2 - Sílaba

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  • SciELO Books / SciELO Livros / SciELO Libros MASSINI-CAGLIARI, G. Slaba. In: A msica da fala dos trovadores: desvendando a pro-sdia medieval [online]. So Paulo: Editora UNESP, 2015, pp. 75-151. ISBN 978-85-68334-58-4. Available from SciELO Books .

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    2 - Slaba

    Gladis Massini-Cagliari

  • 2 SLABA

    O principal objetivo deste captulo analisar a silabao do Portugus Arcaico, dando conta das estruturas silbicas possveis e impossveis nessa lngua. Dessa forma, so apresentados os principais fatores geradores do padro de silabao do PA, dentro de uma abordagem otimalista. A anlise desenvolvida nesta seo restringe-se, no entanto, ao tratamento da sila-bao no que concerne aos fenmenos intravocabulares, embora processos intervocabulares, por exemplo os de sndi, estejam tambm diretamente relacionados ao assunto.1

    Para tal, este captulo se organiza em duas partes. A primeira centra-se na discusso das margens silbicas; em outras palavras, na estruturao dos onsets (ataques) e codas possveis nessa lngua. A segunda parte focaliza a estrutura do ncleo silbico, centrando a discusso nas possibilidades de resoluo de encontros voclicos em ditongos ou em hiatos. Essa segunda parte inclui, tambm, uma discusso a respeito da resoluo de sequncias de vogais nasais e orais.

    A constituio da slaba no passado de nossa lngua foi escolhida como o primeiro foco de ateno deste livro por ser ela o primeiro dos nveis pros-dicos, dentro das abordagens dos modelos de Fonologia Prosdica Selkirk (1980, 1984) e Nespor e Vogel (1986). Assumindo, pois, que a slaba o primeiro domnio prosdico a partir do qual as lnguas organizam a sua fonologia, observa-se que as formas das slabas variam de uma lngua para outra e que a silabao , dentro de cada lngua, previsvel. Dessa maneira,

    1 Os processos de sndi voclico externo no PA so objeto da anlise desenvolvida no Captulo 4.

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    nesta seo, sero buscados os padres de estruturao silbica do PA, que sero formalizados a partir do aparato fornecido pela Teoria da Otimalida-de (TO).

    Como corpus principal da anlise desenvolvida neste captulo, conside-ram-se as selees de cantigas profanas e religiosas descritas no Apndice. Como fontes secundrias, foram consultados os glossrios e vocabulrios arrolados no Captulo 2.

    2.1 Distribuio dos segmentos na slaba

    Em uma pesquisa elaborada dentro do Projeto Fonologia do Portugus Arcaico (realizada sob minha orientao), e com base no mesmo corpus de cem cantigas profanas aqui utilizado, acrescido das sete cantigas de amigo de Martim Codax presentes no Pergaminho Vindel e das sete cantigas de amor de D. Dinis do Pergaminho Sharrer, Biagioni (2002, p.87-8) pde mapear dezessete tipos de slabas fonticas na lngua das cantigas profa-nas galego-portuguesas:2 V (a-mi-go); CV (a-mi-go); CCV (fre-mo-sa); VV (eu); CVV ( foi); CVV (mha = mi); CVV (somente ditongos com QU-/GU-: gua-rir); CCVV (prey-to); VC (ve-er); CVC (a-mor); CVVC (mais); CVVC (somente ditongos com QU-/GU-: qual); CCVC (en--trar); VN (vi-); CVN (en-ten-di); CVVN (somente ditongos com QU-/GU-: quan-do); CCVN (gran).

    A partir do levantamento quantitativo que efetuou, Biagioni (2002, p.88) observa que o tipo de slaba mais comum em PA, ou seja, sua slaba cannica, no por coincidncia, tambm o tipo de slaba mais comum em todas as lnguas do mundo, ou seja, CV. Isso porque esse o tipo de slaba tima, segundo o Princpio do Contorno Obrigatrio (cf. Odden, 1986), j que h a alternncia entre consoantes e vogais, garantindo sempre elemen-tos funcionalmente diferentes ao lado de um determinado segmento. Por outro lado, os tipos menos comuns envolvem sempre slabas complexas, CCVN, CCVV, CVV. J a slaba mnima, em PA, como na maioria das

    2 No esquema de Biagioni (2002), quando h ocorrncia de ditongo, o ncleo indicado em negrito. Alm disso, Biagioni separa as slabas travadas por nasal das slabas travadas por outras consoantes.

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    lnguas do mundo, composta por um elemento (V), mas h vrios tipos de slaba mxima, todos eles compostos por quatro elementos. A partir da, Biagioni chega concluso de que o PA no pode ter mais do que quatro elementos na slaba no nvel fontico, embora sua distribuio possa variar.

    Depois de desenvolver um estudo de como cada uma dessas slabas fonticas deve ser interpretada no nvel fonolgico, abordando o fenme-no a partir dos modelos no lineares de Fonologia, Biagioni (2002, p.147) chega a um total de catorze tipos de slabas possveis no nvel fonolgico: V (a-mi-go); CV (a-mi-go; gua-rir); CCV ( fre-mo-sa); VV (eu); CVV (foi); CVV (mha/mi); CCVV (prey-to); VC (ve-er); CVC (a-mor; qual); CVVC (mais); CCVC (en-trar); VN (vi-); CVN (en-ten-di; quan-do); CCVN (gran). No entanto, se for entendido (ao contrrio de Biagioni, mas seguindo a tradio dos estudos sobre o PB desde Cmara Jr., 1970) que as slabas do tipo (C)VN podem ser consideradas como tendo um travamento nasal, ento esse inventrio fica reduzido a apenas onze: V; CV; CCV; VV; CVV; CVV; CCVV; VC; CVC; CVVC; CCVC.

    2.1.1 O ataque silbico: onset

    Com relao estruturao do ataque silbico, o onset, a anlise do cor-pus mostrou que, a exemplo do que j ocorria em latim e do que ocorre at hoje no portugus, esse elemento silbico pode ser de dois tipos, em PA: simples (composto de um nico elemento) ou complexo (composto de dois elementos).

    Em posio intervoclica, parece no haver restries para a constitui-o de onsets simples em PA: todas as consoantes da lngua podem figurar nessa posio ver Quadro 2.1. Esse quadro mostra, tambm, que, em posio inicial de palavras, h algumas restries que atuam na escolha da consoante do ataque: //, // e // s configuram onsets simples em posi-o intervoclica.3

    3 Como no objetivo da presente pesquisa estabelecer as relaes entre letras e sons com relao s grafias possveis na lrica medieval galego-portuguesa, o Quadro 2.1 parte de informaes coletadas em Mattos e Silva (1989), Maia (1986), Gonalves e Ramos (1985), Toledo Neto (1996) e Pinheiro (2004). Tambm foram consultados Vasconcellos (1959), Coutinho (1954), Nunes (1969), Cmara Jr. (1985[1975]) e Cintra (1984).

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    Quadro 2.1. Onset simples.

    Consoante Grafema(s) correspondente(s)

    Exemplos

    p p, pp per, padre, peor, perfia, poder, pois, Espanna, apata, apparellados

    b b bailar, bispo, belas, buscar, ba, ambos, cabeat t, tt uistes, tal, tan, tirar, todavia, toller, tornar, noite,

    majestade, quanttasd d ondas, delgado, dereito, dizer, dona, dar, dia, dultak c, cc, qu, ch coitado, candea, cobra, cuidar, pecados, peccados,

    queimar, que, casa, patriarcha, quitar, querer g, gu guerra, vigo, gasalhado, gannar, gota, desguisado

    kw qu quando, quantas, qualw gu, go guardar, guarir, lingua, lingoaf f, ff, ph fazer, ffazer, fiar, folia, festa, soffrer, sofrer,

    prophetando, prophetas, profetaronv v, u cevada, uiuer, ueer, valer, ualia, vegada, uiir, viuva, uosco

    ts ou (a) , c pareceu, precisson, coraon, lana, apata, ima, ego, conhouda

    dz ou z(b) z fazia, juizo, sazon, razon, dizer, zarellos ss, x, s sabedor, sair, sazon, seer, sinal, solaz, sofrer, canssada, assi,

    trouxe, Afonso, saia, precisson, Perssia, falsso, sse, ssz s mesura, casa, fremosa, ch, x (?), sch (?) chamar, chave, crischos, chus, chorar, chegar, xe, xi,

    Xerez, bischocos (?), j, i, g, y (?) magestade, majestade, ia, jazer, iazer, ya (?), gejar,

    jograr, juizom m mar, madre, maldizer, mentiral, mha, migo, morrer,

    mui, namorado, amor, amigon n, nn nunca, nacer, nada, namorado, nembrar, noite, Anna nn, nh tenno, sennor, sonno, senhor, sanhal l, ll levado, lazerado, lavrar, leal, liar, loado, falla ll, lh mellor, fillar, moller, senlleira, melhor, molher, olhos,

    ollosr r, rr ramo, razon, recado, reinha, ren/rren, riir, rogar,

    querria, morrer, onrra, rrica r Maria, parecer, poren, marauilhado, paraiso

    (a) Consoante fricativa predorsodental surda, segundo Mattos e Silva (1989, p.92).(b) Consoante fricativa predorsodental sonora, segundo Mattos e Silva (1989, p.92).

    Para a compreenso das posies assumidas no Quadro 2.1, devem ser apresentados alguns esclarecimentos, j que nele foram tomadas al-gumas decises com relao a questes polmicas, que necessitam de alguma discusso.

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    A oposio assumida no Quadro 2.1 entre [/z], por um lado, e [s/z], por outro, segue o quadro apresentado em Mattos e Silva (1989, p.92). En-tretanto, para Ramos (1985, p.107), ao invs de corresponderem a fricativas predorsodentais, os grafemas e correspondem s africadas [ts, dz]. Concordam com essa posio Cardeira (2006, p.50) e Monteagudo (2008, p.159). Mattos e Silva (2008, p.553) rev seu posicionamento de 1989, afirma

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