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Afogamento na infância: epidemiologia, tratamento e prevenção

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Text of Afogamento na infância: epidemiologia, tratamento e prevenção

  • Revista Paulista de Pediatria

    ISSN: 0103-0582

    [email protected]

    Sociedade de Pediatria de So Paulo

    Brasil

    Szpilman, David

    Afogamento na infncia: epidemiologia, tratamento e preveno

    Revista Paulista de Pediatria, vol. 23, nm. 3, septiembre, 2005, pp. 142-153

    Sociedade de Pediatria de So Paulo

    So Paulo, Brasil

    Disponvel em: http://www.redalyc.org/articulo.oa?id=406038912008

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    Reviso

    Afogamento na infncia: epidemiologia, tratamento e prevenoDrowning in childhood: epidemiology, treatment and prevention

    David Szpilman1

    1Mdico do resgate areo do Corpo de Bombeiros do Estado do Rio de Ja-neiro, Grupamento de Socorro de Emergncia; chefe da Unidade de Terapia Intensiva do Hospital Municipal Miguel Couto; diretor e membro do Conselho Mdico da Federao Internacional de Salvamento Aqutico; membro do Comit Nacional de Ressuscitao; scio fundador, ex-presidente e atual diretor da Sociedade Brasileira de Salvamento Aqutico (Sobrasa); membro da Cmara Tcnica de Medicina Desportiva do Cremerj; curso profissional de guarda-vidas pelo Servio de Salvamento de San Diego, Califrnia EUA; membro da Fora Tarefa para o ILCOR 2005 e instrutor

    mdico responsvel pela formao de guarda-vidas e guardies de piscina no Estado do Rio de Janeiro de 1993 a 2003Endereo para correspondncia: Avenida das Amricas, 3.555, bloco 2, sala 302 Barra da TijucaCEP 22793-004 Rio de Janeiro/RJE-mail: [email protected] / www.szpilman.com / www.sobrasa.orgRecebido em: 6/5/2005Aprovado em: 26/7/2005

    RESUMO

    Objetivo: Fazer uma reviso crtica a respeito da epidemio-logia e do tratamento do afogamento na populao peditrica.

    Fontes de dados: Foram pesquisados todas as fontes bibliogrficas do sistema Medline (internet), artigos apre-sentados em congressos, recomendaes internacionais, bem como livros sobre emergncia e terapia intensiva.

    Sntese dos dados: A cada ano, 500.000 pessoas morrem afogadas em todo o mundo. Os principais fatores de risco para o afogamento so: a idade, ser do sexo masculino, o uso de bebidas alcolicas, a baixa condio socioeconmica e a falta de super-viso. Mundialmente, o afogamento constitui a primeira causa de morte do sexo masculino na faixa etria entre 5 e 14 anos, sendo a segunda causa no Brasil desse grupo. Em nosso pas, h 7.210 mortes ao ano por afogamento (5,2/100.000 habitantes), sendo mais freqentes os casos em gua doce (rios, lagos e re-presas). Esta reviso procura difundir para os pediatras conceitos relativos a uma nova definio do afogamento, sua nomencla-tura e classificao; a cadeia de sobrevivncia; as tcnicas mais adequadas de resgate; o tratamento e as novas abordagens na ressuscitao da criana afogada.

    Concluses: Nos ltimos 15 anos houve acentuada valo-rizao do tema afogamento, resultando em reduo da mor-bimortalidade por essa causa. Todavia, o afogamento ainda constitui grave e negligenciado problema de sade pblica, que necessita, com urgncia, em mbito nacional, de campa-nhas de preveno que objetivem reduzir sua incidncia no s no litoral, mas principalmente no interior do pas.

    Palavras-chave: Afogamento, ressuscitao, criana.

    ABSTRACT

    Objective: To do a critical review of the epidemiology and the treatment of drowning in the pediatric population.

    Sources: Medline database, internet, papers presented in scientific meetings, international guidelines, and books about intensive care and emergencies.

    Data synthesis: 500,000 people die of drowning every year worldwide. The main risk factors for drow-ning are: extremes of age, male gender, consumption of alcoholic beverages, low social and economical condition and lack of supervision. For males between 5 and 14 years of age, drowning is the main cause of death in the world, and the second in Brazil, where 7.210 deaths by drowning (5.2/100,000 inhabitants) are reported each year, mainly in fresh water (rivers, lakes, and dams). This review seeks to circulate among pediatricians concepts related to the new definition of drowning, its nomenclature and classification, the chain of survival, the best rescue techniques, the treatment and the new approaches to resuscitate the drowned child.

    Conclusions: The last 15 years saw an increase in the importance given to issues related to prevention and treat-ment of drowning, leading to reduction in morbidity and mortality. However, drowning is still a neglected public health issue, requiring urgently national prevention cam-paigns directed not only to coastal areas, but mainly to the country inland.

    Key-words: Drowning, resuscitation, child.

    Rev Paul Pediatria 2005;23(3);142-53.

  • 143

    Introduo

    Criana e gua so inseparveis. O conforto passado no tero parece motivar nossa busca pela gua e pelo prazer e, invariavelmente, voltamos gua para vrias atividades de lazer, profissional, teraputica, exerccio ou como uma forma de relaxamento. uma ligao muito forte que extrapola o nosso completo entendimento, embora em algumas circuns-tncias nos deparemos com crianas com medo da gua.

    O afogamento geralmente est relacionado a atividades de lazer que se transformam em um evento dramtico. Pais, amigos, babs ou parentes podem sentir no apenas grande perda e dor, como tambm culpa por falhar ao prover proteo ou, ainda, intensa raiva daqueles que no prestaram supervi-so ou cuidados mdicos adequados. Todavia, o afogamento constitui um problema de sade pblica negligenciado(1).

    A cada ano, o afogamento responsvel por aproximada-mente 500.000 mortes no mundo. O nmero exato no conhecido porque grande nmero de mortes no notificado(2). Idade (em seus extremos), sexo (masculino), uso de bebidas alcolicas, condio socioeconmica (considerando renda ou escolaridade) e a falta de superviso so os principais fatores de risco para o afogamento. Considerando-se todos os grupos etrios, homens morrem cinco vezes mais por afogamento que mulheres. Aproximadamente 40% a 45% das mortes ocorrem durante a recreao na gua(3). Crianas, adolescentes e idosos so os grupos etrios com maior probabilidade de afogamen-to(4). Mundialmente, o afogamento constitui a primeira causa de morte da faixa etria dos 5 aos 14 anos entre os homens e a quinta entre as mulheres(4). Os padres para o afogamento so altamente dependentes de fatores geogrficos. Nos Esta-dos Unidos, o afogamento a terceira causa mais comum de morte acidental em todas as faixas etrias e a segunda para pessoas entre 5 e 44 anos de idade(5). Levando-se em conta todas as mortes por afogamento (4.390) nos Estados Unidos em 1993, 53% das vtimas afogaram-se em piscinas(3), sendo que, naquele pas, 50.000 novas piscinas so construdas anual-mente, somando-se s 2,2 milhes de piscinas residenciais e s 2,3 milhes de piscinas no-residenciais j existentes. No Brasil, o afogamento a segunda causa de morte de idades entre 5 e 14 anos e a terceira causa de morte externa para todas as idades. Em nosso pas, h uma mdia de 7.210 mortes por afo-gamento ao ano (5,2/100.000 habitantes)(6). Ironicamente, 90% delas ocorrem a dez metros de algum tipo de segurana(2).

    Nas praias do Rio de Janeiro, fatores precipitantes so identi-ficados em 13% de todos os casos; os principais so: ingesto de

    lcool (37%), convulses (18%), trauma (acidentes com barcos inclusive; 16,3%), doena cardiopulmonar (14,1%), mergulho em apnia e mergulho autnomo (Scuba 3,7%), mergulho resultando em leso cervical ou traumatismo craniano e outras causas (homicdio, suicdio, sncope, cimbras ou sndrome de imerso 11,6%). importante identificar o perfil das causas determinantes dos casos de afogamento, pois tal identificao pode orientar quanto a mtodos especficos de resgate e ressus-citao. No Brasil, o afogamento acontece mais freqentemente em gua doce, como rios, lagos e represas, contribuindo com metade das mortes por afogamento(7). Como demonstrao de grande diferena cultural e geogrfica, na Holanda h muito mais mortes por afogamento decorrentes de suicdios que por acidente, diferentemente do Brasil e dos EUA. Na Holanda, menos de 6% de todos os afogamentos ocorrem em praias.

    Nova definio

    O desconhecido impacto que o afogamento representa para a sade pblica deve-se, em parte, enorme falta de dados epidemiolgicos exatos sobre o tema. A coleta de dados para fins epidemiolgicos tem sido prejudicada pela falta de uma definio uniforme e aceita internacionalmente. Isso significa a incluso de casos fatais e no-fatais(8). Recentemente, durante o I Congresso Mundial sobre Afogamentos (WCOD), uma nova definio de afogamento foi estabelecida em consenso, aps dois anos de discusso, e aprovada por todos os participantes da conferncia em junho de 2002. Segundo essa definio: Afogamento: aspirao de lquido no-corporal por

    submersoouimerso. Resgate:pessoaresgatadadagua,semsinaisdeaspirao

    delquido. Cadver:morteporafogamentosemchancesdeseiniciar

    reanimao,comprovadaportempodesubmersomaiorqueumahoraousinaisevidentesdemorteamaisdeumahora,comorigidezcadavrica,livoresoudecomposiocorporal.

    O processo de afogamento um continuum, que comea quando a via area do paciente est abaixo do nvel da superfcie lquida, geralmente gua, que, se ininterrupta, pode levar ou no morte.

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