Alfred Gell - A rede de Vogel: armadilhas como obras de arte e obras de arte como armadilhas

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Text of Alfred Gell - A rede de Vogel: armadilhas como obras de arte e obras de arte como armadilhas

  • A rede de Vogel: armadilhas como obras de arte e obras de arte como armadilhas

    A l f r e d G e l l

    O artigo discute as distines mais comuns entre obras de arte e meros" artefatos que so teis, mas no so belos ou esteticamente interessantes.

    Se, como o filsofo Arthur Danto afirma, um objeto artstico identificado como tal em funo do modo como interpretado, ento muitos artefatos poderiam ser

    exibidos como objetos artsticos. Seu objetivo demonstrar como as armadilhas para capturar animais poderiam perfeitamente ser exibidas como objetos

    artsticos, porque contm idias e intenes complexas a respeito da relao entre homens e animais, alm de fornecer um modelo do caador e de como ele

    concebe sua presa. Conclui, portanto, que a definio esttica de umobjeto artstico insatisfatrio

    A t agora, grande parte dos debates no campo da filosofia da arte, especialmente no que diz respeito s artes visuais, dedica-se ao problema da definio de "obra de arte". Como determinar quando um objeto fabricado uma "obra de arte" ou algo menos nobre, um "artefato"? Existem (pelo menos) trs teorias que tentam responder a essa questo. De acordo com a primeira, uma obra de arte pode ser definida como qualquer objeto esteticamente superior, desde que possua determinadas qualidades, como apelo visual e beleza. Essas qualidades devem ter sido intencionalmente atribudas ao objeta pelo artista, pois os artistas seriam dotados da capacidade de resposta esttica. No pretendo discutir especificamente essa teoria, embora ela ainda seja aceita pelo pblico em geral, que continua a pensar que qualidades como apelo visual e beleza podem ser reconhecidas automaticamente nos objetos.

    A segunda teoria sustenta que as obras de arte no so identificadas por suas qualidades externas, como a definio esttica prope, Um objeto pode no ser "belo" ou mesmo interessante de se ver, mas ser considerado obra de arte se for interpretado a partir de um sistema de idias fundamentadas em uma tradio

    Arte primitiva, arte contempornea, artefatos.

    artstica historicamente estabelecida. a chamada "teoria interpretativa". cujo grande mrito crtico em relao teoria "esttica" estar muito mais afinada com o mundo artstico contemporneo. Nesse contexto, a elaborao de pinturas e esculturas "belas deu lugar chamada arte "conceituai", como o caso, por exemplo, de montagens como a realizada por Damien Hirst, na qual um tubaro morto exibido em um tanque de formol (figura a ser comentada posteriormente). Mesmo no sendo um objeto atraente ou especialmente elaborado, o tubaro de Hirst um gesto altamenteinteligvel nos termos do fazer artstico contemporneo e no pode ser tomado como um truque publicitrio ou um sintoma de insanidade. Inserida na tradio artstica "conceituai" ps-Duchamp, a qualidade dessa obra deve ser avaliada em termos artsticos, pois, seja ela considerada boa, ruim ou regular, trata-se, inegavelmente, de um tipo de arte. Os defensores da teoria esttica tm, no mnimo, dificuldade para aceitar esse tipo de obra e esto inclinados a recus-la categoricamente como arte, mas, ao fazer isso, correm o risco de ser acusados de reacionrios por crticos e artistas que, como eu, discordam dessa viso.

    TRADUO A L F R E D G E L L 1 7 5

  • a/e R E V I S T A D O P R O G R A M A D E P S - G R A D U A O E M A R T E S V I S U A I S E B A U F R J 2 0 0 1

    Finalmente, existe uma verso mais radical da teoria "interpretativa", que fornece uma terceira possvel resposta para a pergunta "o que uma obra de arte? " Conhecida como "teoria institucional", afirma, como a interpretativa, que no h no objeto artstico, enquanto veculo material, uma caracterstica capaz de qualific-lo definitivamente, como sendo ou no uma obra de arte. Isso vlido a despeito do fato de o objeto estar ou no subordinado ao mundo artstico, ou seja, a uma coletividade interessada em fazer, partilhar e debater julgamentos crticos desse tipo.

    A diferena entre as teorias interpretativa e institucional que a institucional no pressupe a coerncia histrica das interpretaes. Uma obra pode estar, a princpio, fora do circuito oficial da histria da arte. mas, se o mundo artstico coopta essa obra e a faz circular como arte, ento ela arte, porque so os representantes do mundo artstico, ou seja, artistas, crticos, comerciantes e colecionadores, que tm o poder de decidir essas questes, no a "histria", ponto de vista proposto pelo filsofo americano George Dickie. 1 Essa teoria, aparentemente, no tem o apoio da maior parte dos filsofos contemporneos a Dickie, talvez por ser mais sociolgica do que efetivamente filosfica - uma teoria sobre o que (de fato) considerado arte e no sobre o que (racionalmente) deveria ser considerado como tal, Todavia, o que torna a teoria de Dickie questionvel, do ponto de vista da esttica tradicional, precisamente o que a torna atraente para os antroplogos, j que ele ultrapassa a esttica em nome de uma anlise sociolgica que caracteriza, em sentido amplo, essa disciplina. 2 Contudo, a relevncia da teoria "institucional" para o estudo sociolgico do mundo artstico deve ser avaliada independentemente de sua contribuio para a esttica filosfica.

    As questes levantadas por essas teorias foram colocadas em evidncia pela exposio intitulada Arte/Artefato, montada no Center for African Art (Nova York. 1988), sob a curadoria da antroploga Susan

    Vogel. No vi essa exposio, que foi, porm, detalhadamente descrita por Faris em Current Anthropology, acrescentando tambm alguns comentrios crticos, que pretendo retomar adiante. O primeiro espao da exposio (com paredes brancas e refletores) foi intitulado "Galeria de Arte Contempornea", e seu foco principal era um objeto impressionante: uma rede de caa Zande (frica), firmemente enrolada e pronta para o transporte. Provavelmente, Susan Vogel exibiu-a dessa maneira porque pensou que o pblico freqentador de galerias de arte em Nova York seria capaz de associar de maneira espontnea aquele "artefato" com um certo conjunto de objetos exibidos em outras galerias ou apresentados em publicaes especializadas. Nesse caso especfico, a analogia mais imediata seria com as esculturas de barbante amarrado de Jackie Windsor Faris4 menciona as obras de Nancy Graves e Eve Hesse como outros paralelos possveis. A escolha desse objeto especfico foi um golpe de mestre em termos de curadoria, pelo qual Vogel merece muitos elogios. Alm do mais, a exposio gerou um ensaio, igualmente magistral, do crtico e filsofo Arthur Danto, 5 publicado no catlogo.

    A inteno de Vogel era quebrar o elo entre a arte africana e o "primitivismo" da arte moderna (Les Demoiselles d Avignon, de Picasso, as pseudomscaras africanas, de Modigliani e Brancusi, etc. ) e sugerir, diferentemente, que os objetos africanos podem ser analisados em uma perspectiva mais ampla, evocando o estilo artstico dominante na dcada de 1980 em Nova York, do qual Jackie Windsor um dos representantes. Danto teve razes para resistir a essa mudana, visto que no estava persuadido de que a rede de caa fosse ou pudesse vir a ser arte. Em termos institucionais, a armadilha apresentada j havia, de fato, se tornado arte, dado ter sido como tal exibida por Vogel e, conseqentemente, assim apreciada por parte significativa do pblico. Caso Dickie, e no Danto, tivesse escrito o ensaio do catlogo, eu me arriscaria a dizer que a "rede" teria sido celebrada como um bom

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  • exemplo do modo pelo qual o mundo artstico cria suas obras de arte ao classific-las como tal. Danto. porm, seguiu outra direo e dedicou seu ensaio a provar que as afinidades da "rede com o conceito contemporneo de arte seriam meramente superficiais.

    Meu objetivo neste artigo duplo. Em primeiro lugar, discutir a distino proposta por Danto entre "arte" e "artefato. Em segundo lugar, pretendo montar uma pequena exposio (infelizmente composta apenas por textos e ilustraes) de objetos que Danto consideraria "artefatos, mas que, em minha opinio, so fortes candidatos a circular como obras de arte, mesmo que essa no tenha sido a inteno original de seus criadores, que, provavelmente, desconheciam esse conceito. Se eu conseguir persuadir meu pblico e se a teoria institucional for verdadeira, ou seja, se arte for tudo aquilo que no apenas eu, mas outras pessoas que pensam do mesmo modo classificamos como tal, ento uma nova categoria de arte est prestes a surgir. Ou no, se considerarmos como parmetro os argumentos de Danto, que retomarei agora.

    Danto responsvel por ambas as teorias da arte. a interpretativa e a institucional, e foi ele quem primeiro introduziu a expresso ''mundo artstico" na esttica filosfica 6 Mas. uma vez que Dickie7 desenvolveu as idias de Danto na direo sociolgica j apontada, a definio de obra de arte tornou-se um problema de consenso social em meio ao pblico de arte. Danto, porm, tende para uma viso mais idealista a respeito da arte, fazendo, mesmo, muitas referncias a Hegel em seus trabalhos. Ele afirma que objetos de arte so assim considerados em funo de uma interpretao historicamente fundamentada. Danto escreveu dois importantes estudos que foram muito bem aceitos no campo da

    filosofia da arte moderna, 8 Concordo com a maior parte de sua produo, mas devo dizer que os pontos mais fracos de sua verso da teoria interpretativa ficam especialmente evidentes, quando colocados em um contexto antropolgico e intercultural, em seu ensaio para a exposio Arte/Artefato.

    De acordo com Danto, no existem caractersticas intrnsecas a qualquer objeto que possam, por si s, caracteriz-lo como artstico. A diferena "objetiva" entre uma embalagem real de sabo Brillo e a falsa embalagem Brillo. de Warhol, no o que determina que apenas a ltima seja uma obra de arte. Mesmo objetos semelhantes podem ser diferenciados de modo que um seja considerado obra de arte, e o outro no. Isso foi exaustivamente discutido por Danto, 9 que, entretanto,