções errôneas podem surgir acerca do consumo de drogas. Antigos mitos podem ser sustentados,

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    Captulo 2: Epidemiologia do uso de substncias psicotrpicas em Minas Gerais e no Brasil

    Leonardo Fernandes Martins, Laisa Marcorela Sartes, Tatiana de Castro Amato

    A Organizao Mundial de Sade aponta que uso de lcool, tabaco e outras drogas est

    presente em quase todos os pases do mundo, contudo, o padro de consumo destas

    substncias e as consequncias associadas ao seu uso, possuem variaes ao longo do tempo,

    diferenas entrepases e mesmo entre grupos populacionais dentro do mesmo pas. Deste

    modo, a utilizao de informaes detalhadas sobre as especificidades do consumo drogas

    dentro de cada pas, ao longo do tempo, e entre algumas populaes especficas uma

    ferramenta importante para o planejamento de intervenes que buscamprevenir problemas

    de sade e outras consequncias negativasassociadas ao uso de drogas. A obteno de

    informaes acuradas sobre caractersticas como porcentagem da populao que j fez ou faz

    uso de drogas, crescimento do consumo ao longo do tempo, ou mesmo taxas de morbi-

    mortalidade associadas, permitem dimensionar o impacto do uso de drogas nestes pases e

    constituem-se como informaes essenciais para a elaborao de estratgias deinterveno

    mais efetivas (WHO, 2000).

    A epidemiologia do uso de substncias o ramo de estudos na rea da sade que tem

    como objetivo coletar e disseminar informaes sobre o consumo de drogas,

    utilizandomtodos validados cientificamente.Os estudos epidemiolgicos nesta rea,

    portanto, buscam responder questes especficas acerca das caractersticas associadas com o

    uso de substncias, em um determinado grupo populacional, considerando um perodo de

    tempo especfico. Os resultados de um estudo epidemiolgico so apresentados,

    frequentemente, atravs de indicadores que sintetizam informaes sobre um grupo

    populacional alvo. Dessa forma, apartir das informaes epidemiolgicas,conseguimos obter

    um melhor entendimento sobre padres, tendncias e contexto do uso de drogas de um

    determinado grupo social. Para alcanar tais resultados, este ramo dacincia utiliza mtodos

    sistemticos de coleta de dados, anlise, interpretao e disseminao de informaes sobre

    os diferentes padres de uso de drogas, contribuindo para o entendimento da sua natureza e

    suas consequncias.

    Seguindo esta perspectiva, os estudos epidemiolgicos, segundo a Organizao Mundial

    de Sade, (WHO, 2000), nos ajudam a responder questes importantes, tais como:

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    1. Qual a extenso dos comportamentos abusivos do uso de drogas?

    2. Qual a natureza e o padro dos comportamentos abusivos relacionados ao

    uso de drogas?

    3. Quais so as tendncias que os comportamentos relacionados ao uso drogas

    apresentam ao longo do tempo?

    4. Qual o impacto que as caractersticas dos usurios e seus diferentes padres

    de uso exercem sobre as tendncias de consumo em um dado momento do

    tempo?

    5. Quais fatores de risco esto associados com o abuso de drogas e quais fatores

    influenciam o surgimento e manuteno do comportamento de uso abusivo de

    drogas?

    6. Quais fatores protetivos esto associados com o no uso de drogas?

    7. Quais so os impactos sociais, comportamentais, biomdicos, psicolgicos,

    psiquitricos e econmicos do abuso de drogas para os indivduos, familiares,

    comunidades e sociedade?

    O comportamento do uso de drogas, a partir desta perspectiva, considerado dinmico,

    com padres que dependem de um gama de fatores extremamente complexos, tais como a

    disponibilidade e pureza das drogas; introduo de novas drogas no mercado, redescoberta de

    velhas drogas por novos grupos de usurios, assim como a introduo de novos modos de

    administrao. Desse modo, pases e comunidades precisam constantemente obter

    informaes atualizadas sobre o consumo de drogas,a fim de acompanhar o desenvolvimento

    do consumo e melhor planejar suas intervenes para reduo da demanda e da oferta de

    drogas (WHO, 2000).

    Na ausncia de dados cientficos seguros, produzidos pela epidemiologia do uso de

    drogas, muitos mitos e concepes errneas podem surgir acerca do consumo de drogas.

    Antigos mitos podem ser sustentados, principalmente, como fruto da ausncia de informao,

    tais como a concepo errnea de que as drogas ilegais causam mais danos do que

    substncias legais, como o tabaco ou lcool. Junto dos mitos antigos ou lendas

    urbanastemores recorrentes e repentinos tambm so gerados a partir da desinformao, tais

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    como a preocupao pblica com recorrentes epidemias do uso de drogas entre jovens, ou at

    mesmo a sua associao com crimes violentos ou de cunho sexual. Os estudos

    epidemiolgicos, por adotarem uma metodologia cientfica para obteno de informao,

    ajudam a determinar a verdadeira extenso dosproblemas relativos ao uso de drogas, bem

    como dos seus problemas associados, considerando especificidades populacionais e

    caractersticas tcnicas relativas classificao e nomeao das diferentes drogas. Tais

    estudos podem desmentir mitos antigos, mas tambm podem apontar para a necessidade de

    implementao de polticas de preveno e tratamento mais eficazes para um determinado

    grupo. importante destacar, que mesmo na ausncia de um alarme pblicosobre o uso de

    drogas, os estudos epidemiolgicos podem ser uteis para coletar informaes que serviro

    como base para o monitoramento do uso de drogas ao longo do tempo, assim para o

    desenvolvimento de aes de polticas apropriadas (WHO, 2000).

    Pesando a partir desta perspectiva, podemos concluir que a epidemiologia um dos

    principais instrumentos de apoio ao planejamento de aes na rea de drogas, assim como em

    outras reas da sade. Utilizando os dados epidemiolgicos, conseguimos estabelecer

    prioridades para alocao efetiva de esforos e recursos. fundamental compreender

    tambm, que somente atravs dos dados epidemiolgicosque conseguimos bases para

    avaliar o impacto que as intervenesna rea de drogas possuem em uma dada populao.

    Quando utilizamos dados epidemiolgicos para tomarmos decises ou mesmo para

    compreendermos um problema, utilizamos, portanto, um mtodo cientfico para construir um

    julgamento sobre o consumo de drogas. Apesar deste mtodo, ser considerado o melhor

    instrumento que temos para obtermos conhecimento sobre o consumo de drogas e suas

    consequncias, algumas vezes, podemos nos deparar com informaes provenientes de fontes

    no seguras, ou pouco confiveis, que tratam o problema de forma enviesada, produzindo

    informaes sem fundamentao cientifica. Estudos apontam que a uma destas fontes no

    confiveis, pode ser a prpria mdia (revistas, jornais, televiso). O estudo de Ronzani e

    colaboradores (2009), por exemplo, aponta que mesmo algumas das principais revistas de

    circulao nacional, priorizam em suas publicaes, temas relacionados com drogas que so

    pouco consumidas no Brasil e mesmo em outros pases a discusso sobre drogas com alto

    consumo no Brasil, como foi o caso do lcool e solventes. A seletividade de informaes

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    destas mdias pode acabar gerando confuso no pblico leigo, que passa a dar mais ateno

    para problemas secundrios.

    Indicadores epidemiolgicos e tipos de estudos

    Os estudos epidemiolgicos sobre o uso de drogas, que sero apresentados neste

    captulo, utilizam, de uma maneira geral, dois tipos de indicadores epidemiolgicos. O

    primeiro tipo de indicador denominado taxa deprevalncia, que representa a proporo de

    casos que fazem o uso de drogas e que compem um subconjunto da populao total

    estudada. Neste sentido, o indicador de prevalncia do consumo de drogas representa uma

    parte da populao (subconjunto da populao) que usou drogas em comparao com a

    populao total. Poderamos, portanto, utilizar um indicador de prevalncia para estimar a

    proporo da populao brasileira que j fez uso de alguma droga na vida, no ano de 2005.

    Este mesmo indicador de prevalncia poderia ser usado para estimar a proporo de uso de

    droga na vida, em outro grupo populacional mais especfico (Exemplos: grupo de estudantes

    do ensino mdio, trabalhadores da indstria, crianas em situao de rua). importante

    destacar que, os indicadores de prevalncia so sempre relativos a um perodo especfico de

    tempo, sendo um retrato momentneo do consumo de drogas. Para monitorar a evoluo

    do uso de drogas ao longo do tempo, utilizamos um indicador adicional denominado taxa

    deincidncia, que aponta para a proporo de surgimento de novos casos de uso de drogas,

    durante um intervalo de tempo. Utilizando o exemplo anterior, poderamos estudar qual a

    incidncia do consumo de drogas entre jovens do ensino mdio entre os anos de 2005 e 2006,

    tais informaes poderiam evidenciar um aumento ou reduo no consumo de drogas neste

    perodo. Apesar dos exemplos acima representarem indicadores de prevalncia e incidncia

    acerca do consumo de drogas, poderamos pensar tambm na construo destes indicadores

    para outras caractersticas associadas, tais como prevalncia e incidncia de mortes em

    decorrncia do uso de uma determinada droga, ou de qualquer outro indicador de interesse,

    que possa ser calculado utilizando o raciocnio apresentado acima(Rouquayrol, 2006).

    importante destacar tambm, que a obteno destas informaes e indicadores

    realizada, frequentemente, atravs de dois tipos de estudos epidemiolgicos,que se

    diferenciam pela forma com que obtemos tais informaes. O primeiro tipo caracteriza os

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    estudos denominadoslevanta

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