A existncia ©tica (Marilena Chaui)

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  • 5/11/2018 A exist ncia tica (Marilena Chaui)

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    UNIDADE8-0 MUNDO DAPRATICA

    A existencia eticaSenso m oral eennsciencia mora lMuitas vezes, tomamos conhecimento de

    movimentos nacionais e internacionais de lutacontra a fome. Ficamos sabendo que, em ou-tros paises e no nos so, milhares de pessoas,sobretudo criancas e velhos, morrem de pe-ruiria e inanicao, Sentimos piedade. Sentimosindignacao diante de tamanha injustica (espe-cialmente quando vemos 0 desperdfcio dosque nao tern fome e vivern na abundancia).Sentimos responsabilidade. Movidos pela so-Iidariedade, participarnos de campanhas con-tra a fome. Nossos sentimentos e nossas acoesexprimem nosso senso moral.Quantas vezes, lev ados par algum impuiso

    incontrolavel ou por alguma emocao forte(medo, orgulho, ambicao, vaidade, covardia),fazemos alguma coisa de que, depois, senti-mos vergonha, remorso, culpa. Gostarfamosde voltar arras no tempo e agir de modo dife-rente. Esses sentimentos tambern exprimemnosso senso moral.Em muitas ocasioes, ficamos contentes e

    emocionados diante de uma pessoa cujas pa-lavras e acoes manifestarn honestidade, hon-radez, espirito de justica, altrufsmo, rnesmoquando tudo isso lhe custa sacriffcios. Senti-mos que ha grandeza e dignidade nessa pes-soa. Temos admiracao por ela e desejamosimita-la. Tais sentimentos e admiracao tam-bern exprirnern nosso senso moral.Nao raras vezes somos tomados pelo hor-

    ror diante da violencia: chacina de seres hu-manos e animals, linchamentos, assassinatosbrutais, estupros, genocfdio, torturas e suplf-cios. Com frequencia, ficamos indignados aosaber que urn inocente foi injustamente

    acusado e condenado, enquanto 0 verdadei-ro culpado permanece impune. Sentimos c6-lera diante do cinismo dos mentirosos, dosque usam outras pessoas como instrumentopara seus interesses e para conseguir vanta-gens a s custas da boa-fe de ourros. Todos es-ses sentimentos tarnbem manifestam nossosenso moral.Vivemos certas situacoes, ou sabemos que

    foram vividas par outros, como situacoes deextrema aflicao e angustia. Assim, por exem-pIo, uma pessoa querida, com uma doencaterminal, esta viva apenas porque seu corpoesta ligado a maquinas que a conservam. Suasdores sao intoleraveis, Inconsciente, geme nosofrimento. Nao seria melhor que descansas-se em paz? Nao seria preferfvel deixa-Ia mor-rer? Podemos des ligar os aparelhos? Ou naotemos 0 direito de faze-lo? Que fazer? Quala a

  • 5/11/2018 A exist ncia tica (Marilena Chaui)

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    CAPiTULO 4 - A EXISTENCIA ETiCA

    beneficiem seu patrao. Sabe que 0 trabalho lhepermitira sustentar os filhos e pagar 0 trata-mento da esposa. Pode aceitar 0 emprego,mesmo sabendo 0 que sera exigido dele? Oudeve recusa-lo ever os filhos com fome e amulher morrendo?Urn rapaz namora, ha tempos, uma mocade quem gosta muito e e por ela correspondi-do. Conhece uma outra. Apaixona-se perdi-damente e e correspondido. Ama duas mu-lheres e ambas 0 amam. Pode ter dois amo-res simultaneos, ou estara traindo a ambos ea si rnesmo? Deve magoar uma delas e a simesmo, rompendo com uma para ficar coma outra? 0 amor exige uma unica pessoaamada ou pode ser rmiltiplo? Que sentirao asduas mulheres, se ele lhes contar 0 que sepassa? Ou devera mentir para ambas? Quefazer? Se, enquanto esta atormentado pelaindecisao, urn conhecido 0 ve ora com umadas mulheres, ora com a outra e, conhecendouma delas, devera contar a ela 0que viu? Emnome da amizade, deve falar ou calar?Uma mulher ve urn roubo. Ve uma crianca

    maltrapilha e esfomeada roubar frutas e paesnuma mercearia. Sabe que 0dono da merce-aria esta passando por muitas dificuldades eque 0roubo fara diferenca para ele. Mas tam-bern ve a miseria e a fomeda crianca. Devedenuncia-la, julgando que com isso a crian-ca nao se tornara urn adulto ladrao e 0 pro-prietario da mercearia nao tera prejuizo? Oudevera silenciar, pois a crianca corre 0 riscode receber punicao excessi va, ser levada paraa polfcia, ser jogada novarnente as ruas e,agora, revoltada, passar do furto ao homicf-dio? Que fazer?Situacoes como essas - mais dramaticas

    ou menos dramaticas - surgem sempre emnossas vidas, Nossas dtividas quanta a deci-,a o a tomar nao manifestam nosso senso mo-ral. mas tambern poem a prova nossa cons-ciencia moral, pois exigem que decidamoso que fazer, que justifiquemos para nos mes-mos e para 05 outros as razoes de nossas de-cisoes e que assumamos todas as conseqiien-

    eras deIas, porque somos responsaveis pornossas opcoes.Todos os exemplos mencionados indicam

    que 0 senso moral e a consciencia moral refe-rem-se a valores (justica, honradez, espiritode sacriffcio, integridade, generosidade), asentimentos provocados pelos valores (admi-racao, vergonha, culpa, remorso, contentamen-to, colera, arnor, dtivida, medo) e a decisoesque conduzem a acoes com consequenciaspara nos e para os outros. Embora os conteu-dos dos valores variem, podemos notar queestao referidos a urn valor mais profundo,mesmo que apenas subentendido: 0born ou 0bern. Os sentimentos e as acoes, nascidos deuma opcao enlre 0 born e 0 mau ou entre 0bern e 0 mal, tarnbern estao referidos a algomais profundo e subentendido: nosso desejode afastar a dor e 0 sofrimento e de alcancar afelicidade, seja por ficarmos contentesconosco mesmos, seja por recebermos a apro-vacao dos outros.o senso e a consciencia moral dizem res-peito a valores, sentimentos, intencoes, de-cisoes e acoes referidos ao bern e ao mal e aodesejo de felicidade. Dizem respeito a s rela-coes que mantemos com os outros e, portan-to, nascem e existem como parte de nossavida intersubjetiva.

    JUIZO de fato e de va lo rSe dissermos: "Esta chovendo", estaremos

    enunciando urn acontecimento constatado pornos e 0jufzo proferido e umjuizo de fato, Se,porem, falarmos: "A chuva e boa para as plan-tas" ou "A chuva e bela", estaremos interpre-tan do e avaliando 0 acontecimento. Nessecaso, proferimos urn juizo de valor.Jufzos de fato sao aqueles que dizern 0 que

    as coisas sao, como sao e por que sao. Em nos-sa vida cotidiana, mas tambem na metaffsicae nas ciencias, os jufzos de fato estao presen-tes. Diferenternente deles, os juizos de valor,avaliacoes sobre coisas, pessoas, situacoes e

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    sao proferidos na moral, nas artes, na politi-ca, na religiao,

    J UIZOS de valor avaliam coisas, pessoas,acoes, experiencias, acontecimentos, senti-mentos, estados de espirito, intencoes e de-cis6es como bons ou rnaus, desejaveis ou in-desejaveis.Os jufzos eticos de valor sao tarnbem

    normativos, isto e , enunciam normas que de-terminam 0 dever ser de nossos sentimentos,nossos atos, nossos comportamentos. Saojufzos que enunciam obrigacoes e avaliam in-tencoes e acoes segundo 0criterio do corretoe do incorreto.Os jufzos eticos de valor nos dizem 0 que

    sao 0bern, 0mal, a felicidade. Os juizos eti-cos normativos nos dizem que sentimentos,intencoes, atos e comportamentos devemoster ou fazer para alcancarmos 0 bern e a Ie-licidade ... Enunciam tambem que atos, sen-timentos, intencoes e comportamentos saocondenaveis ou incorretos do ponto de vis-ta moral.Como se pode observar, senso moral e cons-

    ciencia moral sao inseparaveis da vida cultu-ral, uma vez que esta define para seus mem-bros os valores positives e negatives que de-vern respeitar ou detestar,Qual a origem da diferenca entre os dois ti-

    pos de juizos? A diferenca entre a Natureza ea Cultura. A primeira, como vimos, e consti-tufda por estruturas e processes necessaries,que existem em si e por si mesmos, indepen-dentemente de n6s: a chuva e urn fcn6menometeorol6gico cujas causas e cujos efeitos ne-ccssarios podernos constatar e explicar.Par sua vez, a Cultura nasce da maneira

    como as seres humanos intcrpretam-se a sirnesmos e as suas relacocs com a Natureza,acrescentando-lhe sentidos novas, intervin-do nela, alterando-a atraves do trabalho e datecnica, dando-lhe valores. Dizer que a chu-va e boa para as plantas pressupoc a relacaocultural dos humanos com a Natureza, atra-yes da agricultura. Considerar a chuva belapressupoe uma relacao valorativa dos huma-

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    nos com a Natureza, percebida como objetode contemplacao.Freqiientemente, nao notamos a origem cul-

    tural dos valores eticos, do senso moral e daconsciencia moral, porque somos educados(cultivados) para eles e neles, como se fos-scm naturais au faticos, existentes em si e porsi mesmos. Para garantir a manutencao dospadroes morais atraves do tempo e sua conti-nuidade de geracao a geracao, as sociedadestendem a naturaliza-los. A naturalizacao daexistencia moral esconde, portanto, 0mais im-portante da etica: 0 fato de ela ser criacao his-torico-cultural,

    E tica e violenciaQuando acompanhamos a hist6ria das ideias

    eticas, desde a Antiguidade classica (greco-romana) ate nossos dias, podemos perceberque, em seu centro, encontra-se a problemada violencia e dos meios para evita-la, dimi-nul-la, controla-la. Diferentes formacoes so-ciais e culturais instiruiram conjuntos de va-lares eticos como padroes de conduta, de rc-lacoes intersubjetivas e interpessoais, de com-portamentos sociais que pudessem garantir aintegridade ffsica e psfquica de seus membrose a conservacao do grupo social.Evidcnternente, as varias culturas e soc ie-

    dadcs nao definiram e nem definem a vio-lencia da mesma rnaneira, mas, ao contrario,dao-Ihe conteudos diferentes, segundo ostempos c as Iugares. No entanto, malgradoas diferencas, certos aspectos da violenciasao percebidos da mesrna maneira, nas va-rias culturas e sociedades, formando 0 fun-do comum contra 0 qual os valores eticossao erguidos. Fundamentalmente, a violen-cia e percebida como exercicio da forca fl-sica e da coacao psfqui