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Aspectos da História Gramatical Gramatical do Português ...tycho/participants/namiuti/namiuti/TESE... · em fevereiro de 2000, durante o workshop ... a oração e em orações infinitivas

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Text of Aspectos da História Gramatical Gramatical do Português...

  • CRISTIANE NAMIUTI (TEMPONI)

    DOUTORAMENTO EM LINGUSTICA

    UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS INSTITUTO DE ESTUDOS DA LINGUAGEM

    CAMPINAS, 2008

    Aspectos da Histria Aspectos da Histria Aspectos da Histria Aspectos da Histria GramaticalGramaticalGramaticalGramatical do Portugus. do Portugus. do Portugus. do Portugus. Interpolao, Interpolao, Interpolao, Interpolao,

    Negao e MudanaNegao e MudanaNegao e MudanaNegao e Mudana

  • CRISTIANE NAMIUTI (TEMPONI)

    UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS INSTITUTO DE ESTUDOS DA LINGUAGEM

    CAMPINAS, 2008 i

    Aspectos da Histria Gramatical do Aspectos da Histria Gramatical do Aspectos da Histria Gramatical do Aspectos da Histria Gramatical do PPPPortugusortugusortugusortugus.... Interpolao, Negao e Mudana.Interpolao, Negao e Mudana.Interpolao, Negao e Mudana.Interpolao, Negao e Mudana.

    Tese apresentada ao Programa de Ps-graduao em Lingstica do Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas como requisito parcial para obteno do ttulo de Doutor em Lingstica.

    Tese orientada pela Profa. Dra. Charlotte Marie Chambelland Galves

  • ii

    Ficha catalogrfica elaborada pela Biblioteca do IEL - Unicamp N151a

    Namiuti, Cristiane.

    Aspectos da histria gramatical do portugus. Interpolao, negao e mudana / Cristiane Namiuti Temponi. -- Campinas, SP : [s.n.], 2008.

    Orientador : Charlotte Marie Chambelland Galves. Tese (doutorado) - Universidade Estadual de Campinas, Instituto

    de Estudos da Linguagem.

    1. Lngua portuguesa - Clticos. 2. Lngua portuguesa - Negao. 3. Lngua portuguesa - Interpolao. 4. Portugus histrico. 5. Mudanas lingsticas. I. Galves, Charlotte Marie Chambelland. II. Universidade Estadual de Campinas. Instituto de Estudos da Linguagem. III. Ttulo.

    oe/iel Ttulo em ingls: Aspects of Portuguese historical grammar. Interpolation, negation and change.

    Palavras-chaves em ingls (Keywords): Portuguese language - Clitics; Portuguese language - Negation; Portuguese language - Interpolation; Historical Portuguese; Language Change.

    rea de concentrao: Lingstica.

    Titulao: Doutor em Lingstica.

    Banca examinadora: Profa. Dra. Charlotte Marie Chambelland Galves (orientadora), Profa. Dra. Ana Maria Martins, Profa. Dra. Ilza Ribeiro, Profa. Dra. Maria Aparecida Corra Ribeiro Torres Morais e Profa. Dra. Maria Clara Paixo de Sousa. Suplentes: Prof. Dr. Carlos Mioto, Profa. Dra. Marilza de Oliveira e Profa. Dra. Sonia Maria Lazzarini Cyrino.

    Data da defesa: 25/02/2008.

    Programa de Ps-Graduao: Programa de Ps-Graduao em Lingstica.

  • iii

    BANCA EXAMINADORA

    Profa. Dra. Charlotte Marie Chambelland Galves - UNICAMP Profa. Dra. Ana Maria Martins UNIVERSIDADE DE LISBOA Profa. Dra. Ilza Ribeiro UEFS/UFBA Profa. Dra. Maria Aparecida Corra Ribeiro Torres Morais - USP Profa. Dra. Maria Clara Paixo de Sousa USP Profa. Dra. Marilza de Oliveira - USP Profa. Dra. Sonia Maria Lazzarini Cyrino - UNICAMP Prof. Dr. Carlos Mioto - UFSC

    IEL/UNICAMP 2008.

  • iv

  • v

    Dedico este trabalho e a minha vida ao meu pequeno Rafael

    que nasceu e cresceu com esta pesquisa, que inmeras vezes teve que esperar para ter ateno,

    que mesmo pequenino j admirava minha dedicao pesquisa, e que teve nas suas primeiras brincadeiras a escrita de projetos...

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  • vii

    AGRADECIMENTOS

    Agradeo a todos que foram essenciais para que eu pudesse completar esta fase

    da minha histria.

    Especialmente minha famlia por estar presente nos momentos que precisei

    de ajuda. Ao meu marido, Lus Cludio, pela cumplicidade e pelo apoio

    incondicional. E aos meus pais por me auxiliarem nas minhas tarefas de me

    todas as vezes que precisei me ausentar em nome da pesquisa.

    instituio UNICAMP por ter sido minha segunda casa desde minha

    graduao em lingstica, iniciada em 1998, e a toda sua comunidade.

    Aos meus professores e amigos por contriburem com meu crescimento

    intelectual e pessoal, me orientando na pesquisa e na vida.

    s pessoas que me acolheram, inmeras vezes em Campinas, nos cinco anos

    da Ps-Graduao. s professoras: Doutora Silvia Regina de Oliveira

    Cavalcante e Doutora Maria Clara Paixo de Sousa. Dona Raquel e minha

    amiga Flaviane com quem compartilhei minha histria desde meu primeiro ano

    de graduao, e a tantos outros amigos de dentro e de fora deste instituto.

    Devo o meu muito obrigada professora Doutora Ana Maria Martins pela

    grande contribuio que nos deu com seus estudos sobre a sintaxe diacrnica

    do portugus, e tambm por ter me acolhido na ocasio do meu curto estgio

    na Universidade Clssica de Lisboa em 2006, contribuindo de maneira direta

    na finalizao da pesquisa e construo desta dissertao. A professora Ana

    Maria acompanhou esta histria desde o princpio, encontramo-nos em Lisboa

    em fevereiro de 2000, durante o workshop - Statistical Physics, Pattern

    Identification and Language Change, na ocasio em que foi aprovado pela

    FAPESP o meu projeto de iniciao cientfica sob o tema da Interpolao no

    Portugus Clssico. Depois em Bielefeld, em 2001, onde tive a oportunidade

    de mostrar os meus primeiros passos e receber valiosas orientaes. A partir

  • viii

    da, orientaes por e-mail e outros encontros enriqueceram o percurso da

    pesquisa transformada em Doutorado Direto.

    Agradeo tambm aos demais professores que participam desta banca pela

    contribuio que j deram a este trabalho nas ocasies das bancas de

    qualificaes.

    Sou profundamente grata s professoras Snia Cyrino, Cida Torres, Ilza

    Ribeiro e Maria Clara Paixo de Sousa pelas orientaes no meio do caminho...

    E claro que no posso deixar de agradecer professora Doutora Charlotte

    Galves que, como orientadora, esteve presente em todos os momentos, de

    entusiasmo ou de desespero, incansvel, sempre iluminando minha jornada,

    depositando sua completa confiana no meu trabalho, e a quem devo tudo. A

    professora Charlotte acolheu-me no projeto temtico Padres Rtmicos

    Fixao de Parmetros e Mudana Lingstica em 1999, na ocasio em que

    adiantei, no segundo ano de graduao, uma disciplina que era oferecida no

    quarto ano Lingstica Romnica. Durante o curso, a professora recrutou trs

    alunas para participar da edio eletrnica dos textos do Corpus Tycho Brahe,

    oferecendo uma bolsa FAPESP de treinamento tcnico nvel 1, e eu estava

    dentre estas trs. O trabalho de edio e leitura dos textos foi importante para

    que eu me apaixonasse pelo caminho que trilhei depois, na Lingstica

    Histrica.

    Agradeo aqueles que integraram o projeto temtico, especialmente equipe

    Tycho Brahe: Professora Dra. Helena Britto, por seu papel fundamental na

    construo do corpus histrico do portugus, com a implementao e

    coordenao da primeira equipe de edio. s amigas Patrcia Abdo, Thas

    Menegatti, Vanessa Vinha, Lucianne Chociay, Gilclia de Menezes e

    novamente a Maria Clara Paixo de Sousa, pela descontrao e o prazer no

    trabalho conjunto de edio dos textos, e, pelas discusses produtivas sobre os

    assuntos das pesquisas que se desenvolveram a partir deste trabalho. Ao

    Professor Dr. Marcelo Finger com quem aprendi a escrever expresses

  • ix

    regulares e a fazer buscas automticas utilizando a linguagem de programao

    perl. Ao Miguel Galves por me auxiliar na implementao das minhas buscas

    em scripts, quem, apesar de no fazer parte da equipe formalmente, esteve

    bastante presente no funcionamento do laboratrio na primeira faze do projeto

    temtico. Ao professor Anthony Kroch, a quem tive a honra de ouvir inmeras

    vezes e de conversar sobre a minha pesquisa em 2004, na Unicamp,

    apresentando-lhe o texto que me deu passagem direta ao doutorado,

    oportunidade que devo ao projeto temtico Padres Rtmicos Fixao de

    Parmetros e Mudana Lingstica no mbito do qual me desenvolvi como

    pesquisadora.

    Gostaria de salientar que o fato de participar de um projeto temtico

    interdisciplinar, como o coordenado pela professora Charlotte, extremamente

    enriquecedor para o aluno. Uma vez neste ambiente interdisciplinar, nosso

    olhar sobre os dados lingsticos se amplia na medida em que integra a sintaxe,

    a fonologia, a morfologia, as questes textuais e tecnolgicas, e muitas outras.

    Portanto, serei sempre profundamente grata a esta oportunidade.

    Por fim, agradeo Fundao de Amparo Pesquisa do Estado de So Paulo

    (FAPESP) pelo financiamento do projeto.

  • xi

    RESUMO

    Esta tese tem como objetivo central a investigao do fenmeno da

    interpolao em textos de autores portugueses nascidos entre os sculos 15 e

    19, que compem o Corpus Anotado do Portugus Histrico Tycho Brahe.

    As reflexes, bem como a metodologia de classificao e a anlise de dados

    tm como pano de fundo o quadro terico de Princpios e Parmetros da

    Gramtica Gerativa (cf. Chomsky, 1995).

    Na comparao com o mesmo fenmeno no portugus antigo, observei

    que a interpolao da negao se estende a novos contextos: encontrei o no

    interpolado em oraes razes sem que algum operador proclisador introduzisse

    a orao e em oraes infinitivas que no contextualizavam a prclise

    categrica. As primeiras ocorrncias de interpolao da negao nestes novos

    contextos foram encontradas em textos do sculo 15, e so freqentes nos

    sculos 16 e 17 (portugus clssico, de acordo com a periodizao tradicional).

    Atestamos que a interpolao dos constituintes do VP desaparece dos

    textos no sculo 16, no mesmo perodo encontramos um padro procltico nas

    oraes razes XP-verbo (remeto a Galves, Britto e Paixo de Sousa 2005).

    Tambm notamos que a no adjacncia entre o complementizador e o pronome

    cltico se torna mais comum neste mesmo perodo.

    Argumento que a preferncia pela prclise verbal nas oraes matrizes

    nos sculos 16 e 17 est relacionada com a perda da interpolao de XPs. E,

    proponho que os novos contextos de interpolao da negao so derivados

    deste padro procltico nas oraes razes. Mais tarde, quando a nclise se torna

    a regra nas oraes razes XP-verbo a interpolao da negao neste contexto

    desaparece.

    Assim, os resultados evidenciam um estado gramatical intermedirio

    entre o portugus antigo (sculos 13 e 14) e o portugus europeu moderno (a

    partir do sculo 18). Denominado de portugus mdio por Galves (2004).

    Adotamos a proposta de Martins (1994) da existncia de um Sintagma

    funcional de polaridade na estrutura da orao P situado entre CP e IP. E

  • xii

    propomos que a gramtica do portugus antigo teria um pronome cltico capaz

    de se hospedar no ncleo mais alto da estrutura frasal (C). A gramtica

    intermediria ter resultado da perda da propriedade de subida do cltico para

    este ncleo, mantendo-se em . Na gramtica moderna o cltico no sobe

    alm de I.

    Quanto variao na colocao pronominal tona encontrada nos

    domnios negativos, em todas as pocas, mas, sobretudo no portugus mdio e

    no portugus europeu moderno, defendo a hiptese de que esta est relacionada

    com o carter de ncleo funcional e de cltico do operador de negao NO.

    Sendo o operador de negao sentencial a instanciao negativa do ncleo

    em portugus, a incorporao de -Neg ao verbo obrigatria. E, como os

    clticos pronominais obedecem a restries de domnio morfo-fonolgico,

    derivamos as trs gramticas no quadro terico da Morfologia Distribuda por

    melhor capturar processos como a inverso prosdica, e a incorporao do

    no ao verbo.

    PALAVRAS-CHAVE

    Cliticos / Negao / Interpolao / Portugus Histrico / Mudana Lingstica.

  • xiii

    ABSTRACT

    In this Dissertation I present and discuss the phenomenon of interpolation in

    texts of Portuguese authors born from the 15th to the 19th Century, drawn from

    the Annotated Corpus of Historical Portuguese - Tycho Brahe. The theory

    Principles and Parameters of Generative Grammar is the analysis

    background (cf. Chomsky, 1995).

    In comparison with the same phenomenon in Old Portuguese, we can see

    that the interpolation of negation extends to new contexts: we find no

    interpolated in root clauses without any proclitic operator before the clitic as

    well as in non-finite contexts in which proclisis is not categorical. The first

    occurrences appearing in those new contexts are found in texts written at the

    end of the 15th Century and they are frequent in the texts of the 16th and 17th

    Centuries (Classical Portuguese, according to traditional periodization).

    I show that the interpolation of VP constituents disappeared from the

    texts from the 16th Century on. At the same time we find a strong proclitic

    pattern in root neutral clauses XP-verb (see Galves, Britto and Paixo de

    Sousa 2005). We can also see that the non adjacency of the complementizer

    and the clitic became more common at the same period.

    I argue that the proclitic pattern found in matrix clauses during the 16th

    and the 17th Century is correlated with the loss of XPs interpolation. The new

    contexts of neg-interpolation derive from this proclitic pattern in root clauses.

    Later, when enclisis becomes the rule, this kind of neg-interpolation is lost.

    Therefore, these results evidence an intermediate state of grammar in the

    history of Portuguese, between Old Portuguese (13th and 14th Centuries) and

    Modern Portuguese (18th Century on). Galves (2004) called it Middle

    Portuguese.

    Following Martins (1994), I assume the existence of a polarity functional

    category in clause structure - called P - located between CP and IP. And, I

    hypothesize that Old Portuguese grammar has a clitic that it can move to C,

    while Middle Portuguese grammar has a clitic that it can not move to C head,

  • xiv

    it needs to stop in head. In Modern European Portuguese, the clitic cant

    move above I.

    About the variation in the position of pronominal clitics in negative

    sentences on diachronical Portuguese texts, especially on Middle and Modern

    Portuguese, I defend the hypothesis that it can be explained by the clitic nature

    of the negative operator. Being the negative operator the realization of the

    negative polarity of , the incorporation of -Neg and verb is obligatory.

    And, since pronominal clitics obey morpho-phonological restrictions, I explain

    the three grammars into Distribute Morphology theory to get better the

    prosodic invertion processes and the incorporation.

    KEY-WORDS

    Clitics / Negation / Interpolation / Historical Portuguese / Language Change.

  • xv

    LISTA DE ABREVIATURAS E SMBOLOS UTILIZADOS

    SMBOLOS E ABREVIATURAS DA LITERATURA SINTTICA A: Adjetivo Adv: Advrbio Af: afirmao Agr: Concordncia AgrP: Sintagma de Concordncia AgrSP: Sintagma de Concordncia do Sujeito AP: Sintagma Adjetival C ou comp: Complementizador CL ou cl : pronome cltico conj: conjuno CP: Sintagma Complementizador D: Determinante DP: Sintagma Determinante e: Categoria Vazia EPP: Princpio da Projeo Estendida FocP, FocusP ou FP: Sintagma de Foco +F ou [+F]: Trao de foco I, INFL ou Infl: Flexo IP: Sintagma de Flexo N, Neg ou neg: negao NegP: Sintagma negativo NP: Sintagma Nominal [+N]: nominal O: Objeto OD: Objeto Direto OI: Objeto Indireto PP: Sintagma Preposicional QP: Sintagma Quantificador S: Sujeito Spec: Especificador T: Tempo t: Vestgio TP: Sintagma de Tempo V: verbo VP: Sintagma verbal wh: Elemento qu X: qualquer constituinte XP: qualquer sintagma P ou PolP: sintagma de polaridade ou Pol: ncleo de polaridade

    SMBOLOS E ABREVIATURAS DA LITERATURA GRAMATICAL AP: Sistema Articulatrio-Perceptual CI: Sistema Conceptual-Intencional DS: Estrutura Profunda GB: Lectures on Government and Binding LF: Forma Lgica GU: Gramtica Universal MD: Morfologia Distribuda PF: Forma Fonolgica SS: Estrutura Superficial spell-out: interpretao fontica

    SMBOLOS E ABREVIATURAS DA LITERATURA FONOLGICA : Palavra Prosdica IntP: Intonational Phrase (Sintagma Entoacional)

    SMBOLOS E ABREVIATURAS DA LITERATURA SEMNTICA CN: Harmonia negativa, do ingls Concord Negation DN: Dupla negao NQs: Quantificadores negativos n-words: Palavras negativas

    OUTRAS CONVENES UTILIZADAS PA: portugus arcaico PC: portugus clssico PE: portugus europeu moderno PB: portugus Brasileiro PM: portugus mdio CTB: Corpus Tycho Brahe

  • xvii

    SUMRIOSUMRIOSUMRIOSUMRIO

    INTRODUOINTRODUOINTRODUOINTRODUO ______________________________________________________________________ 3

    1.1.1.1. AAAAPRESENTAOPRESENTAOPRESENTAOPRESENTAO.... ______________________________________________________________ 5 2. PARA MODELAR A VARIAO: LAO TERICO. ____________________________________ 15 3. A PERIODIZAO SEGUNDO A TRADIO FILOLGICA VS A PERIODIZAO REVISITADA. __ 22

    Quadro 1: A periodizao revisitada ______________________________________________ 23

    I. CAPTULO PRIMEIROI. CAPTULO PRIMEIROI. CAPTULO PRIMEIROI. CAPTULO PRIMEIRO. . . . RECONTANDO A HISTRIA.________________________________ 29

    I.1 - ASPECTOS HISTRICOS QUE MARCARAM A CONSTITUIO DA LNGUA E ESTADO PORTUGUS. __________________________________________________________________ 31 I.2 - ASPECTOS GRAMATICAIS QUE PONTUARAM NA HISTRIA DO PORTUGUS. ____________ 39

    Grfico I.1: Interpolao da negao vs. adjacncia cltico-verbo nas oraes no dependentes XV. _______________________________________________________________ 43

    Grfico I.2: Interpolao generalizada no CTB _____________________________________ 44 Grfico I.3: Contigidade vs no contigidade entre complementador e cltico nas oraes

    dependentes negativas com um constituinte pr-verbal alm da negao. ___________________ 45 Grfico I.4: C-cl-X-V vs C-X-cl-V do sculo 13 ao sculo 20 ______________________ 46 Grfico I.5: C-cl-X-neg-V vs C-X-cl-neg-V do sculo 13 ao sculo 20 _______________ 47 Grfico I.6: cl-neg-V vs. neg-cl-V nas oraes dependentes do sculo 13 ao sculo 20__ 49 Grfico I.7: cl-neg-V vs. neg-cl-V nas oraes razes XV do sculo 13 ao sculo 20 ____ 51 Grfico I.8: Trs conjuntos de dados e trs padres diferentes. _________________________ 52 Grfico I.9: Interpolao da negao vs. adjacncia 'clV' nas oraes no dependentes XV &

    nclise vs Prclise em oraes razes XV CTB. ________________________________________ 53 I.3 A ORDENAO DOS CONSTITUINTES FRSICOS NO PORTUGUS HISTRICO_____________ 55

    Quadro I.1: Estruturas para investigar o fronteamento (Parcero, 1999). _________________ 58 Quadro I.2 Interpolao e fronteamento do sujeito (Parcero, 1999). ____________________ 59 Quadro I.3 Interpolao e fronteamento de XPs (Parcero, 1999). ______________________ 59 Quadro I.4 Fronteamento de XPs (Parcero, 1999)___________________________________ 60

    II.CAPTULO SEGUNDO.II.CAPTULO SEGUNDO.II.CAPTULO SEGUNDO.II.CAPTULO SEGUNDO. O FENMENO DA INTERPOLAO NOS TEXTOS PORTUGUESES DE AUTORES NASCIDOS ENTRE O SCULO 15 E O 19. _______________ 65

    II.1 - INTRODUO AO CAPTULO _________________________________________________ 67 Quadro II.1 Interpolao de elementos diferentes de no (Martins 1994) _______________ 67 Quadro II.2 Interpolao de no (Martins 1994) ___________________________________ 68 Quadro II.3: Interpolao de elementos diferentes de no (Parcero 1999) ________________ 68 Quadro II.4: Interpolao de no (Parcero 1999) ___________________________________ 69 Quadro II.5: interpolao generalizada vs. adjacncia clV - CTB _____________________ 70 Grfico II.1: Queda de C-cl-X-neg-V e estabilizao da ordem C-X-cl-neg-V _____________ 71 Quadro II.6: interpolao da negao vs. adjacncia clV em todos os contextos CTB ____ 71 Quadro II.7: interpolao da negao vs. adjacncia clV apenas em subordinadas finitas

    CTB___________________________________________________________________________ 72 II.2 - A INTERPOLAO NOS TEXTOS DO CORPUS TYCHO BRAHE _______________________ 73

    II.2.1 A interpolao generalizada _______________________________________________ 87 II.2.1.1 A interpolao generalizada nos textos de Duarte Galvo (1435-1517) e Francisco de Holanda (1517-1584).________________________________________________________________________ 94

    Quadro II.8: Interpolao generalizada de acordo com o elemento interpolado no texto de D. Galvo (1435) __________________________________________________________________________ 94 Quadro II.9: Interpolao generalizada de acordo com o elemento interpolado no texto de F. Holanda (1517) __________________________________________________________________________ 95 Quadro II.10: Interpolao/adjacncia clV com mais de um constituinte pr-verbal diferentes de negao. ________________________________________________________________________ 96 Quadro II.11: Interpolao/clVcom mais de um constituinte pr-verbal incluindo a negao _______ 98

    II.2.1.2 A interpolao generalizada no texto de Diogo do Couto (1542-1606): _________________ 99 Quadro II.12: interpolao no texto de Diogo do Couto (1542) ______________________________ 99 Quadro II.13: Interpolao generalizada de acordo com o elemento interpolado ________________ 100

  • xviii

    Quadro II.14: Interpolao/adjacncia com mais de um constituinte pr-verbal_________________ 100 Quadro II.15 C-cl-S-N-V ~ C-S-N-cl-V ~ C-S-cl-N-V ___________________________________ 102 Quadro II.16: Interpolao/adjacncia clV com dois elementos pr verbais diferentes de sujeito+negao. _______________________________________________________________ 103

    II.2.1.3 A interpolao generalizada nos textos de Lus de Sousa (1556), F. Rodrigues Lobo (1574), F. Manuel de Melo (1608) e A. das Chagas (1631) __________________________________________ 104 Quadro II.17: Elementos interpolados ___________________________________________________ 105 II.2.1.4 A interpolao generalizada no texto de Almeida Garrett (1799)_____________________ 108 II.2.2 A distinta interpolao da negao _________________________________________ 111 II.2.2.1 A Interpolao da Negao em oraes dependentes finitas._________________________ 113

    Quadro II.18 CLNV vs NCLV em oraes dependentes finitas (completivas, relativas e conjuntivas) 114 Grfico II.2 : CLNV vs NCLV em oraes dependentes finitas (completivas, relativas e conjuntivas) 114 Quadro II.19 ____________________________________________________________________ 115 II.2.2.1.1 Oraes dependentes finitas com complementador expresso ____________________ 116

    Grfico II.3: Distribuio dos dados de acordo com a ordem C-cl-N-V / C-N-cl-V / C-cl-X-N-V / C-X-cl-N-V / C-X-N-clV ____________________________________________________________ 118 Grfico II.4: Oraes dependentes com um constituinte pr-verbal alm da negao. _________ 119 Grfico II.5: Oraes dependentes sem um constituinte pr-verbal alm da negao __________ 120

    II.2.2.1.2 Oraes dependentes finitas com complementador nulo ________________________ 121 Quadro II.20: CLNV em completivas com comp nulo_________________________________ 124

    II.2.2.1.3 Interpolao em coordenadas dependentes___________________________________ 127 Quadro II. 21: CLNV vs NCLV introduzidas pelas conjunes pois, porm, contudo e que explicativo ___________________________________________________________________ 128 Quadro II. 22: CLNV vs NCLV introduzidas pela conjuno porque______________________ 130

    II.2.2.2 A interpolao da negao em oraes infinitivas _________________________________ 132 Quadro II.23 Interpolao da negao em oraes infinitivas_______________________________ 135

    II.2.2.3 A interpolao da negao em oraes no dependentes ____________________________ 139 Quadro II.24 - oraes no dependentes introduzidas por operadores proclisadores _____________ 140 Grfico II.6: Interpolao da negao nas oraes no dependentes XV ______________________ 142 Quadro II.25 - oraes no dependentes NO introduzidas por operadores ___________________ 143

    II.3. RESUMO E PERSPECTIVAS __________________________________________________ 151

    III. CAPTULO TERCEIIII. CAPTULO TERCEIIII. CAPTULO TERCEIIII. CAPTULO TERCEIRO. RO. RO. RO. COLOCAO DE CLTICOS E NEGAO. ________________ 155

    III.1. INTRODUO AO CAPTULO ________________________________________________ 157 III.2 A NEGAO SENTENCIAL VS. AFIRMAO: FATOS TERICOS _____________________ 164

    III.2.1 Sobre o carter cltico de Neg ____________________________________________ 176 III.2.2 A duplicidade de Neg ___________________________________________________ 180

    III.3 A NEGAO E O CONTEDO INFORMACIONAL: QUESTES DE ESCOPO E POLARIDADE._ 186 III.3.1 Semelhanas no comportamento dos operadores e das operaes de modificao da

    sentena. _____________________________________________________________________ 187 III.3.2 O marcador de negao sentencial e as outras palavras negativas (n-words) ______ 193 III.3.2.1 A sintaxe dos indefinidos nos domnios negativos na diacronia______________________ 195

    III.4 A TIPOLOGIA DOS PRONOMES E AS DIFERENAS NA COLOCAO PRONOMINAL NOS DOMNIOS AFIRMATIVOS E NEGATIVOS: FATOS EMPRICOS.___________________________ 199

    III.4.1 A negao sentencial nos diferentes sistemas tipolgicos de clticos: O servo croata e o blgaro _______________________________________________________________________ 204

    III.4.2 De volta ao portugus___________________________________________________ 208 III.5 RESUMO E PERSPECTIVAS __________________________________________________ 212

    IV. CAPTULO QUARTO.IV. CAPTULO QUARTO.IV. CAPTULO QUARTO.IV. CAPTULO QUARTO. LTIMAS PEAS. _________________________________________ 219

    IV.1 INTRODUO AO CAPTULO ________________________________________________ 221 IV.2 MORFOLOGIA ____________________________________________________________ 222

    Figura1: Estrutura da gramtica desenhada em Harley e Noyer (1999:2) _______________ 225 IV.3 LICENCIANDO __________________________________________________________ 231

    V. CONCLUSO: RECONTANDO A HISTRIA.______________________________________ 237

    V.1 RECONTANDO A HISTRIA. __________________________________________________ 239 V.2 HIPTESE.________________________________________________________________ 243

    V.2.1 A relao de hospedagem para o cltico nas trs gramticas. ____________________ 245

  • xix

    V.2.2 O portugus antigo (ou arcaico) ___________________________________________ 245 V.2.3 O portugus mdio ______________________________________________________ 250 V.2.4 O portugus europeu moderno ____________________________________________ 256

    REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS _________________________________________________ 259

    ANEXO ___________________________________________________________________________ 265

    NDICE ______________________________________________________________________ 267 I. CORPUS __________________________________________________________________ 269 II RESULTADOS: TABELAS E GRFICOS _____________________________________ 273

    ii.i Nmeros Gerais___________________________________________________________ 273 Tabela 1: Todos os dados _____________________________________________________________ 273 Tabela 2: Prclises com adjacncia clV provenientes de www.ime.usp.br/corpus/database __________ 274 Tabela 3: Prclise com adjacncia clV e interpolao______________________________________ 275 ii.ii. Interpolao vs. adjacncia clV nos autores do Corpus Tycho Brahe _____________ 276 ii.ii.i. Interpolao generalizada no CTB _______________________________________________ 276

    Tabela 1: C-cl-X-V vs. C-X-clV_____________________________________________________ 276 ii.ii.ii. C-cl-X-N-V ~ C-X-cl-N-V ~ C-X-N-clV __________________________________________ 277

    Tabela 2: C-cl-X-N-V ~ C-X-cl-N-V ~ C-X-N-clV ______________________________________ 277 ii.ii.iii. Interpolao da negao no CTB _______________________________________________ 278

    Tabela 3: Interpolao da negao vs. prclise com adjacncia n-cl-V (todos os contextos)______ 278 ii.ii.iii.i Interpolao da negao no CTB: de acordo com o ambiente sinttico _____________ 279

    Tabela 4: Interpolao da negao vs adjacncia clV em subordinadas finitas______________ 279 Tabela 5: Interpolao da negao vs adjacncia clV em subordinadas finitas: ordens lineares C-cl-N-V/ C-X-cl-N-V/ C-X-N-cl-V e complementadores nulos _____________________________ 280 Tabela 6: Interpolao da negao vs adjacncia clV em oraes finitas introduzidas por porque: ordens lineares porque-cl-N-V/ porque-X-cl-N-V/ porque-X-N-cl-V __________________ 281 Tabela 7: Interpolao da negao vs adjacncia clV em oraes finitas introduzidas pelas conjunes coordenativas que, pois,e porm: ordens lineares conj-cl-N-V/ conj-X-cl-N-V/ conj-X-N-cl-V ___________________________________________________________________ 282 Tabela 8: Interpolao da negao vs adjacncia clVem oraes infinitivas de acordo com a presena e ausncia da preposio, o tipo de preposio e a contigidade prep-cl.____________ 283 Tabela 9: Interpolao da negao vs adjacncia clVem oraes no dependentes finitas introduzidas por operadores proclisadores __________________________________________ 284 Tabela 10: Interpolao da negao vs adjacncia clV em ambientes de variao clV/Vcl (de acordo com o elemento que introduz a orao e no condiciona obrigatoriamente a prclise) ___ 285 Tabela 11: Interpolao da negao vs adjacncia clV com imperativo negativo e sujeito passivo.286 Tabela 12: Interpolao vs adjacncia clVe os casos com complementadores nulos nas oraes subordinadas finitas negativas. ___________________________________________________ 287

    ii.ii.iv Grficos_____________________________________________________________________ 288 Grfico1: interpolao generalizada - CTB_____________________________________________ 288 Grfico 2: interpolao da negao - CTB_____________________________________________ 288 Grfico 3: interpolao da negao em subordinadas finitas - CTB __________________________ 289 Grfico 4: interpolao da negao em no dependentes XV (contextos de variao clV/Vcl) CTB289 Grfico 5: interpolao da negao em no dependentes XV (contextos de variao clV/Vcl) vs clV/Vcl ________________________________________________________________________ 290 Grfico 6: interpolao da negao vs prclise com adjacncia NclV em no dependentes de acordo com o elemento que introduz a orao ________________________________________________ 290 Grfico 7: Interpolao vs. prclise com adjacncia nas oraes subordinadas negativas com um X pr-verbal diferente da naegao: C-cl-X-N-V / C-X-cl-N-V / C-X-N-V_________________________ 291 Grfico 8: Interpolao vs prclise com adjacncia quando temos apenas a negao como elemento pr verbal nas oraes encaixadas C-cl-N-V / C-N-cl-V _____________________________________ 291 Grfico 9: Mais uma viso das ordens com mais de um constituinte pr-verbal alm da negao __ 292 Grfico 10: A distribuio das ordens nas oraes subordinadas finitas negativas_______________ 292

    ii.iii. Interpolao versus adjacncia clV de 1200 a 1900 vrios corpora ______________ 293 Tabela ii.iii.1 Ordens C-cl-X-N-V / C-X-cl-N-V / C-cl-N-V / C-cl-X-V / C-X-cl-V (Martins 1994)__ 294 Tabela ii.iii.2 Interpolao vs prclise com adjacncia clV em trs corpora ___________________ 295 Tabela ii.iii.3 Interpolao da negao em oraes no dependentes XV______________________ 296 Tabela ii.iii.4 nclises vs prclises em oraes no dependentes XV - trs corpora _____________ 296 Tabela ii.iii.5 Distribuio dos dados de interpolao 'cl X V' e 'cl neg V' em trs corpora _________ 297 Grfico ii.iii.1 Perda da interpolao de elementos diferentes da negao ______________________ 298 Grfico ii.iii.2 C-cl-X-N-V vs C-X-cl-N-V _______________________________________________ 299

  • xx

    Grfico ii.iii.3: C-cl-X-N-V vs C-X-cl-N-V_______________________________________________ 300 Grfico ii.iii.4: nclises vs prclises ____________________________________________________ 301 Grfico ii.iii.5: Trs corpora, trs conjunto de dados e trs padres_____________________________ 302

    III. METODOLOGIA DE CLASSIFICAO DOS DADOS. _________________________________ 303 IV. BANCO DE DADOS. _______________________________________________________ 309

    http://www.ime.usp.br/~tycho/participants/namiuti/index.html_________________________ 309

  • Cristiane NAMIUTI

    1

    Aspectos da HAspectos da HAspectos da HAspectos da Histria istria istria istria Gramatical do Portugus.Gramatical do Portugus.Gramatical do Portugus.Gramatical do Portugus. Interpolao, Negao e Interpolao, Negao e Interpolao, Negao e Interpolao, Negao e

    Mudana.Mudana.Mudana.Mudana.

  • 2

    Encontrando-se limitado s evidncias lingsticas que puderam sobreviver aos homens que as produziram e aos acidentes histricos, o diacronista um arquelogo que trabalha com indcios, identificando e interpretando factos do passado apoiado no conhecimento (emprico e formal) progressivamente construdo pelas teorias lingsticas contemporneas.

    (Martins, 2002:259)

  • 3

    INTRODUOINTRODUOINTRODUOINTRODUO

    Uma Lngua no um objecto esttico e fechado, como as descries

    lingsticas sincrnicas, por convenincia prtica, muitas vezes deixam

    supor; antes parece um corpo vivo que se acha em mutao constante,

    nem sempre avanando de forma linear para um objectivo determinado:

    tambm pode reverter sobre seus passos ou pode oscilar entre avanos

    em vrias direces, naquilo a que se chamaria variao.

    (CASTRO, 2006:7)

  • INTRODUO.

    5

    1. 1. 1. 1. Apresentao.Apresentao.Apresentao.Apresentao.

    A interpolao de constituintes entre o cltico e o verbo um fenmeno

    freqente no portugus antigo (doravante PA) e torna-se obsoleto no portugus

    europeu moderno:

    (01) que as ao dicto Monsteiro deui Alg~uas pessoas. (Lx, 1357 - Martins, 1994:175)1

    Este fenmeno da no adjacncia entre o cltico e o verbo foi um dos assuntos

    tratados por Ana Maria Martins 1994, em sua tese de doutoramento Clticos na

    Histria do portugus, com base num corpus de documentos notariais do PA

    (sculos 13 ao 16) editados pela prpria autora. Os dados de Martins atestam

    uma preferncia interpolao do advrbio de negao "no", pois ocorre em

    nmero mais elevado do que os outros casos. No entanto, no PA, h um grande

    leque de elementos que podem ocorrer interpolados.

    (02) O advrbio de negao: "que me nom n~ebram (NO, 1268)" (vide Martins, 1994:162) (03) O sujeito: "Isto que lhes eu mdo (NO, 1275)" (vide Martins, 1994:171) (04) Um sintagma preposicional: "asi como a at qui der (NO, 1295)" (vide Martins, 1994:167) (05) Um sintagma adverbial: "quando uos ora fez meree (NO, 1342)" (vide Martins, 1994:165) (06) O objeto direto: "que diga lhj eu alguma cousa diuia (NO, 1275)" (vide Martins, 1994:174) (07) Objeto indireto: "que as ao dicto Monsteiro deui Alg~uas pessoas (Lx, 1357)" (vide Martins, 1994:175)

    1 Os exemplos tero destaques em negrito (para os clticos e os verbos) e itlico e/ou sublinhado (para outro constituinte que quisermos destacar na orao). Quanto s informaes sobre o dado temos: 1) A citao do estudo onde foi utilizado o dado, esta a ltima referncia aps o dado. 2) Quando possvel, indicamos logo aps a sentena (antes da citao do trabalho de referncia) a origem e a data em que foi atestado o dado, ou o autor e sua data de nascimento, a depender do corpus. Os dados do Corpus Tycho Brahe (CTB), utilizado na presente investigao, possuem indicaes sobre o autor e sua data de nascimento, j o corpus de documentos notariais (dados de Martins, 1994) possui informaes sobre a regio e a data do documento.

  • Apectos da histria gramatical do portugus. Interpolao, negao e mudana.

    6

    (08) Um ncleo predicativo de natureza adjetival: "de todollos adubyos que lhes compridoiros e neesareos forem (Lx, 1476)" (vide Martins, 1994:175) (09) Um particpio passado: "que lhys Assi escambhados Auy (Lx, 1383)" (vide Martins, 1994:175) (010) O infinitivo: "e sse os dar n quysser (Lx, 1292)" (vide Martins, 1994:177) (011) Mais de um constituinte: "quanto as eu mays pudj u~ender (NO, 1277)" (vide Martins, 1994:179) (012) Um constituinte de redobro do cltico: "asi como les a elles semellaua" (vide Martins, 1994:178) (013) Um quantificador: "E prometo a m~y tabaliam (...) de lho todo comprir e manther (LX, 1532)" (vide Martins, 1994:178) (014) Um vocativo: "pois vo-l' eu, senhor, non mereci." (vide Martins, 1994:178) (015) Uma orao reduzida: dos sobredictos autos que se pressente m~j tabaliam pasar (Lx, 1472)" (vide Martins, 1994:178)

    Martins (1994) atesta que no portugus antigo existia uma variao no uso da

    interpolao e da prclise com adjacncia ao verbo (cl-X-V vs. X-cl-V) nos

    contextos de prclise obrigatria, sendo a estrutura com interpolao preferida.

    Identifica os constituintes interpolveis e observa em que tipo de oraes a

    interpolao era possvel. Em seu corpus qualquer elemento que pudesse

    ocupar na orao uma posio pr-verbal poderia ocorrer interpolado.

    No corpus deste estudo Corpus Histrico do Portugus Anotado:

    Tycho Brahe2 com autores nascidos entre 1435 e 1836, o advrbio de

    negao no freqentemente interpolado, porm, a interpolao de outros

    constituintes muito raramente se atesta, e limita-se aos autores nascidos at o

    incio do sculo 17. So estes elementos: sujeitos principalmente pronominais,

    QPs (Quantificational Phrase), PPs (Prepositinal Phrase) e alguns advrbios.

    (016) Porque no ponha aqui os nomes de tantas pessoas, lhe digo que de minha parte d encomendas a todas as que lhe parecer que rezo que as eu mande. (CTB: Sousa, 1556) (017) Se me eu contento com uma pobre penso, razo que me entristea no ouvindo o fruito do meu poupar. (CTB: Sousa, 1556) (018) Entre os pobres, sobre todos, tenha cuidado dos doentes, que no podem andar pedindo, como lhe muitas vezes disse. (CTB: Sousa, 1556)

    2 http://www.ime.usp.br/~tycho/corpus

  • INTRODUO.

    7

    (019) - No Solino to descuidado do que lhe eu mereo (tornou Dom Jlio) que se esquea de mim e de quanto sentirei perder horas suas; e polo intersse das da conversao do Doutor o tivera em menos conta se as no desejara; e, alm disso, posso afirmar que est pago da lembrana que teve com a diligncia que fizemos polo trazer connosco, que voltmos pola sua porta e eu tirei uma pedra janela, donde me disseram que ceava com Pndaro; e cada um dos dous me fz inveja. (CTB: Lobo, 1574) (020) Que mais estranho que o de Temstocles Ateniense, famoso capito da Grcia, que, namorado de uma dama que cativou na guerra de piro, usava em uma doena, que sua amada teve , dos mesmos remdios que lhe a ela faziam , tomando as purgas e sangrias com a mesma dama, e lavando o rosto por regalo e gentileza com o seu sangue dela? (CTB: Lobo, 1574) (021) No menos o que me l anda neste infelssimo jgo. (CTB: Melo, 1608) (022) Achando-se Vossa Merc com novas do ausente, para Vossa Merc das que souber comigo; que s o frade ( e no o clrigo, e menos o amigo professo ) no d do que lhe bem sabe. (CTB: Melo, 1608)

    Chamaremos a interpolao destes elementos, freqente no PA e j obsoleta no

    sculo 16, de interpolao generalizada, para diferenci-la da interpolao da

    negao que mostraremos ser especial.

    A abrangente interpolao da negao que encontramos no CTB nos

    levou a observar atenciosamente as sentenas negativas nos textos. Nesta

    empreita notamos algumas valiosas pistas sobre a histria gramatical da lngua.

    De acordo com Martins (1994) o fenmeno da interpolao entre o

    cltico e o verbo, comum no PA, s ocorre nos domnios de prclise categrica.

    Porm, o marcador de negao sentencial no, apesar de condicionar

    invariavelmente a prclise verbal obrigatria nos domnios finitos, exibe um

    comportamento bastante diferente dos demais advrbios que desencadeiam a

    prclise obrigatria (ex: j, tambm, ainda, nunca) no sentido de sempre ter

    estado contguo ao verbo. Ou seja, no, apesar de sempre ter sido um

    elemento proclisador, jamais foi capaz de desencadear a interpolao de um

    constituinte entre o cltico e o verbo como os demais advrbios proclisadores (a

    ordem neg-cl-X-V nunca ocorre). E ainda, a interpolao da negao entre o

    cltico e o verbo (cl-neg-V) no PA era preferida ordem da prclise na qual o

    cltico est linearmente adjacente ao verbo (neg-clV) em todos os ambientes

    de prclise categrica. Diferentemente da interpolao de outros constituintes,

    a interpolao do no entre o cltico e o verbo pode ocorrer em contextos no-

    categricos da prclise, em oraes razes introduzidas por sujeito, sintagmas

  • Apectos da histria gramatical do portugus. Interpolao, negao e mudana.

    8

    preposicionais, orao anteposta, conjuno coordenativa, e em infinitivas

    introduzidas pela preposio em. Chamo a ateno para o fato de que a

    interpolao nestes ambientes ocorre exatamente no mesmo perodo em que a

    prclise dominante tambm nas oraes razes (segunda metade do sculo 15,

    sculos 16 e 17).

    Um segundo fato que mostra a diferena entre o no e os demais

    advrbios que nenhum outro elemento, a no ser um cltico pode se colocar

    entre a negao e o verbo. Como atestam Muidine (2000) e Martins (2003a,

    2003b e 2005) no no influencia a colocao dos pronomes fracos hy e

    en(de). Apesar de estes pronomes terem colocao pr-verbal nas oraes

    razes introduzidas por advrbios proclisadores, nunca ocorreram entre a

    negao e o verbo.

    Argumentaremos que a variao histrica encontrada nos domnios

    negativos comprova a existncia de uma negao cltica nas gramticas do

    portugus. Entretanto, veremos que duas so as maneiras de construir o cltico

    negativo. A maneira tradicional via movimento da negao para I3, vide

    propostas de Pollock (1989), Belletti (1990), Martins (1994). Para tanto a

    estrutura deve prever que NEGP (Negative Phrase) esteja abaixo de IP

    (Inflectional Phrase). No entanto esta no dever ser a ordem da estrutura da

    frase em portugus. Como argumenta Mioto (1992), a estrutura que melhor d

    conta dos processos que envolvem a negao nessa lngua a em que NegP

    domina IP, ou seja, com NegP acima de IP. Sendo assim, a segunda maneira

    de pensar o cltico negativo foi proposta por Mioto (1992) e consiste em dizer

    3 A teoria da gramtica gerativa, adotando a representao X', alm das projees lexicais prope que o dicionrio mental contm tambm projees funcionais. Os ncleos funcionais tm funo eminentemente gramatical. A flexo verbal constitui uma categoria funcional que a teoria convencionou chamar de IP (sigla vinda do ingls para sintagma flexional - inflectional phrase). INFL ou I o ncleo do sintagma da flexo verbal, IP. As anlises dentro da perspectiva atual da teoria optaram por dividir o ndulo da flexo verbal IP em tempo e concordncia respectivamente TP (tense phrase) e AgrP (agreement phrase). A relao de dominncia entre estas categorias foi bastante discutida (ex: Chomsky 1989, Pollock 1989, Laka 1990, Ouhalla 1990, Iatridou 1990, Belletti 1990, Zanutti 1991, entre muitos outros trabalhos). No so raras as anlises que propem duas projees de Agr: uma para o sujeito (AgrSP), outra para o objeto (AgrOP). Alm da flexo verbal, outra projeo funcional essencial na teoria a projeo que traduz a subordinao CP (complementizer phrase). Estas questes tericas esto elucidadas no captulo terceiro.

  • INTRODUO.

    9

    que, neste caso, a cliticizao no feita via movimento do cltico, mas dos

    ncleos verbais para o cltico negativo, exatamente como acontece com a

    flexo verbal.

    Portanto, para explicar a relao necessria e dependente entre o no e

    o verbo, diversas anlises consideram que esta inseparabilidade decorre do

    carter cltico da negao.

    Adotamos aqui a idia do cltico negativo, mas acrescentamos que este

    elemento tem tambm um carter flexional e a realizao dos traos do

    ncleo funcional de polaridade - -Neg.4

    Para reforar a proposta do cltico negativo, re-invocamos a idia de

    Mioto (1992) de que a incorporao do no ao verbo obrigatria, e isto

    deriva do carter cltico do operador de negao. Na sua proposta, ao contrrio

    do que acontece com os clticos pronominais, seria o complexo verbal que

    subiria para o cltico-negativo, pelo fato de Neg situar-se acima de IP. Porm

    esta derivao esbarra na questo do sujeito pr-verbal em portugus europeu

    moderno (doravante PE). De acordo com Costa (1996) (cf. tambm Galves,

    1996, entre outros) o sujeito pr-verbal no PE ocupa Spec/IP, e, estando a

    negao acima de IP a ordem linear resultante no seria compatvel com a

    ordenao encontrada na lngua sujeito-negao-verbo5.

    Propusemos uma alternativa no quadro minimalista da morfologia

    distribuda assumindo as reflexes de Martins (a partir de 1994) sobre a

    natureza e fora dos traos de P. Dado que ncleos funcionais fortes precisam

    ser visveis em PF (segundo a teoria dos traos), sendo -Neg v-relacionado e

    com traos verbais fortes, a incorporao de I -Neg obrigatria. Como o

    operador de negao em PE uma espcie de cltico, -Neg pode se afixar a

    I pela operao de abaixamento do ncleo -Neg para a esquerda de I. Este

    4 Veremos no captulo terceiro que as operaes de negao e afirmao tm comportamentos paralelos, e que a sintaxe deriva estas operaes por meio de uma categoria funcional, presente na estrutura da orao, e que faz interface com o contedo informacional. Esta categoria foi designada P por Laka (1990) e Martins (1994). 5 Costa e Martins (2004), para capturar a ordem linear sujeito-negao-verbo, propem que nas sentenas negativas IP no projeta Spec (P e IP se fundem na sintaxe).

  • Aspectos da histria gramatical do portugus. Interpolao, negao e mudana.

    10

    processo deve ocorrer no componente morfolgico antes da insero vocabular

    e linearizao.

    Quanto aos clticos pronominais, eles obedecem a restries de domnio

    morfo-fonolgico e podem ser alinhados por deslocamento local aps a

    insero vocabular.

    De acordo com nossa anlise a gramtica do portugus antigo teria um

    pronome cltico capaz de se hospedar no ncleo mais alto da estrutura frasal

    (C). A estrutura com interpolao, mantendo o complementizador e o cltico

    adjacentes, nas oraes encaixadas (asy como ho ele na dita procurao h

    (Lx, 1306; Martins, 1994)), e a nclise nas oraes razes (E eu outrossi

    semelhauilmente obligome ... (Lx: 1291; Martins, 1994)) estariam relacionadas

    com a obrigatoriedade da inverso prosdica do cltico a este ncleo.

    Entretanto, a subida do cltico para C nas oraes dependentes e do verbo para

    este ncleo nas oraes razes no parece ser obrigatria, podendo o cltico

    e/ou o verbo manterem-se num ncleo mais baixo derivando a prclise com

    adjacncia ao verbo (e outrossj lhj fica h~uu herdam~eto (Lx, 1311; Martins

    1994)), e ainda prevendo casos com interpolao e no adjacncia ao

    complementizador6 (e que sempre a os mosteyros de Anssedj e de Arnoya

    usar e possoyr (NO, 1285; Martins 1884)7). Interpretamos que a no

    obrigatoriedade do fenmeno sugere seu carter prosdico.

    J a gramtica intermediria se caracteriza pela perda da propriedade de

    subida do cltico e do verbo a C (o pronome cltico no sobe alm de nesta

    fase), perdendo assim a possibilidade de interpolar elementos diferentes da

    negao. Assumimos que o prenchimento do Spec de P incompatvel com a

    nclise sendo a prclise a ordem das oraes razes XV, abrindo espao para a

    possibilidade da interpolao da negao neste contexto. A nclise s ser

    licenciada em sentenas estruturalmente V1, como propem Galves Britto e

    Paixo de Sousa (2005). Nesta gramtica verbo e cltico se movem para em

    6 Para esta estrutura ser derivada nas oraes dependentes o verbo deve se manter em I. 7 No entanto, tal estrutura apresenta-se rara e em textos tardios (sculos 14 e 15, sendo este dado de Martins (1994) o nico encontrado no sculo 13), podendo ser considerada pistas da mudana em curso nesta poca.

  • INTRODUO

    11

    todos os domnios (oraes razes e encaixadas). A possibilidade do verbo

    tambm se mover para nas oraes encaixadas pode estar relacionada com a

    perda de alguma propriedade de C em .

    A mudana para o portugus europeu moderno ter lugar na reanlise da

    posio do verbo e dos constituintes pr-verbais. O verbo em PE no se mover

    alm de I, tambm o cltico ficar neste domnio junto com o verbo. Spec de

    P se retringir a constituintes afetivos e o sujeito pr-verbal ocupar Spec de

    IP.

    Na literatura sobre a diacronia do portugus, encontramos importantes

    anlises sobre os textos portugueses do final do perodo medieval e incio do

    perodo clssico (em torno de 1500) que o consideram como um sistema V2.

    Notadamente, Ilza Ribeiro (1995) caracteriza o PA como um sistema V2 a

    princpio no rgido, e rgido em sua fase final (a partir de meados do sculo

    15). Para a autora, a propriedade fundamental do sistema arcaico do portugus

    a obrigatoriedade do movimento do verbo flexionado para um ncleo mais

    elevado que IP C. Para Ribeiro (1995), a diferena paramtrica entre os

    sistemas V2 e os no V2 relaciona-se ao valor positivo ou negativo do trao I

    em C. Nas lnguas V2, C teria trao +I, atraindo o verbo flexionado; nas

    demais, C teria trao I e no haveria o movimento do verbo. No PA, C

    apresentaria sempre o trao +I.

    Martins (1997), entretanto, defende uma idia contrria a de Ribeiro

    (1995), baseada nos dados empricos que revelam uma grande produtividade de

    ordens V3 em todas as fases da lngua. Veremos que apesar da produtividade

    da ordem V3 e SV possvel ainda defender ter havido um sistema V2 na

    histria da lngua portuguesa.

    Eide (2002) presumindo restries V2 no portugus do sculo 16 explica

    que a posio ps-verbal de sujeitos derivada pelo fato de a posio pr-

    verbal j estar ocupada por outro XP. Os XPs que ocupam a posio pr-verbal

    no corpus da autora so, sobretudo, expresses adverbiais que se referem a um

    lugar ou a um tempo j mencionado. A autora argumenta que parece existir

    uma restrio onde o XP mais discursivamente topicalizado (isto , o mais

  • Aspectos da histria gramatical do portugus. Interpolao, negao e mudana.

    12

    anafrico) fica em posio pr-verbal, enquanto o resto dos argumentos fica

    em posio ps-verbal. A lngua de seu corpus do sculo 16 parece evitar

    estruturas do tipo XP-S-V em contextos onde, segundo a autora, fatores

    discursivos permitiriam ou exigiriam esta ordem na lngua moderna. O

    portugus moderno, por seu lado, tem restries sobre a ordem VS que, para

    Eide (2002) indica que a posio pr-verbal fica cada vez mais reservada ao

    sujeito.

    Tambm Paixo de Sousa (2004) traz evidencias para um sistema V2 na

    lngua dos textos de autores nascidos entre o sculo 16 e o 17, as quais

    apresentaremos com mais vagar ao final do captulo primeiro.

    Argumentaremos em favor da proposta de que a gramtica arcaica, que

    gera a interpolao generalizada nas oraes dependentes e a nclise nas

    oraes matrizes, estaria em competio com uma gramtica intermediria

    entre a gramtica arcaica e a gramtica moderna nos textos dos autores

    nascidos no sculo 15 e incio do sculo 16. Esta gramtica mdia teria como a

    nica ordem para o pronome cltico no inicial a prclise com adjacncia ao

    verbo clV. Assumimos ser esta a ordem obtida no componente sinttico,

    seguindo Kayne (1991, 1993) que defende que os clticos so ncleos que se

    movem de sua posio de base para uma posio de adjuno esquerda de um

    ncleo de tipo flexional disponvel.

    Para defender esta proposta trazemos uma questo central: nas oraes

    dependentes finitas os constituintes fronteados parecem estar deixando de

    aparecer linearmente entre o cltico e o verbo para aparecerem entre o

    conectivo e a seqncia linear cltico-verbo entre os sculos 15 e 16. Contudo,

    ser importante notar que os dados apresentados refletem no uma mudana de

    posio dos constituintes fronteados, uma vez que o fronteamento, inclusive de

    complementos verbais, continua a ser produtivo at o sculo 188, mas uma

    mudana na posio do pronome cltico, uma vez que a ordem conectivo-XP-

    cl-V parece estabilizar-se no sculo 16. Veremos que o fenmeno da

    interpolao dos diversos elementos diferentes da negao j obsoleto no

    8 Cf. Paixo de Sousa (2004) e Gibrail (em andamento)

  • INTRODUO.

    13

    sculo 16. Tal mudana estaria relacionada ao domnio de hospedagem do

    cltico (mas no necessariamente sua tipologia ou ao seu estatuto de cltico,

    como veremos nos captulos terceiro e quarto).

    A gramtica mais antiga teria um cltico capaz de se hospedar ao ncleo

    mais alto da estrutura da frase (C). Nas oraes dependentes o pronome

    poderia mover-se para C deixando o verbo para traz e ocasionando a

    interpolao de XPs entre o cltico e o verbo. Em certo momento o pronome

    cltico deixa de poder se mover para C restringindo sua relao nuclear

    (talvez atravs de uma escolha entre dois dialetos), assim permanecendo no

    ncleo que tambm hospedaria o verbo nesta fase, estreitando sua relao com

    a morfologia verbal. Propomos que esta nica mudana aliada ao carter cltico

    da negao explicaria todas as mudanas na colocao destes pronomes na

    gramtica mdia: a perda da interpolao, o aumento da prclise sobre a

    nclise, o aumento de C-X-clnegV e o aparecimento de interpolao da

    negao em oraes no dependentes em contextos tradicionalmente

    considerados de variao clV/Vcl. Pois, uma vez que o fenmeno do

    fronteamento continua produtivo neste sistema, o preenchimento ou ativao

    da posio de fronteamento, como j vem sendo proposto (cf. Galves e Paixo

    de Sousa, 2005, entre outros trabalhos), deriva categoricamente a prclise no

    portugus dos anos de 1500 e 1600, e conseqentemente deve derivar a ordem

    clnegV nas oraes razes.

    As mudanas para o PE moderno, por sua vez, tero resultado da

    reanlise da posio pr-verbal, que se restringir ao sujeito, e da posio do

    verbo que deixar de subir at , permanecendo em I.

    Portanto, a variao histrica na colocao dos clticos pronominais nos

    domnios negativos deve derivar de trs constantes:

    1. Do compartilhamento dos traos de ncleo e de cltico da negao e do

    pronome quando esto ambos em um mesmo domnio (motivo pelo qual a

    ordem *neg-V-cl, com nclise, no pode ser derivada).

  • Aspectos da histria gramatical do portugus. Interpolao, negao e mudana.

    14

    2. Da altura em que o pronome pode alcanar na estrutura da frase a depender

    da gramtica que subjaz as ordenaes: Gramtica arcaica - o pronome tono

    pode se hospedar no ncleo C derivando C-cl-(X)9-negV; gramtica mdia -

    o cltico no sobe alm de , resultando a possibilidade de interpolao

    somente da negao, porm abrangendo as oraes razes XP-verbo (C)-X-

    clnegV; ou gramtica moderna (o pronome permanece em I) (C)-(X)-

    negclV.

    3. Da posio do verbo e da natureza da posio que antecede o complexo

    verbal a depender das gramticas.

    Assim a tese se divide em:

    (i) Introduo - com uma apresentao do lao terico que sustenta o nosso

    olhar sobre os dados e a mudana gramatical.

    (ii) Quatro captulos que apresentam a descrio/discusso dos dados, bem

    como o material para anlise: I. Captulo primeiro Recontando a Histria

    traz as questes tradicionais casando a histria de Portugal com a histria da

    lngua portuguesa. Neste primeiro captulo, adiantaremos os resultados da

    pesquisa que nos levaro a sustentar a hiptese delineada por Galves (1996) de

    ter havido dois estgios gramaticais anteriores ao portugus europeu moderno:

    a gramtica antiga (dos primeiros documentos at finais do sculo 14 ou incio

    do sculo 15), e a gramtica mdia (j apontada no sculo 15 e representada

    pelos autores nascidos at o incio do sculo 18). II. Captulo segundo O

    fenmeno da interpolao nos textos portugueses de autores nascidos entre os

    sculos 15 e 19 Neste captulo, descreveremos os dados da variao

    interpolao x prclise com adjacncia clV no Corpus do Portugus

    Histrico Tycho Brahe comparando com a descrio do fenmeno em outros

    corpora que contemplam outras pocas (Martins, 1994, Parcero, 1999, Fiis,

    2001, e Magro, 2007). Contamos com uma base emprica de 22589 sentenas,

    9 Parnteses indicam opcionalidade

  • INTRODUO.

    15

    com clticos pr-verbais, distribudas em vinte textos do Corpus Tycho Brahe

    (CTB). Das 22589 sentenas analisadas foram selecionadas 8686 dados de

    variao interpolao/adjacncia cltico-verbo , sendo 1667 com

    interpolao e 7019 com adjacncia cl-V. III. Captulo terceiro Colocao

    de clticos e negao Montado o alicerce com descrio dos dados no

    captulo segundo, iniciaremos a construo da anlise com a comparao dos

    padres de colocao pronominal nos domnios afirmativos e negativos e com

    a reflexo terica sobre a negao sentencial. IV. Captulo quarto ltimas

    peas Enquadraremos nossa anlise no quadro terico da morfologia

    distribuda.

    (iii) Concluso: Recontando a Histria voltaremos s gramticas do

    portugus para concluir nossa proposta e finalizar a tese.

    (iv) Anexo - apresentao das informaes sobre o corpus utilizado na

    pesquisa, da quantificao com as tabelas e grficos relevantes para nossa

    reflexo, bem como da metodologia de classificao, organizao e

    armazenamento de dados. Nosso banco de dados encontra-se em

    http://www.ime.usp.br/~tycho/participants/namiuti/index.html

    A seguir, ainda nesta introduo, coloco em linhas gerais os aspectos tericos e

    metodolgicos mais relevantes para sustentar a minha abordagem frente s

    variaes de freqncia dos fenmenos considerados na pesquisa.

    2. Para modelar a variao: lao terico.

    A questo central presente nas pesquisas diacrnicas no quadro terico

    da gramtica gerativa, e que tambm consideraremos aqui, : De que forma os

    dados de lngua refletem alteraes no plano das gramticas?

    A interpretao dos dados, bem como dos processos de mudana,

    depende diretamente da teoria adotada para se chegar s gramticas que

    atuaram na histria da lngua.

  • Aspectos da histria gramatical do portugus. Interpolao, negao e mudana.

    16

    Na perspectiva gerativista, o conceito de Gramtica remete

    possibilidade de se gerarem as estruturas, e no ao inventrio de estruturas.

    Essas possibilidades so limitadas pela Gramtica Universal, que faz

    parte das faculdades inatas do ser humano. A Gramtica Universal oferece

    princpios imutveis e parmetros que podem ser especificados (ou

    fixados) diferentemente em gramticas particulares determinando, assim,

    os limites de variao entre as gramticas (Chomsky, 1979, 1981; Chomsky e

    Lasnik 1993; entre outros trabalhos). Cada gramtica, neste sentido, representa

    uma determinada parametrizao dos princpios da Gramtica Universal.

    Portanto, a gramtica na teoria gerativa, ser uma entidade individual. As

    gramticas individuais emergem nos falantes a partir da interao entre os

    princpios da Gramtica Universal (ou seja, inatos) e a experincia lingstica

    de cada falante (ou seja, os dados a que est exposto na fase de aquisio,

    produzidos pela gerao anterior).

    Neste quadro terico, a mudana gramatical uma funo da relao

    entre a capacidade inata e a experincia lingstica vivenciada pelas sucessivas

    geraes de falantes.

    Portanto, as diferenas sintticas entre dois ou mais estgios de uma

    lngua, assim como as diferenas entre as lnguas, so analisadas no quadro da

    teoria gerativa em termos de fixao diferente de valores paramtricos. Deste

    modo a mudana sinttica vista como mudana de parmetro, e fortemente

    vinculada aquisio.

    De acordo com Ligthfoot (1991) a mudana lingstica pode oferecer

    informaes cruciais sobre a aquisio da linguagem pelas crianas,

    aprendendo-se mais sobre a natureza de sua experincia desencadeadora e

    sobre como os parmetros so marcados. Uma vez que a ordenao linear dos

    constituintes dos enunciados de uma lngua pode ser compatvel com mais de

    uma gramtica e que a criana no conhece a priori qual das anlises

    representa a gramtica do adulto (G1), ela pode tanto optar pela G1, como

    levantar uma hiptese incorreta sobre esta gramtica. Assim a mudana

  • INTRODUO.

    17

    gramatical ocorre quando as crianas so levadas pelas propriedades dos

    dados lingsticos primrios a escolher uma gramtica diferente da dos

    adultos. Isto significa dizer que, num estudo diacrnico, estamos preocupados

    em descobrir propriedades nos dados lingsticos que induzem as crianas a

    uma anlise destes dados diferente da dos adultos, ocasionando a mudana

    lingstica.

    Sendo assim, ao levantar a hiptese de uma etapa gramatical, os estudos

    gerativistas buscam compreender a que padro de marcao paramtrica

    corresponde um determinado conjunto de dados.

    Reconhecendo a distncia existente entre a produo escrita e a

    gramtica, os estudos de mudana no quadro gerativista enfrentam alguns

    desafios metodolgicos, uma vez que a gramtica um objeto terico e os

    dados um objeto emprico a ser interpretado. A este respeito cito uma

    passagem de Galves, Paixo de Sousa e Namiuti (2006):

    Os dados documentados relativos a mudanas apresentam-se, tipicamente, como dados de variao entre formas antigas e formas novas nos textos. Note-se, entretanto, que quando se admite que a mudana de uma gramtica para outra envolve a fixao (ou marcao) diferente dos parmetros via aquisio da linguagem pela criana, esta mudana dever ser conceituada, por necessidade terica, como um evento abrupto... Temos ento um aparente paradoxo: a mudana gramatical, em tese um evento abrupto, manifesta-se nos dados como um evento de variao gradual. Assim, a interpretao dos dados histricos num estudo de mudana gramatical precisa contar com um quadro metodolgico que permita abordar o problema da variao diacrnica. (Galves, Paixo de Sousa e Namiuti, 2006:49)

    Portanto, ao levantar hipteses sobre gramticas, os estudos gerativistas

    buscam interpretar teoricamente os dados da lngua.

    Em nosso estudo, partimos do quadro delineado a partir de Kroch (1989),

    que salienta que a variao nos textos no se deve confundir com variao nas

    gramticas. Ou seja: as mudanas nas lnguas, instanciadas nos documentos

    histricos como variao gradual, so reflexos de mudanas gramaticais que

    devem ocorrer de modo abrupto. Nos casos de mudana gramatical, poderemos

    observar que a variao entre a forma antiga e a forma nova nos textos resulta

  • Aspectos da histria gramatical do portugus. Interpolao, negao e mudana.

    18

    no estabelecimento da nova forma na lngua. Esta variao entre formas antigas

    e novas na linha do tempo, em alguns casos, no pode ser conceituada como

    uma oscilao produzida por uma nica gramtica particular. Ao contrrio,

    cada forma parece corresponder a diferentes fixaes de um parmetro. Nestes

    casos, a variao nos textos pode ser compreendida como fruto da convivncia,

    no plano do uso, de formas geradas por diferentes gramticas. o que Kroch

    (1994) chama de Competio de Gramticas, processo no qual as formas

    antigas so gradualmente expulsas do uso pelas formas inovadoras.

    Com relao maneira com que a mudana paramtrica ocorre, Kroch

    (1989) (cf. tambm Kroch 2003) conclui que a mudana real na fixao do

    parmetro deve ser abrupta, ocorrer no vernculo sem ser observada, e somente

    a competio da gramtica nova com a antiga, ou o uso escolarizado

    conservador, acessvel para ser estudado nos textos. Por isto a mudana

    sinttica, uma vez implementada, produz uma lenta mudana no sentido das

    freqncias de uso das formas nova e velha. As diferenas nas freqncias

    podem refletir, segundo Kroch (1989, 2003), preferncias estilsticas ou efeito

    de processamento psicolingstico. Ento, apesar da mudana sinttica ocorrer

    instantaneamente no vernculo, a substituio de uma forma por outra se d

    gradualmente.

    Kroch (1989, 2003) prope que quando a evidncia para a fixao de um

    dado parmetro se torna fraca, alguns aprendizes no vo ser expostos a dados

    suficientes para fixar o parmetro corretamente. O resultado ser uma

    populao mista na qual alguns falantes tm a fixao paramtrica antiga e

    outros a nova. Nessa populao mista, a prxima gerao provavelmente ser

    menos exposta aos dados necessrios para fixar o parmetro do jeito antigo.

    Assim, a variao no uso que reflete diferentes fixaes paramtricas

    encontrada nos textos escritos. Para modelar essa variao, Kroch (2003)

    tambm prope ser necessrio permitir a diglossia sinttica como uma situao

    normal durante o perodo de mudana. E uma vez que uma comunidade se

    torna diglssica com relao a uma dada fixao paramtrica, os falantes

    poderiam aprender ambos os parmetros, e a escolha de qual critrio de boa

  • INTRODUO.

    19

    formao que deva ser aplicado na produo de uma dada instncia de fala

    recairia no domnio da performance. As formas em competio em diglossia

    sinttica representariam, segundo Kroch (2003), uma oposio entre um

    vernculo inovador e uma lngua conservadora. E, j que a primeira teria

    vantagem tanto psicolingstica quanto numrica, ela dever vencer ao longo

    do tempo, at mesmo em textos escritos. Desta maneira, a gradao encontrada

    nos textos no deve refletir qualquer mecanismo bsico de mudana

    lingstica, mas sim o bilingismo psico e/ou sociolingstico.

    A gradao da mudana, por no ter lugar na teoria gramatical, ficou fora

    do interesse das primeiras discusses gerativistas. Mas, recentemente,

    reconheceu-se que a questo da gradao apresenta algum desafio para a teoria

    gramatical, pois, de acordo com Kroch (1989, 2003), ela caracteriza no

    somente mudanas nas preferncias estilsticas, como tambm a difuso de

    mudanas na fixao de parmetros sintticos. Pois, observa-se que as opes

    paramtricas da sintaxe que passam de um padro para outro mostram sempre

    um mesmo tipo de comportamento varivel durante um perodo de transio

    mais ou menos longo. Segundo Kroch (1989) (cf. tambm Kroch, 2003) a

    substituio de uma forma pela outra em um grfico segue uma curva em S no

    tempo, sendo o eixo das abscissas (eixo-x) o eixo do tempo. Isto significa dizer

    que a forma nova aparece timidamente no incio e ento aumenta gradualmente

    ao longo do tempo.

    Quanto mudana de um parmetro em uma dada lngua, Kroch (2003)

    chama a ateno para o fato de que uma mudana paramtrica afeta a

    gramtica como um todo, no apenas uma determinada construo. Algumas

    mudanas superficiais que ocorrem em diferentes contextos, mas em um

    mesmo perodo, podem ser o resultado de uma nica mudana paramtrica.

    Para checar se as mudanas nos diferentes contextos so o resultado de apenas

    uma mudana profunda Kroch (2003) utiliza mtodos estatsticos que levam

    em considerao a razo (proporo) em que as mudanas ocorrem. Se esta

    razo for constante, ou seja, a mesma para vrias das mudanas superficiais,

    conclu-se que apenas um parmetro est envolvido na mudana.

  • Aspectos da histria gramatical do portugus. Interpolao, negao e mudana.

    20

    Kroch (2003) ilustra o efeito da razo (ou taxa) constante no caso do

    surgimento do auxiliar do em ingls, entre o incio do sculo 15 e meados do

    16, e a substituio da ordem verbo-advrbio por advrbio-verbo. A razo com

    que a ordem advrbio-verbo substitui a ordem verbo-advrbio a mesma razo

    do aumento do auxiliar do, o que sustenta a idia que uma nica mudana

    paramtrica est em jogo, e que sua progresso observvel no modo como as

    freqncias de uso mudam ao longo do tempo.

    No que concerne especificamente o problema da identificao de etapas

    gramaticais, ou a periodizao, a contribuio central do conceito de

    Competio de Gramticas a idia de que a emergncia de uma nova

    gramtica ser identificada pelo surgimento de formas novas nos dados. (Cf.

    Galves, Paixo de Sousa e Namiuti, 2006).

    Com este esprito, o levantamento dos dados dos diversos trabalhos

    trazidos por Galves, Paixo de Sousa e Namiuti (2006), que inclui dados desta

    pesquisa, oferece evidncias para a identificao de dois momentos principais

    de mudana nos padres sintticos dos textos portugueses, que interpretamos

    como reflexos de mudanas de gramticas, corroborando a hiptese de Galves

    (1996).

    Os fatos relativos interpolao so importantes para compreendermos a

    mudana cuja inflexo a fronteira entre os sculos 14 e 15. Antes disso, a

    interpolao de constituintes generalizados do sintagma verbal prpria das

    oraes dependentes com contigidade (C-cl). Nesta fronteira entre os sculos

    14 e 15, novos contextos de interpolao da negao, bem como novos padres

    de ordenao e contigidade nas sentenas negativas com cl-neg-V comeam a

    ser atestados. Logo em seguida na linha do tempo identifica-se o

    desaparecimento do fenmeno da interpolao generalizada nos textos. Estes

    fatos so interpretados como indcios da emergncia de uma nova gramtica

    que foi intitulada de Portugus Mdio por Galves (2004). A interpolao dos

    diversos constituintes do sintagma verbal ainda atestada nos textos a partir

    desse perodo interpretada como variao no uso de formas em competio,

  • INTRODUO.

    21

    uma vez que novos padres de ordenao j foram indiciados nesta poca.10

    De outro lado, os fatos relativos variao nclises versus prclises so

    importantes para compreendermos a mudana cuja inflexo o incio do sculo

    18. A anlise quantitativa das alteraes nos padres de freqncia atestados no

    Corpus Tycho Brahe, aliada a uma anlise qualitativa dos dados, mostraram

    que a variao emprica entre nclises e prclises deve ser compreendida

    diferentemente para os textos dos sculos 16 e 17, de um lado, e os textos do

    sculo 18 e 19, de outro. Nos textos representativos dos anos 1500 e 1600,

    trata-se de uma alternncia possibilitada por uma mesma gramtica (a

    gramtica do Portugus Mdio). Nos textos representativos dos anos 1700 e

    1800, a variao o efeito de uma competio de gramticas (no sentido de

    Kroch 1994, 2003), que por sua vez evidencia a emergncia da gramtica do

    Portugus Moderno. (Cf. Galves Britto e Paixo de Sousa 2005, Paixo de

    Sousa, 2004, tambm Galves, Paixo de Sousa e Namiuti, 2006).

    Observamos, ainda, uma coincidncia entre o declnio dos padres de

    interpolao peculiares da negao e a elevao da freqncia de nclises

    ambas as inflexes se do na primeira metade dos 1700. Este fato tambm

    corrobora fortemente a hiptese do estado gramatical intermedirio a

    gramtica mdia.

    Sobre a emergncia do Portugus Brasileiro, repito as palavras de

    Galves, Paixo de Sousa e Namiuti (2006: 68, 69):

    Resta observar, por fim, que nosso corpus principal (formado por textos escritos por autores

    portugueses) no possibilita que cheguemos a qualquer concluso sobre a emergncia da

    gramtica do Portugus Brasileiro. Entretanto, para futuras reflexes sobre a diacronia do

    portugus do Brasil, nossa periodizao deixa a seguinte contribuio: a gramtica do

    Portugus Brasileiro deve emergir a partir da gramtica do Portugus Mdio no do

    Portugus Europeu Moderno, nem do Portugus Arcaico.

    10

    A idia central da competio de gramticas, delineada por Kroch (1989, 2003) fundamental aqui.

  • Aspectos da histria gramatical do portugus. Interpolao, negao e mudana.

    22

    Esta viso sobre os dados nos leva a repensar a periodizao da lngua de

    acordo com as gramticas que subjaz aos perodos. A seguir entraremos nesta

    reflexo.

    3. A periodizao segundo a tradio filolgica vs a periodizao

    revisitada.

    Embora as periodizaes sugeridas pela tradio dos estudos histricos se

    apresentem variadas a depender dos autores, possvel reconhecer algumas

    delimitaes amplas.

    O primeiro perodo histrico que se costuma reconhecer o portugus

    arcaico, a lngua que se registra desde os primeiros documentos at fins da

    Idade Mdia. Seria, portanto, a lngua representada nos manuscritos medievais

    de todo gnero (poticos, notariais, histricos). Ser no sculo 16 que a

    tradio historiogrfica do portugus localizar o divisor de guas principal na

    histria da lngua, separando a lngua antiga da moderna. Grande parte da

    tradio reconhecer, entretanto, que a lngua representada nos textos clssicos

    portugueses no ainda a lngua portuguesa contempornea. Este perodo

    intermedirio entre o medieval e o contemporneo foi denominado de

    portugus clssico, e incluiria textos quinhentistas tardios, textos seiscentistas

    e textos setecentistas.

    Todavia, j na segunda metade do sculo 14 e no sculo 15 se revelavam

    as formas do PC coexistindo com as formas do perodo arcaico. Fato que levou

    alguns estudiosos a designar este perodo de transio da lngua medieval para

    a clssica de portugus mdio (cf. Cardeira 2005, Castro 1991, entre outros).

    Portanto, tomando como alicerce de nossa reflexo a concepo de mudana

    gramatical delineada por Kroch (1989), possvel considerar que a fase

    gramatical intermediria entre o PA e o PE compreende um perodo maior que

    o clssico. Galves (2004) chamou de portugus mdio (doravante PM) este

    perodo gramatical que abarca a fase denominada de portugus mdio por

  • INTRODUO.

    23

    Cardeira (2005) e Castro (1991) e a fase denominada de portugus clssico

    pela tradio.

    Depois desta fase intermediria, costuma-se identificar no sculo 19 o

    momento em que a lngua portuguesa contempornea se estabelece nos textos:

    a escrita oitocentista j no registra os padres caractersticos da fase clssica,

    e prxima do portugus da Europa hoje.

    No entanto, no sculo 18 que Galves, Britto e Paixo de Sousa (2005)

    identificam a emergncia da gramtica do Portugus Europeu Moderno.

    O esquema abaixo retrata a periodizao revisitada por Galves, Paixo de

    Sousa e Namiuti (2006). O quadro ilustra a interseco entre as gramticas no

    incio e final de cada perodo.

    Quadro 1: A periodizao revisitada

    Os textos representativos dos anos de 1400 e de 1700 apresentam variaes que

    foram interpretadas como o efeito de competio de gramticas (no sentido de

  • Aspectos da histria gramatical do portugus. Interpolao, negao e mudana.

    24

    Kroch 1989, 1994, 2003), que por sua vez evidenciam a emergncia da

    gramtica do Portugus Mdio de um lado e do Portugus Moderno do outro.

    (Cf. Galves Britto e Paixo de Sousa 2005, Paixo de Sousa, 2004, tambm

    Galves, Paixo de Sousa e Namiuti, 2006).

    Os estudos pioneiros sobre a diacronia do portugus no quadro

    gerativista (cf. Cyrino 1994, Martins 1994, Torres Morais, 1995; Ribeiro, 1995

    entre outros), apesar de levarem em conta a periodizao delineada pela

    tradio, que, de forma geral, divide a histria da lngua em trs grandes ciclos

    o portugus arcaico (perodo compreendido entre o sculo 13, com os

    primeiros documentos escritos, at o sculo 16), o portugus clssico (entre o

    sculo 16 e final do sculo 18/incio do 19), e o portugus Europeu moderno (a

    partir do sculo 19), costumam considerar para a diviso gramatical apenas

    duas gramticas, uma antiga e outra moderna, seguindo, de certa forma,

    impresses como a descrita por Teyssier (1982):

    Na leitura de um texto de fins do sculo XVI, a penosa impresso de arcasmo

    dos textos antigos cede lugar a um agradvel sentimento de modernidade. Se

    necessidade houvesse de fixar uma data ou um acontecimento para marcar

    esta mudana, uma ou outra coincidiriam com a publicao, em 1572, de Os

    Lusadas, de Lus de Cames. ... // Para chegar a essa fase, o portugus sofreu

    do sculo XIV ao XVI, uma srie de transformaes que tiveram como efeito

    fixar a morfologia e a sintaxe de tal maneira que da por diante pouco

    variaro. (Teyssier, 1982 traduo de Celso Cunha, 2001).

    A pesquisa de Martins (1994, 1997) sobre a evoluo da colocao

    pronominal na histria do portugus europeu aponta o sculo 17 como incio

    do PE. Quanto s etapas gramaticais, Martins (1994, 1997) considera que a

    perda da possibilidade de interpolao nos domnios encaixados est

    diretamente relacionada com a perda da possibilidade da prclise nas oraes

  • INTRODUO.

    25

    razes neutras11. A principal mudana gramatical na histria do portugus

    Europeu conectaria diretamente a gramtica que gera o fenmeno da

    interpolao (ex.: .... como se nesta carta contem... NO, 1538. Martins

    1994), caracterstico do PA, gramtica do PE que exibe um padro encltico

    nas oraes razes neutras (ex. O Paulo falou-me). Esta mudana teria

    ocorrido no incio do sculo 17, e estaria representada nos Sermes do Padre

    Antnio Vieira. A gramtica antiga teria um cltico capaz de receber nfase e

    alar-se para fora dos domnios de IP produzindo a prclise e a interpolao.

    O aumento no uso da prclise, segundo esta hiptese, teria sido o gatilho para

    a marcao negativa da nfase para o cltico, uma vez que se esperaria que

    sentenas enfticas fossem universalmente menos freqentes que sentenas

    neutras. Ento teramos a mudana de uma gramtica que permitiria prclise

    (marcando nfase) x nclise (neutra) nas oraes razes, e interpolao

    (marcando nfase) x prclise (neutra) nas oraes encaixadas, para uma

    gramtica em que no seria mais possvel marcar nfase pela posio do

    cltico, resultando em apenas nclise nas oraes razes no marcadas e

    prclise nas oraes dependentes. Isto significaria dizer que uma gerao de

    crianas que ouve quase sistematicamente os pais pronunciarem: e o asno lhe

    deu dous coices (Martins, 1997:146); constroem gramticas que geram

    necessariamente: e o asno deu-lhe dous coices (Martins, 1997:146).

    medida em que a construo com a ordem 'cltico verbo' ia deixando de ser interpretada como enftica (por conta do aumento no uso desta construo)12, a evidncia de que os clticos podiam conter um trao de nfase ia-se perdendo. Estavam ento criadas as condies para que comeassem a surgir gramticas com uma fixao negativa do parmetro relevante. Era o princpio do fim da relao entre os clticos e em portugus. (Martins 1997:144)

    11 Termo utilizado por Martins (1994) para designar as oraes no dependentes introduzidas por: sujeito, orao anteposta, cpula, sintagmas preposicionais e adverbiais que no condicionassem prclise obrigatria. 12 Comentrio dentro dos parnteses no faz parte do texto de Martins.

  • Aspectos da histria gramatical do portugus. Interpolao, negao e mudana.

    26

    A hiptese de que h duas posies para os clticos no portugus antigo, AgrS e , mas s uma no portugus moderno, AgrS, permite-nos assim dar conta uniformemente das duas grandes diferenas entre o portugus antigo e o portugus moderno no que diz respeito colocao dos clticos: 'potencial interpolao' versus 'adjacncia obrigatria' em certos contextos; alternncia entre prclise e nclise versus nclise obrigatria, em outros contextos. (Martins 1997:140).

    Esta hiptese (de duas fases gramaticais) em parte o resultado do fato de que

    a histria do portugus carecia de estudos aprofundados que focalizassem os

    perodos posteriores ao sculo 16, uma vez que esse sculo considerado como

    o marco inicial das lnguas modernas (cf. Mattos e Silva 1992 para uma sntese

    dos estudos sobre periodizao do portugus). No caso da lngua portuguesa,

    essa concepo mostrou-se particularmente inadequada, porque, como

    argumenta Galves (2004), alm do surgimento posterior do portugus

    brasileiro, o prprio portugus europeu sofre mudanas notveis depois do

    sc. 16.

    Avanamos na questo gramatical trazendo fatos importantes que

    corroboram a hiptese de Galves (1996, 1998, 2001, 2004) de ter havido um

    estgio gramatical intermedirio entre o PA e o PE.

    De posse dos resultados obtidos nesta pesquisa, sobre a interpolao,

    somados aos resultados de Galves, Britto & Paixo de Sousa (2005), sobre a

    variao nclise e prclise, e os de Paixo de Sousa (2004), sobre a variao

    nclise e prclise e a posio do sujeito, sustenta-se a hiptese de uma

    gramtica intermediria entre o portugus antigo e o moderno. Atestamos que a

    interpolao dos constituintes do VP, bastante produtiva nas oraes

    dependentes do PA, desaparece da produo literria no sculo 16, e a no

    adjacncia entre o complementador e o cltico se torna mais comum: a ordem

    C-cl-X-(neg)V abre espao para a ordem C-X-cl-(neg)V.

    (01) e certo que se lhe ElRei no mandra sucessor (CTB: Couto-1548)13

    13 Apesar de Diogo do Couto ter nascido em 1548 atestamos algumas interpolaes do tipo Arcaico (C-cl-X-negV) no seu texto, porm so marginais em relao estrutura sem a interpolao de elementos diferentes de no (C-X-cl-negV).

  • INTRODUO.

    27

    (02) que at o Prior dos Agostinhos, seu Confessor, o no pde sofrer (CTB: Couto-1548)

    Neste mesmo sculo encontramos um padro procltico nas oraes no

    dependentes afirmativas, e ainda, a interpolao da negao ganha novos

    contextos (no passa a ser interpolado em ambientes de variao clV/Vcl).

    (03) E , pelo ElRei Dom Joo o III querer casar, e le no querer, lhe no deram satisfao de seus servios ... (CTB: Couto-1548)

    Interpretamos estes fatos como o reflexo da mudana no domnio de

    hospedagem do cltico, que deixa de se relacionar com o ncleo mais alto da

    estrutura da frase e passa a se relacionar intensamente com o ncleo que

    contm o complexo verbal ( nesta fase).

    Considerando os novos resultados da escavao do portugus clssico

    (doravante PC) (empreita lanada a partir de Galves et alii, 1998), Martins

    (2003a, 2003b e 2005) considera a possibilidade de ter havido trs estgios

    gramaticais na histria do portugus, e defende que os clticos so ncleos em

    todas essas fases (Martins, 2002b, 2003a, cf. captulo terceiro). Desta forma

    as mudanas no estariam relacionadas tipologia do cltico (XP vs X), como

    supem algumas anlises (remeto a Cardinaletti e Roberts 1991, entre outros),

    mas sim s posies pr-verbais e, conseqentemente, ao fenmeno do

    fronteamento de constituintes do sintagma verbal (IP scrambling).

    Martins (2000, 2003a e b, 2005) lana a hiptese de que o PA teria vrias

    posies pr-verbais disponveis no domnio de IP (Specs mltiplos), j o PC

    teria uma, enquanto que o PE nenhuma (cf. captulo primeiro).

    Concordo com Martins (2002b) no fato de que os clticos so ncleos em

    todas as fases do portugus, mas proponho que a diferena principal, sobretudo

    entre o PA e o PM, est na altura que CL pode alcanar na estrutura

    sinttica da frase. Para o PE, existe tambm uma diferena na altura do cltico,

    que pode tambm estar relacionada com a altura do verbo, ambos, cltico e

    verbo, deixam de subir para alm de IP. Alm das questes sintticas e

    morfolgicas, veremos que as questes informacionais e prosdicas tambm

  • Aspectos da histria gramatical do portugus. Interpolao, negao e mudana.

    28

    podem direcionar as preferncias no posicionamento dos clticos. (Cf.

    captulos terceiro e quarto).

    Para comear nossa argumentao, voltemos s condies que levam s

    mudanas. Uma vez que a mudana gramatical est em funo da relao entre

    a capacidade inata e a experincia lingstica vivenciada pelas sucessivas

    geraes de falantes, trago no captulo primeiro algumas questes que vo

    alm das gramticas.

  • 29

    I. I. I. I. CAPTULO PRIMEIROCAPTULO PRIMEIROCAPTULO PRIMEIROCAPTULO PRIMEIRO....

    RECONTANDO A HISTRIA.

    o que no se altera no tem continuidade mas permanncia, e

    carece de historicidade

    (Coseriu 1979: 94)

  • I. Captulo Primeiro: Recontando a Histria.

    31

    I.1 - Aspectos histricos que marcaram a constituio da lngua e estado

    portugus.

    Para entender os estgios Gramaticais e as mudanas atestadas na lngua

    portuguesa desde que se tm notcias comearei por contar brevemente sua

    histria, pois, recontar essencial no exerccio de reconhecer, no j conhecido,

    algo novo. Portanto, voltemos para antes do comeo com a chegada dos

    romanos ao territrio Ibrico por volta do ano 200 a.C..

    A Hispnia, assim denominada pelos romanos, fez parte do imenso

    territrio que constituiu o Imprio de Roma por cerca de seis sculos (200 a.C.

    a 400 d.C.). Antes dos romanos os dominadores da pennsula haviam sido

    principalmente os cartagineses, celtas e populaes denominadas Iberos.

    Costuma-se assumir que a lngua dos conquistadores romanos sufocou

    totalmente as lnguas (celtas) faladas anteriormente neste territrio14 excluindo

    definitivamente a hiptese de um substrato15 ativo na evoluo do latim trazido

    e implementado na pennsula.

    Porm, em uma situao como a do Imprio Romano e suas conquistas,

    no factvel sustentar que a lngua imposta e levada s regies conquistadas

    no tenha se transformado seguindo a provvel influncia das lnguas dos

    povos dominados. Cada um dos povos da Pennsula aprendeu o Latim

    consoante os seus hbitos lingsticos anteriores.

    Os romanos chegaram pennsula no ano de 218 a.C. (cf. Castro, 1991,

    Teyssier, 1997, entre muitos outros), um dos episdios que constituiu a

    14 Com exceo do basco (denominado Euskaldunak pelo povo basco), que permaneceu com sua lngua e costume originrios do perodo pr-romano. O basco uma das poucas lnguas vivas no indo-europias em solo europeu. 15 Segundo Hirt (1894), os grandes grupos de dialetos (ramos) do indo-europeu se explicam principalmente com a passagem da lngua dos conquistadores indo-europeus para os povos de lngua estrangeira dominados. A tese, impossvel de ser confirmada, tambm no se difundiu muito sob esta forma generalizante, mas em compensao deu pretexto para frutferas discusses. Como exemplo, Strrig (2002) cita a hiptese de influncia de lnguas pr-gregas (pelgicas) no grego, e tambm a possibilidade de haver uma camada de substrato hamtico no Irlands.

  • Aspectos da histria gramatical do portugus. Interpolao, negao e mudana.