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A CONJUGAÇÃO DE VERBOS IRREGULARES POR CRIANÇAS FALANTES NATIVAS DE ... · A CONJUGAÇÃO DE VERBOS IRREGULARES POR CRIANÇAS FALANTES NATIVAS DE PORTUGUÊS BRASILEIRO: UM ESTUDO

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  • 173Alfa, So Paulo, v.62, n.1, p.173-193, 2018

    A CONJUGAO DE VERBOS IRREGULARES POR CRIANAS FALANTES NATIVAS DE PORTUGUS

    BRASILEIRO: UM ESTUDO SOB O VIS DA FONOLOGIA E MORFOLOGIA LEXICAL

    Tamires Pereira Duarte GOULART*Carmen Lcia Barreto MATZENAUER**

    RESUMO: Este estudo investiga o processo de aquisio de verbos irregulares do Portugus Brasileiro (PB), quando conjugados nos tempos Presente do Indicativo, Presente do Subjuntivo e Pretrito Perfeito do Indicativo, por crianas falantes nativas da lngua, com o objetivo de descrever e analisar, sob o enfoque da Fonologia e Morfologia Lexical (Lexical Phonology and Morphology-LPM),arelaomorfofonolgicapresentenasflexesdosverbosirregulares.Os dados revelam que os fenmenos lingusticos de origem morfofonolgica so de alta complexidade para os falantes e podem ser considerados como processos de aquisio tardia pelas crianas brasileiras. Por meio da LPM compreendemos que a regularizao verbal, uma dasmanifestaesdasconjugaesirregulares,podeserexplicadapelano-correspondnciaentre os nveis fonolgico e morfolgico da lngua.

    PALAVRAS-CHAVE: Aquisio morfofonolgica. Verbos irregulares. Fonologia e Morfologia Lexical.

    Consideraes iniciais

    No processo de aquisio da linguagem, a partir do input que recebe, a criana precisa abstrair a gramtica da lngua, ou seja, as unidades que constituem cada componente do sistema lingustico, por exemplo, a fonologia, a morfologia e a sintaxe, bemcomoasrelaesentreessasunidades.Ataisrelaespodemseratribudasduasnaturezas:asrelaespodemdar-seentreunidadesdentrodeummesmocomponente,oupodemocorrerentreunidadesdediferentescomponentes.Asrelaesdosegundotipoimplicaminterfacesentreoscomponentesquecompemagramticadeumalngua.

    * Universidade Catlica de Pelotas (UCPEL), Programa de Ps-Graduao em Letras, Pelotas Rio Grande do Sul Brasil. [email protected]

    ** Universidade Catlica de Pelotas (UCPEL), Programa de Ps-Graduao em Letras, Pelotas Rio Grande do Sul Brasil. [email protected]

    http://doi.org/10.1590/1981-5794-1804-8

    Esta obra est licenciada com uma Licena Creative Commons Atribuio 4.0 Internacional.

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    Diantedasrelaesexistentesentreoscomponentesdagramtica,opresenteestudofocaliza a interface que se estabelece entre Fonologia e Morfologia, voltando a ateno para o comportamento, em fase da aquisio da linguagem, da adjuno de morfemas flexionaisaformasverbaisirregularesdoPortugusBrasileiro(PB)emcasoscomapresena de alternncias no plano fonolgico da lngua.

    O objetivo deste artigo discutir o emprego de formas do Presente do Indicativo, do Pretrito Perfeito do Indicativo e do Presente do Subjuntivo, que, em verbos classificados como irregulares, apresentamalternncia de fonemas consonantais.So exemplos desse tipo os verbos fazer, trazer e medir, os quais, nos tempos aqui mencionados, apresentam as seguintes alternncias: [s] alterna-se com [z], como em fao, fazes; [g] alterna-se com [z] e [s], como em trago, trazes, trouxe; [s] alterna-se com [d], como em meo, medes.

    Os dados desta investigao, obtidos a partir da aplicao de instrumento que eliciou o emprego de formas nos tempos verbais estudados, foram analisados e formalizados com o suporte da Fonologia e Morfologia Lexical, por ser teoria que prev a interao entreMorfologiaeFonologia,apontandoasrelaesentreaestruturamorfolgicadeuma palavra e as regras fonolgicas que a ela se aplicam.

    Verbos irregulares e alternncias fonolgicas consonantais

    O componente morfolgico do portugus brasileiro licencia verbos regulares e irregulares. Para a caracterizao de um e de outro, preliminarmente salienta-se, seguindo-se Cmara Jr. (1970), que um vocbulo verbal composto por um tema (T), formadoporumradical(R)eumavogaltemtica(VT),acrescidodossufixosflexionais(SF), que podem ser de modo e tempo (SMT) e de nmero e pessoa (SNP). Diante dessa estrutura, dizem-se regulares os verbos que mantm inalterado o radical e que seguemopadrogeralnaadjunodemorfemasflexionais,ocasodoverboamar em toda a sua conjugao, amo, amava, amarei, amasse.

    J os verbos irregulares, foco deste artigo, so aqueles em que, na conjugao, h mudana no radical, como ocorre com o verbo dizeresuasflexesdigo e dizes, ou, ainda, so verbos que se desviam do paradigma imposto pela gramtica da lngua, mostrandoalteraesnosmorfemasflexionais.Overbosaber, cuja conjugao no Presente do Indicativo apresenta as formas: sei, sabes, sabe um exemplo desse tipo de irregularidade. A forma verbal sei afasta-se do paradigma da primeira pessoa do singular, conjugada no Presente do Indicativo, que se manifesta, em sua maioria, com a desinncia nmero-pessoal -o, como em canto, dano, escrevo, fao, estudo.

    Nos verbos irregulares, seja por mudana no radical ou por fuga ao paradigma, podem ocorrer alternncias. No funcionamento da lngua, o fenmeno de alternncia caracteriza-se pela mudana de um fonema por outro, sendo que existem dois tipos de alternncias: a alternncia voclica, que implica a troca de vogais, por exemplo, [o]vo ~ []vos, e a alternncia consonantal, entendida como a alterao de um

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    fonema consonantal por outro. So exemplos, desse tipo, as mudanas de consoantes finais dos radicais dos verbos quando conjugados, como em fazer ~ fao ~ fazes; trazer ~ trouxe ~ traz.

    A alternncia consonantal descrita acima parece ser de alta complexidade para os falantes de PB, por isso sustenta-se aqui que sua aquisio pode ser considerada um processo de natureza tardia, em se tratando de aquisio do sistema verbal irregular do PB, estendendo-se no mnimo at os 10 anos de idade.

    O processo de regularizao dos verbos irregulares

    A tendncia regularizao e ao menos marcado, no funcionamento da gramtica das lnguas, reconhecida como parte do processo evolutivo dos sistemas lingusticos, assim como do processo de aquisio da linguagem. Nesse contexto, insere-se a regularizao de formas verbais.

    Tem-se, portanto, a regularizao de verbos irregulares quando o falante produz um verbo irregular de acordo com o padro do verbo regular; so exemplos a produo defaziparafiz,trazi~trazeiparatrouxe.

    Fonologia e Morfologia Lexical (FML)

    A Fonologia e Morfologia Lexical (FML ou LPM) uma teoria que permite olhar para a lngua atentando relao existente entre a morfologia e a fonologia, captando, deformasingular,generalizaesepadresdeocorrnciasmorfofonolgicas.

    Os sistemas lingusticos apresentam casos de interface entre esses componentes da lngua, de modo que, em mbito apenas fonolgico ou apenas morfolgico, no seria possvel explic-los. Um exemplo, nesse contexto, o fenmeno aqui estudado, o qual colocaemanliseaproduodosverbosirregulares,queexibememsuasconjugaesalternncias fonolgicas motivadas pela adjuno de unidades da morfologia.

    Na dcada de 80, a Fonologia Lexical ganhou relevante destaque, tendo seu incio com Kiparsky (1982, 1985) e Mohanan (1982), conquistando rapidamente muitos fonlogos por possuir alto nvel de explicao terica e, especialmente, por ser responsvel pelo retorno da morfologia ao cenrio dos estudos lingusticos (SCHWINDT, 2006).

    A FLM dedica-se a olhar para o lxico no s como detentor de estruturas, mas como um conjunto de regras fonolgicas que se comunicam com regras morfolgicas. Umadesuasmaiorescontribuiesoentendimentodequeolxicodeumalnguaest organizado em uma srie de nveis ou estratos, sendo estes, assim, responsveis pelo domnio das ocorrncias dessas regras.

    Dentro de cada um desses estratos aplicam-se, par a par, tanto as regras morfolgicas de formao de palavras, quanto processos de ordem fonolgica. Os estratos esto dispostos demodo a refletir a ordenao dos processos de formao de palavras,conforme exposto na Figura 1.

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    Figura 1 Modelo proposto por Kiparsky (1982): representao da estrutura do lxico.

    Fonte: Lee (1992).

    Omodeloexpostonafigura(1)introduzidoporKiparsky(1982)consideraaentradado lxico pelo mdulo da fonologia sendo que, a partir da, comeam a ser estabelecidas asrelaesentreosestratosfonolgicosemorfolgicos.Porfim,apalavrasaidonvellexical por intermdio da fonologia, indo diretamente para a sintaxe, no nvel ps-lexical.

    Lee (1995) destaca que os componentes da fonologia e da morfologia se misturam, de forma que as regras fonolgicas relevantes se aplicam sada de toda regra morfolgica, determinando a entrada para outra regra fonolgica, e assim por diante.

    Bisol(2010)propeparaaanlisedoportugusadivisodolxicoemdoisnveis,odaraizeodapalavra,identificadosrespectivamentecomonvel1envel2.Essaestrutura,mostradanafigura(2),autilizadanamaioriadaspropostasparaFML,embora seja opo de cada lngua a diviso do lxico em diferentes nveis.

    Figura 2 Modelo sugerido por Bisol (2010) para o portugus.

    Fonte: Bisol (2010, p.92).

    A proposta de Bisol (2010) apresenta o modelo de FML com duas possibilidades a partir da estrutura subjacente: a entrada tanto pode ocorrer pelo mdulo da morfologia, quanto pelo mdulo da fonologia; a sada da palavra do mdulo lexical para o mdulo

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    ps-lexical facultada diretamente pela fonologia e segue caminho para a sintaxe, nvel em que sofrer as regras fonolgicas ps-lexicais.

    Afimdeanalisarosdadosdesteestudo,osresultadosdapresentepesquisaseroformalizados com o suporte da FLM, considerando essencialmente a proposta de Lee (1995) para o PB. Com essa base, sustenta-se a ideia de que o processo de regularizao de formas verbais na fala de crianas brasileiras com idades entre 06 e 09 anos se d pela falta de correspondncia entre estratos da Fonologia e estratos da Morfologia.

    Metodologia

    O estudo realizado com um grupo de crianas falantes nativas do PB1, entre 06 e 09 anosdeidade,centrou-senaproduodosverbosirregulares,buscandoidentificarseainda existe o processo de regularizao de tais verbos nessa faixa etria e, em ocorrendo esse processo, investigar qual a motivao do fenmeno dentro dos pressupostos da Morfologia e Fonologia Lexical.

    O corpus foi constitudo por dados de oito crianas falantes nativas do PB, alfabetizadas e monolngues, sendo duas de cada uma das faixas etrias discriminadas no Quadro 1. Alm disso, a idade das crianas foi atrelada ao seu nvel de escolaridade. O Quadro 1esboa a seleo dos informantes quanto escolaridade e idade2.

    Quadro 1 Faixas etrias e escolaridades dos sujeitos da pesquisa.

    Faixa-etria 1 (FE 1): 06 anos 2 sujeitos 2 ano do Ensino Fundamental IFaixa-etria 2 (FE 2): 07 anos 2 sujeitos 3 ano do Ensino Fundamental IFaixa-etria 3 (FE 3): 08 anos 2 sujeitos 4 ano do Ensino Fundamental IFaixa-etria 4 (FE 4): 09 anos 2 sujeitos 5 ano do Ensino Fundamental I

    Fonte: Goulart (2015).

    Em cada uma das idades selecionadas, as crianas foram subdivididas com relao ao sexo, sendo que optamos por uma menina e um menino em cada uma das faixas etrias, afimdepodermos estabelecer relaesquanto aognero e suas possveisparticularidades e/ou semelhanas no processo de aquisio da morfologia verbal irregular do PB.

    Para a obteno dos dados, criou-se um instrumento, o qual focalizou a produo de morfemas verbais irregulares na 1 e na 2 pessoa do singular do Presente e do Pretrito Perfeito do Indicativo e na 1 e na 2 pessoa do singular do Presente do Subjuntivo.

    1 AvariedadedialetaldoPBdacomunidadeaquepertencemascrianasdesteestudoutilizaopronometuparaotratamentoda2pessoadosingular,comarespectivaflexoverbal.

    2 Este artigo, por ser um recorte de Dissertao de Mestrado, conta com apenas alguns dos dados do corpus da pesquisa original, assim como a descrio de apenas um dos instrumentos criados para a obteno dos dados.

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    O instrumento foi constitudo de frases com lacunas a serem completadas pelos informantes com o verbo destacado pela cor vermelha, conforme mostra a Figura 3.

    Figura 3 Modelo do instrumento I.

    Fonte: Goulart (2015).

    Todas as frases levavam produo do tempo verbal esperado. O teste foi apresentado em slides, atravs da tela de um laptop, conforme modelo exposto na Figura 3, que mostra dois tipos de slides: um que traz em destaque o verbo a ser conjugado, e ooutrocomfrasescujaslacunasdevemsercompletadaspeloverboflexionado.

    Inicialmente, a pesquisadora apresentava o primeiro slide, contendo a frase com o verbo a ser utilizado e convidava a criana a ler a frase e, aps, passando para o slide seguinte, convidava a criana a ler e a completar as lacunas das frases. Ao longo da aplicao, a pesquisadora procurou interagir constantemente com os informantes. Preliminarmente, foi aplicado um teste de familiarizao com a tarefa, muito semelhante do instrumento, mas com frases contendo apenas verbos regulares.

    Esse instrumento tambm contou com slides distratores, ou seja, com frases distratoras, compostas por verbos regulares. Alm disso, destacamos que a disposio dasfrasesnotestefoifeitadeformaaleatria,paraevitarasequnciadasconjugaesde verbos de acordo com as pessoas gramaticais, como: eu fao, tu fazes; que eu faa, que tu faas. Quando, no ordenamento das frases, apareceu a sequncia eu tu, o tempo verbal era alternado.

    Esse instrumento contou com 10 slides com a exposio de verbos irregulares, sendo que, em cada um deles, foram apresentadas 06 diferentes sentenas com lacunas a serem preenchidas, o que totalizou 60 espaos a serem completados com o uso oral de verbos irregulares por cada informante. J os verbos regulares, cuja presena no

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    instrumento se deu apenas com carter de distrao do foco da pesquisa, totalizaram 48 produesverbaisregulares,distribudasem08slides. O Quadro 2 aponta os verbos irregulares selecionados para a investigao proposta neste artigo.

    Quadro 2 Verbos irregulares analisados na dissertao e suas alternncias.

    Verbos irregulares Alternncia fonolgica Consonantal

    Dizer [z], [g], [s]Fazer [z], [s]Satisfazer [z], [s]Trazer [z], [g], [s]Poder [d], [s]Ter 3 [], [v]Perder [d], [k]Medir [d], [s]Ouvir [v], [s]Pedir [d], [s]

    Fonte: Goulart (2015).3

    Nos verbos irregulares, seja por mudana no radical ou por fuga ao paradigma, podem ocorrer alternncias fonolgicas (expostas no Quadro 2), as quais se caracterizam pela troca de um fonema por outro. Sendo motivadas pela morfologia, tais alternncias apresentam natureza morfofonolgica.

    A alternncia consonantal, por sua vez, constitui-se de uma variao do radical, que contribui,deacordocomCmaraJnior(1970),paraexpressarasnoesgramaticaisde tempo,modoepessoa,asquaissoprimordialmente representadasporsufixos.Para as autoras Souza & Silva e Koch (2009), esse tipo de irregularidade que permite distinguirpadresmorfolgicosdesviantes,jqueumadascaractersticasdosverbosregulares justamente a imutabilidade do radical.

    Resultado e anlise dos dados

    Para a descrio dos dados, primeiramente esboamos quadros descritivos, contendoasinformaesdascoletasdecadaumdosinformantes.Faz-senecessriodestacar que consideramos, nesse momento, as formas analisadas como padro e no padro de acordo com a conjugao verbal irregular do PB. Nosso foco, nesse

    3 As alternncias consonantais relativas ao verbo ter so de natureza diferenciada nessa lista de verbos, uma vez que dizemrespeitoaoparadigmaflexional,enquantoasalternnciasregistradasparaosoutrosverbosocorremnoradicalda palavra.

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    sentido, identificar as formas no-padro, as quais semanifestampormeio doprocesso de regularizao e, portanto, no apresentam as alternncias consonantais necessriassflexesdosverbosirregulares,especialmentenoPresentedoIndicativoe no Presente do Subjuntivo.

    Desse modo, pontuamos que o acerto da alternncia consonantal corresponde forma aqui referida como Padro (P)4, enquanto que a no ocorrncia da alternncia, a qual corresponde produo da forma verbal regularizada, interpretada como No Padro(NP).QuandoexibimosnosquadrosasproduesNP,identificamostambma transcrio fontica do segmento consonantal que evidencia o emprego da forma verbal em desacordo com o alvo da lngua, ou seja, que implica a fuga da alternncia morfofonolgica que a conjugao verbal considerada padro apresenta5.

    Informante 1

    Informante1/FE1/F1 dizer fazer Satisfazer trazer poder perder ter medir ouvir pedir

    Presente Indicativo

    1pessoa P NPfa[z]o

    NPsatisfa[z]o

    NPtra[z]o

    P NPper[d]o

    P NPm[d]o

    NPou[v]o

    NPp[d]o

    2pessoa P P P P P P P P P P

    Pretrito PerfeitoIndicativo

    1pessoa P P P NPtra[z]i

    P P P P P P

    2pessoa P P P NPtra[z]eu

    P P P P P P

    Presente Subjuntivo

    1pessoa P NPfa[z]a

    NPSatisfa[z]a

    P P NPper[d]a

    P NPmi[d]a

    NPou[v]a

    NPp[d]a

    2pessoa P P NPSatisfa[z]a

    P P NPper[d]a

    P NPmi[d]a

    NPou[v]a

    NPPe[d]avogal mdia baixa

    Ainformante1,06anosdeidade,sexofeminino,apresentouregularizaesnasconjugaes dos verbos irregulares fazer, satisfazer, trazer, perder,medir, ouvir epedir. No verbo fazer e seu derivado satisfazer, notamos que a informante produziu morfemasregularizadosfiisaoradicaldoverbofaz-; nesse sentido, observamos as conjugaesfa[z]o, fa[z]a, satisfa[z]o e satisfa[z]a. Assim, a menina no realizou a conjugao irregular, que se daria pela produo das alternncias com [s], presente em fa[s]o,fa[s]a],fi[s],tantoparaoIndicativo,comoparaoSubjuntivo.

    Asregularizaes,asquaistambmmantmfidelidadeaomorfemabasedoverbo,como, por exemplo, tra[z]o, tra[z]i, tra[z]eu, foramalgumasdasconjugaesque

    4 Consideraram-se como acerto as formas produzidas sem morfema -s, marcador de 2 pessoa do singular (tu), devido aofatodeencontrarmosessasmanifestaesnousofrequentedalngua,mesmoemsetratandodefalantesdealtaescolaridade. Assim, julgamos como variantes da manifestao padro as formas tu me[d]es ~ tu me[d]e, por exemplo, j que o foco da descrio recaiu sobre a consoante que alvo da alternncia morfofonolgica nas formas verbais estudadas.

    5 Faz-senecessriodestacaralgumasabreviaesmantidasnasdescriesfeitasnosquadrosdosinformantes:FE(faixaetria); F e M (feminino e masculino); P (forma padro, ou seja, conjugada de acordo com a norma padro da lngua); NP (forma no-padro, ou seja, conjugada de forma regularizada).

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    esta informante realizou. Desse modo, o fonema /z/ no se alternou com [g] e com [s] no modo indicativo, mas alternou-se com [g] no modo subjuntivo. Por ser o modo subjuntivo o de uso menos frequente, o emprego padro pode ser interpretado como decorrente de forma no analisada. Percebemos, ainda, a construo das formas per[d]o e per[d]a, ao invs de per[k]o e per[k]a.

    A alternncia esperada para o verbo ouvir, da forma [v] com [s], no foi realizada pelacriana.Aocontrrio,oquepredominoufoiaregularizaoeafidelidadeformabase do radical ouv-. Notamos tal fenmeno atravs dos exemplos de fala da informante ou[v]o e ou[v]a.

    Informante 2

    Informante2/FE1/M1 dizer fazer Satisfazer trazer poder perder ter medir ouvir pedir

    Presente Indicativo

    1pessoa P P NPsatisf[eito]

    P P NPper[d]o

    P NPmi[d]o

    NP Ou[v]o

    NPp[d]o

    2pessoa P P P P P P P P P P

    Pretrito PerfeitoIndicativo

    1pessoa P P P P P P P P P P

    2pessoa P P P P P P P P P P

    Presente Subjuntivo

    1pessoa P P P P P NPper[d]a

    P NPmi[d]a

    NPou[v]a

    P

    2pessoa P P P P P NPper[d]a

    P NPmi[d]a

    NPo[v]a

    P

    O informante 2, 06 anos de idade, sexo masculino, conjugou os verbos dizer, fazer, trazer, poder e ter de acordo com a gramtica padro da lngua, alternando os fonemas consonantais. Porm, em relao aos verbos satisfazer, perder, medir, ouvir epedirosujeitoproduziuconjugaesregularizadas.

    Nas conjugaes do verboperder, encontramos per[d]o e per[d]a, formas regularizadas pela criana tanto no Indicativo como no Subjuntivo. No que diz respeito ao verbo ouvir, observamos que foram construdas as formas ou[v]o, ou[v]a e o[v]a. Para o verbo medir, o informante 2 apresentou mi[d]o e mi[d]a, com elevao da vogal[ei].Noquetangeaoverbopedir,osujeitooperoucomasalternnciascaractersticas ao presente do Subjuntivo e produziu, para o presente do Indicativo p[d]o, uma regularizao que sofreu o processo de alternncia voclica, porm sem efetivar a alternncia consonantal referente a /d/ por [s].

    Os informantes 3, 4, 5, 6, 7 e 8, cujos dados esto expostos a seguir, apresentaram formas verbais regularizadas que mostram a mesma natureza daquelas j acima comentadas.

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    Informante 3

    Informante3/FE2/F1 Dizer fazer satisfazer trazer poder perder ter medir ouvir pedir

    Presente Indicativo

    1pessoa P P NPsatisfa[z]o

    NPtra[z]

    P NPper[d]o

    P NPm[d]o

    NPou[v]o

    NPp[d]o

    2pessoa P P P P P P P P P P

    Pretrito PerfeitoIndicativo

    1pessoa P P NPsatisfa[z]i

    P P P P P P P

    2pessoa P P NPsatisfa[z]esse

    P P P P P P P

    Presente Subjuntivo

    1pessoa P P NPsatisfa[z]a

    NPtra[z]a

    P NPper[d]a

    P NPm[d]a

    NPou[v]a

    NPp[d]a

    2pessoa P P P NPtra[z]a

    P NPper[d]a

    P NPmi[d]a

    NPou[v]a

    NPp[d]a

    Ainformante3,07anosdeidade,sexofeminino,realizouregularizaesparaosverbos satisfazer, trazer, poder, perder, medir, ouvir e pedir, somente no apresentou o fenmeno para os verbos dizer, fazer e ter.

    Informante 4

    Informante 4/FE2/M1 dizer fazer satisfazer trazer poder perder ter medir ouvir pedir

    Presente Indicativo

    1pessoa P P NPsatisfa[z]o

    NPtra[z]o

    P NPper[d]o

    P P NPOu[v]o

    P

    2pessoa P P P P P P P P P P

    Pretrito PerfeitoIndicativo

    1pessoa P P P P P P P P P P

    2pessoa P P P P P P P P P P

    Presente Subjuntivo

    1pessoa P P NPsatisfa[z]a

    NPtra[z]a

    NPpo[d]a

    NPper[d]a

    P NPmi[d]a

    NPou[v]a

    NPpi[d]a

    2pessoa P P NPsatisfa[z]a

    NPtra[z]a

    P NPper[d]a

    P NPme[d]a

    NPou[v]a

    NPpe[d]a

    O informante 4, 07 anosde idade, sexomasculino, teve em suasprodues aregularizao de morfemas verbais para os verbos satisfazer, trazer, poder, perder, medir, ouvir e pedir.

    Informante 5

    Informante5/FE3/F dizer fazer satisfazer Trazer poder perder ter medir ouvir pedir

    Presente Indicativo

    1pessoa P P P P P P P P NPo[v]o

    P

    2pessoa P P P P P P P P P P

    Pretrito PerfeitoIndicativo

    1pessoa P P P P P P P P P P

    2pessoa P P P P P P P P P P

    Presente Subjuntivo

    1pessoa P P P P P P P NPmi[d]a

    NPo[v]a

    NPpi[d]a

    2pessoa P P P P P P P NPme[d]a

    NPou[v]a

    NPpe[d]a

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    A informante 5, 08 anos de idade, sexo feminino, no atendeu s regras morfofonolgicasqueasconjugaesirregularesdosverbosmedir,ouvirepedirexigem.

    Informante 6

    Informante6/FE3/M dizer fazer satisfazer trazer poder perder ter medir ouvir pedir

    Presente Indicativo

    1pessoa P NPfa[z]o

    NPsatisfa[z]o

    P P NPper[d]o

    P NPm[d]o

    NPou[v]o

    NPp[d]o

    2pessoa P P NPsatisfa[z]eu

    P P P P P P P

    Pretrito PerfeitoIndicativo

    1pessoa P P NPsatisfa[z]i

    P P P P P P P

    2pessoa P P NPsatisfa[z]esse

    NP tra[z]i

    P P P P P P

    Presente Subjuntivo

    1pessoa P NPfa[z]a

    NPsatisfa[z]a

    P P P P NPmi[d]a

    NPou[v]a

    NPp[d]a

    2pessoa P NPfa[z]a

    NPsatisfa[z]a

    P P P P NPme[d]a

    NPou[v]e

    NPpi[d]a

    O informante 6, 08 anos de idade, sexo masculino, conjugou integralmente de acordo com o padro da lngua apenas os verbos dizer, poder e ter.

    Quanto aos demais verbos do estudo, o informante distanciou-se do padro na produodealgumasflexes,asquaisseapresentaramsobaformaregularizada,semo emprego da regra morfofonolgica. Os dados do informante 6, assim como os dados dos outros sujeitos, indicam que a criana, ainda em fase de aquisio da morfofonologia dalngua,revelatraosmorfofonolgicosflutuantescomparadosgramticapadroda lngua alvo. So traos que ora se manifestam adequadamente, ora so empregados pelo falante afastando-se do padro.

    Informante 7

    Informante7/FE4/F Dizer fazer satisfazer trazer poder perder ter medir ouvir pedir

    InstrumentoI

    Presente Indicativo

    1pessoa P P P P P P P P P P

    2pessoa P P P P P P P P P P

    Pretrito PerfeitoIndicativo

    1pessoa P P P P P P P P P P

    2pessoa P P P P P P P P P P

    Presente Subjuntivo

    1pessoa P P P P P P P NP mi[d]a

    P P

    2pessoa P P P P P P P NP m[d]a

    P P

    Ainformante7,09anosdeidade,sexofeminino,apresentouconjugaesverbaisregularizadas para o verbo medir no Presente do Subjuntivo; as formas produzidas mi[d]a, e m[d]a mostram que, embora a gramtica dessa criana esteja quase alcanando o sistema alvo da lngua padro, ainda se faz presente, aos 09 anos de

  • 184 Alfa, So Paulo, v.62, n.1, p.173-193, 2018

    idade, a instabilidade gerada pela complexidade da aquisio da morfofonologia do PB.Soconjugaesqueseencontramdeformaregularizada,sobretudonasflexesque envolvem o modo Subjuntivo do sistema verbal.

    Informante 8

    Informante8/FE4/M Dizer fazer satisfazer trazer poder perder ter medir ouvir pedir

    InstrumentoI

    Presente Indicativo

    1pessoa P P NP satisfa[z]o

    P P P P NP m[d]o

    NP o[v]o

    NP p[d]a

    2pessoa P P P P P P P P P P

    Pretrito PerfeitoIndicativo

    1pessoa P P P P P P P P P P

    2pessoa P P P P P P P P P P

    Presente Subjuntivo

    1pessoa P P NP satisfa[z]a

    P P P P NP mi[d]a

    NP o[v]a

    P

    2pessoa P P NP satisfa[z]a

    P P P P NP m[d]a

    NP o[v]a

    P

    OInformante8,09anosdeidade,sexomasculino,produziuflexes,cujosradicaisno atenderam s regras de alternncias consonantais exigidas pelo padro dos verbos irregulares da Lngua Portuguesa para os verbos satisfazer, medir, ouvir e pedir.

    Da mesma forma que os demais sujeitos deste estudo, esse informante regularizou algumas conjugaes, guiando-se pelo radical do verbo irregular no infinitivo,conjugao essa pertencente ao padro dos verbos regulares do PB. As formas satisfa[z]o, satisfa[z]a, m[d]o, m[id]a, m[d]a, o[v]o, o[v]a e p[d]a so exemplos dessa regularizao.

    Os dados sob o vis da Fonologia e Morfologia Lexical

    Todososinformantesrealizaramalgumaflexoverbalemdesacordocomanormapadrodaconjugaodacategoriaverbalirregular.Nessesentido,oQuadro3expeonmerodevezesemqueasregularizaesdecadaverbotestadoforamproduzidaspelos sujeitos.

  • 185Alfa, So Paulo, v.62, n.1, p.173-193, 2018

    Quadro 3 Estimativa do processo de regularizao

    QUADRO - FORMAS PRODUO NP

    Verbo

    Manifestaes do emprego das formas verbaisInstrumento I

    Nmero de vezes produo

    DIZER 100% de produo conforme P (padro)

    FAZER 02 fa[z]o03 fa[z]a

    SATISFAZER

    05 satisfa[z]o01 satisfa[z]ei01 satisfa[z]eu01 satisf[eito]02 satisfa[z]i03 satisfa[z]esse11 satisfa[z]a

    TRAZER

    05 tra[z]o04 tra[z]i02 tra[z]eu01 tra[z]01 tra[z]ei07 tra[z]a

    PODER 01 po[d]a

    PERDER 10 per[d]o16 per[d]a

    TER 100% de produo conforme P (padro)

    MEDIR

    06 m[d]o01 me[d]o03 mi[d]o19 mi[d]a05 m[d]a06 me[d]a

    OUVIR

    07 ou[v]o02 ou[z]o04 o[v]o18 ou[v]a03 ou[z]a05 o[v]a

    PEDIR

    06 p[d]o01 pi[d]o05 pe[d]a07 p[d]a05 pi[d]a

    Fonte: Goulart (2015).

  • 186 Alfa, So Paulo, v.62, n.1, p.173-193, 2018

    Osdadosevidenciamqueasregularizaesmaisrecorrentesnasconjugaesdosinformantes foram nas formas per[d]o, per[d]a (verbo - perder), m[id]a (verbo - medir), p[d]a, p[id]a (verbo - pedir),ou[v]a (verbo - ouvir) e satisfa[z]a (verbo satisfazer), sendo que o modo Subjuntivo (Presente do Subjuntivo) apresenta maior instabilidade quantosuaflexo,emumpercentualmaisaltosecomparadoaodasproduesparao Presente do Indicativo. Acreditamos estar esse fato relacionado complexidade que envolve a aquisio da morfofonologia do PB e ao fato de serem o tempo e o modo verbais (Presente do Subjuntivo) considerados marcados na lngua. O modo verbal mais marcado na lngua, nesse sentido, suscetvel de maior possibilidade de variao, pelo sujeito, em relao forma padro. O modo Subjuntivo , tambm, empregado emoraessubordinadas,oqueimplicaaconstruodeumperodocompostoporsubordinao e que exige maior complexidade sinttica a tal ponto que, no uso oral da lngua, mesmo por adultos, de baixa frequncia.

    O Pretrito Perfeito do Indicativo apresentou baixo ndice de regularizao, o que se atribui ao fato de que este um tempo que pede poucas alternncias consonantais em suasflexes nomodo Indicativo.Almdisso, seu emprego tambmno exigecomplexidade sinttica, j que pode ser empregado em perodos simples ou compostos por coordenao, os quais tm alta frequncia no uso da lngua.

    Para o Presente do Indicativo, os dados podem ser considerados relevantes, baseando-se em estudos j realizados (YAVAS; CAMPOS, 1988; SANTOS; SCARPA, 2003), que consideram esse tempo verbal como um dos primeiros a ser adquirido pelos falantes nativos de PB. Dito isso, podemos inferir que, embora seja um tempo precocemente empregado pelos sujeitos, sobretudo na classe regular dos verbos, as formas verbais irregulares do Presente do Indicativo que se realizam com alternncias consonantais so complexas para as crianas em fase de aquisio, o que contribui para a sua emergncia tardia6.

    A diferena da produo no padro entre meninos e meninas foi menor que 1%, por issoconstatamosquearealizaoderegularizaesverbaisnoestrelacionadaaosexodos sujeitos. vista disso, evidenciamos que o emprego de eventos morfofonolgicos na conjugao de verbos irregulares est presente no desenvolvimento lingustico de todas as crianas da amostra, independentemente da varivel sexo, diferentemente de outros processos de aquisio da linguagem que podem apresentar comportamento diferenciado s meninas e aos meninos, como a aquisio do inventrio segmental da fonologia da lngua, por exemplo.

    O corpus analisado ainda revela que h um desenvolvimento gradual da aquisio verbal irregular em relao idade, aqui sobreposta, tambm, escolaridade dos sujeitos. medida que a faixa etria aumenta (bem como o nvel de escolaridade), o processo de produo das formas diferentes do padro (NP) diminui.

    6 Os dados deste artigo apontam, ainda, que o fenmeno da regularizao verbal ocorre com maior porcentagem considerando os verbos da terceira conjugao (ir). No se investigou detalhadamente qual seria o fator condicionante para explicar essas ocorrncias, mas salienta-se que esto sendo desenvolvidos instrumentos para investigar essa influncia,bemcomoparaevidenciaraspossveisdiferenasqueexistementreaaquisioverbalirregular,emsetratando dos diferentes modos verbais.

  • 187Alfa, So Paulo, v.62, n.1, p.173-193, 2018

    TalrelaopropequeasformasverbaisirregularesdoPBsoadquiridasconformeaumenta a exposio da criana ao sistema lingustico, por isso, quanto maior for a idade,menorserondicederegularizaesproduzidopelossujeitos.

    A frequncia de uso dos verbos foi fator que se mostrou de particular relevncia s nossas anlises. Nesse contexto, os dados evidenciam que a no alternncia consonantal se d, de forma prevalente, em se tratando dos verbos menos frequentes no input lingustico dos informantes, conforme j apontava a pesquisa de Andersen (2008). A autora destacou que os verbos ter, poder, dizer e fazer esto entre os dez verbos mais frequentes do PB. De fato, esses foram os verbos que menos sofreram, nesta pesquisa,oprocessoderegularizaoverbal;indo-sealm,verificamos,porexemplo,que os verbos ter e dizernoforamflexionadosnenhumavezdeformanopadro,enquanto que os verbos poder e fazer foram alvos de um nmero muito baixo de produesregularizadas.

    Em conformidade com a Fonologia e Morfologia Lexical, lidamos com a possibilidadedenomnimotrsexplicaesparaoprocessoqueacometeasconjugaesNP,ouseja,asconjugaesregularizadasdasformasverbais,evidenciadasnesteartigo:

    a) pressuposio de que os sujeitos ainda no tenham adquirido plenamente a Morfologia Verbal da lngua e, devido a isso, apresentem bloqueio no nvel morfolgico;

    b) pressuposio de que a falta de alternncias na conjugao dos radicais irregulares seja motivada por uma lacuna fonolgica, ligada diretamente ao nvel fonolgico;

    c) pressuposio de que a criana j tenha adquirido tanto a Morfologia Verbal do PB, como sua Fonologia e, dessa forma, regularize os morfemas verbais devido motivao exigida pela inter-relao morfofonolgica que, no componente lexical, requer a interao entre a Morfologia e a Fonologia.

    Tomemos, primeiramente, o tpico em (b): no parece responder pelas formas verbais produzidas diferentemente do padro, uma vez que o inventrio segmental e silbico da criana com desenvolvimento tpico e as regras que determinam seu funcionamento na lngua adquirido, majoritariamente, at os 05 anos de idade (LAZZAROTTO-VOLCO, 2009).

    Considerando-se o tpico em (a), parece poder ser descartado, porque os dados deste estudo evidenciam que os informantes j adquiriram a morfologia verbal, visto que apresentam, em consonncia com o padro da lngua, os morfemas de tempo e modo e denmeroedepessoa,ouseja,todasasflexesverbais,incluindooparadigmaverbal.Soexemplos,asflexessatisfa[z]o e per[d]a, as quais revelam que os informantes conservam, nas formas diferentes do padro, os morfemas indicadores de tempo, bem como os de nmero e pessoa e, devido a isso, compreendemos, aqui, que a Morfologia Verbal em todas as faixas etrias aqui estudadas j est adquirida. Parece, portanto, que osmorfemasflexionaisdaclassedosverbos,correspondentesscategoriastestadasno

  • 188 Alfa, So Paulo, v.62, n.1, p.173-193, 2018

    presente estudo, j esto adquiridos. Alm disso, todas as crianas, desde a primeira faixa-etria pesquisada, empregaram com 100% de adequao s formas do verbo ter.

    A alternativa proposta em (c) capaz de explicar o fenmeno das ocorrncias no padro,demonstrando,pormeiodaLPM(Figura3),queasregularizaessomotivadaspela falta da correlao que deve ser mantida entre a Morfologia e a Fonologia para que o processo de alternncias em verbos irregulares se manifeste de acordo com o padro da lngua; a regra fonolgica da alternncia no aplicada na conjugao de alguns verbos, porque no h a devida correspondncia entre os componentes morfolgico e fonolgico e, com isso, no se concretiza a interao morfofonolgica.

    A Figura 4 mostra a falta de correspondncia entre o componente Fonolgico e o Morfolgico,apartirdapropostadeKiparsky(1982,1985),afimdeseentenderemas formas produzidas pelos sujeitos desta pesquisa.

    Figura 4 Proposta para as formas no padro, em consonncia com Kiparsky (1982, 1985).

    Fonte: Goulart (2015), baseando-se no Modelo de Kiparsky (1982).

    No modelo proposto por Lee (1995)7paraoPortugusBrasileiro,aflexoirregularencontra-senonvel1(),enquantoqueaflexoregularsemanifestanonvel2().

    Asproduesverbaisqueascrianasdesteestudorealizaramindicamque,comaidade de 06 anos, o sujeito j opera com formas irregulares, tendo em vista que produz adequadamente as alternncias fonolgicas consonantais de determinados verbos, principalmente daqueles cuja frequncia se mostra alta no input lingustico.

    Todavia, os dados tambm apontam que, em todas as faixas etrias estudadas, as crianas ainda regularizam formas verbais irregulares, evidenciando, assim, a tardia aquisio dos processos de natureza morfofonolgica do sistema verbal do PB, especialmente dos verbos menos frequentes (como j foi salientado) e do tempo verbal menos frequente: Presente do Subjuntivo. O simultneo emprego de formas irregulares

    7 De acordo comLee (1995), no nvel 1 (tambm identificado como ()) esto a flexo irregular, aDerivao e aComposioI;nonvel2()ocorreaformaoprodutivadoPB,juntamentesflexesverbaisregularesdalngua;nonvel ps-lexical encontra-se a Composio II. Para maior detalhamento, consultar Lee (1995).

  • 189Alfa, So Paulo, v.62, n.1, p.173-193, 2018

    para alguns verbos e o no emprego para outros leva a interpretar-se que a aquisio desses verbos exige a incorporao gramtica da criana:

    I) dosmorfemasverbaisflexionaisregulares(modoetempo,nmeroepessoa);II) dosmorfemas verbais flexionais irregulares (irregularidades em razo do

    paradigma);III) das alternncias dos radicais irregulares (irregularidades em razo do radical).

    Os fatos em (II) e em (III) so irregulares; portanto, so imprevisveis e tm de ser aprendidos pela criana com o uso (a frequncia) da lngua; alm disso, exigem interao entre Morfologia e Fonologia. Por essa razo, a frequncia do uso dos verbos na lngua fator condicionador da aquisio dos verbos irregulares: quanto mais frequente for o uso de um verbo irregular, mais facilmente sua estrutura vai ser adquirida.

    Com base nesses argumentos, defendemos que a proposta em (c) a que parece mais adequada para explicar o corpus deste estudo, levando-se em considerao, sobretudo, a natureza morfofonolgica do processo, a qual essencial para a conjugao irregular padro do PB, e que, por ser complexa na lngua, contribui para a aquisio tardia de formasverbais,cujoradicalenvolvealternnciasconsonantaisemsuasconjugaes.

    Segundo a proposta de Lee (2005), ao olharmos os dados aqui descritos, temos a no comunicao dos componentes morfolgico e fonolgico da lngua apenas ao seconsideraremasformasverbaisirregulares,quesoflexionadasnafaladacrianademaneiraregularizada;essas,ento,dirigem-seaonvel2()semsofrerasregrasdaflexoirregular,e,nonvel2(),sosubmetidasaotratamentodadoaosverbosregulares.Essa divisodaflexoverbal, irregular e regular, emPBemdiferentesnveis ocorre em atendimento ao Princpio do Elsewhere Condition, em que regras maisrestritasseaplicamantesdasmaisgerais,ouseja,aflexoirregular,queamaismarcadaemaisrestrita,aconteceanteriormenteflexoregular,cujasregrassomenosmarcadas e mais universais, no apenas no PB, mas nas lnguas do mundo.

    Napassagemparaonvel2(),overboquenosofreuaflexoirregular,pois,apesar de consumar as regras morfolgicas, no atingiu as alternncias consonantais no nvel fonolgico8pelafaltadecorrelaoentreoscomponentes,sofre,ento,aflexoregularexclusivadonvel2(),conservando-sedemaneiraregularizadaefielaoradicaldo verbo, cuja raiz um morfema que se encontra no lxico profundo, integrando as representaessubjacentesdosfalantesdalngua.

    SegundoLee(1995),tambmnonvel2()queocorreaformaoprodutivadoPB,juntamentesflexesverbaisregularesdalngua.Issosalientaarazopelaqual os verbos regulares so compreendidos como a classe produtiva do portugus e, por isso, de carter no marcado na lngua. Nesse sentido, a regularizao no processo de aquisio verbal mostra que a criana opera em conformidade com o padro no

    8 O lcus da ausncia da alternncia consonantal, como parte do processo de aquisio de formas verbais irregulares, est representado direita da Figura 4.

  • 190 Alfa, So Paulo, v.62, n.1, p.173-193, 2018

    marcado, tornado o fenmeno mais natural, quando ainda no tem adquiridas, em sua gramtica, as irregularidades do sistema lingustico.

    Alm disso, esse fato pode mostrar ainda que, quando o falante produz as regularizaes formas no padro , est lidando comumanica gramticainternalizada, ao contrrio da proposta de estudos (LORANDI, 2006; AVELEDO, 2006) que postulam duas gramticas operando no sistema verbal: uma responsvel para a conjugao dos verbos regulares e outra para a conjugao dos verbos irregulares. A regularizao,nessaspesquisas,entendidacomosendoumaflexoestabelecidapelagramtica dos verbos regulares e, por consequncia disso, mantida na fala dos sujeitos comafidelidadeaoradicaldoverbo.

    Mediante estudo da Teoria Lexical, observamos que o processo das formas no padrosedpormeiodasrelaesestabelecidasentreoscomponenteseosestratosque constituem a gramtica da lngua; sendo assim, o fenmeno da regularizao est situado no campo que estabelece o intercmbio entre os componentes para que se formem os vocbulos do PB e, devido a isso, um processo que opera com uma nica gramtica,capazdeexplicartantoaflexopadro,comoanopadro,buscando,paraisso, parmetros lingusticos para eventos que marcam o desenvolvimento da aquisio dalinguagem,aquiespecificamentedaaquisiodosverbosirregularesdoPB.

    Consideraes finais

    A criana em fase de aquisio verbal opera com, no mnimo, duas possibilidades deflexoparaosverbosirregulares:deacordocomoalvodalngua,realizandoasalternncias fonolgicas em consonncia com o padro; ou em desacordo com o alvo, realizando o fenmeno que entendido na literatura da rea como regularizao (LORANDI,2006);aflexoquesedsemasalternnciasprpriasdaconjugaoirregularmantm,nafaladosujeito,oradicaldoverboe,porisso,flexionaaclasseirregular em conformidade com a conjugao dos verbos regulares.

    Levando-se em considerao que os estudos brasileiros realizados at o presente momento atestam que o fenmeno da regularizao verbal ocorre no mais que at os 05 anos de idade, os dados da pesquisa aqui relatada deles discordam, pois apresentam evidnciasdequecrianascomidadesuperiora05anosproduzem,emsuasconjugaes,formas verbais regularizadas para determinados verbos irregulares.

    Nessesentido,reafirmamosaimportnciadavarivelescolaridade,aquiatreladaidade,paraaestabilizaodaflexoirregulardoPB.Almdisso,percebemos,pormeio das anlises, que:

    1) o corpus desteestudomostra,pormeiodasconjugaesemanlise,queossujeitos aqui acompanhados j possuem a Morfologia da lngua, visto que produzem os morfemas de modo e tempo, de nmero e pessoa e os marcadores do paradigma verbal do PB;

  • 191Alfa, So Paulo, v.62, n.1, p.173-193, 2018

    2) asregularizaesnaconjugaodeverbosirregularesnavisodesteestudo,que fundamentado pela LPM, so de ordem morfofonolgica no sistema lingusticodoPB,poisestoassociadassrelaescondicionadaspelanocorrespondncia entre o componente fonolgico e o componente morfolgico da lngua;

    3) por implicar fenmeno de ordem morfofonolgica, a aquisio do sistema verbal irregular tardia, em se tratando de falantes nativos de PB, podendo estender-se, no mnimo, at os 09 anos de idade; no presente estudo, a varivel escolaridade atrelada idade aponta que, quanto maior for a experincia lingusticadacriana,maiortambmseronmerodasconjugaesirregularesque produz de acordo com a forma padro da lngua;

    4) os verbos que se mantm em alta frequncia na lngua so adquiridos, com suasflexes,maisprecocementedoqueaquelesquemostrambaixafrequncia.

    Sob o vis dos pressupostos da Fonologia e Morfologia Lexical, o emprego de formas verbais diferentes do padro, sem a presena de alternncias consonantais, pode ser explicado em razo da no articulao entre os mdulos da Morfologia e da Fonologia da lngua. A falta de correspondncia entre esses componentes na construo de determinadas conjugaes irregulares, especialmente na 1 pessoa doPresentedo Indicativo e na 1 e na 2 pessoas do Presente do Subjuntivo, aponta para a alta complexidade que permeia a aquisio da classe verbal irregular do PB. Considerando que os sujeitos do presente estudo j operam com essa relao, atentando para o fato de que j produzem alternncias consonantais, principalmente para os verbos de alta frequncia no input lingustico, entendemos que ainda esto em fase de aquisio da morfofonologia da lngua pela coexistncia das formas padro (P) e no padro (NP) emsuasprodues.

    Com essa anlise, temos uma evidncia da complexidade de fenmenos morfofonolgicose,nessefato,podemosverumajustificativaparaoestgiotardiode sua aquisio: a aquisio da morfologia dos verbos j se mostra complexa pelos diferentesafixosqueenvolve,sendoquesevgradualmenteaumentadaadificuldadequando os tempos so do modo subjuntivo (do ponto de vista sinttico e semntico, o empregodessemodoverbalimplicaexigenteoperaonasrelaesentreasoraese entre os sentidos); e a complexidade se torna ainda maior quando est presente a interao entre os nveis morfolgico e fonolgico da lngua, exigindo alternncias voclicaseconsonantaisnoprocessodeflexodosverbos.

    Por meio dos resultados alcanados, o presente estudo vem, portanto, atestar que, ao serem considerados fenmenos de natureza morfofonolgica, o processo de aquisio da linguagem pelas crianas pode estender-se at a idade de 09 anos ou mais, incluindo-se o emprego de verbos irregulares.

  • 192 Alfa, So Paulo, v.62, n.1, p.173-193, 2018

    GOULART, T.; MATZENAUER, C. The conjugation of irregular verbs by native brazilian portuguese speaking children: a study in the light of lexical phonology and morphology. Alfa, So Paulo, v.62, n.1, p.173-193, 2018.

    ABSTRACT: This study investigates the acquisition of irregular verbs in Brazilian Portuguese (BP) when conjugated in the Indicative Present, Subjunctive Present and Simple Past tenses by native BP speaking children. It aims at describing and analyzing the interaction between Morphology and Phonology which is found in the inflection of irregular verbs, in the light of Lexical Phonology and Morphology (LPM). Data show that linguistic phenomena of morphophonological origin, which are highly complex, can be considered processes of late acquisition by Brazilian children. LPM leads to the understanding that verb regularization, one of the manifestations of irregular conjugations, can be explained by the non-correspondence between the phonological and morphological levels of the language.

    KEYWORDS: Morphophonological acquisition. Irregular verbs. Lexical Phonology and Morphology.

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    Recebido em 27 de maro de 2017

    Aprovado em 1 de setembro de 2017