ANAIS DO XXXII COL“QUIO .como Alfred Gell, repensa o conceito de arte ocidental a ... propondo entender

  • View
    214

  • Download
    0

Embed Size (px)

Text of ANAIS DO XXXII COL“QUIO .como Alfred Gell, repensa o conceito de arte ocidental a ... propondo...

ISSN 2236-0719

ANAIS DO XXXII COLQUIO CBHA 2012

Organizao

Ana Maria Tavares Cavalcanti

Emerson Dionisio Gomes de Oliveira

Maria de Ftima Morethy Couto

Marize Malta

Universidade de BrasliaOutubro 2012

Encruzilhadas afro-brasilidade, Histria da Arte, globalizao

Roberto Conduru

London snow Africa, London hole Brazil, obra feita em 1998-1999, por Milton Machado, um readymade fotogrfico que, entre outros encaminhamentos, aponta a possibilidade e a pertinncia de articular artisticamente territrios geopolticos brasileiros, africanos e outros. Com efeito, frica, Brasil e arte so tpicos socioculturais que podem ser conectados entre si e criar um campo de pesquisa heterogneo e algo impreciso. As relaes entre esses tpicos iluminam variados temas, questes, obras, autores, instituies, audincias, sociedades. Constituem um territrio passvel de ser recortado de diversas maneiras, de acordo com diferentes disciplinas, bem como com as intenes e os objetivos que as norteiam.

Para pensar historicamente esse campo mltiplo e no facilmente delimitado necessrio mais do que a incluso de novos objetos, agentes e instituies, de novos temas e questes na perspectiva tradicional da histria da arte. Distante da noo de estilo, o territrio circunscrito pela conexo entre frica, Brasil e arte pode ser visto como um campo aberto a mltiplos atravessamentos, como uma encruzilhada na qual diferentes elementos, sujeitos, pontos de vistas e modos de pensar se articulam. O que demanda o confronto e a conciliao de teorias, mtodos, estruturas

XXXII Colquio CBHA 2012 - Direes e Sentidos da Histria da Arte

1476

discursivas. Portanto, para estudar esse territrio heterclito importante ir alm dos limites usuais da histria da arte, conectando-a a outras disciplinas e suas tradies.

Nesse sentido, o estudo de relaes entre arte, frica e Brasil pode ser vinculado demanda contempornea pela reviso da abrangncia, dos princpios e mtodos da histria da arte, pode ser associado s tentativas de produo de uma histria da arte global. Essa tambm pode ser vista como uma encruzilhada de diferentes objetos, sistemas de pensamento, agentes, instituies, tradies culturais, modos de ao e reflexo (pesquisar, colecionar, exibir, ensinar, escrever, editar, criar).

Para anlise das conexes deflagradas pelo territrio configurado pela articulao de arte, frica e Brasil com relao histria da arte global, esse texto abordar questes a partir de algumas obras de autores que tm contribudo para pensar os desafios, as ideias, as prticas e as realizaes neste campo frtil da histria da arte na contemporaneidade: David Summers,1 Thomas da Costa Kaufmann,2 John Onians,3 Julian Bell,4 James Elkins,5 David Carrier6 e Hans Belting,7 entre outros.1 SUMMERS, David. Real Spaces: World Art History and the Rise of Western Modernism. London; New York: Phaidon, 2003.2 KAUFMANN, Thomas DaCosta. Toward a Geography of Art. Chicago: University of Chicago Press, 2004.3 ONIANS, John (editor). Atlas of World Art. London: Laurence King Publishing, 2004; --. Art, Culture and Nature: from Art History to World Art Studies. London: The Pindar Press, 2006. --. Neuroarthistory: from Aristotle and Pliny to Baxandall and Zeki. New Haven: Yale University Press, 2007.4 BELL, Julian. Uma Nova Histria da Arte (2007). So Paulo: Martins Fontes, 2008.5 ELKINS, James (editor). Is Art History Global?. New York; London: Routledge, 2007.6 CARRIER, David. A World Art History and its Objects. Pennsylvania: Pennsylvania State University Press, 2008.7 BELTING, Hans. Contemporary art as global art. In: BELTING, Hans; BUDDENSIEG, Andrea (editors). The Global Art World: Audiences, Markets, and Museums. Ostifildern: Hatje Cantz Verlag, 2009, p. 38-73.

Encruzilhadas afro-brasilidade, Histria da Arte, globalizao - Roberto Conduru

1477

As obras desses autores indicam que a questo da histria da arte global uma qual se tem dedicado vrios agentes e instituies do campo recentemente. Segundo James Elkins, a histria da arte global a questo mais interessante e importante hoje no campo de histria da arte.8 Embora isso seja discutvel, esse sentido de urgncia est vinculado ao fato de no serem satisfatrios os modos de incorporao na histria da arte das realizaes artsticas no Ocidentais e os desdobramentos da arte Ocidental nas supostas margens do sistema artstico mundial. Persiste nos projetos de histria da arte global o ideal de abarcar a humanidade por inteiro, que sempre animou as ideias de arte e de histria da arte no Ocidente. Contudo, no apenas a generosidade humana que mobiliza a formulao de uma histria da arte que responda ao processo de globalizao. Por um lado, a histria da arte global responde s cobranas dos discursos pautados pelo multiculturalismo, pela correo poltica e pela lgica ps-colonial, que questionaram o eurocentrismo da histria da arte tradicional. No lado oposto, fomentada pelo interesse das instituies do sistema artstico Ocidental, sobretudo dos grandes museus enciclopdicos, na produo de interpretaes histricas da arte que dem sentidos a seus acervos, na maioria dos casos constitudos em processos arbitrrios, incongruentes e pouco humansticos. Ou, ainda, como observa Aruna DSouza, a histria da arte global est conectada demanda existente, nos Estados

8 ELKINS, James. On David Summerss Real Spaces. ELKINS, James (editor). Op. cit., p.41. Apud KESNER, Ladislav. Is a truly global art history possible?. In: ELKINS, James (editor). Op. cit., p. 81.

XXXII Colquio CBHA 2012 - Direes e Sentidos da Histria da Arte

1478

Unidos da Amrica, por cursos universitrios com focos internacionais, que est relacionada necessidade de recrutar estudantes estrangeiros devido crise do financiamento pblico da educao, assim como a nfase na interdisciplinaridade nos anos 1990 estava vinculada aos cortes dos custos operacionais das universidades norte-americanas.9

Sobressai de imediato a necessidade de ampliar a abrangncia espacial do relato histrico, ultrapassar suas fronteiras usuais, pois preciso alcanar muito alm de uma Europa expandida. Ao longo do tempo, em sucessivas configuraes em livros publicados por Elie Faure,10 E. H. Gombrich,11 Germain Bazin,12 Arnold Hauser,13 H. W. Janson,14 Fritz Baumgart,15 Julian Bell,16 John Onians17 e David Summers,18 entre muitos outros, a histria da arte foi incluindo o Oriente prximo, o Norte da frica e algumas regies da sia, a Amrica, sobretudo do Norte, a frica e a Oceania. Processo semelhante observvel nos museus, em seus acervos, departamentos e exposies, bem como em cursos acadmicos, universitrios ou no.

Nesse sentido, cabe destacar a proposta de Thomas da Costa Kaufmann para que se articule diferentemente

9 DSOUZA, Aruna. In the wake of In the wake of the global turn. Artmargins, 1: 2 3, 2012, p. 178-179.10 FAURE, lie. Histria da Arte (1919-1921). So Paulo: Martins Fontes, 1990.11 GOMBRICH, E. H. Histria da Arte (1950). So Paulo: Crculo do Livro, 1972.12 BAZIN, Germain. Histria da Arte (1953). Lisboa: Bertrand, 1980. 13 HAUSER, Arnold. Histria Social da Arte e da Literatura. (1953) . So Paulo: Martins Fontes, 1995.14 JANSON, H. W. Histria da Arte (1962). So Paulo: Martins Fontes, 1986.15 BAUMGART, Fritz. Breve Histria da Arte (1972). So Paulo: Martins Fontes, 1994.16 BELL, Julian. Op. cit.17 ONIANS, John (editor). Atlas of world art. Op. cit.18 SUMMERS, David. Op. cit.

Encruzilhadas afro-brasilidade, Histria da Arte, globalizao - Roberto Conduru

1479

geografia, histria e arte. Tendo em vista a virada cultural (cultural turn), o consequente afastamento da ideia de geografia como cincia do espao fsico, e as possibilidades renovadas de dilogo entre histria e geografia, ele prope uma geohistria da arte que articula espao e tempo na anlise dos processos e realizaes artsticos.19 Entretanto, o desafio posto pela histria da arte frente aos processos contemporneos de globalizao no apenas fazer uma histria da arte que inclua todas as regies habitadas do globo terrestre, as sociedades humanas em sua totalidade. Coloca-se o desafio de ultrapassar as configuraes nas quais a Europa e os Estados Unidos da Amrica apaream como centros hegemnicos. Como prope Piotr Piotrowski, preciso abandonar o que ele denomina como histria da arte vertical, cuja hierarquizao parte da centralidade europia, por uma histria da arte horizontal, que desconstrua a anterior.20 Mas no para configurar outros centros. Com certeza, a distino entre centro e margens importa para situaes e processos especficos na histria da arte, exemplos no faltam, como nos processos artsticos relativos juno de arte, frica e Brasil. Mas como a histria da arte indica, exaustivamente, centros e margens so circunstanciais, moventes. O que relativiza a noo de centro e margem, fazendo pensar quando e para quem assumem sentidos centralidades e marginalidades. O que implica interpretaes da arte baseadas em uma geografia sem centros e margens fixos.19 KAUFMANN, Thomas DaCosta. Op. cit.20 PIOTROWSKI, Piotr. Toward horizontal art history. In: ANDERSON, Jaynie (editor). Crossing Cultures: Conflict, Migration and Convergence. Melbourne: The Miegunyah Press, 2009, p. 82-85.

XXXII Colquio CBHA 2012 - Direes e Sentidos da Histria da Arte

1480

Divisor, de Ayrson Herclito, uma obra que faz sentir o oceano Atlntico como espao de unio de pessoas, sociedades e culturas devido dispora africana e ao trfico negreiro, mas, tambm, consequentemente, como espao de separao. Ciso inerente ampliao, indissocivel dela, que ajuda a ver como, na histria da arte mais inclusiva e abrangente que se quer produzir, ao rompimento com a centralidade, a unidade e a estabilidade espacial est vinculada uma estruturao temporal heterognea e descontnua. Ruptura que pode ser observada na dificuldade de conciliar e acomodar as linhas de tempo cronolg